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domingo, 24 de agosto de 2008

Da magia

Não sei, senti saudade de não ser eu e ser Maga da Montanha. Que sou eu, mas não sou.
Dessas coisas bobas e simbólicas, mas mudei o nome que assina as postagens.
E comecei um post com "não sei".
Sinto muito, essa sou eu. Ao menos uma em cada dez vezes vou começar a dizer qualquer coisa dizendo que posso estar dizendo uma grande besteira, mas
Já me disseram uma vez que esse traço irrita, porque faz de mim muito insegura. Eu também já disse, e repito, que o gênio que fez essa análise errou feio. Claro que sou muito insegura, mas acho que a minha insegurança passa por outros aspectos e transparece em outros momentos, aquilo que vem como uma onda e eu não consigo me mexer e ela me toma e eu prendo a respiração enquanto ela continua seu caminho e começa a se esvair, se alguém, num momento desses, me dissesse que eu sou insegura, eu talvez chorasse, desmaiasse ou saísse correndo.
Mas é fato que eu não sei, gosto de não saber e entendo o tempo todo que as coisas e o mundo são contraditórios e isso, em específico, não tem nada a ver com insegurança. Tem a ver com ser humano e sombra. E se eu gosto nos outros, gosto em mim. E outros há que não gostam de Maga da Montanha, mas eu gosto e portanto

Banguela

Saí para comer massa na quinta-feira e passei mal. Com o suco de laranja.
Isso pra explicar, mais ou menos, porque eu não consegui trabalhar bem na sexta. Não tem jeito, pra ler aquela joça há que se estar com um mínimo de disposição, do contrário a tentação de simplesmente ir passando as páginas apagadas é grande demais e sabe-se lá o que se pode perder no meio do caminho. Então vim embora.
No ônibus, com vento, resolvi, diferente das últimas semanas, ou meses, ligar meu mp3 e quem sabe ter alguma sorte, com alguma música que eu esqueci ali, há muito e muito tempo. Acho que eu queria clássica, mas começou com o Zeca, querido Zeca, dizendo "na rede da intriga tem sérvio e croata". Sérvio. Sérvio!!! É um sinal ou é um sinal???
Enfim, ri sozinha pelo trânsito de São Paulo, momentos antes de capotar.
E agora acabaram as olimpíadas, o vôlei masculino, xodó, perdeu, mas eu tenho aquela coisa de ser besta e ter sempre simpatia pelo adversário. Tentei muito não ter, dessa vez, mas o fato é que eu acho o Priddy algo fofo e gosto bastante do Ball, que tem uma tatuagem "Mya" no braço e aquela mania de ficar passando a mão pelo rosto, a esquerda, vem pela testa, da esquerda para a direita, o tempo todo. Eu ia ficar chateada, e de repente, a luz: "às vezes a gente perde".
Eu vi uma entrevista do Xuxa, esses dias, ele falando que aprendeu com as derrotas, e a Gabi perguntou se ele aprendeu a perder, e ele: sinceramente? Não. Aprendi com as derrotas, mas não aprendi a perder.
Eu ainda não sei o que já aprendi ou ainda não, nessa vida. Ainda não.
Domingo. Dormi, comi, li, assisti filme. Há milênios que eu não via, também, uma boa comédia romântica.
Subterrâneo, obscuro, escuro, claro. Acho que eu sempre soube, talvez tenha dito, mas acontece muito comigo de redescobrir, insistentemente, continuamente, coisas que eu sei. E eu sei que gosto de sombras, não escuridão total, mas sombras, obscuro, escuro, algo também claro, porque se tem uma coisa que pode me por feliz é um sol em céu azul, mas ainda sombras. Porque o mundo não é lugar para se ser feliz e ponto. Feliz, sim, mas com uma sombra. Se não por você, por qualquer motivo que mais lhe agrade, por mim, pode ser. Eu agradeço e não me ofendo.
Domingo. Amanhã, segunda.
Já nem sei como está a lua.

domingo, 17 de agosto de 2008

Caymmi

Foi no sábado de manhã, voltando da natação.
Esses dias uma amiga me perguntou o que era samba, e eu penei pra responder, a diferença entre samba e pagode, aí uns dias depois, como é praxe, me veio a definição exata:

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não.

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não.

Então, sábado de manhã, ainda refletindo sobre o assunto, eu pensava nisso de letras bonitas, sendo simples, e pensei "é melhor ser alegre que ser triste" e "é doce morrer no mar". A reflexão veio porque eu ouvia no rádio aquela música insuportável "é bom andar a pé devagar", que eu acho uma grandesíssima merda.
Depois cheguei em casa e fiquei sabendo que o Caymmi tinha morrido; eu nem sabia que ele tava doente, minha mãe disse que ficou mais triste da última vez que viu uma entrevista dele, porque ele tava muito mal. E ele sempre foi uma presença tão marcante em casa, teve uma época que todo domingo de manhã minha mãe colocava um cd dele, e a gente acordava com aquele vozeirão, sabendo que a manhã já ia avançada.
O mar de Caymmi.
À noite, fui num show da Adriana Calcanhoto, esperei que ela dissesse algo a respeito, o que ela de fato vez, cantou uma música lindíssima, ela e a música. E que mulher; sentada num banquinho com uns panos vermelhos, indecifráveis à primeira vista, jogados sobre o ombro e as cores combinando em harmonia, vermelho, preto, branco, azul.
Confesso que tive algum medo do show, mas passei incólume. Estava feliz de estar ali e essa sensação é a que eu prezo mais na minha vida; acontece de vez em quando de eu me sentir plena e satisfeita, sem desejos nem vontades, mas contente, e isso é tão raro e isso é tão tudo e só o que a gente tem na vida, que eu prezo muito.
Há alguns anos, quando era muito viciada em forró, eu brincava com umas amigas que tinha um namorado-imaginário-forrozeiro, ele chamava Gaspar. Eram dessas brincadeiras que geram uma ou duas risadas, como dizer que a gente tava muito afim de dançar e na próxima vez ia levar uma plaquinha de néon dizendo "chama eu", pra ver se facilitava o processo.
Mas isso de fantasma é muito maluco, porque eu e ele estamos nos encarando de frente, fazendo o jogo do sério, pra sabe quem desvia primeiro o olhar. Meus demônios têm nome, sobrenome e endereço, e eu sei disso com uma clareza solar, e sabendo-os não me livro deles. O detalhe é que eu acho que é muito vantajoso saber, é como entrar numa casa cujo piso range e as janelas tremem e há um relógio de corda, e em vez de ficar pirando com medo do que tem ali, saber o que é que nos assusta, e talvez pirar de medo, mas muitas vezes saber é mesmo melhor do que imaginar.
Eu já disse aqui "adeus, mais um e quantos mais forem necessários".
Despedidas também são muito malucas. E o tempo. "Você tem meia hora pra mudar a minha vida e o que você demora é o que o tempo leva".
Caymmi, nas marinhas. Tome conta de meu filho que eu também já fui do mar.
Tanto amor e tanto mar.
Obrigada.
A jangada voltou só.

sábado, 16 de agosto de 2008

De suspiros

Ai, que o blogger mudou tudo.
Mas tudo bem, sem grandes modificações ou exigências a essa hora da manhã (isso é muito coisa de coletor de pedágio, né, que você passa à uma da madrugada e os caras: "bom dia!").
Na verdade, eu vim só registrar que chorei, um pouquinho, mas chorei, hoje, mais cedo, vendo a natação. Foi mesmo muito emocionante, e eu não sei se já disse aqui, mas eu simplesmente adoro as Olimpíadas. Mesmo, quase de maneira imbecil, de não dormir pra assistir qualquer coisa com qualquer pessoa, tipo vela, que nem tem vento, aí quando tem eu nem entendo nada, mas gosto de ver, e hipismo, que todo mundo acha um saco. Mas eu gosto, gosto até de coisa pior, tipo leilão de cavalo, que eu me controlo pra não assistir porque do contrário fico horas ali, vendo os bichos desfilando.
Só que eu tenho que parar de escrever agora, porque a Sérvia tá jogando e, sabem como é, Miljkovic chama. Ah, e eu perdi já o começo do jogo, vendo reprise da natação, mas me parece que o líbero sérvio subiu numa mesa tentando pegar uma bola, ou eu posso ter sonhado. Mas ele já pairou naquelas plaquetas que eu vi, então não duvido.
Mas bora lá com os Ic. Just do ic.
Ah, eu hoje terminei um processo! Iêi!

PS: Pelamordedeus, alguém me diz o que é esse homem?!?!?!?!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Pulsando

Ainda agorinha eu estava ali no quarto, tentando pulsar a hipófise.
Sim, hipófise mesmo, aquele pedacinho do cérebro que eu vi agora na tv que se a gente vibrar não tem depressão. Eu senti umas tonturas e um início de dor de cabeça, mas me convenci de que era a hipófise vibrando, então tudo ok.
Eu tinha algumas coisas a dizer mas, pra variar, esqueci. Agora tenho que procurar um programa de tv que ensine a ativar a memória, mas até eu inventar coisinhas pra dizer aqui, levantar, fazer xixi e sentar novamente em frente ao aparelho certamente já terei esquecido tão nobre objetivo.
Uma das coisas, lembrei, era dizer que eu estou sendo perseguida por aranhas, ou melhor, pelo medo delas. Isso porque há umas semanas apareceu uma armadeira na minha vizinha e eu fiquei alguns dias imaginando que tinha uma escondida da minha cama toda vez que eu me deitava. Todo mundo sabe que hipocondria tem tudo a ver com neurose. Aí, hoje, recebi um e-mail sobre aranhas assassinas que te picam quando você senta num vaso pra fazer xixi e você morre. Ok, quase, mas enfim. Uma vez isso aconteceu comigo, mas era uma formiguinha, só, mas eu levei um baita susto, ao sentir uma picada em lugar e hora tão impróprios.
Acabei também de lembrar que, no mesmo programa que hoje falava da hipófise, também há algumas semanas, falava-se no funcionamento do intestino e em como é um problema pra gente falar sobre isso, que não tem jeito confortável e as pessoas, no fim das contas, simplesmente fingem que não... evacuam? Cagam? Isso aí. E eu, como pessoa, também acho esquisito falar, mas notei que eu disse "quando você senta pra fazer xixi", afirmação essa que eu sou obrigada a remendar, por questão de saúde pública, porque o diabo da aranha te pica também se você sentar pra fazer cocô ou qualquer outra coisa que você sente num vaso sanitário pra fazer.
Mas voltando ao caso da vizinha e da armadeira, ainda antes do e-mail sobre o banheiro, eu sonhei nesse fim-de-semana que era atacada por milhões de aranhas. Elas eram daquelas peludas-que-não-fazem-nada-porque-não-são-venenosas-mas/
-ainda-assim-assustam, cujo nome eu esqueci, e eram mesmo milhões. Eu já tinha meio esquecido isso do sonho, mas enquanto eu falava agora ele voltou num flash distante e já de novo foi para longe.
Foi meio aterrorizante, mas eu acordei. Agora o que promete me tirar o sono nos próximos dias é a reflexão sobre a possibilidade ou não de isso ser um sinal. Todo mundo também sabe que... que o quê, mesmo? Ah, sim, "não há dois sem três". Isso é uma máxima de poder incontestável e aplicação inevitável na vida de todo mortal. Se uma coisa acontece uma vez, pode parar por aí, mas se ela acontece duas, certeza que vem a terceira. Então, aranhas.
Acho que a única saída vai ser uma racionalizada básica, me dizendo que são "avisos-de-aranhas", muito diferente de "aranhas-em-si", uma divisão assim semiótica (pareceu bonito, vai? Mesmo que não caiba, porque eu não sei exatamente o que é "semiótica", como também desconheço o significado de "hermenêutica", e tem ainda a terceira palavra que eu já olhei milhões de vezes no dicionário e ainda não grudou nem uma definição toscona, mas que eu esqueci). Enfim, esse era um assunto.
Talvez outro fossem as risadas imbecis que eu dei, também agorinha, procurando na internet fotos de jogadores de vôlei parecidos com pessoas que eu conheço. Cheguei à conclusão - certamente revolucionária - de que isso de reconhecer parecenças é como andar de bicicleta. Explico: eu nunca na minha vida tive facilidade de achar pessoas parecidas, tipo o Tarcísio Meira e o filho dele, eu achava que não tinham nada a ver. Até que um belo dia, não sei se foi alguma coisa que eu comi ou se dormi virada pro lado errado ou se foi deus mesmo quem me iluminou, um belo dia, plins, eis que eu começo a ver semelhanças a torto e a direito, isso de nariz de irmãos, olhos, bocas; a coisa já evoluiu tanto que eu agora reconheço pessoas que vi, digamos, cinco vezes na vida, em jogadores de voleibol (me recuso a escrever"-ball", mesmo que o google ordene) via satélite. Aí que eu ri como boba, ainda mais ao saber que confere.
Ah, e eu ia contar também do cara que dormia no ônibus, da cara de desprezo do cara que lia ao lado dele e do milagre de demorar menos de uma hora pra atravessar São Paulo através de transporte público em hora de rush, mas acho que não tem muita história aí. Quer dizer, eu acabei de contar e não encheu nem três linhas.
Então, como conclusão e síntese, esse texto não é sobre nada em particular, os jogadores São (vai, óbvio que esse "são" era pra ser minúsculo, e eu peguei na revisão, mas achei tão bom que resolvi deixar. Ia apagar, porque os caras não São nem um Miljkovic, nem fizeram milagre contra os putos dos americanos, mas enfim, quem sou eu pra questionar o porquê das coisas, mas Sejam, então) Zlatanov e Fei, da Itália, os sósias deixa pra lá, eu continuo viva, melhor hoje do que ontem porque vi, depois de muitas horas na penumbra, que há uma luz no fim do túnel. Quiçá, até, duas! Ora, ora, quem diria?
Parece até que esse coração amante (à Teresa Cristina) ou, como eu gosto de trocar num dos meus inúmeros mal-entendidos musicais, esse pobre navegante, meu coração errante, enfrentou a tempestade e diz agora que aqui a dor não tem razão.
Sim, olhemos todos, daqui de cima, a paisagem ao redor, os pássaros e o sol se pondo vermelho e laranja e o azul naquele tom preferido, e o silêncio, um perfume agradável - no meu caso algo parecido com bolo de chocolate -, um vento gostoso, um arrepio seguido de um agasalho, vamos todos olhar muito bem, respirar fundo, contar até, digamos, cinco, e nos preparar para ladeira abaixo. Porque, como diziam os Ursinhos Carinhosos "faz parte da vida".

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Notas

Vez ou outra, quando se resolve fazer uma faxina na minha casa, reaparecem uns caderninhos, daqueles de estampa claramente antiga, folhas amareladas e cheiro característico, delicioso, de coisa velha. São dois, creio eu, um meu e outro da minha irmã, da época em que começamos a ir para a escola - ou seja, desde sempre - em que meus pais e professoras (nem adianta aqui colocar o masculino genérico, né, todo mundo sabe que eram mesmo mulheres) se comunicavam. Tem algumas anotações engraçadas de coisas que dissemos e, no meu caso, muitos e muitos recados de remédios a me serem ministrados, religiosamente, em resposta às minhas constantes febres e inflamações.
Quem me conhece um pouco melhor já me ouviu contar como eu sofri anos de uma otite crônica porque meu brilhante pai, ao ler a prescrição receitada pelo médico, julgava do alto de seus conhecimentos curativos ser muito alta a dose de antibiótico e, sendo pró-ativo como desde então ele nunca mais chegou a ser, cortava-a pela metade, ou ainda menos. Resultado: a infecção passava para dias depois voltar, desafiando a ciência com a sua persistência. A situação perdurou até que minha mãe, não sei como, descobriu e, conhecendo-a como eu conheço, depois de uma crise de apoplexia, de um esfrega no meu pobre pai que resolveu o problema.
Apesar de ser de uma geração muito mais registrável do que a de meus pais - minha certidão de nascimento, por exemplo, é fidedigna, nós todos temos certeza do dia em que nasci (apesar de minhas crises astrólogicas a esse respeito) -, com muitas fotos e os tais caderninhos que toda vez que eu encontro adoro folhear, ainda é muito menos do que essas crianças de agora, que têm milhões de fotos e filmes gravados em computadores através de máquinas digitais. Eu às vezes penso que, quando a Clara crescer, vai sentir o mesmo prazer que eu sinto agora, remexendo num passado já muito distante e esquecido, mas potencializado pelo número maior de registros de que ela vai dispor.
E eu, como tia coruja, gosto de pensar que vou contribuir para isso, não só com as minhas memórias, mas com os pequenos causos relativos a ela que vira e mexe eu resolvo contar. Hoje foi um dia desses; ela não foi à escola para me acompanhar - e à minha mãe - numa visita a uma fazenda da região, que talvez interessasse pesquisar no meu trabalho. Tudo muito lindo, maravilhoso, eu enrolei um tempão para sair de casa, depois ela enrolou, buscado todos os brinquedos possíveis e imagináveis de que ela precisaria sem falta, e fomos nós. Ela perguntando a cada cinco minutos onde estávamos, aonde iámos, e por que era tão longe até quem em um dado momento, já no fim da viagem e sem aviso prévio, o meio litro de suco de uva que ela engolira pouco antes (sim, meio litro, tentem vocês controlar uma criança empolgada com um copinho novo) teve que sair.
Aí foi aquele desespero, minha mãe tentando conter a poça, eu sem saber o que fazer, no meio de uma curva, seguindo adiante para parar em local um pouco mais seguro. Toca limpar mais ou menos o carro, tirá-la da cadeirinha tentando não me lembuzar toda, sentá-la numa muretinha, limpá-la mais ou menos, tirar a roupa dela tentando não lambuzá-la ainda mais, limpar mais um pouquinho, colocar outra roupa, torcendo para ela não vomitar mais, e tudo enquanto ela ficava ali, no sol, meio passada, com as sardas ainda mais salientes, reclamando de frio num calor estonteante.
Podem me acusar de mau gosto ou mesmo maldade, mas foi tão bonitinho, ela toda molinha, com carinha de nojo e sem entender o que acontecia. Claro que em cinco minutos, limpa e depois de beber um golinho de água, ela já estava de novo toda serelepe, vendo os bois e os cavalos e gritando "o vento, o vento!!!" pendurada na janela do carro. E depois ela almoçou otimamente, correu por todos os lados, brincou com um graveto num laguinho, subiu escada, desceu escada, ensinou a todo mundo o caminho do banheiro, ordenou que só se andasse pisando em pedras grandes, etc.
Quando íamos voltar pra casa, ela começou a comer um pão, enlouquecidamente, e eu falei: "Clara, agora é melhor você não comer o pão inteiro, senão depois você passa mal, né?" E ela, surpreendentemente, acatou minha sugestão sem discutir - coisa que não é muito comum, em relação a mim - me devolveu o pão, eu guardei, perguntei se ela queria um pouco de suco, água ou danone (já não me lembro), ao que ela respondeu "Não, porque depois eu vomito".
Vale também lembrar que, apesar de - na maioria das vezes - inteligível, ela não fala exatamente assim, a frase soando mais como "nã puquê apois eu iito", o que torna a coisa toda ainda mais fofa. Ah, e uma coisa que ela fala que eu pensava, no caminho, em escrever: além dela não falar, sob hipótese alguma, a palavra "minha", optando, como eu já comentei, pelo "meu" (pai, mãe, tia, mão, amiga, etc), ela sabe contar até um tanto, acho que era mais do que 10, mas ela às vezes se confunde e vai do 3 para o 7. Mas quando ela vai falar o 2, no masculino sai direitinho, "dois", mas no feminino ela só fala "dusa". "Dusa mão", "vocês dusa", e por aí. E quando ela vai dizer "1, 2, 3 e já" ela acha que 3 tempos é pouco para se preparar para qualquer coisa, portanto ela segue contando, normalmente até 14 (claro que no maior estilo U2, "1, 2, 3, 4, 7 [ininteligível] 14", ah, e tudo isso contando nos dedos), e só então diz "já".
Enfim, só pra dizer que é mesmo muito divertido conviver com uma criança, mesmo a gente ficando todo quebrado. E também é tão gostoso, vez em quando, lembrar dessas coisas que a memória da gente não consegue reter. E porque eu gosto de guardar as coisas, então, hoje, além de umas imagens mesmo lindas, eu guardo um "eu iito" e, quem sabe, durmo com um sorriso nos lábios.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Alegrías

É oficial: eu hoje voltei ao flamenco. Seis anos depois da primeira vez, um depois da última.
Fiquem tranquilos em saber que eu ainda sei o que é um taco, um tacón, uma planta e um golpe, lembro que a maioria dos compassos é de doze tempos, muitas vezes divididos em "é" e "e-é" (vulgos colcheia e tercina), eu também folguei em saber que a professora continua a mesma e explica movimentos dizendo "aí agora puxa a flecha, que nem o Robin Wood, mesmo, faz 9, 10 e puxa, com tudo".
Mas é fato que, apesar disso tudo, eu não consigo fazer colcheia nem tercina, o tacón se confunde com o golpe, mexer braços e pés ao mesmo tempo realmente não é fácil e manter uma postura ereta, para mim que sou cacunda, está ainda mais difícil do que antes.
No entanto eu permaneço viva, apesar de com alguma dor nos pés.
Vale também a nota: cheguei na aula, conversei com o pessoal, reclamei um pouco da vida que anda corrida, alonguei, aqueci, aprendi - mais ou menos - os passos novos, mas na hora em que veio a música, ainda que gravada, já que não teremos ao vivo, deu aquela sensação boa, da música boa e a gente tentando se encaixar nela. Eu não tenho nenhuma formação musical, nem sou disciplinada para ser auto-didata, então é sempre um desafio achar o compasso e permanecer nele, e quando acontece é bom demais. O bom da distância é que ela traz saudade, que por sua vez nos faz voltar. Aquilo do elástico cósmico ou sei lá o que da Bridget Jones, mas aplicado a temas mais seguros e confiáveis do que homens. - Perceberam o amargor? Praticamente virei o whisky, dei aquela tragada no cigarro e caí da cadeira ao lado de um frasco de comprimidos pra acordar só amanhã ou no hospital, depois de uma lavagem estomacal.
Bem, agora, depois do drama, lembrei do Heath Ledger e da tristeza que me deu quando eu soube - nunca tinha me dado conta - que o nome dele era Heathcliff.
E, falando nisso, minha biblioteca está inabitável o que significa que amanhã, depois do médico (afinal, eu sou ou não sou hipocondríaca?) vou fazer uma visita básica ao sebo. Sugestões são sempre bem-vindas, apesar deu não acreditar que elas venham. Mas eu ando numa onda otimista, fazer o quê?
Todo mundo tem defeitos, ora bolas.