Foi no sábado de manhã, voltando da natação.
Esses dias uma amiga me perguntou o que era samba, e eu penei pra responder, a diferença entre samba e pagode, aí uns dias depois, como é praxe, me veio a definição exata:
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não.
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não.
Então, sábado de manhã, ainda refletindo sobre o assunto, eu pensava nisso de letras bonitas, sendo simples, e pensei "é melhor ser alegre que ser triste" e "é doce morrer no mar". A reflexão veio porque eu ouvia no rádio aquela música insuportável "é bom andar a pé devagar", que eu acho uma grandesíssima merda.
Depois cheguei em casa e fiquei sabendo que o Caymmi tinha morrido; eu nem sabia que ele tava doente, minha mãe disse que ficou mais triste da última vez que viu uma entrevista dele, porque ele tava muito mal. E ele sempre foi uma presença tão marcante em casa, teve uma época que todo domingo de manhã minha mãe colocava um cd dele, e a gente acordava com aquele vozeirão, sabendo que a manhã já ia avançada.
O mar de Caymmi.
À noite, fui num show da Adriana Calcanhoto, esperei que ela dissesse algo a respeito, o que ela de fato vez, cantou uma música lindíssima, ela e a música. E que mulher; sentada num banquinho com uns panos vermelhos, indecifráveis à primeira vista, jogados sobre o ombro e as cores combinando em harmonia, vermelho, preto, branco, azul.
Confesso que tive algum medo do show, mas passei incólume. Estava feliz de estar ali e essa sensação é a que eu prezo mais na minha vida; acontece de vez em quando de eu me sentir plena e satisfeita, sem desejos nem vontades, mas contente, e isso é tão raro e isso é tão tudo e só o que a gente tem na vida, que eu prezo muito.
Há alguns anos, quando era muito viciada em forró, eu brincava com umas amigas que tinha um namorado-imaginário-forrozeiro, ele chamava Gaspar. Eram dessas brincadeiras que geram uma ou duas risadas, como dizer que a gente tava muito afim de dançar e na próxima vez ia levar uma plaquinha de néon dizendo "chama eu", pra ver se facilitava o processo.
Mas isso de fantasma é muito maluco, porque eu e ele estamos nos encarando de frente, fazendo o jogo do sério, pra sabe quem desvia primeiro o olhar. Meus demônios têm nome, sobrenome e endereço, e eu sei disso com uma clareza solar, e sabendo-os não me livro deles. O detalhe é que eu acho que é muito vantajoso saber, é como entrar numa casa cujo piso range e as janelas tremem e há um relógio de corda, e em vez de ficar pirando com medo do que tem ali, saber o que é que nos assusta, e talvez pirar de medo, mas muitas vezes saber é mesmo melhor do que imaginar.
Eu já disse aqui "adeus, mais um e quantos mais forem necessários".
Despedidas também são muito malucas. E o tempo. "Você tem meia hora pra mudar a minha vida e o que você demora é o que o tempo leva".
Caymmi, nas marinhas. Tome conta de meu filho que eu também já fui do mar.
Tanto amor e tanto mar.
Obrigada.
A jangada voltou só.
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