Há anos, já, vi uma entrevista do Yamandu Costa em que ele contava que foi tocar num festival nos EUA. Chegou lá e, acho, ia tocar um blues ou sei lá, e encontrou aqueles caras que tocavam muito e pensou "meu, não vou vir aqui pra tocar blues - ou sei lá - vou tocar um Baden que esses caras vão ficar doidos".
Sei não se era assim mesmo a história, se não era alguma coisa bem parecida.
Foi-me perguntado, há pouquíssimo tempo, quem eu era. Com uma proposta um tanto mais profunda do que sou Fulana, amiga de Sicrana, estudei ali, trabalhei aqui, moro acolá e conheci esse e aquele lugares.
Pergunta difícil, né? Por um motivo muito particular, meu: tenho o - talvez mau - hábito de pensar demais em mim. Imagino que a intenção do questionador, ali, fosse despertar uma curiosidade pela própria existência que, em mim, acordou há já muito tempo. Seria essa mais uma triste demonstração da minha arrogância? Acreditar que é possível uma pessoa ser sem se perguntar o tempo todo quem é?
Eu como quero ser diferente do resto do mundo acho que, como eu faço isso, consequentemente o resto do mundo não faz, mas posso só estar sendo burra.
Quem, afinal, sou eu? Tantas e tantas coisas, todas elas, talvez. Eu sou esse corpo, que vez em quando me agrada, vez em quando não. Sou essas torrentes de pensamento que me escapam da cabeça. Sou os pés que se agitam ao som de uma música, mais ou menos adorada. Sou a voz que canta e os ouvidos que ouvem; sou também esse lugar de onde vim e vou me ajuntando também aos outros, por onde passei. Tanto e tanto. Sou, agora, e não serei, em cinco minutos.
Hoje acordei aqui com uma coisa estranha, pode ser a TPM dizendo oi, pode ser a tristeza porque um dos nossos cachorros sumiu e, todas as vezes que abro o portão, fico procurando por ele, que sempre saía à rua enlouquecido para logo voltar e ficar preso pra fora e chorar insuportavelmente até alguém acudi-lo.
Uma dorzinha que me come por dentro porque sou, agora, e não serei em cinco minutos, como todas as outras coisas que são comigo.
Cheguei aqui porque estou há dias ensaiando de escrever, porque ia repreender uma amiga pela ausência de escritos e percebi que eles por aqui também andam escassos.
Constantes, porém, meus escritos, que me permitem chegar aqui e começar a me encontrar, nos ditos e desditos de algumas linhas, nas lembranças trazidas por algumas imagens, nas palavras de alguns amigos.
Não há, afinal, resposta.
"Não tem um, tem dois.
não tem dois, tem três.
não tem lei, tem leis,
não tem vez, tem vezes,
não tem deus, tem deuses.
não há sol a sós".
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