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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Deixei minhas botas em Paris

Sem politicagem e sem senso crítico e sem pensar nas coisas que importam e nas que não importam, sem pensar na fome e na morte, posso ficar triste porque deixei minhas botas em Paris?
Andei com elas por tantos lugares. Comprei-as num shopping com Lettícia; queria um coturno, mas achei minhas botas e me apaixonei por elas.
Lembro de usá-las numa festa na faculdade e encontrar o Wando.
Andei com elas por Belo Horizonte e tantas outras cidades, mas lembro bem dessa. Lembro de me vestir para sair para jantar, num quarto de hotel, calçá-las com um vestido preto e uma faixa de cabelo colorida e pensar: vou assim meio mal-ajambrada, mesmo, não é hoje que vou conhecer o grande amor da minha vida.
Pisei com elas em concreto e areia e água gelada e gelo. Compreensivelmente, talvez, elas furaram e eu as deixei em Paris.
Já disse mais de uma vez, reconhecendo o absurdo de dizê-lo, que se eu tenho um arrependimento na vida, absoluto e inquestionável, é ter deixado minhas botas em Paris.
Comprei outras botas depois, até as castiguei bastante, mas não é a mesma coisa.
Nem sei exatamente porque me lembrei disso nessa hora adiantada, é só que me lembrei de Belo Horizonte, de ver um rato na calçada e caminhar pelas ruas desertas e das estátuas (de quem, mesmo?) e vieram junto a bota e o vestido.
Talvez das coisas mais fúteis que já tive a ousadia de registrar por escrito, mas vá lá.
Também das mais verdadeiras.

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