Eu não sei como funcionam as pessoas normais.
Nem como eu funcionei, em tempos mais normais.
Hoje é necessária uma pequena dose diária de pânico para me fazer funcionar.
Por pequena, entenda-se gigantesca, dessas que dão taquicardia. O único problema é que eu sou algo maluca e às vezes tendo a ficar paralisada com o pânico, então a coisa toda pode ser uma tremenda faca de dois gumes.
E eu posso parar no meio do caminho e dormir. A qualquer momento.
Mas ok, tv desligada, internet em espera e bora correr, que senão o bicho pega.
Como é mesmo o resto? Se ficar, ele come? Aí bate a fome e vou ter que dar uma paradinha na cozinha.
Pânico, socorro!
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quinta-feira, 29 de abril de 2010
terça-feira, 27 de abril de 2010
Malungo
Uai, e bem quando eu tava por aí caçando borboleta e falando que gosto de violão o Errar fez aniversário. Dois, já. É menino grande, que nem na música do Palavra Cantada. Que sabe jogar bola, não sabe tomar banho e depois aprende, não sabe pôr sapato e depois aprende, e tudo aprende mas ainda quer carinho.
Gosto muito da música, tem uma coisa cálida que me agrada.
E nessa se vão dois anos. Foram-se dois. Anos. Tenho aquele prazer imbecil dos números, de ver o total de textos e que todo mês tem ao menos um, prazer e fetiche esses que, talvez, garantam a continuidade do espaço.
E praí há dois anos ele chegava de Doralice. Ele, como se não fosse eu. Eu, que sou tantas e ele.
Justamente hoje, ou ontem conforme essa regra maluca de que o dia muda à meia-noite, eu tava folheando o Desassossego e deparei com uma dessas partículas que fazem doer, de verdade e de inveja.
"Como há quem trabalhe de tédio, escrevo, por vezes, de não ter o que dizer. O devaneio, em que naturalmente se perde quem não pensa, perco-me eu nele por escrito, pois sei sonhar em prosa."
Não sei qual trecho é, porque depois perdi e ainda não achei. E fiquei pensando "sonhar em prosa" e eu, se sou pessoa de alguma coisa, sou de prosa, e, sendo, nunca poderia dizer uma coisa dessas, porque não sou Pessoa. só minúscula, eu.
Como ninguém ainda fez um blog "sonhar em prosa"? Tem não, cacei. Preciso parar com essa mania, ou daqui a pouco vou ter uma coleção de blogs vazios com nomes de que gosto.
Começa de Doralice e termina, pelo menos por hoje, com Pessoa. Foi o dito quem falou que o meio era ele?
Enquanto isso, continuo sem saber de nada, mas nadinha mesmo. Sei que a vida vai indo, às vezes nos levando, outras, empurrada. Sei que, em algum momento, entre a Doralice e o Pessoa, ironia talvez, mas perdi o hábito e algo da vontade de me rasgar aqui. Me rasgar, e ponto? Pode ser também, mas sempre alguma coisa rasga, seja a gente ou não, pela nossa vontade ou contra ela. Só não aqui, ou menos aqui, ou só agora, que os fiapos são menos aparentes. Sempre pode acontecer de aparecer um buraco e ele querer se mostrar.
Então, sem costume e sem desejo, há que se mudar o passo. E de todo jeito ele fica mais lento, com o passar do tempo, que eu sou dessas do cansaço.
Mas tem ali o arquivo, o fetiche e a vida que fazem seguir o errar.
Parabéns, então, para nós. Eu e você, companheiro, que viemos juntos no mesmo barco e nele seguimos, para encontrar os nossos amanhãs, mas que não contam porque serão então só os mesmos nós.
Um par de dois.
Gosto muito da música, tem uma coisa cálida que me agrada.
E nessa se vão dois anos. Foram-se dois. Anos. Tenho aquele prazer imbecil dos números, de ver o total de textos e que todo mês tem ao menos um, prazer e fetiche esses que, talvez, garantam a continuidade do espaço.
E praí há dois anos ele chegava de Doralice. Ele, como se não fosse eu. Eu, que sou tantas e ele.
Justamente hoje, ou ontem conforme essa regra maluca de que o dia muda à meia-noite, eu tava folheando o Desassossego e deparei com uma dessas partículas que fazem doer, de verdade e de inveja.
"Como há quem trabalhe de tédio, escrevo, por vezes, de não ter o que dizer. O devaneio, em que naturalmente se perde quem não pensa, perco-me eu nele por escrito, pois sei sonhar em prosa."
Não sei qual trecho é, porque depois perdi e ainda não achei. E fiquei pensando "sonhar em prosa" e eu, se sou pessoa de alguma coisa, sou de prosa, e, sendo, nunca poderia dizer uma coisa dessas, porque não sou Pessoa. só minúscula, eu.
Como ninguém ainda fez um blog "sonhar em prosa"? Tem não, cacei. Preciso parar com essa mania, ou daqui a pouco vou ter uma coleção de blogs vazios com nomes de que gosto.
Começa de Doralice e termina, pelo menos por hoje, com Pessoa. Foi o dito quem falou que o meio era ele?
Enquanto isso, continuo sem saber de nada, mas nadinha mesmo. Sei que a vida vai indo, às vezes nos levando, outras, empurrada. Sei que, em algum momento, entre a Doralice e o Pessoa, ironia talvez, mas perdi o hábito e algo da vontade de me rasgar aqui. Me rasgar, e ponto? Pode ser também, mas sempre alguma coisa rasga, seja a gente ou não, pela nossa vontade ou contra ela. Só não aqui, ou menos aqui, ou só agora, que os fiapos são menos aparentes. Sempre pode acontecer de aparecer um buraco e ele querer se mostrar.
Então, sem costume e sem desejo, há que se mudar o passo. E de todo jeito ele fica mais lento, com o passar do tempo, que eu sou dessas do cansaço.
Mas tem ali o arquivo, o fetiche e a vida que fazem seguir o errar.
Parabéns, então, para nós. Eu e você, companheiro, que viemos juntos no mesmo barco e nele seguimos, para encontrar os nossos amanhãs, mas que não contam porque serão então só os mesmos nós.
Um par de dois.
Fumaça e fogo
Diz o ditado que onde há fumaça, há fogo.
Tem umas coisas que entram na cabeça da gente, não sei se por repetição contínua ou por fazerem mesmo sentido.
Ontem levei um susto daqueles.
(Não, eu ainda não pirei de vez e esse post faz algum sentido, tá?).
Uma das minhas cãs (ok, pode não existir, mas acho divertido, dá licença?) apareceu com uma bolota na barriga. Depois de grande hesitação familiar ela consultou um veterinário e o veredito foi "gravidez psicológica". Eu não entendo direito como uma cachorra pode ter "gravidez psicológica". Quer dizer, ter lá um distúrbio sei lá do que que parece gravidez eu aceito. Mas psicológica? Tipos aqueles clichês de filme ruim, que a mãe da mocinha vive enchendo o saco dela pra ter um filho, aí ela vai lá e pensa que tem? Ou ela acha que tá ficando velha e tem que ter um bebê? Como assim, psicológica, meu deus!? Vamos lá. Cachorro. Gente. Tem uma diferença, apesar de uma galera por aí meio que ignorar.
Lembro de quando essa mesma cachorra teve filhotes, e a gente levou o bando todo a um outro veterinário, e estávamos preocupados com o que aconteceria com a mãe quando os cachorrinhos fossem indo embora, e ele respondeu "olha, pode ir dando destino pra eles, mas deixa alguns um pouco mais de tempo que ela nem vai sentir falta", e como resposta à nossa - minha e da irmã - cara de interrogação, ele acrescentou "ela não sabe contar". Né?
Mas ok. Lá foi ela, fez a cirurgia e tá em recuperação. Com aquele abajur na cabeça que eu acho tão engraçado, porque ela meio que perde a noção do próprio tamanho e sai batendo em tudo que tem pela frente. Acho que qualquer um com um trambolho daqueles pendurado no pescoço também ia sair batendo, opinião essa puramente especulativa, já que ainda não me convenci a fazer um test drive.
Tudo muito lindo, maravilhoso, a cachorra melhorando, até que eu resolvi dar uma folga do abajur e deixá-la um pouco perambulando pela sala, enquanto eu ficava bem de olho pra ver se ela não tentava tirar os pontos. E qual não foi minha surpresa em perceber, de repente, que ela estava soltando fumaça. Chega fiz aquela coisa da gente ver um negócio e só se dar conta do que vê quando já está olhando pro outro lado, e voltar a cabeça com tudo pra ver se o que viu tá mesmo ali ou foi efeito de algum alucinógeno ingerido inadvertidamente.
E era mesmo fumaça, juro! Apurei o nariz e os olhos, pra procurar o fogo, pensando "isso não faz o menor sentido; como pode uma cachorra começar a pegar fogo do nada, e ainda continuar andando pra lá e pra cá abanando o rabicó?!?!"
Até que meu cérebro resolveu funcionar e desvendou o mistério: ela não está acostumada a usar roupinhas. Quer dizer, é uma cachorra, num país tropical. Ela tem pêlos, e se estiver muito frio dorme em cima de um cobertor aglomerada com as outras cãs. Então, desacostumada de roupas, ela tava de saco cheio do vestidinho de gaze que puseram nela - tudo em nome da segurança dos pontos - e ficava se esfregando numa prateleira de concreto da sala, que é bem da altura dela. Conseguiu mesmo rasgar o vestidinho todo. E se encheu de pó. Nas costas. E resolveu desfilar na minha frente com o pó saindo enlouquecido do lombo, enquanto eu já levantava correndo pra pegar um balde.
Agora não sei se é a repetição, a lógica ou a burrice, mesmo.
Idéias?
Só se lembrem de ser gentis, que eu ando numa fase muito sensível e duvidosa das minhas habilidades. Mentais e outras.
Tem umas coisas que entram na cabeça da gente, não sei se por repetição contínua ou por fazerem mesmo sentido.
Ontem levei um susto daqueles.
(Não, eu ainda não pirei de vez e esse post faz algum sentido, tá?).
Uma das minhas cãs (ok, pode não existir, mas acho divertido, dá licença?) apareceu com uma bolota na barriga. Depois de grande hesitação familiar ela consultou um veterinário e o veredito foi "gravidez psicológica". Eu não entendo direito como uma cachorra pode ter "gravidez psicológica". Quer dizer, ter lá um distúrbio sei lá do que que parece gravidez eu aceito. Mas psicológica? Tipos aqueles clichês de filme ruim, que a mãe da mocinha vive enchendo o saco dela pra ter um filho, aí ela vai lá e pensa que tem? Ou ela acha que tá ficando velha e tem que ter um bebê? Como assim, psicológica, meu deus!? Vamos lá. Cachorro. Gente. Tem uma diferença, apesar de uma galera por aí meio que ignorar.
Lembro de quando essa mesma cachorra teve filhotes, e a gente levou o bando todo a um outro veterinário, e estávamos preocupados com o que aconteceria com a mãe quando os cachorrinhos fossem indo embora, e ele respondeu "olha, pode ir dando destino pra eles, mas deixa alguns um pouco mais de tempo que ela nem vai sentir falta", e como resposta à nossa - minha e da irmã - cara de interrogação, ele acrescentou "ela não sabe contar". Né?
Mas ok. Lá foi ela, fez a cirurgia e tá em recuperação. Com aquele abajur na cabeça que eu acho tão engraçado, porque ela meio que perde a noção do próprio tamanho e sai batendo em tudo que tem pela frente. Acho que qualquer um com um trambolho daqueles pendurado no pescoço também ia sair batendo, opinião essa puramente especulativa, já que ainda não me convenci a fazer um test drive.
Tudo muito lindo, maravilhoso, a cachorra melhorando, até que eu resolvi dar uma folga do abajur e deixá-la um pouco perambulando pela sala, enquanto eu ficava bem de olho pra ver se ela não tentava tirar os pontos. E qual não foi minha surpresa em perceber, de repente, que ela estava soltando fumaça. Chega fiz aquela coisa da gente ver um negócio e só se dar conta do que vê quando já está olhando pro outro lado, e voltar a cabeça com tudo pra ver se o que viu tá mesmo ali ou foi efeito de algum alucinógeno ingerido inadvertidamente.
E era mesmo fumaça, juro! Apurei o nariz e os olhos, pra procurar o fogo, pensando "isso não faz o menor sentido; como pode uma cachorra começar a pegar fogo do nada, e ainda continuar andando pra lá e pra cá abanando o rabicó?!?!"
Até que meu cérebro resolveu funcionar e desvendou o mistério: ela não está acostumada a usar roupinhas. Quer dizer, é uma cachorra, num país tropical. Ela tem pêlos, e se estiver muito frio dorme em cima de um cobertor aglomerada com as outras cãs. Então, desacostumada de roupas, ela tava de saco cheio do vestidinho de gaze que puseram nela - tudo em nome da segurança dos pontos - e ficava se esfregando numa prateleira de concreto da sala, que é bem da altura dela. Conseguiu mesmo rasgar o vestidinho todo. E se encheu de pó. Nas costas. E resolveu desfilar na minha frente com o pó saindo enlouquecido do lombo, enquanto eu já levantava correndo pra pegar um balde.
Agora não sei se é a repetição, a lógica ou a burrice, mesmo.
Idéias?
Só se lembrem de ser gentis, que eu ando numa fase muito sensível e duvidosa das minhas habilidades. Mentais e outras.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Viola, violão, violino, violeta.
Eu sei que sou semi-doidinha.
Mas tava ouvindo uns violões, e tenho essa mania de às vezes desnaturalizar as coisas, e me peguei quase surpreendida com a capacidade desse animal, não só de fazer uns sons bonitinhos com a boca e as cordas vocais e tal, mas de inventar uma caixinha que tem umas cordas que se você souber puxar podem nos fazer felizes por alguns instantes. Geralmente uns cinco minutos, se tanto.
E eu sempre faço isso, mas normalmente é na praia. Porque a praia é um lance muito engraçado, se você parar pra pensar. Aquele monte de corpo se refrescando na água; eu não consigo não pensar, ao vê-los, em leões marinhos. Animais, animais, animais.
Mas, sim, os violões. Quando eles sobem e a voz enche, mostram como pela janela um pedacinho da vida que podia ser.
Vez em quando, me fazem acreditar em deus.
Mas tava ouvindo uns violões, e tenho essa mania de às vezes desnaturalizar as coisas, e me peguei quase surpreendida com a capacidade desse animal, não só de fazer uns sons bonitinhos com a boca e as cordas vocais e tal, mas de inventar uma caixinha que tem umas cordas que se você souber puxar podem nos fazer felizes por alguns instantes. Geralmente uns cinco minutos, se tanto.
E eu sempre faço isso, mas normalmente é na praia. Porque a praia é um lance muito engraçado, se você parar pra pensar. Aquele monte de corpo se refrescando na água; eu não consigo não pensar, ao vê-los, em leões marinhos. Animais, animais, animais.
Mas, sim, os violões. Quando eles sobem e a voz enche, mostram como pela janela um pedacinho da vida que podia ser.
Vez em quando, me fazem acreditar em deus.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Rua Registro, 95
Tive uma amiga, uma vez, que dizia que a gente começa a escrever porque dói. Ninguém começa porque está tudo bem, lindo e maravilhoso, é mesmo pra despejar o fel, pra soltar farpas e se livrar um pouco da dor.
Já concordei e discordei muito da premissa.
Mas já tive também algumas crises, ou talvez colocando de maneira menos melodramática, dúvidas, quando achei que estava tudo como bem demais e o texto parecia perder o sabor. E sei lá se perde, ou ganha, acho mais é que a gente vai mudando e é enriquecedor poder ir registrando as mudanças, e isso do tempero a gente não pode acertar sempre. Às vezes é sal de mais, às vezes de menos, e só raramente é a perfeição, que a gente segue buscando pra nunca mais encontrar. Tenho aqui extremamente vivas na memória - e no paladar - dessas lembranças, perfeitas porque passadas.
E agora sinto aqui no peito um aperto que havia algum tempo que não sentia, que é algo familiar, mas também novo, e tava bem desligando tudo e me resignando ao sono quando pensei "poxa, não foi assim que começou?"
Se algo de dor é o pretexto para a fala, por que não vir, já entrada a madrugada, revelá-la?
Nem sei se dor é a palavra, vasculhei aqui pelas entranhas e cheguei à conclusão que é mais uma paralisia, algo de medo e cansaço. Acho que eu, que sempre me gabei de funcionar relativamente bem sob pressão, começo a senti-la e não me agrada. Acho que é muita coisa, tudo ao mesmo tempo agora, e o que há de real e irreal se misturando a tensões e expectativas e culpas, e o resultado disso tudo é um aperto, incômodo mas não sufocante.
E o frio que vem chegando, que é bom e mau. E um cérebro a mil por hora tentando comandar um corpo a cinco.
Vejo à minha frente uma paisagem, já muitas vezes contemplada, que já despertou algo de um bem-querer gostoso, mas não essa noite. E o tempo insiste tanto em correr, e eu insisto em querer que ele desacelere e a gente segue, assim, no desencontro.
Não era Vinícius quem dizia alguma coisa sobre essa arte?
Já concordei e discordei muito da premissa.
Mas já tive também algumas crises, ou talvez colocando de maneira menos melodramática, dúvidas, quando achei que estava tudo como bem demais e o texto parecia perder o sabor. E sei lá se perde, ou ganha, acho mais é que a gente vai mudando e é enriquecedor poder ir registrando as mudanças, e isso do tempero a gente não pode acertar sempre. Às vezes é sal de mais, às vezes de menos, e só raramente é a perfeição, que a gente segue buscando pra nunca mais encontrar. Tenho aqui extremamente vivas na memória - e no paladar - dessas lembranças, perfeitas porque passadas.
E agora sinto aqui no peito um aperto que havia algum tempo que não sentia, que é algo familiar, mas também novo, e tava bem desligando tudo e me resignando ao sono quando pensei "poxa, não foi assim que começou?"
Se algo de dor é o pretexto para a fala, por que não vir, já entrada a madrugada, revelá-la?
Nem sei se dor é a palavra, vasculhei aqui pelas entranhas e cheguei à conclusão que é mais uma paralisia, algo de medo e cansaço. Acho que eu, que sempre me gabei de funcionar relativamente bem sob pressão, começo a senti-la e não me agrada. Acho que é muita coisa, tudo ao mesmo tempo agora, e o que há de real e irreal se misturando a tensões e expectativas e culpas, e o resultado disso tudo é um aperto, incômodo mas não sufocante.
E o frio que vem chegando, que é bom e mau. E um cérebro a mil por hora tentando comandar um corpo a cinco.
Vejo à minha frente uma paisagem, já muitas vezes contemplada, que já despertou algo de um bem-querer gostoso, mas não essa noite. E o tempo insiste tanto em correr, e eu insisto em querer que ele desacelere e a gente segue, assim, no desencontro.
Não era Vinícius quem dizia alguma coisa sobre essa arte?
sábado, 3 de abril de 2010
Crônica do absurdo
Ia logo começar dizendo que é complicado, mas fiquei sem saber dizer exatamente o que é complicado. Acho que, no fundo, existir.
Mas, antes do fundo, ser.
E antes de ser, parecer.
Eu me pego com uma frequência assustadora agindo quase como se fosse outra pessoa. Digo as coisas mais inconvenientes e imbecis - o que nem seria problema - nas quais não acredito minimamente. Às vezes dá errado, ou talvez na maioria das vezes, porque a pessoa que ouve não tem como saber ou imaginar que eu não acredito em nada do que disse.
É como encontrar uma tia e começar a comentar de quem casou e quem não casou. Como se eu ligasse a mínima para o assunto, mas é meio condicional, talvez por ter passado a vida inteira ouvindo as histórias, talvez pelo bem da personagem - no caso, de sobrinha - eu vou lá e entro na onda. Tava bem esses tempos numa conversa dessas com uma prima e me arrepiava a cada coisa que eu falava, mas ia e continuava falando.
Aí talvez fosse difícil para mim assumir assim publicamente a minha falsidade ou hipocrisia - porque, convenhamos, é disso que estou falando. Talvez eu sentisse aqui alguma culpa por não ser sempre uma pessoa absolutamente verdadeira comigo mesma, o que implicaria, numa situação dessas, em sair fora ou ficar calada ou dizer "tia, mas quem se importa e o que a gente tem a ver com isso?!". Mas não, eu vou na onda, e se sinto alguma coisa, não é vergonha, mas um estranhamento e alguma graça. Graça de achar mesmo engraçado.
Há algumas semanas, talvez, fiquei pensando sobre isso, porque dizem que as brincadeiras costumam ter fundos de verdade. Pensei nisso porque levei uma fumada de uma pessoa, por ter dito um desses absurdos que costumo dizer, que pra mim não significam nada, mas para a pessoa significou. E como ela pôde levar a sério, eu começo a me perguntar se eu também não levo e se, no fundo, o absurdo não era tão absurdo assim. Dá pra entender do que eu tô falando, será?
Talvez eu seja simplesmente uma pessoa extraordinariamente mesquinha e baixa, só resisto em acreditá-lo porque insisto em pensar bem de mim. Porque nem agora, quando eu levanto a possibilidade, eu a considero realmente, é só outro desses absurdos que eu digo pra fora, mas não pra dentro. Não que eu não possa ser mesquinha e baixa, aceito essa possibilidade, mas aceito que outras pessoas digam isso, não eu mesma. Outras pessoas que estariam, obviamente, erradas, mas que têm lá o direito de pensar o que quiserem.
Numa dessas, me pego conversando com uma pessoa que acho deveras inteligente, que ela um dia se tornará sábia, quando for mais velha. Porque é, claramente, mais nova. Como se idade significasse qualquer coisa, como se a gente só pudesse mesmo mudar para melhor e "evoluir", esse conceito que eu acho tão problemático, apesar de conviver com ele diariamente e do consolo que me dá quando eu penso que hoje é melhor que ontem e amanhã será melhor que hoje.
E cá sigo eu, falando absurdos de maneira - algo - consciente, mas sem conseguir me impedir. E a galera vai acreditando e talvez eu vá, também, acreditando, exceto que não acredito nadinha. Só um pouco bem pequenininho.
E vivo vivo dando dessas, me enrolo numas mentiras totalmente vãs e desnecessárias, e tão absurdas que acho que nem chegam a ser mentiras, mas também pode ser que elas só enganem a mim.
Isso de ser e parecer, tem umas horas que dá um cansaço que seria enorme, se fosse verdadeiro. Mas dá sim, essa pura e cristalina, uma vontade e uma saudade de poder ser eu sem toda essa merda. Se é que algum dia fui ou poderei ser.
De repente a saída de tudo é uma caverna isolada no meio do nada, com uma noite estrelada.
Mas e ae? Vou ouvir o que e falar o quê? Por mais que me pareça romântica essa idéia de isolamento, acho que ele total não é pra mim, não. Porque tenho aqui a necessidade de ouvir as lorotas, alheias e minhas, e ter a ilusão, ainda que momentânea, de que elas na verdade não existem, são só uma piada interna, que o resto do mundo não entende, apesar de acreditar entender.
Então sigo envolta nesse emaranhado que é meu e alheio, que eu acho que leva a algum lugar, mas entendo que cujo destino pode ser eu mesma, bem aqui. E espero algum dia viver só e pela verdade, mas até agora eu não cheguei num lugar em que me seja possível olhar bem pras pessoas e despejá-la. Primeiro, porque talvez seja meio difícil, superar o lance social, e segundo porque eu sinceramente nem sei bem o que ela é, a verdade.
Sei nem se existe, apesar de acreditar nela piamente. Mas eu também acredito num monte de absurdo, que ninguém nunca viu nem talvez vá nunca ver.
E, de todo jeito, saber e ver é uma coisa, enquanto sentir é outra totalmente diferente.
E aí eu já não sou nada como Pessoa.
Mas, antes do fundo, ser.
E antes de ser, parecer.
Eu me pego com uma frequência assustadora agindo quase como se fosse outra pessoa. Digo as coisas mais inconvenientes e imbecis - o que nem seria problema - nas quais não acredito minimamente. Às vezes dá errado, ou talvez na maioria das vezes, porque a pessoa que ouve não tem como saber ou imaginar que eu não acredito em nada do que disse.
É como encontrar uma tia e começar a comentar de quem casou e quem não casou. Como se eu ligasse a mínima para o assunto, mas é meio condicional, talvez por ter passado a vida inteira ouvindo as histórias, talvez pelo bem da personagem - no caso, de sobrinha - eu vou lá e entro na onda. Tava bem esses tempos numa conversa dessas com uma prima e me arrepiava a cada coisa que eu falava, mas ia e continuava falando.
Aí talvez fosse difícil para mim assumir assim publicamente a minha falsidade ou hipocrisia - porque, convenhamos, é disso que estou falando. Talvez eu sentisse aqui alguma culpa por não ser sempre uma pessoa absolutamente verdadeira comigo mesma, o que implicaria, numa situação dessas, em sair fora ou ficar calada ou dizer "tia, mas quem se importa e o que a gente tem a ver com isso?!". Mas não, eu vou na onda, e se sinto alguma coisa, não é vergonha, mas um estranhamento e alguma graça. Graça de achar mesmo engraçado.
Há algumas semanas, talvez, fiquei pensando sobre isso, porque dizem que as brincadeiras costumam ter fundos de verdade. Pensei nisso porque levei uma fumada de uma pessoa, por ter dito um desses absurdos que costumo dizer, que pra mim não significam nada, mas para a pessoa significou. E como ela pôde levar a sério, eu começo a me perguntar se eu também não levo e se, no fundo, o absurdo não era tão absurdo assim. Dá pra entender do que eu tô falando, será?
Talvez eu seja simplesmente uma pessoa extraordinariamente mesquinha e baixa, só resisto em acreditá-lo porque insisto em pensar bem de mim. Porque nem agora, quando eu levanto a possibilidade, eu a considero realmente, é só outro desses absurdos que eu digo pra fora, mas não pra dentro. Não que eu não possa ser mesquinha e baixa, aceito essa possibilidade, mas aceito que outras pessoas digam isso, não eu mesma. Outras pessoas que estariam, obviamente, erradas, mas que têm lá o direito de pensar o que quiserem.
Numa dessas, me pego conversando com uma pessoa que acho deveras inteligente, que ela um dia se tornará sábia, quando for mais velha. Porque é, claramente, mais nova. Como se idade significasse qualquer coisa, como se a gente só pudesse mesmo mudar para melhor e "evoluir", esse conceito que eu acho tão problemático, apesar de conviver com ele diariamente e do consolo que me dá quando eu penso que hoje é melhor que ontem e amanhã será melhor que hoje.
E cá sigo eu, falando absurdos de maneira - algo - consciente, mas sem conseguir me impedir. E a galera vai acreditando e talvez eu vá, também, acreditando, exceto que não acredito nadinha. Só um pouco bem pequenininho.
E vivo vivo dando dessas, me enrolo numas mentiras totalmente vãs e desnecessárias, e tão absurdas que acho que nem chegam a ser mentiras, mas também pode ser que elas só enganem a mim.
Isso de ser e parecer, tem umas horas que dá um cansaço que seria enorme, se fosse verdadeiro. Mas dá sim, essa pura e cristalina, uma vontade e uma saudade de poder ser eu sem toda essa merda. Se é que algum dia fui ou poderei ser.
De repente a saída de tudo é uma caverna isolada no meio do nada, com uma noite estrelada.
Mas e ae? Vou ouvir o que e falar o quê? Por mais que me pareça romântica essa idéia de isolamento, acho que ele total não é pra mim, não. Porque tenho aqui a necessidade de ouvir as lorotas, alheias e minhas, e ter a ilusão, ainda que momentânea, de que elas na verdade não existem, são só uma piada interna, que o resto do mundo não entende, apesar de acreditar entender.
Então sigo envolta nesse emaranhado que é meu e alheio, que eu acho que leva a algum lugar, mas entendo que cujo destino pode ser eu mesma, bem aqui. E espero algum dia viver só e pela verdade, mas até agora eu não cheguei num lugar em que me seja possível olhar bem pras pessoas e despejá-la. Primeiro, porque talvez seja meio difícil, superar o lance social, e segundo porque eu sinceramente nem sei bem o que ela é, a verdade.
Sei nem se existe, apesar de acreditar nela piamente. Mas eu também acredito num monte de absurdo, que ninguém nunca viu nem talvez vá nunca ver.
E, de todo jeito, saber e ver é uma coisa, enquanto sentir é outra totalmente diferente.
E aí eu já não sou nada como Pessoa.
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