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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O fim

Escrever tem sido cada vez mais difícil para mim.Falta tempo, tema, vontade; falta algo aqui que se ligava mais facilmente às palavras e que hoje flutua, etereamente, sem se prender a nada e assim se perde sem deixar rastros.
Mas, correndo o risco de me repetir mais uma vez, ainda me parece que há coisas que merecem deixá-los.
Começando do começo, talvez, eu não sei dizer quando assisti ao Once. Lembro de ser no meu quarto e de noite, mas não sei em qual quarto nem em qual noite. Nem sei dizer o que me atraiu nele, nem o que o trouxe a mim, estávamos ambos ali na internet e nos encontramos. Até há alguns dias eu não saberia dizer nada sobre a história, para além do cantarolar de uma ou outra canção e do fato de ter me tocado profundamente. Desses filmes que têm o que eu chamaria de verdade, uma sensibilidade rara, claramente realizado com uma verba modesta, sem explosões nem efeitos especiais, nem grandes nomes nem nada mesmo de muito grande, só uma verdade e uma rara sensibilidade. Entendo zero de cinema, mas o filme é lindo.
Do tipo de filme - e de livro, música, pessoa - de que eu gosto: que fala sobre pessoas e fala lindamente.
Nem sei dizer do sucesso que fez ou faz, acho que até é bastante porque ganhou o Oscar e os musicais foram muito premiados e elogiados, mas ainda assim.
Aí tem uma anedota: estava eu num evento e ouvia uma música instrumental que me soava familiar e fiquei me perguntando: "é do Once ou não é do Once?, é do Once ou não é do Once?" e eu digo muito sinceramente que eu queria muito que não fosse do Once, porque isso me obrigaria a ter de rever uma série de preconceitos que eu realmente não desejava ter de rever. Às vezes a gente tem isso, de apegar nos preconceitos e é mesmo desagradável quando eles nos explodem na cara e somos obrigados a descartá-los. Felizmente, essa não foi uma dessas vezes e afinal não era Once, mas Crepúsculo, o que é de uma ironia tão fina que chega a tornar o mundo mais bonito.
Mas assisti ao Once sozinha, de noite num quarto e chorei muito, à vontade pela solidão, porque não gosto de chorar em público. Nem sei se alguém de fato gosta, mas imagino que haja nesse mundo uma pessoa ou duas que apreciem o drama, ou ao menos não se incomodem com ele.
Guardei ali na gaveta, até que, conversando com uma dessas almas irmãs, resolvemos assistir ao musical. Meio na porra-louquice, fomos lá sem ingresso tentando descolar um, contando com uma boa sorte que nos premiou, mediada por uma gentileza impressionante, e assistimos.
Desses momentos inexplicáveis na vida, algo como meu aniversário de alguns anos atrás, em que alguma coisa acontece. Eu, que não choro em público, me perdi. Lágrimas rolaram desde antes de subirem as (metafóricas) cortinas e a intervalos regulares, a cada vez que o cara abria a boca.
Aí, e daí?, você me pergunta; e eu respondo: e daí que nada, e daí que foi lindo e desses momentos que a gente gostaria que se estendessem infinitamente, que a gente queria poder guardar na memória com todas as cores e sons e nitidez que, pelo menos a mim, são impossíveis de alcançar em retrospecto. E daí que fica a lembrança da sensação e só. E daí que o espetáculo, como tudo na vida, acaba e o que resta depois de fechadas as (metafóricas?) cortinas... resta e eu não sei o que é. Não sei o que resta e que importância tem.
Tenho um problema, na vida, no filme e no espetáculo, de não saber lidar com o fim. Sou dessas que no cinema permanece sentada até acabarem de rolar os créditos, achando que pode ter ali ainda alguma coisa. Sou às vezes recompensada, mas mesmo quando não há cena extra, quando importa, quando me importo, fico achando que não terminou de verdade. Que o "the end" é uma pausa, que aquela história vai se resolver num futuro mais ou menos próximo, que tem mais alguma coisa.
Lembro ainda de quando assisti ao Antes da meia-noite, também em casa, numa sala de tv, ele passava na televisão e eu nem sei se peguei do começo ou perdi alguma coisa. E de o filme terminar e eu pensar: tem mais.
Talvez isso só revele a minha falta de imaginação, que me leva a desperdiçar a oportunidade de criar e ficar satisfeita com um próprio final que me agrade, mas eu tenho também a loucura de não me contentar com a minha versão das coisas, mas de querer que a realidade que me é externa coadune com a minha vontade. Raramente isso acontece, mas que se há de fazer?
Conversava uma vez com ma amiga que assistiu aos três filmes do Linklater e não entendeu o barulho que se fazia por eles. Eu daqui acho que parte do encanto está em assistir ao primeiro ali aos, digamos, doze anos de idade e de repente, quase dez anos depois, ter a oportunidade de descobrir o que aconteceu.
Porque já diz aí alguém: só acaba quando termina e, até terminar, eu daqui fico achando que alguma coisa vai acontecer.
Ao fim do espetáculo, quando foi possível respirar, falar, ter cá alguma esperança, perguntei a D.: acabou?
E a resposta, simples e, para mim, difícil, foi: acabou, sim. Não ponto-final-parágrafo, mas mesmo fim, não tem mais parágrafo e a página seguinte, é "o fim", essas pessoas que nem existem seguiram suas vidas, seguiram em frente e, se olharam para trás, isso não as impediu de seguir adiante.
Ok, então, acabou.
Ponto final.
Parágrafo.
Fim.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Nem se atreva

Caí de paraquedas em mim mesma.
Depois de uma tpm algo destemperada, com direito a crise existencial, sentimental e apartamental, as coisas meio que voltavam aos seus lugares de sempre quando ali, de repente, no meio de uma permuta algo vazia e meio cheia (os copos, os copos!) me lembrei de uma música do Los Hermanos, talvez das primeiras que conheci deles. Que gostei porque (rufem os tambores) me soava familiar, como se fosse uma regravação, mas não era. Como quando ouvi Amy Winehouse pela primeira vez e imaginei aquela negrona americana dos anos 1950 ou sei lá quando. Parte do registro, do que fica aqui escondido em algum lugar para nunca ser encontrado.
Mas não era regravação nada, era "novo". Eram "novos", os dois.
Aí eu ouvi aquela música, agitadinha, de dançar mas não assim muito. Uma levada gostosa.
No meio da permuta, pensei: como é mesmo que diz aquela música, de sambar sozinho?
E ela diz:
Sambo bem a dois, por mim
Bambo e só, mas sambo, sim.
O que é, a meu ver, um lema, um projeto de vida, uma razão de ser. Sambo bem a dois, por mim, bambo e só mas sambo, sim.
Aí fui lá ouvir e caí de paraquedas em mim mesma, porque né?
Tão, mas tão engraçado. Ou irônico, ou apenas e simplesmente triste, uma pessoa vir me dizer que me desconhece, quando eu já dei a ela o caminho das pedras. "Quer me conhecer? Chama 'errarsemfim'". Nem precisa saber se é blogspot ou wordpress ou posterous. Para me encontrar, basta procurar.
Eu não sambo mais em vão.
Como eu esqueci disso? Não sei dizer se já fiz muitas coisas em vão nessa vida, que não sou disso.
Sou do sentido, mesmo que o sentido seja justamente o não haver mesmo sentido.
Mas eu tinha esquecido do lema.
Acho que já vivi pensando nisso.
Me esqueci, de viver ou de pensar.
Terei esquecido como sambar?

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Is this the real life?





Or is it just fantasy?

Is this going to be forever????

As chuvas de Castamere




Porque essa música é sensacional e quando eu li, não imaginei nada nem perto disso.

Porque acabei de assistir e ela grudou.

Porque, como bem sabe o Senhor de Castamere, a vingança vem a cavalo.

E só porque ali no youtube tem uma comparação entre katana japonesa e espada longa européia e eu morri de rir, lembrando que uma vez conheci um cara que curtia espadas, tinha em casa, bem Ted e Marshall, mas acho que pior porque ele também tinha problema. Como é engraçado isso das coisas que a gente lembra, hoje mesmo (terá sido hoje?) passei pelo prédio dele e me perguntei. Isso tudo já foi um dia informação tão relevante para mim e hoje faz parte de uma névoa quase que inalcançável, a não ser por esses lampejos que vira e mexe afloram da escuridão.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Deixei minhas botas em Paris

Sem politicagem e sem senso crítico e sem pensar nas coisas que importam e nas que não importam, sem pensar na fome e na morte, posso ficar triste porque deixei minhas botas em Paris?
Andei com elas por tantos lugares. Comprei-as num shopping com Lettícia; queria um coturno, mas achei minhas botas e me apaixonei por elas.
Lembro de usá-las numa festa na faculdade e encontrar o Wando.
Andei com elas por Belo Horizonte e tantas outras cidades, mas lembro bem dessa. Lembro de me vestir para sair para jantar, num quarto de hotel, calçá-las com um vestido preto e uma faixa de cabelo colorida e pensar: vou assim meio mal-ajambrada, mesmo, não é hoje que vou conhecer o grande amor da minha vida.
Pisei com elas em concreto e areia e água gelada e gelo. Compreensivelmente, talvez, elas furaram e eu as deixei em Paris.
Já disse mais de uma vez, reconhecendo o absurdo de dizê-lo, que se eu tenho um arrependimento na vida, absoluto e inquestionável, é ter deixado minhas botas em Paris.
Comprei outras botas depois, até as castiguei bastante, mas não é a mesma coisa.
Nem sei exatamente porque me lembrei disso nessa hora adiantada, é só que me lembrei de Belo Horizonte, de ver um rato na calçada e caminhar pelas ruas desertas e das estátuas (de quem, mesmo?) e vieram junto a bota e o vestido.
Talvez das coisas mais fúteis que já tive a ousadia de registrar por escrito, mas vá lá.
Também das mais verdadeiras.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Nada a fazer senão correr

Estou aqui meio desesperada. Ou desesperada e meio.
Estou aqui meia, porque eu consigo viver uma vida na bolha, bolha multifacetada de menina branca, paulista fresca de classe média, e muitas vezes é a bolha que me permite respirar e sobreviver e viver. A bolha resiste a muita coisa, intacta ou levemente transposta, à violência, injustiça e crueldade que permeiam esse mundão de sem-deus.
Estou aqui meia e desesperada, depois de ter assistido a esse absurdo vídeo da TV Folha sobre uns tais "yellow blocs" que não vivem na bolha, mas em outro mundo.
Assisti constrangida àquele rei do camarote e fiquei com vergonha e pena, mas não me desesperei. Achei o cara babaca, mas tá ali sendo babaca meio que na dele. Ou não é isso e eu lembro mal?
Mas esse povo nojento que aparece indignado por ter pagado mil reais para ir a um evento não-vip-o-suficiente... Eles são gente como eu? Eles têm de ser, porque não há alternativa, mas que desespero.
Então eu tenho que ser menos gente do que sou, ou que gostaria de ser.
Que burrice e arrogância é essa, de gente que deveria ser esclarecida por ter acesso a tanta coisa que falta à maioria das pessoas?
Quer dizer que o cara paga trezentos reais para ir num lugar, uma festa privada, suponho, reclama do atendimento e da falta de banheiro e conclui que o problema do Brasil é esse, exatamente o mesmo, e que mostra suas outras facetas na saúde e educação. Como pode uma pessoa não perceber que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa e vice-versa. Nem é uma pergunta, é mesmo uma afirmação assim toda torta. O que esse ser sabe de educação e saúde pública nesse mundo?
Eu não digo que sei. Eu sou menina branca, paulista fresca de classe média. Estudei em escolas particulares, porque meus pais valorizavam minha educação e entendiam que no sistema público não rolava. Entendiam, sabe-se lá se correta ou erroneamente. Fiz colegial numa escola pública de elite, com prova eliminatória para entrar e estudei com muita gente branca paulista fresca, de classe mais ou menos média. Por tudo isso, estudei numa universidade pública de elite, com muita gente fresca e pouca gente pobre. A bolha é resistente e o privilégio de viver nela não é para todos.
Estudo ainda numa universidade pública de elite, com gente talvez mais diversificada, mas mesmo poucas que não tem histórico parecido com o meu.
Mas a bolha vez por outra estoura, mais ou menos violentamente, como ao assistir um negócio desse. Essa gente branca, paulista fresca e sem classe, porque não pertence a esse mundo.
Nem sei, acho que estou tão dentro dessa lógica que acho que a pessoa pode gastar trezentos ou mil ou dez mil reais onde bem quiser e entender. Não é isso que eu acho? Ou acho que elas não deveriam ter trezentos ou dez mil? Persiste aqui a garota que, aos dez ou doze anos de idade, ficou chocada ao ouvir a explicação do professor de história sobre o que era comunismo. Achava eu, não sei por que razões já que fui criada num lar de esquerda com direito a exemplar d'O Capital e tudo o mais, que era qualquer coisa ruim. Como foi mesmo que ele disse? Minha memória, para variar, falha, mas devia ser algo do tipo "é acreditar que as pessoas deveriam ter tudo igualmente, partilhar da propriedade, sem haver ricos nem pobres", algo assim simplista para que uma menina de dez ou doze anos pudesse compreender e pensar: "poxa, mas isso é o máximo! Qual é o problema, por que não vivemos assim?". Como se fosse um ideal absoluto, de uma menina branca, paulista fresca de classe média numa sala de aula de escola particular com 18 coleguinhas.
Eu compreendo a vida privilegiada que levo, ao menos até o ponto que me é dado compreender. Eu gosto dessa vida, porque privilégio é bom. Eu posso ser parada numa blitz e perguntar por que ao policial. Posso até ouvir como resposta "não, é porque você tava subindo a rua meio rápido e por causa do farol não dava pra ver quem tava dirigindo". Não significa que eu queira que ele seja exclusivo, bom seria que não fosse privilégio, mas direito ou sei lá o que partilhado por todo mundo.
Será que isso significa que, sendo paulista branca, fresca de classe média, eu estou do lado dessa gente?
Pode ser que sim, mas eu não quero estar. Não gostaria de estar, nem almejo sequer flertar com o acesso a esse mundo vip tão asqueroso.
A bolha se estoura e explode na minha cara. Então por que vir aqui falar isso?
A verdade é que minha arrogância é tão suprema que me acho melhor até do que essas pessoas, que por sua vez se acham melhor do que toda e qualquer pessoa que não partilha de sua pulseirinha, jóia ou guífiti.
Eu sei que vivo nesse mundo. No entanto, minha bolha me protege até mesmo dele, não apenas dos miseráveis marginalizados, do cara que bate à porta da minha casa pedindo um café com pão.
Quando ela falha, não há saída para além do desespero. De me sentir menor, destroçada, mesmo roubada, porque se eu vejo beleza nas coisas e nas pessoas, se me vejo nelas e elas em mim, se me completa ver o bêbado dançando frevo no carnaval, também me esvazia ser obrigada a perceber a podridão espalhada pelas mesmas ruas e avenidas em que dança o rapaz frente ao esquadrão de choque da polícia.
Mas ela não está mesmo na mesma rua, está ali fechada atrás de seus altos muros, protegida por seguranças (pessoas, como eu e todo o resto), alijada de qualquer senso de pertencimento à mesma lama em que chafurdamos todos.
Eu sinto vergonha, porque não consigo evitar de me sentir algo responsável pelo mundo em que vivo. No mínimo, faço parte dele e, arrogante que sou, sei que cometo injustiças e crueldades e erro. Desconfio que minha bolha e meus privilégios não sejam suficientes, porém, para me tornar totalmente alheia ao que me rodeia.
De dentro da floresta, eu vejo as árvores.

PS: Depois só que reparei que o politizadão reclama da dificuldade em comprar fichas e usar o banheiro e a reportagem corta para o caixa vazio e um mundaréu de gente usando os banheiros sem nem fila. E ele "tem medo".
PPS: Sim. TV Folha. www.youtube.com/watch?v=0Zkp1C9ucrc
PPPS: E que "povo" é esse que essa gente pensa representar, meus sais? Falando de uma governante legitima e democraticamente eleita, como se o cargo que ela ocupa lhe tivesse sido concedido por, sei lá, marcianos. O "Brasil" aprendeu a elegê-la. Eu daqui acho um absurdo, por exemplo, que o governador deste estado seja quem é. Acho sintoma de um "povo" alienado e reacionário, que foi lá e nele votou. Sinto raiva, muita, mas pera lá. Ele foi eleito. Gostaria que não o fosse novamente, é meu direito, minha opinião, minha opção política. Isso não significa desprezar simplisticamente o processo que o colocou no lugar onde está. Né?
Mas é isso aí, o povo branco, paulista de classe média pra cima, que não liga nem pra futebol e tá ali meio torcendo porque sim, que está nas arenas (ou em algumas delas) xingando a Dilma. Faço questão de, menina branca, paulista fresca de classe média, de desparticipar dele.
PPPPS: E tem mais; parte dos "protestos" que teoricamente indicam a insatisfação do "povo" com o "governo" aconteceu ou não por causa do aumento das tarifas de ônibus? Quer dizer, um lance concreto, que afeta o bolso e a vida das pessoas "diferenciadas", não por causa de "palhaçada" de ninguém.
PPPPPS: Concluindo, classe média é uma merda. Bom mesmo é o Tano Pasman.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Silencio

Não sei se há dias, horas ou minutos, estou com uma música na cabeça. um tã, tã nã, tá nã que eu não sabia de onde vinha.
Comecei agora há pouco a fazer o que há pelo menos uma semana eu adiava: gravar um disco com todas as músicas do flamenco. Não do flamenco de todo o mundo, muito menos de todo o flamenco do mundo, mas do meu simples e pobrezinho, cacunda e meio desequilibrado e ainda meu. Tão pequeno, meu flamenco, e ainda tão grande. Tanto estudo para se chegar tão longe e o caminho todo tem só uns cinco centímetros.
Da arte ou da beleza da gente aceitar as coisas como podem ser. Eu sei que sou uma dançarina medíocre e jamais passarei disso, dirão alguns que nem medíocre chegarei a ser, mas o estrelato é para poucos.
Acho que eu sempre reconheci minha própria desimportância na ordem das coisas - lembro-me de, criança, gostar muito de uma música, ou um cantor, e ver na televisão algum programa em que fãs mandavam para ele uma carta de oitocentos e setenta e oito quilômetros e eu pensar: que coisa, pra essas meninas e pra mim, isso é importante e tudo o mais, mas se a gente for ver, o cara meio que não se importa. Nem porque ele seja escroto - como acho que muitos são - mas porque enquanto nós, de alguma forma, o conhecemos, ele não faz idéia de quem sejamos. Ele não tem como saber, se não nos conhece, jamais nos viu, não sabe um nada das nossas vidas e sentimentos e anseios e do tanto que a gente gosta dele, que a música dele faz sentido na nossa vida e tudo o mais.
Não tem como saber, estando ele lá e nós, aqui. Estando ele aqui e nós também, lado a lado, de mãos dadas, olhos nos olhos, já é impossível saber, que dirá através do tubo de uma televisão ou do vão na frente de um palco.
Lembro de pensar isso, há já coisa de vinte anos - sim, vinte anos, já é nesses termos que conto a vida. Não nessas palavras, nem dessa forma, mas lembro de pensar isso criança. Há, obviamente, momentos em que essa visão de mundo - porque não demora muito pra coisa toda extrapolar a tietagem adolescente e invadir e se apropriar de todo o resto - traz algum desespero, mas, como ele também se limita ao lado de dentro, passa ou fica, mas pouco importa para a ordem das coisas.
E ficando tudo do lado de dentro, pouco importa que eu seja medíocre ou pior. Importa um tã, nã nã, ná nã e todo o resto que, sendo de fora, entra.
Seguia eu, então, cantarolando em silêncio e então ouvindo, cantarolando em voz alta e então desconhecendo, quando vim gravar meu disco. Cacei nas músicas que achei que poderiam corresponder ao tã nã e nada, tentava contar o tã nã, para saber o que era - seria um compasso de 4, 5, 12??, mas o tã nã vinha descompassado.
Até que, de repente, fez se a luz. Isso é um silencio.
Que tão absurdo, mas é de fato o silencio de uma alegrías que nunca aprendi. Que ainda assim me marcou e milênios depois veio à tona na forma de um trautear desafinado e perdido.
Nem sou lá muito apegada a alegrías, mas me agrada demais a idéia de que no meio dela tem um silêncio e é nele que estão algumas das minhas melodias favoritas.
Apesar de que, toda nova música é minha favorita e as velhas também.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Pintada

Num corredor do supermercado, vi um frasco de talco de alfazema e tive que comprar, porque o cheiro...
Saudades.

Trilhares

Tenho andado mesmo é sem vontade de me explicar. Em busca de silêncio e alguma solidão que não vêm ou são pequenos demais, vez em quando lembrando de uma melodia e ficando satisfeita em cantarolar.
Aí que não sei o que hoje me deu, de vir uma tristeza dessas que não doem demais.
Dessa melancolia que não é de todo ruim e que há tempos não vinha em visita.
Essa saudade do que não foi, ou do que foi e eu esqueci. Mais do que não foi, acho.
Esses tempos encontrei uma amiga das antigas e é mesmo algo assustador perceber o tanto da minha vida que me é estranho. De coisas que vivi e ficaram tão para trás que já quase não fazem sentido. 
Também tem isso, que cada um lembra o que interessa lembrar. De repente eu tenho cá trilhares de outras memórias que para qualquer outra pessoa não têm a menor importância.
E outras tantas que nem a mim importam - ou será que isso não existe?
Um exemplo: lembro de quanto eu tinha uns doze anos, talvez, de gostar de um short roxo que eu usava com uma camiseta cor de rosa e eu adorava. As duas peças usadas até ficarem gastas e eu ainda adorar.
Ou de uma vez que fui à aula com uma saia jeans e uma blusinha laranja e quando fui descer do ônibus quase caí, porque não estava acostumada a usar saia e a não conseguir dar aquele passão para descer do ônibus.
Que importância tem isso? 
Será triste que, de alguma forma, tem mais do que pessoas com quem convivi, vivi, cresci?
Tava assistindo a uma série cuja protagonista é absolutamente egocêntrica e egoísta e insegura e, sinceramente, algo idiota e sei lá. De fora a gente vê que é absurdo, mas alguma coisa aqui se identifica. Algo como quando eu li pela primeira vez Ana Karenina e fiquei pensando: "pô, dá pra entender esse negócio e como essa mulher se sente". Depois, muitos anos depois, fiquei pensando se era isso que o Tolstói queria dizer, dessa diferença entre homens e mulheres e do que eles podem e não podem fazer e sinceramente não faço idéia. Sei é que dá pra entender aquilo ali.
E esse filme que vi há pouco, em que um casal tira o filhinho doente do hospital para ver o mar. E meio que disfarça o menino com um casaco preto com gorro, meio como se fosse ninja ou esse povo que vai invadir sei lá o que todo de preto. Agridoce e eu achei tão bonito e dolorido que nem sei.
Sei que fazia tempo que não batia aqui esse negócio e eu nem estou de tpm. 
Nem estou nada, nem assim tão preocupada, nem assim tão desencanada, nem assim em crise, nem assim em êxtase, estou mesmo só estando e me pergunto se tem alguém por aí fazendo qualquer outra coisa e o que é que se tem para fazer.
E se um dia alguém vai lembrar de tudo ou qualquer coisa que a gente (não) fez.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Covardia

Na República, esperando o ônibus, sou dessas pessoas que puxa conversa com galera que tá no ponto.
Começo a conversar com um casal, mais o cara, mais velho mas não velho, ou sei lá. Porque o ônibus demora demais, porque quebram o ônibus e a gente fica esperando, porque isso aqui mudou muito, antigamente não era assim, e o ônibus é todo ruim porque quando a gente vai ficando velho, a maioria das pessoas tem problema na coluna e nesses ônibus não dá pra ficar confortável e são muito velhos e você sabe quanto ganha um garçom do Planalto?
- Sei não, mas deve ser mais que eu...
- Ah, mas você deve ganhar bem.... o que você faz?
- Estudo.
- O quê?
- História.
- Ah, mas você sabe que as pessoas também não sabem de nada e a gente aprende tudo errado, no livros didáticos. Veja por exemplo o Tratado de Tordesilhas, quando foi assinado?
- ... - por que, né?, não sou enciclopédia e tenho memória péssima pra data e sei lá quando assinaram a porra do tratado. Tipos, Colombo chegou na América ali 1492? Mas e a África? Foi antes ou depois de atravessarem o Cabo da Boa Esperança? Sinceramente, não sei. Acho que foi depois. Pode ter sido antes, ou tipo ao mesmo tempo exatamente.
- 1492. - o santo google diz que é 1494, mas enfin. - E quando descobriram o Brasil?
- Ah, é, os caras já sabiam que tinha alguma coisa aqui.
- E aí nesses livros, na escola, tem um monte de mentira.
Medo.
- Olha, eles inventam um monte sobre a Revolução de 64.
Penso: "você quer dizer golpe, né?". Mas sou covarde e fico quieta.
- Eu era militar na época, tava na escola sei lá de que... - mentira, ele sabe de quê, eu que não registrei - e não foi nada disso...
- Ah, mas pera lá? O senhor quer dizer que não houve tortura? Os caras dizendo que o Herzog se suicidou de joelhos e coisa e tal?
Só cheguei até aí. Nem sei da resposta, porque o ônibus deles meio que chegou, mas meio que passou reto e os deixou no ponto - justiça divina? - e até falamos mais de uma coisa ou outra.
O ponto é que tenho aqui me incomodado com esses silêncios, essa rédea da qual é tão difícil escapar que em dados momentos nos impede de falar a primeira coisa que vem à mente, tipos "você quer dizer golpe, não revolução". E em outros, escapa da nossa boca qualquer coisa que não devia, que não era, quando a rédea solta e "ah, nadar nua?".
Fico pensando que eu talvez siga um curso algo natural, de me tornar relativamente - sempre relativamente - mais tolerante com o passar do tempo, de pensar que o cara que fala de "revolução de 64" é até escroto, mas talvez não absolutamente escroto e sei lá, preciso ser meio grossa? Ou será que não tem conversa, é sair na voadora mesmo e foda-se?
Não que eu seja uma pessoa exatamente delicada e bem educada, porque não sou, mas ainda assim ando pensando demais e nessas escapa a oportunidade e cinco minutos depois é uma eternidade depois e não faz mais sentido.
Solução também não tem, ou não tenho, mas é é ruim demais isso da gente se sentir covarde. Porque não é revolução, independente da escrotice do cara ou da minha bunda-molice.
Mas passou, o momento e o ônibus, e o que resta é isso, o destempo do falar para o vento.

domingo, 2 de março de 2014

Se perder, se achar e tudo aquilo que é viver

Isso de número é só e simplesmente uma balela.
Hoje podia ser 31. Hoje podia ser 2. Hoje podia ser 17. Hoje podia ser 19.
Não interessa o número de hoje.
Interessa é que depois de muito muito tempo, de crises mais ou menos agudas, de desesperos e desapercebidos, despertou aqui essa vontade adormecida de voltar.
De onde, não cabe aqui dizer. De lá e mais além.
Para onde, também é impossível dizer.
Eis que começa 2014 e aqui também é grande a vontade de que termine.
Ai, que não há tempo para nada.
O tempo aqui também já se foi.
Agora é viver.