Ia logo começar dizendo que é complicado, mas fiquei sem saber dizer exatamente o que é complicado. Acho que, no fundo, existir.
Mas, antes do fundo, ser.
E antes de ser, parecer.
Eu me pego com uma frequência assustadora agindo quase como se fosse outra pessoa. Digo as coisas mais inconvenientes e imbecis - o que nem seria problema - nas quais não acredito minimamente. Às vezes dá errado, ou talvez na maioria das vezes, porque a pessoa que ouve não tem como saber ou imaginar que eu não acredito em nada do que disse.
É como encontrar uma tia e começar a comentar de quem casou e quem não casou. Como se eu ligasse a mínima para o assunto, mas é meio condicional, talvez por ter passado a vida inteira ouvindo as histórias, talvez pelo bem da personagem - no caso, de sobrinha - eu vou lá e entro na onda. Tava bem esses tempos numa conversa dessas com uma prima e me arrepiava a cada coisa que eu falava, mas ia e continuava falando.
Aí talvez fosse difícil para mim assumir assim publicamente a minha falsidade ou hipocrisia - porque, convenhamos, é disso que estou falando. Talvez eu sentisse aqui alguma culpa por não ser sempre uma pessoa absolutamente verdadeira comigo mesma, o que implicaria, numa situação dessas, em sair fora ou ficar calada ou dizer "tia, mas quem se importa e o que a gente tem a ver com isso?!". Mas não, eu vou na onda, e se sinto alguma coisa, não é vergonha, mas um estranhamento e alguma graça. Graça de achar mesmo engraçado.
Há algumas semanas, talvez, fiquei pensando sobre isso, porque dizem que as brincadeiras costumam ter fundos de verdade. Pensei nisso porque levei uma fumada de uma pessoa, por ter dito um desses absurdos que costumo dizer, que pra mim não significam nada, mas para a pessoa significou. E como ela pôde levar a sério, eu começo a me perguntar se eu também não levo e se, no fundo, o absurdo não era tão absurdo assim. Dá pra entender do que eu tô falando, será?
Talvez eu seja simplesmente uma pessoa extraordinariamente mesquinha e baixa, só resisto em acreditá-lo porque insisto em pensar bem de mim. Porque nem agora, quando eu levanto a possibilidade, eu a considero realmente, é só outro desses absurdos que eu digo pra fora, mas não pra dentro. Não que eu não possa ser mesquinha e baixa, aceito essa possibilidade, mas aceito que outras pessoas digam isso, não eu mesma. Outras pessoas que estariam, obviamente, erradas, mas que têm lá o direito de pensar o que quiserem.
Numa dessas, me pego conversando com uma pessoa que acho deveras inteligente, que ela um dia se tornará sábia, quando for mais velha. Porque é, claramente, mais nova. Como se idade significasse qualquer coisa, como se a gente só pudesse mesmo mudar para melhor e "evoluir", esse conceito que eu acho tão problemático, apesar de conviver com ele diariamente e do consolo que me dá quando eu penso que hoje é melhor que ontem e amanhã será melhor que hoje.
E cá sigo eu, falando absurdos de maneira - algo - consciente, mas sem conseguir me impedir. E a galera vai acreditando e talvez eu vá, também, acreditando, exceto que não acredito nadinha. Só um pouco bem pequenininho.
E vivo vivo dando dessas, me enrolo numas mentiras totalmente vãs e desnecessárias, e tão absurdas que acho que nem chegam a ser mentiras, mas também pode ser que elas só enganem a mim.
Isso de ser e parecer, tem umas horas que dá um cansaço que seria enorme, se fosse verdadeiro. Mas dá sim, essa pura e cristalina, uma vontade e uma saudade de poder ser eu sem toda essa merda. Se é que algum dia fui ou poderei ser.
De repente a saída de tudo é uma caverna isolada no meio do nada, com uma noite estrelada.
Mas e ae? Vou ouvir o que e falar o quê? Por mais que me pareça romântica essa idéia de isolamento, acho que ele total não é pra mim, não. Porque tenho aqui a necessidade de ouvir as lorotas, alheias e minhas, e ter a ilusão, ainda que momentânea, de que elas na verdade não existem, são só uma piada interna, que o resto do mundo não entende, apesar de acreditar entender.
Então sigo envolta nesse emaranhado que é meu e alheio, que eu acho que leva a algum lugar, mas entendo que cujo destino pode ser eu mesma, bem aqui. E espero algum dia viver só e pela verdade, mas até agora eu não cheguei num lugar em que me seja possível olhar bem pras pessoas e despejá-la. Primeiro, porque talvez seja meio difícil, superar o lance social, e segundo porque eu sinceramente nem sei bem o que ela é, a verdade.
Sei nem se existe, apesar de acreditar nela piamente. Mas eu também acredito num monte de absurdo, que ninguém nunca viu nem talvez vá nunca ver.
E, de todo jeito, saber e ver é uma coisa, enquanto sentir é outra totalmente diferente.
E aí eu já não sou nada como Pessoa.
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