De volta à "casa", com frio de lascar, canais congelados, preguiça e relógio biológico enlouquecido e, já, outra queimadura na mão. Saudades do calor tropical em que a gente queima de sol, só. Eu, uma vez, há coisa de dois anos mais ou menos, peguei uma queimadura que me fez parecer um plástico bolha, assim no colo e na barriga. São dores diferentes, porém. Essas, de fogo, doem mais ardido e rápido. É fato que eu não sei brincar com esses aquecedores e forninhos.
De volta também aos tils e circunflexos devidamente colocados, a arroba ali no 2 e não onde seria o cedilha. Fala sério, o que esse povo pensa?
Bem, eu fiquei meio doida com os carros, já não sabia qual é o lado normal deles andarem, então ao atravessar a rua lia o sinal no chão que dizia "look right" ou "look left" com setinhas apontando o respectivo lado, antes de atravessar a rua, e confirmava olhando mesmo para os dois lados. Só o balão é que salta aos olhos. Eles, obviamente, fazem o balão pro lado errado. Tão contra a natureza humana, isso...
E, assim, 2008 foi-se. Alguém viu pra que lado, anotou a placa?
Provavelmente o último post do ano nesse blog que tentou, tentou nascer em 2007 mas só conseguiu agora. Ano 1. Passou. Pelo menos é ímpar. Acho que a virada passada foi mais traumática, acho que talvez até três semanas atrás essa também parecia que ia ser, mas acho que não está sendo, nem será. É estranho, no entanto, porque a gente sempre sabe que o ano termina e sempre no mesmo dia, vejam que coisa!, mas ainda parece que foi meio de repente. Eu do meu lado planejei o Natal e depois nada e o depois chegou e eu não sei o que vem e não importa muito. Não estou arrasada como poderia estar.
Mas tem uma coisa na qual andei pensando.
Qual é a dessas pessoas apaixonantes? Assim, instantaneamente, à primeira vista; por vezes nem um rosto perfeito, mas lindo, e as expressões e a voz. Acho que a voz é o mais importante. Conheci uma dessas figuras impactantes no feriado, que calha de ser uma prima distante. E a gente sente uma mistura de um amor idólatra e uma inveja corrosiva, que faz pessoas comuns como eu começar a imitá-las imediatamente. E uma imperfeição e uma impaciência, não sei. Dá uma vontade de ser assim, uma garota genuína, e ficar por perto e conhecer mais e ouvir histórias sobre.
Me apaixonei também pelo pai dela, um inglês assim de meia idade, simpático que só.
E a mãe, mas essa também é prima e mais próxima.
Tive um ótimo Natal, de noites em claro numa família maluca que tem a peculiaridade de ser, inteirinha, notívaga. De risada de cuspir bebida, e comida boa, e passeios agradáveis num inverno rigoroso.
Tenho a sensação de que as coisas estão no lugar certo e são o que deveriam ser. Sinto assim uma tranquilidade e uma esperança, sem angústia e aperto no peito, apesar da tristeza e saudade que às vezes bate. Mas sem desespero.
E se a coisa aperta, ouço a Lida, que diz que está tudo bem e dá na gente um alongar-se langoroso, um espreguiçar-se felino.
Acaba o ano e sei lá. Sem grandes considerações a fazer. Esperemos pelo próximo, que seja ainda melhor do que esse.
Páginas
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Caras (os)
Mesmo que eu queria, e impossivel atualizar a partir de um teclado sem acentos.
E como eu nao sei escrever a mao, e como minha memoria e pessima, provavelmente o que eu escreveria agora se perde no mundo das palavras perdidas, junto aos guarda-chuvas (ainda nao sei fazer esse plural...), canetas e pes de meia.
Ate gostaria de escrever um texto com mais acentos, para dar maior estranheza, mas a inspiracao - e principalmente a expiracao - para tal trabalho no momento falta.
Entao, ate ja.
E como eu nao sei escrever a mao, e como minha memoria e pessima, provavelmente o que eu escreveria agora se perde no mundo das palavras perdidas, junto aos guarda-chuvas (ainda nao sei fazer esse plural...), canetas e pes de meia.
Ate gostaria de escrever um texto com mais acentos, para dar maior estranheza, mas a inspiracao - e principalmente a expiracao - para tal trabalho no momento falta.
Entao, ate ja.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
domingo, 7 de dezembro de 2008
Dos cegos.
Ouvindo Ana Carolina.
Sem associações, sinceramente, somente aquelas da força do hábito, mas essas independem de mim e dos meus sentimentos.
Eu aqui sigo livre, esperando que dure eternamente.
Aí começa "vestido estampado". Não traz um aperto e uma tristeza e um sufoco. Vêm pensamentos, porque eu sou o cúmulo do egocentrismo e tudo que acontece no mundo, ao meu redor ou não, eu pergunto se se refere - ou poderia - a mim.
E eu tô num momento tão over que seria triste, se não fosse livre.
Tudo acabado, assim, tão final e indolorosamente que chega a assustar.
E aí eu me pergunto das coisas que eu nunca saberei, aquilo das impressões alheias sobre tudo que se relaciona a mim. Mágoas ficam pelo caminho, aos montes, como é da vida. Tristezas e penas e chateações, qualquer nome que se dê, como é da vida. Eu da minha parte não sinto vontade nem necessidade nem força para recolher cacos. Eles ficam no chão, aonde pertencem, e eu sigo meu caminho.
Mas hoje, especificamente hoje, eu penso em como as pessoas são escrotas umas com as outras. Vê-las fazendo tantas merdas quase que é desesperador, se não estivesse acabado. E a pior delas é isso da gente nunca nunca conseguir saber exatamente quando somos nós a fazê-las. É tão fácil e simples ver de fora, perceber e diagnosticar, de longe a gente sabe, mas aí quando somos nós dirigindo perdemos a noção.
Talvez o mundo pareça um lugar mais compreensível e menos cruel se a gente for lembrando disso, que tá todo mundo aqui muito perdido tentando ser feliz, o que quer que isso signifique para cada pessoa. E, na tentativa, somos cegos, como escreveu o Saramago, e vamos pisando uns nos outros, às vezes propositadamente e outras simplesmente porque não podemos ver.
Só que isso não muda nada para quem está embaixo, tendo a cabeça ou o coração esmagado. A dor dói à mesma e não há pensamento ou compaixão que alivie. E, desnorteados, é bem possível que ao nos debatermos atinjamos ainda outra cabeça ou coração e assim a coisa vai.
Nós fazemos e não sabemos parar.
Veio a chuva e ficou tudo tão desigual.
Por algum motivo inexplicável, entre o frio e os chuviscos e os dias de oito horas, através da distância e dos silêncios cheios de palavras, eu aqui, no meu quarto azul, rodeada de coisas, sigo tendo uma esperança quase infantil, em mim e - talvez até - nas pessoas. Menos uma ou duas, mas ainda em uma ou duas, porque são também elas crianças. Só que sejam e fiquem do lado de lá.
O daqui está cheio. Por enquanto.
Sem associações, sinceramente, somente aquelas da força do hábito, mas essas independem de mim e dos meus sentimentos.
Eu aqui sigo livre, esperando que dure eternamente.
Aí começa "vestido estampado". Não traz um aperto e uma tristeza e um sufoco. Vêm pensamentos, porque eu sou o cúmulo do egocentrismo e tudo que acontece no mundo, ao meu redor ou não, eu pergunto se se refere - ou poderia - a mim.
E eu tô num momento tão over que seria triste, se não fosse livre.
Tudo acabado, assim, tão final e indolorosamente que chega a assustar.
E aí eu me pergunto das coisas que eu nunca saberei, aquilo das impressões alheias sobre tudo que se relaciona a mim. Mágoas ficam pelo caminho, aos montes, como é da vida. Tristezas e penas e chateações, qualquer nome que se dê, como é da vida. Eu da minha parte não sinto vontade nem necessidade nem força para recolher cacos. Eles ficam no chão, aonde pertencem, e eu sigo meu caminho.
Mas hoje, especificamente hoje, eu penso em como as pessoas são escrotas umas com as outras. Vê-las fazendo tantas merdas quase que é desesperador, se não estivesse acabado. E a pior delas é isso da gente nunca nunca conseguir saber exatamente quando somos nós a fazê-las. É tão fácil e simples ver de fora, perceber e diagnosticar, de longe a gente sabe, mas aí quando somos nós dirigindo perdemos a noção.
Talvez o mundo pareça um lugar mais compreensível e menos cruel se a gente for lembrando disso, que tá todo mundo aqui muito perdido tentando ser feliz, o que quer que isso signifique para cada pessoa. E, na tentativa, somos cegos, como escreveu o Saramago, e vamos pisando uns nos outros, às vezes propositadamente e outras simplesmente porque não podemos ver.
Só que isso não muda nada para quem está embaixo, tendo a cabeça ou o coração esmagado. A dor dói à mesma e não há pensamento ou compaixão que alivie. E, desnorteados, é bem possível que ao nos debatermos atinjamos ainda outra cabeça ou coração e assim a coisa vai.
Nós fazemos e não sabemos parar.
Veio a chuva e ficou tudo tão desigual.
Por algum motivo inexplicável, entre o frio e os chuviscos e os dias de oito horas, através da distância e dos silêncios cheios de palavras, eu aqui, no meu quarto azul, rodeada de coisas, sigo tendo uma esperança quase infantil, em mim e - talvez até - nas pessoas. Menos uma ou duas, mas ainda em uma ou duas, porque são também elas crianças. Só que sejam e fiquem do lado de lá.
O daqui está cheio. Por enquanto.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Leve
Já há algum tempo eu penso nisso.
Vi algumas pessoas - orkut é isso, minha gente! - colocarem como lema, quem sou eu, ou sei lá o que, "viver ou morrer é o de menos, a vida inteira pode ser qualquer momento; ser feliz ou não, questão de talento". Uau, né, que profundo!
A minha dúvida, ao ver isso estampado na cara de alguém, é se a pessoa tem alguma auto-crítica. A sério. Sei lá, se pensa um pouco sobre si e o mundo, para além de se fazer auto-elogios ou querer parecer bem sem grande esforço.
Eu concordo inteiramente com a idéia, não haja dúvida sobre isso.
Mas a única pessoa feliz que eu conheço é minha sobrinha de 3,5 anos.
Vasculho minha cabeça, as lembranças, pessoas que eu vi na rua, e só penso nela. Nem eu com 3,5 anos não era feliz. Acho, ou não lembro de ser. Talvez seja essa a questão, de ver a felicidade sempre nos outros, a eterna história que me persegue e eu persigo, da grama do vizinho que, pelo menos aos meus olhos sem talento, insistem em parecer mais verde.
Não que eu seja um poço de infelicidade, mas sou, sim, uma pessoa melancólica que vez por outra tem momentos assim de uma alegria gritante que passa rápido demais. E eu ainda não aprendi a sentir isso mais vezes ou por mais tempo, não aprendi que é o pequeno que nos faz feliz, porque para mim o pequeno que me faz feliz torna-se grande, ainda que momentaneamente, e depois murcha e se esvai.
Como ver uma criança com um folha outonal na mão, andando devagar e sendo deixada para trás pela mãe que leva outro bebê num carrinho, até se voltar e esperar paciente e carinhosamente a chegada da criança e da folha (é um post maternal!) ou um velhinho pedalando, devagar mas pedalando, ou um raio de sol num dia escuro, essas coisas me trazem uma alegria que às vezes é plena, mas ainda assim intermitente. Não dura, e talvez seja essa a lição da vida, que nada dura.
Eu tinha medo desse momento, do depois, de não ter nada resolvido e sentir ainda uma dor imensa. A verdade é que não, pode ser uma anestesia ou o choque, mas agora já não dói, agora tenho esperança. Agora me sinto pronta para ver o mundo sem a venda que me tampou os olhos durante tanto tempo.
Uma vez eu disse sobre "tocando em frente" que é uma música de que gosto muito, mas que para mim é futuro, que eu esperava ser um dia uma pessoa que a pudesse cantar com sinceridade, e que no momento eu só podia esperar, e cantar algo sinceramente esperando a verdade vir um dia.
Mesma coisa.
Eu, por mim, se tivesse de citar a canção, e tenho, diria: "leve, a semente vai onde o vento leva; gente pesa. Por mais que invente, só vai onde pisa."
Vi algumas pessoas - orkut é isso, minha gente! - colocarem como lema, quem sou eu, ou sei lá o que, "viver ou morrer é o de menos, a vida inteira pode ser qualquer momento; ser feliz ou não, questão de talento". Uau, né, que profundo!
A minha dúvida, ao ver isso estampado na cara de alguém, é se a pessoa tem alguma auto-crítica. A sério. Sei lá, se pensa um pouco sobre si e o mundo, para além de se fazer auto-elogios ou querer parecer bem sem grande esforço.
Eu concordo inteiramente com a idéia, não haja dúvida sobre isso.
Mas a única pessoa feliz que eu conheço é minha sobrinha de 3,5 anos.
Vasculho minha cabeça, as lembranças, pessoas que eu vi na rua, e só penso nela. Nem eu com 3,5 anos não era feliz. Acho, ou não lembro de ser. Talvez seja essa a questão, de ver a felicidade sempre nos outros, a eterna história que me persegue e eu persigo, da grama do vizinho que, pelo menos aos meus olhos sem talento, insistem em parecer mais verde.
Não que eu seja um poço de infelicidade, mas sou, sim, uma pessoa melancólica que vez por outra tem momentos assim de uma alegria gritante que passa rápido demais. E eu ainda não aprendi a sentir isso mais vezes ou por mais tempo, não aprendi que é o pequeno que nos faz feliz, porque para mim o pequeno que me faz feliz torna-se grande, ainda que momentaneamente, e depois murcha e se esvai.
Como ver uma criança com um folha outonal na mão, andando devagar e sendo deixada para trás pela mãe que leva outro bebê num carrinho, até se voltar e esperar paciente e carinhosamente a chegada da criança e da folha (é um post maternal!) ou um velhinho pedalando, devagar mas pedalando, ou um raio de sol num dia escuro, essas coisas me trazem uma alegria que às vezes é plena, mas ainda assim intermitente. Não dura, e talvez seja essa a lição da vida, que nada dura.
Eu tinha medo desse momento, do depois, de não ter nada resolvido e sentir ainda uma dor imensa. A verdade é que não, pode ser uma anestesia ou o choque, mas agora já não dói, agora tenho esperança. Agora me sinto pronta para ver o mundo sem a venda que me tampou os olhos durante tanto tempo.
Uma vez eu disse sobre "tocando em frente" que é uma música de que gosto muito, mas que para mim é futuro, que eu esperava ser um dia uma pessoa que a pudesse cantar com sinceridade, e que no momento eu só podia esperar, e cantar algo sinceramente esperando a verdade vir um dia.
Mesma coisa.
Eu, por mim, se tivesse de citar a canção, e tenho, diria: "leve, a semente vai onde o vento leva; gente pesa. Por mais que invente, só vai onde pisa."
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Violino violão eu
Isso aconteceu antes apenas uma vez.
Na OPESP, ao som de Brahms, acho que foi quando meu pai cantarolou ao meu lado um trechinho da melodia, ao reconhecê-la, e soltou um "ah..." de surpresa e reconhecimento. Engraçado que eu não me dou tão bem assim com meu pai, não nos últimos anos em que ele insiste em me ver como criança e eu insisto em me irritar com ele pelos motivos mais imbecis, mas é fato que a 3a. se tornou para mim "A 3a." por causa do "ah..." do meu pai, que não quer que eu passe vexame.
Essa música ficou na minha mente pra sempre, escrevi sobre ela e tive a melhor resposta que já tive em toda a minha vida, e a associei com o livro que eu lia então, Em busca do tempo perdido, em que há uma melodia que perpassa toda a história, e que me fez achar que eu também tinha uma música que perpassasse a minha história e foi essa, por tanto tempo.
Uma vez, num hotel, calhou de eu ver na televisão a gravação desse concerto e se não me tocou tanto quanto o original é que reproduções não têm esse poder, mas eu saí do chão, saí de mim e eu, quando saio de mim, é com um sofrimento imenso.
Agora, quando eu achei força para deixar para trás uma coisa - ok, coisa não, né, pessoa - que eu queria muito, quis muito, achei que pudesse ter parcialmente, porque é assim que a gente tem as pessoas na vida e eu sei disso, mas eu não pude, agora.
Há uns meses apaixonei no Baden, depois ouvi o Rogério tocar e apaixonei mais, depois vi um filme com o Yamandu Costa tocando Baden e decidi ouvi-lo mais seriamente. Baixei os cds, para ouvir trabalhando, quando não posso com letras, e deixei tocando até ela chegar.
Ela chegou e me arrebatou.
E agora quando talvez eu jogue uma felicidade pelo ralo e a vida me sai dos olhos, ao mesmo tempo que me enche, e eu não sei se sinto alegria ou tristeza, e talvez sinta liberdade, que vai durar alguns minutos até minha cabeça se recuperar do choque, até voltar a pensar e me banhar com flashes imaginários de cenas imaginárias que eu não fui capaz de constatar se são reais, agora eu penso em que música ouvir - e minha decisão foi pela música, porque quando pensei "sim" não conseguia pensar em nada para ouvir, sentia tudo de que gosto maculado, e quanto pensei "não", senti que ainda poderia ouvi-las e elas seriam ainda minhas - ela vem e me toma e eu sou esse violino e esse violão.
Lida, Yamandu Costa.
Ele nunca vai saber disso e é uma mentira, mas é verdade.
Sem resposta.
Violino violão eu.
Na OPESP, ao som de Brahms, acho que foi quando meu pai cantarolou ao meu lado um trechinho da melodia, ao reconhecê-la, e soltou um "ah..." de surpresa e reconhecimento. Engraçado que eu não me dou tão bem assim com meu pai, não nos últimos anos em que ele insiste em me ver como criança e eu insisto em me irritar com ele pelos motivos mais imbecis, mas é fato que a 3a. se tornou para mim "A 3a." por causa do "ah..." do meu pai, que não quer que eu passe vexame.
Essa música ficou na minha mente pra sempre, escrevi sobre ela e tive a melhor resposta que já tive em toda a minha vida, e a associei com o livro que eu lia então, Em busca do tempo perdido, em que há uma melodia que perpassa toda a história, e que me fez achar que eu também tinha uma música que perpassasse a minha história e foi essa, por tanto tempo.
Uma vez, num hotel, calhou de eu ver na televisão a gravação desse concerto e se não me tocou tanto quanto o original é que reproduções não têm esse poder, mas eu saí do chão, saí de mim e eu, quando saio de mim, é com um sofrimento imenso.
Agora, quando eu achei força para deixar para trás uma coisa - ok, coisa não, né, pessoa - que eu queria muito, quis muito, achei que pudesse ter parcialmente, porque é assim que a gente tem as pessoas na vida e eu sei disso, mas eu não pude, agora.
Há uns meses apaixonei no Baden, depois ouvi o Rogério tocar e apaixonei mais, depois vi um filme com o Yamandu Costa tocando Baden e decidi ouvi-lo mais seriamente. Baixei os cds, para ouvir trabalhando, quando não posso com letras, e deixei tocando até ela chegar.
Ela chegou e me arrebatou.
E agora quando talvez eu jogue uma felicidade pelo ralo e a vida me sai dos olhos, ao mesmo tempo que me enche, e eu não sei se sinto alegria ou tristeza, e talvez sinta liberdade, que vai durar alguns minutos até minha cabeça se recuperar do choque, até voltar a pensar e me banhar com flashes imaginários de cenas imaginárias que eu não fui capaz de constatar se são reais, agora eu penso em que música ouvir - e minha decisão foi pela música, porque quando pensei "sim" não conseguia pensar em nada para ouvir, sentia tudo de que gosto maculado, e quanto pensei "não", senti que ainda poderia ouvi-las e elas seriam ainda minhas - ela vem e me toma e eu sou esse violino e esse violão.
Lida, Yamandu Costa.
Ele nunca vai saber disso e é uma mentira, mas é verdade.
Sem resposta.
Violino violão eu.
sábado, 29 de novembro de 2008
Deixo tudo assim
E se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz, quem então agora eu seria?
Eita, manhã doída.
Não é uma merda quando as pessoas simplesmente não são como a gente gostaria que elas fossem?
Minha senhoria, por exemplo, é uma vaca. Com todo o respeito.
Eu preferia que ela fosse, digamos, uma égua, animal que me agrada mais.
Mas se ela é uma vaca, se a vida fez dela uma vaca e se, na vida, ela optou por ser vaca, o que se pode fazer, além de dar capim e tirar leite?
As coisas como elas são.
E eu sou como sou, também, e um número seguramente alto de pessoas já deve ter dito coisas piores sobre mim. Pensando sobre se e quanto isso me incomoda, não consigo responder; acho que não me importa. Eu, como sou, tenho essa característica da idiotia.
Sou mesmo uma perfeita idiota. Vivo no meu mundo e o impacto que as pessoas têm sobre ele é também absolutamente aleatório, umas vezes é maior do que deveria, em outros as pessoas só não existem.
E ao mesmo tempo, eu sinto algum prazer em não existir em mundos paralelos, ou, como agora, preferia não existir. A migalhas.
A manhã doeu, também, pelas migalhas. E, ainda, a destiempo.
Mas tudo bem, elas vêm e vão, que se juntem à grama que a senhoria vai comer.
A sorte é que aqui o tempo passa diferente. A manhã já acaba, e começa a tarde.
Há pouco eu dizia aqui que não sobra espaço para arrependimentos. Desdigo, enquanto reafirmo.
Se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz, quem então eu seria?
Tanto faz, que o que não foi não é,
E se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado?
Se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição.
Acabou a putaria, Los Hermanos estão de volta, mais fortes do que nunca.
Eita, manhã doída.
Não é uma merda quando as pessoas simplesmente não são como a gente gostaria que elas fossem?
Minha senhoria, por exemplo, é uma vaca. Com todo o respeito.
Eu preferia que ela fosse, digamos, uma égua, animal que me agrada mais.
Mas se ela é uma vaca, se a vida fez dela uma vaca e se, na vida, ela optou por ser vaca, o que se pode fazer, além de dar capim e tirar leite?
As coisas como elas são.
E eu sou como sou, também, e um número seguramente alto de pessoas já deve ter dito coisas piores sobre mim. Pensando sobre se e quanto isso me incomoda, não consigo responder; acho que não me importa. Eu, como sou, tenho essa característica da idiotia.
Sou mesmo uma perfeita idiota. Vivo no meu mundo e o impacto que as pessoas têm sobre ele é também absolutamente aleatório, umas vezes é maior do que deveria, em outros as pessoas só não existem.
E ao mesmo tempo, eu sinto algum prazer em não existir em mundos paralelos, ou, como agora, preferia não existir. A migalhas.
A manhã doeu, também, pelas migalhas. E, ainda, a destiempo.
Mas tudo bem, elas vêm e vão, que se juntem à grama que a senhoria vai comer.
A sorte é que aqui o tempo passa diferente. A manhã já acaba, e começa a tarde.
Há pouco eu dizia aqui que não sobra espaço para arrependimentos. Desdigo, enquanto reafirmo.
Se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz, quem então eu seria?
Tanto faz, que o que não foi não é,
E se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado?
Se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição.
Acabou a putaria, Los Hermanos estão de volta, mais fortes do que nunca.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Marambaia
Um disco, LP, desses pequenos. Dentro de um livro, chamado "As casas que fugiram de casa" ou algum equivalente, três casas na capa, rosa, amarela e branca.
A história era da Casa Branca que estava muito triste, porque foi construída por um português, com azulejinhos e tal, e o dono foi embora e não voltava mais. Aí as amigas vão tentar consolá-la, mas ela fica chorando, tanto que o gato escorrega pelo telhado.
No fim das contas, pra satisfazer a Casa Branca, a Rosa e a Amarela fazem um pedido pra Iemanjá e elas se transformam casas-barco e atravessam o Atlântico.
Será que essa história tem alguma coisa a ver comigo? Incluindo as casas-barco? Eu adoraria viver em uma. Aliás, visitei uma essa semana e mesmo com a clautrofobia hipocondríaca, eu tentaria, de coração aberto.
Casinha na Marambaia.
Hoje acordei com essa música na cabeça e cantarolei algumas vezes, inclusive agorinha, quando fui escovar os dentes, até que lembrei que tenho a Bethânia e a Omara cantando. Não é o disquinho da minha infância, não tem a historinha, o livro, os desenhos, o gato, não tem no final o esquema ensinando a fazer umas casinhas de papel, com cortininha e tudo, que sempre foi meu sonho construir mas eu nunca nem tentei.
Isso de sonho não faz o menor sentido, né? Eu até ensaiei escrever um "quase nunca", ou um "às vezes", mas acho que é absoluto, mesmo. É sempre o inatingível. Talvez por isso eu nunca tenha tentado fazer as casinhas, porque não iam ficar iguais às do livro, de qualquer jeito. Do mesmo jeito que eu nunca vou comer um bolo de morango como os que a Magali comia no gibi.
Mas e aí, a gente não deveria fazer casinhas e comer bolos mesmo assim? Entender que não serão tão bons ou bonitos, mas acreditar que podem ser bons ou bonitos.
Eu não sei.
No entanto, não importa o que eu faça ou deixe de fazer, nunca vou dizer "lá na marambaia" como Bethânia ou Elis. Eu posso, apesar disso, ouvi-las agora, inclusive a Elis e a Casa Rosa, porque internet é isso.
A lua nasce por detrás da serra anunciando que acabou o dia.
Afinal a deprimida era a Rosa. Chega faz sentido, né?
A história era da Casa Branca que estava muito triste, porque foi construída por um português, com azulejinhos e tal, e o dono foi embora e não voltava mais. Aí as amigas vão tentar consolá-la, mas ela fica chorando, tanto que o gato escorrega pelo telhado.
No fim das contas, pra satisfazer a Casa Branca, a Rosa e a Amarela fazem um pedido pra Iemanjá e elas se transformam casas-barco e atravessam o Atlântico.
Será que essa história tem alguma coisa a ver comigo? Incluindo as casas-barco? Eu adoraria viver em uma. Aliás, visitei uma essa semana e mesmo com a clautrofobia hipocondríaca, eu tentaria, de coração aberto.
Casinha na Marambaia.
Hoje acordei com essa música na cabeça e cantarolei algumas vezes, inclusive agorinha, quando fui escovar os dentes, até que lembrei que tenho a Bethânia e a Omara cantando. Não é o disquinho da minha infância, não tem a historinha, o livro, os desenhos, o gato, não tem no final o esquema ensinando a fazer umas casinhas de papel, com cortininha e tudo, que sempre foi meu sonho construir mas eu nunca nem tentei.
Isso de sonho não faz o menor sentido, né? Eu até ensaiei escrever um "quase nunca", ou um "às vezes", mas acho que é absoluto, mesmo. É sempre o inatingível. Talvez por isso eu nunca tenha tentado fazer as casinhas, porque não iam ficar iguais às do livro, de qualquer jeito. Do mesmo jeito que eu nunca vou comer um bolo de morango como os que a Magali comia no gibi.
Mas e aí, a gente não deveria fazer casinhas e comer bolos mesmo assim? Entender que não serão tão bons ou bonitos, mas acreditar que podem ser bons ou bonitos.
Eu não sei.
No entanto, não importa o que eu faça ou deixe de fazer, nunca vou dizer "lá na marambaia" como Bethânia ou Elis. Eu posso, apesar disso, ouvi-las agora, inclusive a Elis e a Casa Rosa, porque internet é isso.
A lua nasce por detrás da serra anunciando que acabou o dia.
Afinal a deprimida era a Rosa. Chega faz sentido, né?
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Mudança
Sábado, eu tinha me prometido ir para Amsterdam, visitar o Museu Van Gogh e a Casa da Anne Frank. Foi o que, lendo o guia, me saltou aos olhos, e achei que era uma boa programação para um dia. Mas, pra variar, eu fiquei acordada até muito tarde na sexta e não consegui me levantar tão cedo quanto precisava.
Decidi então não ir, deixar para domingo, e encontrar uns amigos para passear aqui em Leiden, mesmo. E enquanto eu me arrumava, vencendo a preguiça de dormir mais meia hora com a expectativa de ver umas lojas de casacos no caminho, aquela música da Vanessa da Mata que eu postei há pouco tempo me veio à mente, semanas depois, e aqui eu tive que baixar - porque quando eu estava em casa isso não era necessário, já que eu a ouvia no rádio umas três vezes por dia. Baixei, fiquei meio assim, acabei de me arrumar, saí e o dia foi super bacana. Comi arroz, no jantar, e tal. Voltei cedo pra casa, pra tentar de novo dormir logo e acordar na hora.
Aí deu certo, passei o dia ontem em Amsterdam, surpreendentemente consegui fazer as duas coisas que eu tinha programado, e ainda tirar umas fotos nevadas. Sim, agora era neve de verdade, não granizo como o Bruno, meu amigo, ficou me dizendo o sábado todo.
Hoje acordei mais tarde e enrolei praticamente o dia todo, saí pra almoçar, gastei uma nota no supermercado, estava lendo longe do computador e resolvi logo fichar o artigo, vim desligar o computador, mas antes fui ver e-mail e fui pega pelo redemoinho. Horas se passaram, e eu aqui, mas eu já me prometi que hoje ainda leio uns dois artigos, pra compensar. Não que eu cumpra a minha palavra, quando ela é empenhada comigo mesma, mas é assim,a vida. Nada além de uma ilusão, como cantaria meu pai.
Mas a questão é que a música que ficou na minha cabeça hoje o dia inteirinho, que eu até assoviei quando sabia que não tinha mais ninguém em casa - eu não sei assoviar, ao menos não no ritmo nem... afinadamente - é Wind of Change, Scorpions.
Também fui ver uns acupunturistas chineses aqui da esquina de casa, e não posso deixar de me perguntar se isso tudo são sinais.
Ah, e eu experimentei, finalmente, o tal kroketten, daqui, na hora do almoço. Porque até hoje eu não achei um lugar pra comer um bife, frango grelhado ou peixe à milanesa, com arroz ou purê de batata, é sempre ovo com pão, ou sei lá o quê. E, afinal, o kroketten é bom pra caramba.
Mas nessa se foi mais uma fortuna e um dia que se acaba - porque depois das 17 horas já é noite de verdade - comigo muito mais pobre do que planejei, mas com o paladar satisfeito - porque a barriga já esvaziou faz tempo - e o assovio encoberto pelo volume, consideravelmente alto, de uma voz que diz ouvir o vento da mudança.
Decidi então não ir, deixar para domingo, e encontrar uns amigos para passear aqui em Leiden, mesmo. E enquanto eu me arrumava, vencendo a preguiça de dormir mais meia hora com a expectativa de ver umas lojas de casacos no caminho, aquela música da Vanessa da Mata que eu postei há pouco tempo me veio à mente, semanas depois, e aqui eu tive que baixar - porque quando eu estava em casa isso não era necessário, já que eu a ouvia no rádio umas três vezes por dia. Baixei, fiquei meio assim, acabei de me arrumar, saí e o dia foi super bacana. Comi arroz, no jantar, e tal. Voltei cedo pra casa, pra tentar de novo dormir logo e acordar na hora.
Aí deu certo, passei o dia ontem em Amsterdam, surpreendentemente consegui fazer as duas coisas que eu tinha programado, e ainda tirar umas fotos nevadas. Sim, agora era neve de verdade, não granizo como o Bruno, meu amigo, ficou me dizendo o sábado todo.
Hoje acordei mais tarde e enrolei praticamente o dia todo, saí pra almoçar, gastei uma nota no supermercado, estava lendo longe do computador e resolvi logo fichar o artigo, vim desligar o computador, mas antes fui ver e-mail e fui pega pelo redemoinho. Horas se passaram, e eu aqui, mas eu já me prometi que hoje ainda leio uns dois artigos, pra compensar. Não que eu cumpra a minha palavra, quando ela é empenhada comigo mesma, mas é assim,a vida. Nada além de uma ilusão, como cantaria meu pai.
Mas a questão é que a música que ficou na minha cabeça hoje o dia inteirinho, que eu até assoviei quando sabia que não tinha mais ninguém em casa - eu não sei assoviar, ao menos não no ritmo nem... afinadamente - é Wind of Change, Scorpions.
Também fui ver uns acupunturistas chineses aqui da esquina de casa, e não posso deixar de me perguntar se isso tudo são sinais.
Ah, e eu experimentei, finalmente, o tal kroketten, daqui, na hora do almoço. Porque até hoje eu não achei um lugar pra comer um bife, frango grelhado ou peixe à milanesa, com arroz ou purê de batata, é sempre ovo com pão, ou sei lá o quê. E, afinal, o kroketten é bom pra caramba.
Mas nessa se foi mais uma fortuna e um dia que se acaba - porque depois das 17 horas já é noite de verdade - comigo muito mais pobre do que planejei, mas com o paladar satisfeito - porque a barriga já esvaziou faz tempo - e o assovio encoberto pelo volume, consideravelmente alto, de uma voz que diz ouvir o vento da mudança.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Ok, acho que está nevando.
No entanto, como saber com certeza? Como é que um bicho tropical reconhece tão estranho fenômeno?
O fato é que desde ontem venta muito, durante a noite caiu uma chuva mei forte, mas o dia amanheceu bonito. No final da manhã, uma chuva fina com vento enquanto o céu estava azul.
O vento é quase horizontal, o que é muito estranho.
Agorinha estava fazendo sol, mas o sol aqui não é como no nosso inverna, que esquenta pra caramba. De novo, o vento, que não dá sossego.
Então eu estou aqui no meu quarto, arrumando a cama, separando roupa pra lavar, quando começo a ouvir um barulhinho de batidas no vidro - as janelas são só de vidro, aqui, o que, além de nos expôr aos olhos da rua, também faz com que o clima pareça muito mais presente - e vejo uma chuva quase horizontal, e depois uns floquinhos, ou bolinhas.
Tá, pode ser que isso seja só granizo, mas eu prefiro pensar que é neve.
Tentei tirar umas fotos, mas não saiu nada e já parou.
Essa semana, enquanto por um lado eu reclamava do tempo aqui não estar nada encorajador, também me dei conta de que a coisa mais diferente da minha vida normal é um inverno rigoroso. Ok, verão ou primavera seria legal, mas não seria exatamente diferente - mesmo considerando uma primavera de verdade. Mas neve, só assim, mesmo.
Agora é esperar pra ver se era mesmo e pra ver uma tempestade de verdade.
No entanto, como saber com certeza? Como é que um bicho tropical reconhece tão estranho fenômeno?
O fato é que desde ontem venta muito, durante a noite caiu uma chuva mei forte, mas o dia amanheceu bonito. No final da manhã, uma chuva fina com vento enquanto o céu estava azul.
O vento é quase horizontal, o que é muito estranho.
Agorinha estava fazendo sol, mas o sol aqui não é como no nosso inverna, que esquenta pra caramba. De novo, o vento, que não dá sossego.
Então eu estou aqui no meu quarto, arrumando a cama, separando roupa pra lavar, quando começo a ouvir um barulhinho de batidas no vidro - as janelas são só de vidro, aqui, o que, além de nos expôr aos olhos da rua, também faz com que o clima pareça muito mais presente - e vejo uma chuva quase horizontal, e depois uns floquinhos, ou bolinhas.
Tá, pode ser que isso seja só granizo, mas eu prefiro pensar que é neve.
Tentei tirar umas fotos, mas não saiu nada e já parou.
Essa semana, enquanto por um lado eu reclamava do tempo aqui não estar nada encorajador, também me dei conta de que a coisa mais diferente da minha vida normal é um inverno rigoroso. Ok, verão ou primavera seria legal, mas não seria exatamente diferente - mesmo considerando uma primavera de verdade. Mas neve, só assim, mesmo.
Agora é esperar pra ver se era mesmo e pra ver uma tempestade de verdade.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Novas tradições
Então é definitivo.
A partir desse instante, todas as vezes que eu fizer uma viagem ao exterior vou perder dinheiro.
Não só pelo câmbio ou preços elevados ou a necessidade de fazer gastos excessivos desenfreadamente. Eu quero dizer literalmente.
Ano passado, quando eu estava em Cuzco, numa noite de desespero eu saí pelas ruas e, depois de sentar pateticamente na porta de uma igreja, responder aos guardas que estava, sim, tudo bem comigo, ao voltar para o hotel percebi que tinha perdido a nota de 50 soles que eu carregava no bolso da jaqueta. Voltei para procurar e foi quando eu encontrei o que eu considero até hoje ser um anjo, que apareceu naquele dia e depois nunca mais, que me perguntou se eu tinha perdido meu "sweetheart" e quando eu digo que não exatamente, que eu procurava ali meus 50 soles, ele disse: "bem, tomara que uma pessoa que precisa bastante tenha achado". Eu às vezes me pergunto se era ele a pessoa que precisava e, sendo ou não, tudo bem. Fiquei tranquila em relação ao dinheiro, embora não quanto a todo o resto. Ou até um tanto quanto ao resto em que o anjo pôde ajudar.
Mas, numa versão muito menos romântica, a história se repetiu hoje, mais como comédia do que farsa, porque juro que é verdade. Vou tomar um café com uma conhecida holandesa, coloco no bolso uma nota de 20 euros e, depois do café, quando vem a conta, cadê a nota?
Sim, senhores, perdida para sempre. E o consolo da necessidade do sortudo que a encontrou aqui é mais duvidosa, mas ainda assim eu espero que a pessoa precisasse ou, no mínimo, faça bom proveito. Posso achar consolo na idéia de que a minha confusão fez a alegria - ainda que momentânea - de algum desconhecido, coisa até bastante romântica. Se eu tivesse pensado em escrever meu telefone ou e-mail na nota, aí a história dava um filme.
E como eu acredito piamente que não há dois sem três - fé que hoje foi maior que a no santo protetor, a quem eu pedi mas sem muito entusiasmo e que, claramente, não me atendeu - acho melhor começar a me conformar com o fato de que essa se torna, a partir de hoje, uma nova tradição na minha vida.
Eu que ontem falava em comprar um casaco por 20 euros... Mas é a vida e não se pode fazer nada. Nem lamentar muito, que eu tenho motivos mais sérios com que me martirizar, como a concentração negativa que ainda me persegue.
A partir desse instante, todas as vezes que eu fizer uma viagem ao exterior vou perder dinheiro.
Não só pelo câmbio ou preços elevados ou a necessidade de fazer gastos excessivos desenfreadamente. Eu quero dizer literalmente.
Ano passado, quando eu estava em Cuzco, numa noite de desespero eu saí pelas ruas e, depois de sentar pateticamente na porta de uma igreja, responder aos guardas que estava, sim, tudo bem comigo, ao voltar para o hotel percebi que tinha perdido a nota de 50 soles que eu carregava no bolso da jaqueta. Voltei para procurar e foi quando eu encontrei o que eu considero até hoje ser um anjo, que apareceu naquele dia e depois nunca mais, que me perguntou se eu tinha perdido meu "sweetheart" e quando eu digo que não exatamente, que eu procurava ali meus 50 soles, ele disse: "bem, tomara que uma pessoa que precisa bastante tenha achado". Eu às vezes me pergunto se era ele a pessoa que precisava e, sendo ou não, tudo bem. Fiquei tranquila em relação ao dinheiro, embora não quanto a todo o resto. Ou até um tanto quanto ao resto em que o anjo pôde ajudar.
Mas, numa versão muito menos romântica, a história se repetiu hoje, mais como comédia do que farsa, porque juro que é verdade. Vou tomar um café com uma conhecida holandesa, coloco no bolso uma nota de 20 euros e, depois do café, quando vem a conta, cadê a nota?
Sim, senhores, perdida para sempre. E o consolo da necessidade do sortudo que a encontrou aqui é mais duvidosa, mas ainda assim eu espero que a pessoa precisasse ou, no mínimo, faça bom proveito. Posso achar consolo na idéia de que a minha confusão fez a alegria - ainda que momentânea - de algum desconhecido, coisa até bastante romântica. Se eu tivesse pensado em escrever meu telefone ou e-mail na nota, aí a história dava um filme.
E como eu acredito piamente que não há dois sem três - fé que hoje foi maior que a no santo protetor, a quem eu pedi mas sem muito entusiasmo e que, claramente, não me atendeu - acho melhor começar a me conformar com o fato de que essa se torna, a partir de hoje, uma nova tradição na minha vida.
Eu que ontem falava em comprar um casaco por 20 euros... Mas é a vida e não se pode fazer nada. Nem lamentar muito, que eu tenho motivos mais sérios com que me martirizar, como a concentração negativa que ainda me persegue.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Do luxo e do lixo
Hoje o meu tarot do dia disse que eu devia investir em mim. Se eu tivesse visto antes, teria ficado menos insegura com a minha pequena extravagância.
É o seguinte: estou morando numa casa com mais três pessoas, o quarto até que é bom, mas as áreas comuns deixam a desejar. E alguém em algum dia infeliz achou que um frigobar seria suficiente para quatro estranhos morando juntos armazenarem suas guloseimas.
Ora, meus caros, não é!
Fui tentar dar um jeito no bendito, super morrendo de nojo e pensando em como fazer a coisa funcionar, até que tive uma idéia brilhante: aqui na esquina tem um tal dum árabe que vendo eletrodomésticos usados, então eu disse para mim mesma que se ele tivesse um frigobar por 50 euros eu ia lá e comprava; depois quando eu for embora revendo e boa.
Não é que o cara tinha um por 65? Dei uma chorada, assim, em mímica, porque ele não falava inglês, português nem pensar - aliás, isso de ir falando inglês com as pessoas pode ser irritante, nem tanto por eu não falar bem inglês, mas porque as pessoas parecem pensar de partida que eu sou americana ou inglesa. Mas também não vejo opção, porque de holandês eu não vou chegar nem perto e português ninguém sabe - aliás encontrei já algumas pessoas que ficaram surpresas ao saber que no Brasil se fala português e que é a mesma língua de - argh! - Portugal. Enfim, isso sempre consola, acaba com essa história de que na-Europa-tudo-é-melhor.
Mas voltando ao assunto, o cara me vendeu o frigobar por 55 euros, com direito a emprestar o carrinho para trazer até aqui. Detalhe que meu quarto é no andar de cima, então toca eu e a menina holandesa que mora embaixo, Katja - aliás bastante legal -, nos matando pra trazer o negócio por uma escada em que mal passa uma pessoa engatinhando. Mas deu tudo certo, está tudo ligado e funcionando.
Sim, eu sei que sou fresca, até muito fresca, mas sei lá. Já disse o tarot que era o momento de investir no meu bem-estar e uma coisa imbecil como uma geladeira limpa e com espaço podem realmente ajudar. E essa semana eu ainda não tinha gastado quase nada, sobrevivi a pão e queijo.
Não que eu não compre outro casaco se encontrar numa promoção a vinte euros, mas aí são outros quinhentos.
É o seguinte: estou morando numa casa com mais três pessoas, o quarto até que é bom, mas as áreas comuns deixam a desejar. E alguém em algum dia infeliz achou que um frigobar seria suficiente para quatro estranhos morando juntos armazenarem suas guloseimas.
Ora, meus caros, não é!
Fui tentar dar um jeito no bendito, super morrendo de nojo e pensando em como fazer a coisa funcionar, até que tive uma idéia brilhante: aqui na esquina tem um tal dum árabe que vendo eletrodomésticos usados, então eu disse para mim mesma que se ele tivesse um frigobar por 50 euros eu ia lá e comprava; depois quando eu for embora revendo e boa.
Não é que o cara tinha um por 65? Dei uma chorada, assim, em mímica, porque ele não falava inglês, português nem pensar - aliás, isso de ir falando inglês com as pessoas pode ser irritante, nem tanto por eu não falar bem inglês, mas porque as pessoas parecem pensar de partida que eu sou americana ou inglesa. Mas também não vejo opção, porque de holandês eu não vou chegar nem perto e português ninguém sabe - aliás encontrei já algumas pessoas que ficaram surpresas ao saber que no Brasil se fala português e que é a mesma língua de - argh! - Portugal. Enfim, isso sempre consola, acaba com essa história de que na-Europa-tudo-é-melhor.
Mas voltando ao assunto, o cara me vendeu o frigobar por 55 euros, com direito a emprestar o carrinho para trazer até aqui. Detalhe que meu quarto é no andar de cima, então toca eu e a menina holandesa que mora embaixo, Katja - aliás bastante legal -, nos matando pra trazer o negócio por uma escada em que mal passa uma pessoa engatinhando. Mas deu tudo certo, está tudo ligado e funcionando.
Sim, eu sei que sou fresca, até muito fresca, mas sei lá. Já disse o tarot que era o momento de investir no meu bem-estar e uma coisa imbecil como uma geladeira limpa e com espaço podem realmente ajudar. E essa semana eu ainda não tinha gastado quase nada, sobrevivi a pão e queijo.
Não que eu não compre outro casaco se encontrar numa promoção a vinte euros, mas aí são outros quinhentos.
domingo, 9 de novembro de 2008
Resposta
Eu pensava sobre isso mais cedo.
Acho que a diferença entre estar num lugar conhecido e num desconhecido não é assim tão grande como as pessoas pensam.
Acho que eu não me sinto mais - nem menos - solitária aqui do que me sentia antes, em casa, porque eu estou sempre, irremediavelmente acompanhada da minha solidão, que não me deixa nunca, não importa onde eu esteja, e essa companhia tão presente também é absolutamente pressentida, e sentida e vivida, diariamente, não importa onde eu esteja.
Acho que quando a gente está longe, a perda das referências que costumam nos definir, perante nós e o mundo, nos deixam um pouco mais livres para perceber isso. Porque eu não saí esperando ser diferente, saí esperando continuar a ser exatamente a mesma pessoa que sou e não sou todos os dias, então continuo em casa.
Acho que principalmente o fato de desconhecer totalmente a língua que me rodeia e não envolve, porque não me pega, não me fisga, acho que isso é que muda alguma coisa. Porque estamos muito acostumados a ouvir o que vem de fora, e não reconhecer quaisquer sons que nos rodeiam, não nos fisgam, desde as palavras de casais de namorados, ou grupos de amigos, ou crianças de dois anos que perseguem irmãs mais velhas num restaurante com um brinquedo na mão, ou sinos de bicicletas, não reconhecer os sons que nos rodeiam apesar de reconhecer as cenas, isso te coloca num estado diferente. Como uma anestesia, talvez uma apatia, ou talvez esse silêncio cheio de sons incompreensíveis e, talvez por isso, menos sons, talvez toda essa atmosfera simplesmente case com um estado interior já existente, ou crie um estado em que as coisas já não fazem barulho.
Acho que é assim que eu me sinto, sem barulho.
Acho que a diferença entre estar num lugar conhecido e num desconhecido não é assim tão grande como as pessoas pensam.
Acho que eu não me sinto mais - nem menos - solitária aqui do que me sentia antes, em casa, porque eu estou sempre, irremediavelmente acompanhada da minha solidão, que não me deixa nunca, não importa onde eu esteja, e essa companhia tão presente também é absolutamente pressentida, e sentida e vivida, diariamente, não importa onde eu esteja.
Acho que quando a gente está longe, a perda das referências que costumam nos definir, perante nós e o mundo, nos deixam um pouco mais livres para perceber isso. Porque eu não saí esperando ser diferente, saí esperando continuar a ser exatamente a mesma pessoa que sou e não sou todos os dias, então continuo em casa.
Acho que principalmente o fato de desconhecer totalmente a língua que me rodeia e não envolve, porque não me pega, não me fisga, acho que isso é que muda alguma coisa. Porque estamos muito acostumados a ouvir o que vem de fora, e não reconhecer quaisquer sons que nos rodeiam, não nos fisgam, desde as palavras de casais de namorados, ou grupos de amigos, ou crianças de dois anos que perseguem irmãs mais velhas num restaurante com um brinquedo na mão, ou sinos de bicicletas, não reconhecer os sons que nos rodeiam apesar de reconhecer as cenas, isso te coloca num estado diferente. Como uma anestesia, talvez uma apatia, ou talvez esse silêncio cheio de sons incompreensíveis e, talvez por isso, menos sons, talvez toda essa atmosfera simplesmente case com um estado interior já existente, ou crie um estado em que as coisas já não fazem barulho.
Acho que é assim que eu me sinto, sem barulho.
O homem que respirava
Ontem à noite, já noite adentro, voltando para casa, tinha um homem deitado num banco, dormindo.
O banco é diferente, não de rua, mas algumas casas tem alguns embaixo da janela, às vezes até com mesa; aqui mesmo na rua tem um com cinzeiros que dizem "Côte d'Azur", e eu me pego imaginando o que é e, se eu fumasse, ou andasse com alguém que fuma, o que aconteceria se simplesmente nos sentássemos no banco, debaixo da janela de alguém, e usássemos o cinzeiro que está em cima da mesa.
Mas o homem, ontem à noite, dormia, com o casaco aberto e a noite gelada. Ele não cabia inteiramente no banco, então estava com um joelho sobre o braço e a outra perna apoiada no chão, a boca aberta e um sono tranquilo. Primeiro passei reto, em seguida parei e voltei, para tentar descobrir se ele respirava. Nunca mais, depois que uma tia me contou que quando era moça não dormia bem pensando se os irmãos ainda estavam respirando e se levantava periodicamente para checar, nunca mais eu me livrei desse medo de se parar de respirar dormindo. E o homem dormia e, após algum tempo de observação atenta pude checar, respirava. No banco, debaixo da janela, na noite gelada.
As vidas - e as noites - das pessoas às vezes são mesmo um total mistério.
O banco é diferente, não de rua, mas algumas casas tem alguns embaixo da janela, às vezes até com mesa; aqui mesmo na rua tem um com cinzeiros que dizem "Côte d'Azur", e eu me pego imaginando o que é e, se eu fumasse, ou andasse com alguém que fuma, o que aconteceria se simplesmente nos sentássemos no banco, debaixo da janela de alguém, e usássemos o cinzeiro que está em cima da mesa.
Mas o homem, ontem à noite, dormia, com o casaco aberto e a noite gelada. Ele não cabia inteiramente no banco, então estava com um joelho sobre o braço e a outra perna apoiada no chão, a boca aberta e um sono tranquilo. Primeiro passei reto, em seguida parei e voltei, para tentar descobrir se ele respirava. Nunca mais, depois que uma tia me contou que quando era moça não dormia bem pensando se os irmãos ainda estavam respirando e se levantava periodicamente para checar, nunca mais eu me livrei desse medo de se parar de respirar dormindo. E o homem dormia e, após algum tempo de observação atenta pude checar, respirava. No banco, debaixo da janela, na noite gelada.
As vidas - e as noites - das pessoas às vezes são mesmo um total mistério.
Outono

Outono onde ele existe.
Como se as coisas pudessem existir onde elas não existem, né?
O mais estranho é que podem.
Bem, tirei hoje essa foto, na rua do supermercado, Albert Heins, a única coisa que eu sei dizer em holandês, porque não é tão difícil.
Vale observar, porque depois eu vou me esquecer, que eu parei despreocupadamente na calçada para tirar a foto, até que quase fui atropelada por uma bicicleta. Afinal, eu não estava na calçada e sim na ciclovia, e o ciclista bateu o sininho pra mim mas, acostumada com buzinas, eu obviamente nem percebi, até que ele passou olhando feio. Já disse pra mim mesma que para o meu próprio bem eu tenho que me acostumar com o sininho, mas até agora nada.
Afinal de contas é isso a vida, né? A gente se acostumar com as coisas enquanto a gente não muda nem elas mudam, e depois lutar de novo pra acostumar com outras coisas e assim por diante.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
O paraíso dos voyeurs
Qualquer pessoa que já andou comigo pelas ruas sabe que eu tenho uma fixação por janelas. Nada doentio, acho, mas eu gosto muito de ver esse pedacinho da vida das pessoas que transparece através dos vidros, com uma luz e um recorte diferentes do que se vê pelo lado de dentro.
Quando eu estive no Rio, da última vez, tinha um apartamento, na rua do hotel, cuja janela deixava ver o topo de uma biblioteca. Era mais um armário que cobria a parede de uma porta, e todas as vezes que eu passava por ali ficava olhando.
Já falei muito sobre isso, e mesmo falando é difícil de superar, essa idéia de como a vida das pessoas parece interessante vista de fora.
Enfim, a questão é que essa cidade - não sei ainda o país, mas imagino que seja o mesmo - é uma loucura: praticamente todas as casas têm grandes janelas na altura da rua, sem persianas, no máximo uma cortininha que não esconde nada, ou nem isso. Então você anda pela rua com total acesso às casas das pessoas, salas, cozinhas, escritórios. Na primeira noite, em uma rua aqui perto, em duas casas vizinhas, velhinhos assistindo televisão. Hoje, já na minha rua, uma vidraça adesivada de "happy birthday" e dois menininhos correndo de cueca pela sala. Deviam ser gêmeos, eu fiquei na dúvida se era um só ou dois, até que um veio em direção à janela fazer não sei o quê. Qualquer hora eu penso sobre o que isso significa, essa exposição quase despudorada, se é apenas um sinal da supereducação das pessoas, que não se permitem invadir a privacidade alheia, ou o quê. Ou talvez não haja um motivo, ou talvez não importe, e talvez eu não pense.
De todo modo a tentação persiste, o contraste entre o frio cinza da rua e o interior quente atraem esses olhos, ainda que discretamente.
Por quanto tempo, será?
Quando eu estive no Rio, da última vez, tinha um apartamento, na rua do hotel, cuja janela deixava ver o topo de uma biblioteca. Era mais um armário que cobria a parede de uma porta, e todas as vezes que eu passava por ali ficava olhando.
Já falei muito sobre isso, e mesmo falando é difícil de superar, essa idéia de como a vida das pessoas parece interessante vista de fora.
Enfim, a questão é que essa cidade - não sei ainda o país, mas imagino que seja o mesmo - é uma loucura: praticamente todas as casas têm grandes janelas na altura da rua, sem persianas, no máximo uma cortininha que não esconde nada, ou nem isso. Então você anda pela rua com total acesso às casas das pessoas, salas, cozinhas, escritórios. Na primeira noite, em uma rua aqui perto, em duas casas vizinhas, velhinhos assistindo televisão. Hoje, já na minha rua, uma vidraça adesivada de "happy birthday" e dois menininhos correndo de cueca pela sala. Deviam ser gêmeos, eu fiquei na dúvida se era um só ou dois, até que um veio em direção à janela fazer não sei o quê. Qualquer hora eu penso sobre o que isso significa, essa exposição quase despudorada, se é apenas um sinal da supereducação das pessoas, que não se permitem invadir a privacidade alheia, ou o quê. Ou talvez não haja um motivo, ou talvez não importe, e talvez eu não pense.
De todo modo a tentação persiste, o contraste entre o frio cinza da rua e o interior quente atraem esses olhos, ainda que discretamente.
Por quanto tempo, será?
Querido diário
Acho que não vai ter jeito.
Eu não gosto muito de blogs "querido diário", mas acho que esse está prestes a se tornar um. Ou quase um. Eu que não sou muito de contar coisas me vejo agora obrigada, pelos inesperados rumos que as coisas tomam na vida, a vir aqui, contar coisas.
Agora é uma hora da tarde, e eu ainda não fiz nada. Tirei a manhã para descansar um pouco, mas, tonta que sou, coloquei o despertador para 9:30 e desde então estou dormindo e acordando regularmente, mas tudo bem. Da próxima vez eu não faço isso.
Tinha combinado comigo hoje de passar aspirador no quarto, inclusive nas cortinas e almofadas, mas a preguiça foi maior, então fica para mais tarde, ou amanhã.
Eu ontem, ou anteontem, queria contar como foi a viagem. Claro que um clássico "Família Pinto", com direito a irmã que não chega, sobrinha que não acorda, saída atrasada, discussão sobre comprar ou não um lanche para irmã-que-passa-mal-se-não-comer, etc. Mas fui eu quem quis ser levada ao aeroporto pela trupe toda, então não tenho direito a reclamar.
Pulemos a parte das despedidas.
Os vôos foram melhores do que eu poderia esperar; agradeço à Deborah pelos treinos feitos há alguns meses, que se não aniquilaram meu medo de voar, me deixaram mais acostumada, a ponto de não achar que uma curva é uma queda e saber que barulhos estranhos são normais e o avião não está parando. O problema é o meu tamanho, incompatível com as poltronas. Isso porque vim com um assento vago ao meu lado. Quando entrei no avião, pela frente, vi umas poltronas bonitonas e pensei com meus botões "aaah, isso é que é avião!". Ledo engano, inocente criança. "Isso sim que é classe executiva!".
A imigração foi imbecil, passei em Frankfurt e estava tão passada que nem me preocupei, quase saí pelo lado errado, e tive de correr para não perder a conexão. No segundo vôo, vim ao lado de um espanhol que mora em Munique, e nós demos muita risada quando ele disse que praticou capoeira por um tempo e eu contei que faço aulas de dança flamenca. Vai, é inusitado...
O frio não está insuportável, meu aquecedor não chega exatamente a aquecer, tanto quanto não-esfria, mas vai melhorar. Ontem eu andei por horas, moro a 5 minutos do calçadão da cidade e imagino o que essa informação faria com os corações (e bolsos!) de algumas pessoas.
Mas é isso, um primeiro sinal de Leiden. Holanda. Onde eu estou.
Eu não gosto muito de blogs "querido diário", mas acho que esse está prestes a se tornar um. Ou quase um. Eu que não sou muito de contar coisas me vejo agora obrigada, pelos inesperados rumos que as coisas tomam na vida, a vir aqui, contar coisas.
Agora é uma hora da tarde, e eu ainda não fiz nada. Tirei a manhã para descansar um pouco, mas, tonta que sou, coloquei o despertador para 9:30 e desde então estou dormindo e acordando regularmente, mas tudo bem. Da próxima vez eu não faço isso.
Tinha combinado comigo hoje de passar aspirador no quarto, inclusive nas cortinas e almofadas, mas a preguiça foi maior, então fica para mais tarde, ou amanhã.
Eu ontem, ou anteontem, queria contar como foi a viagem. Claro que um clássico "Família Pinto", com direito a irmã que não chega, sobrinha que não acorda, saída atrasada, discussão sobre comprar ou não um lanche para irmã-que-passa-mal-se-não-comer, etc. Mas fui eu quem quis ser levada ao aeroporto pela trupe toda, então não tenho direito a reclamar.
Pulemos a parte das despedidas.
Os vôos foram melhores do que eu poderia esperar; agradeço à Deborah pelos treinos feitos há alguns meses, que se não aniquilaram meu medo de voar, me deixaram mais acostumada, a ponto de não achar que uma curva é uma queda e saber que barulhos estranhos são normais e o avião não está parando. O problema é o meu tamanho, incompatível com as poltronas. Isso porque vim com um assento vago ao meu lado. Quando entrei no avião, pela frente, vi umas poltronas bonitonas e pensei com meus botões "aaah, isso é que é avião!". Ledo engano, inocente criança. "Isso sim que é classe executiva!".
A imigração foi imbecil, passei em Frankfurt e estava tão passada que nem me preocupei, quase saí pelo lado errado, e tive de correr para não perder a conexão. No segundo vôo, vim ao lado de um espanhol que mora em Munique, e nós demos muita risada quando ele disse que praticou capoeira por um tempo e eu contei que faço aulas de dança flamenca. Vai, é inusitado...
O frio não está insuportável, meu aquecedor não chega exatamente a aquecer, tanto quanto não-esfria, mas vai melhorar. Ontem eu andei por horas, moro a 5 minutos do calçadão da cidade e imagino o que essa informação faria com os corações (e bolsos!) de algumas pessoas.
Mas é isso, um primeiro sinal de Leiden. Holanda. Onde eu estou.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
De calo e tempo
Eu tinha escrito no msn que tenho um calo de estimação, isso já há alguns dias, que ele parece gente e quando chega um tempo frio ele faz um tempo quente. Aí achei que talvez pegasse mal, não sei, nunca vi ninguém falando de calo no msn.
Depois, enquanto eu rolava na cama sem conseguir dormir nem ler nem fazer nada, nem pensar, pensei (sim, eu percebo a contradição e a sustento) na música e no meu pé que deveria estar cicatrizado e continua dolorido e preto. Não inteiro, mas enfim. Talvez essa seja uma noite escatológica.
Juntando isso e todo o resto - ah, o resto... - afinal me perguntei se chegará um dia o dia (afe, que a repetição entrou por essa porta!) em que as cicatrizes não vão doer quando vira o tempo.
Sabem como é, tudo muito bom, tudo muito bem, até que de repente o céu vira e não chega uma nova estação, já que essas são constantes, longas e determinadas, ao menos em teoria, mas vem uma frente fria, uma massa de ar não-sei-o-quê que consegue, com sua transitoriedade, virar o tempo.
E será que, em algum momento, o calo pode deixar de querer ser gente e aceitar ser só um calo, que não reage às coisas que acontecem - ou muitas vezes não acontecem - à nossa volta?
Isso das coisas que vão e ficam. Vão ficando e ficam indo.
Mas eu não ando com paciência para paradoxos*.
Nem posso dizer que isso são divagações ébrias, porque eu tenho andado assustadoramente sóbria.
À exceção de ontem à noite, mas eu não me lembro direito.
* Ok, colocando em risco a minha boa (?) reputação; antes de mais nada digo em minha defesa que hoje passei algumas hor... cof, cof, alg... bem, algum tempo lendo manuscritos do século XIX e que esses caras nos colocam completamente doidos sem saber mais escrever, e com essa história de acordo ortográfico... ok, não acordo ortográfico, que aí seria desculpa ainda mais furada, já que eu primo por não tomar conhecimento do bendito, mas: eu tinha que deixar registrado que quando fui escrever essa frase, que não ando com paciências, originalmente o que me impacientava eram os paradóxicos. Assim, mesmo, com acentinho e tudo. Tive, salve, salve, o bom senso de perceber o equívoco, mas como eu hoje estou em contato com meu lado negro, decidi por expô-lo aqui, quem sabe em busca de redenção.
Depois, enquanto eu rolava na cama sem conseguir dormir nem ler nem fazer nada, nem pensar, pensei (sim, eu percebo a contradição e a sustento) na música e no meu pé que deveria estar cicatrizado e continua dolorido e preto. Não inteiro, mas enfim. Talvez essa seja uma noite escatológica.
Juntando isso e todo o resto - ah, o resto... - afinal me perguntei se chegará um dia o dia (afe, que a repetição entrou por essa porta!) em que as cicatrizes não vão doer quando vira o tempo.
Sabem como é, tudo muito bom, tudo muito bem, até que de repente o céu vira e não chega uma nova estação, já que essas são constantes, longas e determinadas, ao menos em teoria, mas vem uma frente fria, uma massa de ar não-sei-o-quê que consegue, com sua transitoriedade, virar o tempo.
E será que, em algum momento, o calo pode deixar de querer ser gente e aceitar ser só um calo, que não reage às coisas que acontecem - ou muitas vezes não acontecem - à nossa volta?
Isso das coisas que vão e ficam. Vão ficando e ficam indo.
Mas eu não ando com paciência para paradoxos*.
Nem posso dizer que isso são divagações ébrias, porque eu tenho andado assustadoramente sóbria.
À exceção de ontem à noite, mas eu não me lembro direito.
* Ok, colocando em risco a minha boa (?) reputação; antes de mais nada digo em minha defesa que hoje passei algumas hor... cof, cof, alg... bem, algum tempo lendo manuscritos do século XIX e que esses caras nos colocam completamente doidos sem saber mais escrever, e com essa história de acordo ortográfico... ok, não acordo ortográfico, que aí seria desculpa ainda mais furada, já que eu primo por não tomar conhecimento do bendito, mas: eu tinha que deixar registrado que quando fui escrever essa frase, que não ando com paciências, originalmente o que me impacientava eram os paradóxicos. Assim, mesmo, com acentinho e tudo. Tive, salve, salve, o bom senso de perceber o equívoco, mas como eu hoje estou em contato com meu lado negro, decidi por expô-lo aqui, quem sabe em busca de redenção.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Da série "alguém me explica??"
A sério, um cara tocando pires com faca!
Correndo o risco de parecer repetitiva e neurótica, mas eu precisava muito que alguém me explicasse essa...
Correndo o risco de parecer repetitiva e neurótica, mas eu precisava muito que alguém me explicasse essa...
domingo, 12 de outubro de 2008
Observação
A vantagem de não se fazer muitas coisas na vida é que se adquire o hábito - e se tem o tempo - de pensar sobre elas, tanto que não sobra espaço para arrependimentos.
sábado, 11 de outubro de 2008
Brasileirinho
Sábado à noite. Como tem acontecido nos últimos tempos, não tenho vontade nem oportunidade de me deslocar da minha casa para um programa descolado. Às vezes, como hoje, eu acho que deveria ter, ao mesmo tempo em que me pergunto por quê. Eu tomo muito cuidado com os motivos que nos levam a fazer as coisas; sair porque quer, aproveitar a vida, a noite, as pessoas, acho ótimo; aquela coisa de sair pra poder dizer pra alguém - mesmo que seja para nós mesmos - que fizemos alguma coisa descolada e que, portanto, somos legais, amados, aceitos, etc., acho o fim. Então, por esses e outros motivos, sábado à noite, eu em casa, pra variar sem grandes obrigações a cumprir, fiquei assistindo televisão e viajando pela internet, arrumando o ninho para me abrigar em tempos futuros. Séries e músicas, estocados aos montes.
Assim, calhou de ver um filme/documentário chamado "Brasileirinho", sobre chorinho.
Tantas e tantas referências, uma delas um aniversário de uma amiga querida, em que os ditos amigos dela não se conformavam por ser essa a música que tocava no bar. Acharam engraçado.
Eu digo frequentemente que sou má e é nesses momentos que minha maldade vem à tona. Confesso que sinto algum prazer em ver as pessoas sendo estúpidas. Aquela velha história da gente se sentir melhor em comparação. Que pode ser uma grande merda, mas tem momentos, como esse, em que acho até justo.
E a Teresa Cristina. Mesmo sorriso e mesmo dançar.
Alguma coisa ali me emocionou muito, as músicas e os músicos. Contar uma história e parar com os olhos cheios de lágrimas, e a gente não sabe se sente uma dor ou uma alegria, se tristeza pelo que passou, mas plenitude pelo que foi. O filme acaba com duas crianças, uns sete anos, dançando numa praia, ao pôr-do-sol.
Não sei se eu fico alegre ou triste, por mim ou por quem. Às vezes as coisas bastam, e eu não sei se isso é triste ou alegre. Adridoce, talvez, e bastante.
Eu tinha pensado em comentar como o filme é produzido na Finlândia, em como isso é engraçado, inusitado, e como parece ser necessário esse olhar de fora para apreciar uma coisa de dentro. Ok, muita gente de dentro aprecia, mas eu conheço meia dúzia de imbecis que acham engraçado, no sentido mais depreciativo da palavra.
Mas agora falta energia e vontade para discutir o assunto. Basta anunciá-lo.
Incrível como a vida fica mais simples quando a gente decide escolher as coisas nas quais vale a pena gastar energia.
Tantas não valem, e tantas bastam...
Assim, calhou de ver um filme/documentário chamado "Brasileirinho", sobre chorinho.
Tantas e tantas referências, uma delas um aniversário de uma amiga querida, em que os ditos amigos dela não se conformavam por ser essa a música que tocava no bar. Acharam engraçado.
Eu digo frequentemente que sou má e é nesses momentos que minha maldade vem à tona. Confesso que sinto algum prazer em ver as pessoas sendo estúpidas. Aquela velha história da gente se sentir melhor em comparação. Que pode ser uma grande merda, mas tem momentos, como esse, em que acho até justo.
E a Teresa Cristina. Mesmo sorriso e mesmo dançar.
Alguma coisa ali me emocionou muito, as músicas e os músicos. Contar uma história e parar com os olhos cheios de lágrimas, e a gente não sabe se sente uma dor ou uma alegria, se tristeza pelo que passou, mas plenitude pelo que foi. O filme acaba com duas crianças, uns sete anos, dançando numa praia, ao pôr-do-sol.
Não sei se eu fico alegre ou triste, por mim ou por quem. Às vezes as coisas bastam, e eu não sei se isso é triste ou alegre. Adridoce, talvez, e bastante.
Eu tinha pensado em comentar como o filme é produzido na Finlândia, em como isso é engraçado, inusitado, e como parece ser necessário esse olhar de fora para apreciar uma coisa de dentro. Ok, muita gente de dentro aprecia, mas eu conheço meia dúzia de imbecis que acham engraçado, no sentido mais depreciativo da palavra.
Mas agora falta energia e vontade para discutir o assunto. Basta anunciá-lo.
Incrível como a vida fica mais simples quando a gente decide escolher as coisas nas quais vale a pena gastar energia.
Tantas não valem, e tantas bastam...
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
:)
Os viajantes, os navegantes,
Os caminhantes, os errantes,
Por que tanto antes?
Se estes são atores da busca do depois?
Não em ode à memória
Mas como não trazer o antes gravado na pele?
Antes mundo, depois fractal
Hoje amantes
Amanhã também.
Roubei descaradamente. Daniel, se um dia você descobrir, espero que me perdoe. Se não descobrir, não precisa!
Os caminhantes, os errantes,
Por que tanto antes?
Se estes são atores da busca do depois?
Não em ode à memória
Mas como não trazer o antes gravado na pele?
Antes mundo, depois fractal
Hoje amantes
Amanhã também.
Roubei descaradamente. Daniel, se um dia você descobrir, espero que me perdoe. Se não descobrir, não precisa!
Polysé ou blasianna?
Eu perdi a habilidade de dormir até tarde.
Claro, talvez seja uma fase, mas é fato que já há muitas semanas eu não fico acordada até de madrugada e madrugo todos os dias - nem que seja pra tirar um cochilo imediatamente depois, mas muitas vezes também não.
Ontem eu terminei um trabalho e quis me dar de presente umas horas a mais na noite. Fiquei assistindo um filme, querendo que ele terminasse para ir dormir. Quem diria?? Pode ser a perspectiva de viajar, eu lembro que quando eu fui pra Fortaleza fiquei assim, não conseguia dormir muito por causa do tanto de coisas que eu tinha que fazer antes de ir, era época de greve e eu fui a única imbecil que fez trabalhos extra por causa disso, sendo que quando eu voltei a greve não tinha terminado. Ainda se minha memória fosse decente, eu poderia me conformar que aprendi alguma coisa com a experiência.
De qualquer forma, eu acordei hoje, sem aquela sensação de pesadelo dos últimos dias, e nem estou me sentindo mal, mas estou com um aperto no peito. Meio dor, mesmo, sei lá. O mais estranho é que eu me sinto tranquila.
Já começo a ter saudades.
Sim, mas o que eu vim dizer é que é bom demais quando, vez por outra, a gente se sente reconhecido nessa vida. Ainda que o reconhecimento não seja assim tão grande, dá um alívio saber que de vez em quando a gente acerta.
Eu, há quase exatamente uma semana, tive a percepção clara daquela visão Polyanna de que as coisas que nos acontecem são sempre o melhor. Também sei que, sendo elas apenas boas, é fácil pensar que são melhor, porque não tem como comparar com o bom que ia pelo outro caminho.
Será que se eu for Polyanna vou ter de deixar de ser blasé? Acho que não, né? Eu sempre posso optar pelo que não faz sentido.
Hoje vou fazer compras!
Claro, talvez seja uma fase, mas é fato que já há muitas semanas eu não fico acordada até de madrugada e madrugo todos os dias - nem que seja pra tirar um cochilo imediatamente depois, mas muitas vezes também não.
Ontem eu terminei um trabalho e quis me dar de presente umas horas a mais na noite. Fiquei assistindo um filme, querendo que ele terminasse para ir dormir. Quem diria?? Pode ser a perspectiva de viajar, eu lembro que quando eu fui pra Fortaleza fiquei assim, não conseguia dormir muito por causa do tanto de coisas que eu tinha que fazer antes de ir, era época de greve e eu fui a única imbecil que fez trabalhos extra por causa disso, sendo que quando eu voltei a greve não tinha terminado. Ainda se minha memória fosse decente, eu poderia me conformar que aprendi alguma coisa com a experiência.
De qualquer forma, eu acordei hoje, sem aquela sensação de pesadelo dos últimos dias, e nem estou me sentindo mal, mas estou com um aperto no peito. Meio dor, mesmo, sei lá. O mais estranho é que eu me sinto tranquila.
Já começo a ter saudades.
Sim, mas o que eu vim dizer é que é bom demais quando, vez por outra, a gente se sente reconhecido nessa vida. Ainda que o reconhecimento não seja assim tão grande, dá um alívio saber que de vez em quando a gente acerta.
Eu, há quase exatamente uma semana, tive a percepção clara daquela visão Polyanna de que as coisas que nos acontecem são sempre o melhor. Também sei que, sendo elas apenas boas, é fácil pensar que são melhor, porque não tem como comparar com o bom que ia pelo outro caminho.
Será que se eu for Polyanna vou ter de deixar de ser blasé? Acho que não, né? Eu sempre posso optar pelo que não faz sentido.
Hoje vou fazer compras!
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Poema
Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim
De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás
Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim
De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Epifania
Tem momentos na vida em que eu realmente gosto de mim.
Por motivos melhores ou piores, mas porque eu tenho um blog e ele se chama "errar sem fim".
Errar sem fim.
Errar sem fim.
Por motivos melhores ou piores, mas porque eu tenho um blog e ele se chama "errar sem fim".
Errar sem fim.
Errar sem fim.
Visitas
Vinícius, né, era quem cantava que a tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste, não?
Eu continuo com o impulso de dizer que minha vida, nos últimos minutos, horas, dias, meses, tem sido uma loucura de altos e baixos e certezas e dúvidas e amores e desamores, e continuo com o impulso de me perguntar se é mesmo verdade.
Porque a vida inteira é um alto e baixo de quereres e partidas e chegadas e alegrias e tristezas e sempre a esperança de, um dia, não ser mais triste, não.
O que eu aprendi, nos últimos meses, é que impulso é isso mesmo, não passa de um impulso, que pode até ir, mas não continua. Impulso é aquilo que a gente toma antes de pular ou correr. Não é correr nem pular. Apesar disso, é mola, que fica sempre querendo achar um outro lugar onde nos jogar. Mas eu, agora, sou mola, que me estico e alcanço o intangível, mas volto, depois de balangar um tantinho.
E ainda assim sinto falta de um tempo que não foi, de vir dizer que minha garganta aperta e liberá-la, aos borrões e borbotões, de ter a ilusão de que alguém vê e se importa.
Mas aprendi, também, que ilusões são só isso. Ilusões.
Será isso crescer?
Será crescer sentir uma tristeza grande chegando e passando ao largo?
Será ter esperança?
Eu continuo com o impulso de dizer que minha vida, nos últimos minutos, horas, dias, meses, tem sido uma loucura de altos e baixos e certezas e dúvidas e amores e desamores, e continuo com o impulso de me perguntar se é mesmo verdade.
Porque a vida inteira é um alto e baixo de quereres e partidas e chegadas e alegrias e tristezas e sempre a esperança de, um dia, não ser mais triste, não.
O que eu aprendi, nos últimos meses, é que impulso é isso mesmo, não passa de um impulso, que pode até ir, mas não continua. Impulso é aquilo que a gente toma antes de pular ou correr. Não é correr nem pular. Apesar disso, é mola, que fica sempre querendo achar um outro lugar onde nos jogar. Mas eu, agora, sou mola, que me estico e alcanço o intangível, mas volto, depois de balangar um tantinho.
E ainda assim sinto falta de um tempo que não foi, de vir dizer que minha garganta aperta e liberá-la, aos borrões e borbotões, de ter a ilusão de que alguém vê e se importa.
Mas aprendi, também, que ilusões são só isso. Ilusões.
Será isso crescer?
Será crescer sentir uma tristeza grande chegando e passando ao largo?
Será ter esperança?
domingo, 5 de outubro de 2008
Santo Google
Eu até podia dizer que hoje foi o dia em que eu quase fui despojada de uma pequena fortuna, que uma desconfiança inata me alertou e Santo Google me salvou. Hoje poderia ser o dia em que este santo, Google, substituiu o outro, meu amado Longuinho, como santo de devoção. Hoje podia ser o dia em que eu terminei meu relatório, terminei de ler meu livro, terminei de pensar besteiras, de ser irritadiça.
Podia ser tanta coisa, mas já nem é mais domingo, e o que vale é o que é.
Podia ser tanta coisa, mas já nem é mais domingo, e o que vale é o que é.
Becoming Jane
Becoming Jane.
Não tem jeito, eu sou ainda muito mulherzinha e, pior, ainda adolescente romântica.
Me consola saber que não sou a única mas não o fato de eu às vezes parar aí.
Eu adoro, adoro, adoro a Jane Austen. Confesso que cheguei a ela através da Meg Ryan, cujo personagem uma vez disse que Orgulho e Preconceito era o livro favorito dela. Desde então já li a minha cota, nada desprezível.
Ontem assisti a um filme sobre ela. Claro que muito romantizado, focado exclusivamente na sua vida amorosa, mas sei lá. Deu aquela tristeza, de perceber como não temos mesmo controle sobre a vida, e querer que as coisas sejam diferentes não as torna diferentes. E se o que nos acontece é sempre melhor, se escolhermos ver a vida assim, não dá pra imaginar o que seria a vida dela se as coisas tivessem dado certo. Talvez ela fosse uma mulher, mulherzinha?, mais feliz, e talvez não nos tivesse apresentado a Lizzie. E se, afinal, tiver dado tudo certo?
Isso de escolher caminhos é complicado.
Eu por enquanto tento ser escolhida por um teto e não por um pilantra, pra depois escolher o que fazer.
Aliás, acho que eu ainda não registrei aqui: vou viajar. Agora, agorinha. Um tanto inesperadamente, muito por uma vontade ferrenha e meio maluca.
Não sei por que caminhos eu vou, sei que vou. Dois de novembro.
Quando chegarem encruzilhadas, talvez eu escolha, talvez jogue uma moeda. Até lá, avante.
Eu vou ver um horizonte distante.
UPDATE: até agora, Pilantra 1 x 0 Teto.
Não tem jeito, eu sou ainda muito mulherzinha e, pior, ainda adolescente romântica.
Me consola saber que não sou a única mas não o fato de eu às vezes parar aí.
Eu adoro, adoro, adoro a Jane Austen. Confesso que cheguei a ela através da Meg Ryan, cujo personagem uma vez disse que Orgulho e Preconceito era o livro favorito dela. Desde então já li a minha cota, nada desprezível.
Ontem assisti a um filme sobre ela. Claro que muito romantizado, focado exclusivamente na sua vida amorosa, mas sei lá. Deu aquela tristeza, de perceber como não temos mesmo controle sobre a vida, e querer que as coisas sejam diferentes não as torna diferentes. E se o que nos acontece é sempre melhor, se escolhermos ver a vida assim, não dá pra imaginar o que seria a vida dela se as coisas tivessem dado certo. Talvez ela fosse uma mulher, mulherzinha?, mais feliz, e talvez não nos tivesse apresentado a Lizzie. E se, afinal, tiver dado tudo certo?
Isso de escolher caminhos é complicado.
Eu por enquanto tento ser escolhida por um teto e não por um pilantra, pra depois escolher o que fazer.
Aliás, acho que eu ainda não registrei aqui: vou viajar. Agora, agorinha. Um tanto inesperadamente, muito por uma vontade ferrenha e meio maluca.
Não sei por que caminhos eu vou, sei que vou. Dois de novembro.
Quando chegarem encruzilhadas, talvez eu escolha, talvez jogue uma moeda. Até lá, avante.
Eu vou ver um horizonte distante.
UPDATE: até agora, Pilantra 1 x 0 Teto.
sábado, 4 de outubro de 2008
MM
Há tantas coisas na vida que não têm explicação. Umas mais importantes e profundas, outras menos, mas isso não significa que menos surpreendentes.
Eu aqui, viajando na internet, esperando que o mundo fale comigo e que eu saiba ouvir, a tv ligada, pessoas falando sobre gatos, umas mais, outras menos interessantes, umas eu ouço, outras nem tanto, de repente sobe aquele arrepio do pé à cabeça, eu desvio o olhar do monitor para a tela, e eis Marisa Monte, num daqueles shows mais antigos, cantanto Negro gato. Será esse o nome da música? Mas todo mundo sabe qual é, de qualquer maneira.
Ok, por que fulano fez ou disse isso, por que o mundo isso e aquilo, mas, a sério, alguém me explica o que é essa mulher?!
Eu aqui, viajando na internet, esperando que o mundo fale comigo e que eu saiba ouvir, a tv ligada, pessoas falando sobre gatos, umas mais, outras menos interessantes, umas eu ouço, outras nem tanto, de repente sobe aquele arrepio do pé à cabeça, eu desvio o olhar do monitor para a tela, e eis Marisa Monte, num daqueles shows mais antigos, cantanto Negro gato. Será esse o nome da música? Mas todo mundo sabe qual é, de qualquer maneira.
Ok, por que fulano fez ou disse isso, por que o mundo isso e aquilo, mas, a sério, alguém me explica o que é essa mulher?!
sábado, 27 de setembro de 2008
Update
É sábado à noite, não sei o que todo mundo espera, mas eu estou com seis bolhas no meu calcanhar (ou carcanhá, como de vez em quando escapa), que não estão tão feias mas doem muito; uma bolha terrível na perna, que ainda não dói; hoje posso comer e beber, já que já fiz exame de sangue; minhas calças não estão prontas; meus vestidos não estão prontos; minhas saias não estão prontas; meus relatórios não estão prontos; meu alojamento não está resolvido.
Ainda não jantei porque comi lanche e estou prestes a mandar tudo isso pra puta-que-pariu e ir ver um filme.
E continuo cantarolando a música do Ney.
Ainda não jantei porque comi lanche e estou prestes a mandar tudo isso pra puta-que-pariu e ir ver um filme.
E continuo cantarolando a música do Ney.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
3 anos e tal
- Peraí, cuidado pra não pisar na minha bolsa, quando for sair [do carro, assim, pra contextualizar].
- Isso é uma bolsa?
- É, minha bolsa?
-Sua bolsa?
- É... [pensando: "uai, por quê? Tudo bem que não é das preferidas, mas será tão feia assim, que ela nem acredita? Acho que ela vai dizer 'ai, que feia!!'"]
- Mas não é uma jaqueta?
A bolsa é jeans.
- Isso é uma bolsa?
- É, minha bolsa?
-Sua bolsa?
- É... [pensando: "uai, por quê? Tudo bem que não é das preferidas, mas será tão feia assim, que ela nem acredita? Acho que ela vai dizer 'ai, que feia!!'"]
- Mas não é uma jaqueta?
A bolsa é jeans.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Destiempo
Eu mais cedo segui a sugestão de uma desconhecida, que talvez pudesse se tornar desses amores distantes mas não se tornou, e assisti a um filme chamado "Novo mundo".
Confesso que no começo achei que eu talvez não fosse aguentar, isso de cinema europeu, isso de criada com cinema americano, mas não só aguentei como não sofri, gostei e, afinal, sofri. Isso do mundo demasiadas vezes ser um lugar muito feio, em que as pessoas fazem coisas mesmo tristes umas com as outras. E eu acho que a beleza da vida está em vê-la, a beleza, ainda nesses momentos. Em, no meio de uma dor, forte ou fraca, sua ou alheia, parar e pensar "tá, mas também tem coisas bonitas e alegres". Também tem um "olhar e ver Marília", também tem um "doro ocê", também tem um "que chateação!", também tem um senhor que rebola. Na vida também tem Nininha.
E tem a beleza dela, em si, sem rodeios e intermediários. Tem a beleza do encontro, mas às vezes, e talvez raramente, ela esteja exatamente no desencontro.
Eu ainda tenho muito medo, e incertezas, e inseguranças, e medo. E talvez, logo, eles cresçam e me tomem. Talvez venham a destiempo.
Mas o que existe é agora e agora o que eu vejo é beleza.
E rebolo.
Confesso que no começo achei que eu talvez não fosse aguentar, isso de cinema europeu, isso de criada com cinema americano, mas não só aguentei como não sofri, gostei e, afinal, sofri. Isso do mundo demasiadas vezes ser um lugar muito feio, em que as pessoas fazem coisas mesmo tristes umas com as outras. E eu acho que a beleza da vida está em vê-la, a beleza, ainda nesses momentos. Em, no meio de uma dor, forte ou fraca, sua ou alheia, parar e pensar "tá, mas também tem coisas bonitas e alegres". Também tem um "olhar e ver Marília", também tem um "doro ocê", também tem um "que chateação!", também tem um senhor que rebola. Na vida também tem Nininha.
E tem a beleza dela, em si, sem rodeios e intermediários. Tem a beleza do encontro, mas às vezes, e talvez raramente, ela esteja exatamente no desencontro.
Eu ainda tenho muito medo, e incertezas, e inseguranças, e medo. E talvez, logo, eles cresçam e me tomem. Talvez venham a destiempo.
Mas o que existe é agora e agora o que eu vejo é beleza.
E rebolo.
Novamente
Me disse vai embora, eu não fui
Você não dá valor ao que possui
Enquanto sofre, o coração intui
Que ao mesmo tempo que machuca o tempo
O tempo flui
E assim o sangue corre em cada veia
O vento brinca com os grãos de areia
Poetas cortejando a branca luz
E ao mesmo tempo que magoa o tempo me passeia
Quem sabe o que se dá em mim?
Quem sabe o que será de nós?
O tempo que antecipa o fim
Também desata os nós
Quem sabe soletrar adeus
Sem lágrimas, nenhuma dor
Os pássaros atrás do sol
As dunas de poeira
O céu de anil no pólo sul
Há dinamite no paiol
Não há limite no anormal
É que nem sempre o amor
É tão azul
A música preenche sua falta
Motivo dessa solidão sem fim
Se alinham pontos negros de nós dois
E arriscam uma fuga contra o tempo
O tempo salta
Não sei de quem, como, quando ou onde.
Sei só que através de Ney Matogrosso.
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Destino
Já dizia a fada Morgana. Cuidado com o que pedes pois pode lhe ser concedido.
Rufem os tambores, todos aos seus lugares.
Começa a contagem regressiva.
Rufem os tambores, todos aos seus lugares.
Começa a contagem regressiva.
Em 18
Eu vinha hoje no ônibus, diferentemente dos últimos meses, ouvindo música. Já no arquivo coloquei o fone de ouvido e fiquei umas duas horas ouvindo só instrumentais, que é o máximo que minha concentração ultimamente pode suportar.
Nessas horas a gente pensa tanta coisa que gostaria de dizer, de mostrar, e se promete fazer ao chegar em casa, mas aí o momento já passou. Não sei se estou triste ou feliz, ou só melancólica, ou contrariada, ou o quê.
Eu pensava, no ônibus, que sou um banco de três pernas. Sabem como é? Geometricamente, três pontos definem um plano, por isso o banco de três pernas se sustenta, é, afinal, um banco. Mas um banco de quatro pernas é muito mais firme. Sacaram?
Agora estou tentando pensar/me convencer de que as coisas são como devem ser. E que a gente não pode ter tudo, mesmo, e que os nossos desejos e vontades mudam, então não tem motivo pra se apegar demais a eles.
Então não sei o que eu estou, acho que já estive plena e agora estou apenas confusa.
E só o que se pode fazer é esperar.
Nessas horas a gente pensa tanta coisa que gostaria de dizer, de mostrar, e se promete fazer ao chegar em casa, mas aí o momento já passou. Não sei se estou triste ou feliz, ou só melancólica, ou contrariada, ou o quê.
Eu pensava, no ônibus, que sou um banco de três pernas. Sabem como é? Geometricamente, três pontos definem um plano, por isso o banco de três pernas se sustenta, é, afinal, um banco. Mas um banco de quatro pernas é muito mais firme. Sacaram?
Agora estou tentando pensar/me convencer de que as coisas são como devem ser. E que a gente não pode ter tudo, mesmo, e que os nossos desejos e vontades mudam, então não tem motivo pra se apegar demais a eles.
Então não sei o que eu estou, acho que já estive plena e agora estou apenas confusa.
E só o que se pode fazer é esperar.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Pedacinho de loucura
Como pessoa muito preocupada com a minha lucidez, cultivada cuidadosa e carinhosamente todos os dias, através de muita reflexão e muito veneno, inclusive comigo mesma, acredito que haja momentos, como este, em que a pessoa deve se permitir enlouquecer. Eu o faço, agora.
Na verdade, os últimos dias foram de insanidade.Tudo começou quando eu não quis ir nadar, no sábado. Depois quis fazer compras e perdi o controle, não totalmente porque achava que, dentro de alguns dias, talvez eu me permitisse, para o bem ou para o mal, perdê-lo completamente.
Aí depois morri de raiva de uma costureira que não me fez saias novas e lindas, me perdi por anos-luz no caminho para a casa da mulher. Depois... Ah, sim, antes disso, uma péssima notícia, academicamente falando, que me tirou toda a tranquilidade.
Aí hoje, por que as coisas acontecem mesmo aos atropelos, uma ótima notícia e um contato perturbador. Mais a má notícia de dois dias atrás. Enfim, o caos.
E aí, entre o ficar totalmente perdida e o tentar ser adulta e encarar as coisas como tal, chega esse momento, em que eu não posso me impedir de sofrer por tudo que eu gostaria que fosse e não é. Isso porque eu já nem sei mais o que eu gostaria que fosse, porque já nem sei o que sinto e se seria suficiente e se seria bom, apenas. Mas é isso, dói e eu queria dizer. Já doeu mais, muito, mas ainda assim, ainda hoje. Tudo que não é e eu não entendo. Eu não entendo e pra mim, não entender, não ter a menor idéia, é doloroso e difícil, porque me impede, com a lucidez, de ver as coisas claramente. Eu não posso entender o que eu não entendo. E eu, sem entender, sou nada ou muito pouco.
Então é isso, a insanidade.
E mãos à obra.
Na verdade, os últimos dias foram de insanidade.Tudo começou quando eu não quis ir nadar, no sábado. Depois quis fazer compras e perdi o controle, não totalmente porque achava que, dentro de alguns dias, talvez eu me permitisse, para o bem ou para o mal, perdê-lo completamente.
Aí depois morri de raiva de uma costureira que não me fez saias novas e lindas, me perdi por anos-luz no caminho para a casa da mulher. Depois... Ah, sim, antes disso, uma péssima notícia, academicamente falando, que me tirou toda a tranquilidade.
Aí hoje, por que as coisas acontecem mesmo aos atropelos, uma ótima notícia e um contato perturbador. Mais a má notícia de dois dias atrás. Enfim, o caos.
E aí, entre o ficar totalmente perdida e o tentar ser adulta e encarar as coisas como tal, chega esse momento, em que eu não posso me impedir de sofrer por tudo que eu gostaria que fosse e não é. Isso porque eu já nem sei mais o que eu gostaria que fosse, porque já nem sei o que sinto e se seria suficiente e se seria bom, apenas. Mas é isso, dói e eu queria dizer. Já doeu mais, muito, mas ainda assim, ainda hoje. Tudo que não é e eu não entendo. Eu não entendo e pra mim, não entender, não ter a menor idéia, é doloroso e difícil, porque me impede, com a lucidez, de ver as coisas claramente. Eu não posso entender o que eu não entendo. E eu, sem entender, sou nada ou muito pouco.
Então é isso, a insanidade.
E mãos à obra.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
A carteira de identidade. Uma saideira.
A coisa por aqui anda defasada, mas isso faz algum sentido. Eu também ando, não sei se defasada, mas em algum estado incomum. Estou para contar o diálogo que tive com uma menininha na academia, mas a preguiça é maior. Nem sei se realmente é interessante, mas enfim.
Agora só quero fazer um protesto, talvez preventivo: da próxima vez que eu ouvir alguém dizer que é atrapalhado/a, vai rolar uma contestação brava. Eu hoje tive a capacidade de fazer, perceptíveis para mim nesse instante, o que significa uma possibilidade enorme de subrepresentação, mas eu hoje me fiz cinco machucados. E não tipos "eu tava andando na rua, caí e fiquei toda ralada". Não, em momentos diferentes, em diferentes circunstâncias, eu me arranhei cinco vezes. A mais ridícula, ao entrar no banheiro, enrosquei o quadril na maçaneta. Tudo bem que meu quadril não é pequeno nem o banheiro é grande, mas homo sapiens, vai, alguma habilidade esse animal há de ter. Mas se ele tem, hoje não se manifestou.
E eu ainda num estado incomum. Não é uma leveza, nem de perto liberdade, mas digamos um habeas corpus. Assim, em suspenso.
Eu devo admitir, também porque as pessoas dizem que isso não se faz, mas eu sou uma pessoa invejosa. É fato e mais forte que eu. Em minha defesa, saliento que não é tanto um sentimento de querer tomar alguma coisa de alguém, mas de ter também o que ela tem. E eu sou uma romântica inveterada, no sentido menos água-com-açucar do termo. Qualquer situação, por mais adversa que soe, a mim me parece charmosa. E charme pra mim é a qualidade mais sublime que pode haver. E eu às vezes olho pras vidas dos outros e elas me parecem tão tão diferentes da minha, e tão boas, e confortáveis e acolhedoras, ou talvez eu devesse usar outros adjetivos, porque eu posso também talvez dizer que tenho uma vida boa e acolhedora e confortável, mas não no mesmo sentido que a deles. Talvez isso, o desconhecido. Mas a gente sempre é a gente e nunca nunca vai poder saber como é ser outro, e conhecer as verdades e ambiguidades que certamente todos carregamos.
Enquanto isso eu fico aqui, lamentando as minhas feridas, ainda em suspenso, e para me consolar posso até pensar que, se alguém me visse pela janela, poderia também sentir alguma inveja.
Agora só quero fazer um protesto, talvez preventivo: da próxima vez que eu ouvir alguém dizer que é atrapalhado/a, vai rolar uma contestação brava. Eu hoje tive a capacidade de fazer, perceptíveis para mim nesse instante, o que significa uma possibilidade enorme de subrepresentação, mas eu hoje me fiz cinco machucados. E não tipos "eu tava andando na rua, caí e fiquei toda ralada". Não, em momentos diferentes, em diferentes circunstâncias, eu me arranhei cinco vezes. A mais ridícula, ao entrar no banheiro, enrosquei o quadril na maçaneta. Tudo bem que meu quadril não é pequeno nem o banheiro é grande, mas homo sapiens, vai, alguma habilidade esse animal há de ter. Mas se ele tem, hoje não se manifestou.
E eu ainda num estado incomum. Não é uma leveza, nem de perto liberdade, mas digamos um habeas corpus. Assim, em suspenso.
Eu devo admitir, também porque as pessoas dizem que isso não se faz, mas eu sou uma pessoa invejosa. É fato e mais forte que eu. Em minha defesa, saliento que não é tanto um sentimento de querer tomar alguma coisa de alguém, mas de ter também o que ela tem. E eu sou uma romântica inveterada, no sentido menos água-com-açucar do termo. Qualquer situação, por mais adversa que soe, a mim me parece charmosa. E charme pra mim é a qualidade mais sublime que pode haver. E eu às vezes olho pras vidas dos outros e elas me parecem tão tão diferentes da minha, e tão boas, e confortáveis e acolhedoras, ou talvez eu devesse usar outros adjetivos, porque eu posso também talvez dizer que tenho uma vida boa e acolhedora e confortável, mas não no mesmo sentido que a deles. Talvez isso, o desconhecido. Mas a gente sempre é a gente e nunca nunca vai poder saber como é ser outro, e conhecer as verdades e ambiguidades que certamente todos carregamos.
Enquanto isso eu fico aqui, lamentando as minhas feridas, ainda em suspenso, e para me consolar posso até pensar que, se alguém me visse pela janela, poderia também sentir alguma inveja.
domingo, 24 de agosto de 2008
Da magia
Não sei, senti saudade de não ser eu e ser Maga da Montanha. Que sou eu, mas não sou.
Dessas coisas bobas e simbólicas, mas mudei o nome que assina as postagens.
E comecei um post com "não sei".
Sinto muito, essa sou eu. Ao menos uma em cada dez vezes vou começar a dizer qualquer coisa dizendo que posso estar dizendo uma grande besteira, mas
Já me disseram uma vez que esse traço irrita, porque faz de mim muito insegura. Eu também já disse, e repito, que o gênio que fez essa análise errou feio. Claro que sou muito insegura, mas acho que a minha insegurança passa por outros aspectos e transparece em outros momentos, aquilo que vem como uma onda e eu não consigo me mexer e ela me toma e eu prendo a respiração enquanto ela continua seu caminho e começa a se esvair, se alguém, num momento desses, me dissesse que eu sou insegura, eu talvez chorasse, desmaiasse ou saísse correndo.
Mas é fato que eu não sei, gosto de não saber e entendo o tempo todo que as coisas e o mundo são contraditórios e isso, em específico, não tem nada a ver com insegurança. Tem a ver com ser humano e sombra. E se eu gosto nos outros, gosto em mim. E outros há que não gostam de Maga da Montanha, mas eu gosto e portanto
Dessas coisas bobas e simbólicas, mas mudei o nome que assina as postagens.
E comecei um post com "não sei".
Sinto muito, essa sou eu. Ao menos uma em cada dez vezes vou começar a dizer qualquer coisa dizendo que posso estar dizendo uma grande besteira, mas
Já me disseram uma vez que esse traço irrita, porque faz de mim muito insegura. Eu também já disse, e repito, que o gênio que fez essa análise errou feio. Claro que sou muito insegura, mas acho que a minha insegurança passa por outros aspectos e transparece em outros momentos, aquilo que vem como uma onda e eu não consigo me mexer e ela me toma e eu prendo a respiração enquanto ela continua seu caminho e começa a se esvair, se alguém, num momento desses, me dissesse que eu sou insegura, eu talvez chorasse, desmaiasse ou saísse correndo.
Mas é fato que eu não sei, gosto de não saber e entendo o tempo todo que as coisas e o mundo são contraditórios e isso, em específico, não tem nada a ver com insegurança. Tem a ver com ser humano e sombra. E se eu gosto nos outros, gosto em mim. E outros há que não gostam de Maga da Montanha, mas eu gosto e portanto
Banguela
Saí para comer massa na quinta-feira e passei mal. Com o suco de laranja.
Isso pra explicar, mais ou menos, porque eu não consegui trabalhar bem na sexta. Não tem jeito, pra ler aquela joça há que se estar com um mínimo de disposição, do contrário a tentação de simplesmente ir passando as páginas apagadas é grande demais e sabe-se lá o que se pode perder no meio do caminho. Então vim embora.
No ônibus, com vento, resolvi, diferente das últimas semanas, ou meses, ligar meu mp3 e quem sabe ter alguma sorte, com alguma música que eu esqueci ali, há muito e muito tempo. Acho que eu queria clássica, mas começou com o Zeca, querido Zeca, dizendo "na rede da intriga tem sérvio e croata". Sérvio. Sérvio!!! É um sinal ou é um sinal???
Enfim, ri sozinha pelo trânsito de São Paulo, momentos antes de capotar.
E agora acabaram as olimpíadas, o vôlei masculino, xodó, perdeu, mas eu tenho aquela coisa de ser besta e ter sempre simpatia pelo adversário. Tentei muito não ter, dessa vez, mas o fato é que eu acho o Priddy algo fofo e gosto bastante do Ball, que tem uma tatuagem "Mya" no braço e aquela mania de ficar passando a mão pelo rosto, a esquerda, vem pela testa, da esquerda para a direita, o tempo todo. Eu ia ficar chateada, e de repente, a luz: "às vezes a gente perde".
Eu vi uma entrevista do Xuxa, esses dias, ele falando que aprendeu com as derrotas, e a Gabi perguntou se ele aprendeu a perder, e ele: sinceramente? Não. Aprendi com as derrotas, mas não aprendi a perder.
Eu ainda não sei o que já aprendi ou ainda não, nessa vida. Ainda não.
Domingo. Dormi, comi, li, assisti filme. Há milênios que eu não via, também, uma boa comédia romântica.
Subterrâneo, obscuro, escuro, claro. Acho que eu sempre soube, talvez tenha dito, mas acontece muito comigo de redescobrir, insistentemente, continuamente, coisas que eu sei. E eu sei que gosto de sombras, não escuridão total, mas sombras, obscuro, escuro, algo também claro, porque se tem uma coisa que pode me por feliz é um sol em céu azul, mas ainda sombras. Porque o mundo não é lugar para se ser feliz e ponto. Feliz, sim, mas com uma sombra. Se não por você, por qualquer motivo que mais lhe agrade, por mim, pode ser. Eu agradeço e não me ofendo.
Domingo. Amanhã, segunda.
Já nem sei como está a lua.
Isso pra explicar, mais ou menos, porque eu não consegui trabalhar bem na sexta. Não tem jeito, pra ler aquela joça há que se estar com um mínimo de disposição, do contrário a tentação de simplesmente ir passando as páginas apagadas é grande demais e sabe-se lá o que se pode perder no meio do caminho. Então vim embora.
No ônibus, com vento, resolvi, diferente das últimas semanas, ou meses, ligar meu mp3 e quem sabe ter alguma sorte, com alguma música que eu esqueci ali, há muito e muito tempo. Acho que eu queria clássica, mas começou com o Zeca, querido Zeca, dizendo "na rede da intriga tem sérvio e croata". Sérvio. Sérvio!!! É um sinal ou é um sinal???
Enfim, ri sozinha pelo trânsito de São Paulo, momentos antes de capotar.
E agora acabaram as olimpíadas, o vôlei masculino, xodó, perdeu, mas eu tenho aquela coisa de ser besta e ter sempre simpatia pelo adversário. Tentei muito não ter, dessa vez, mas o fato é que eu acho o Priddy algo fofo e gosto bastante do Ball, que tem uma tatuagem "Mya" no braço e aquela mania de ficar passando a mão pelo rosto, a esquerda, vem pela testa, da esquerda para a direita, o tempo todo. Eu ia ficar chateada, e de repente, a luz: "às vezes a gente perde".
Eu vi uma entrevista do Xuxa, esses dias, ele falando que aprendeu com as derrotas, e a Gabi perguntou se ele aprendeu a perder, e ele: sinceramente? Não. Aprendi com as derrotas, mas não aprendi a perder.
Eu ainda não sei o que já aprendi ou ainda não, nessa vida. Ainda não.
Domingo. Dormi, comi, li, assisti filme. Há milênios que eu não via, também, uma boa comédia romântica.
Subterrâneo, obscuro, escuro, claro. Acho que eu sempre soube, talvez tenha dito, mas acontece muito comigo de redescobrir, insistentemente, continuamente, coisas que eu sei. E eu sei que gosto de sombras, não escuridão total, mas sombras, obscuro, escuro, algo também claro, porque se tem uma coisa que pode me por feliz é um sol em céu azul, mas ainda sombras. Porque o mundo não é lugar para se ser feliz e ponto. Feliz, sim, mas com uma sombra. Se não por você, por qualquer motivo que mais lhe agrade, por mim, pode ser. Eu agradeço e não me ofendo.
Domingo. Amanhã, segunda.
Já nem sei como está a lua.
domingo, 17 de agosto de 2008
Caymmi
Foi no sábado de manhã, voltando da natação.
Esses dias uma amiga me perguntou o que era samba, e eu penei pra responder, a diferença entre samba e pagode, aí uns dias depois, como é praxe, me veio a definição exata:
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não.
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não.
Então, sábado de manhã, ainda refletindo sobre o assunto, eu pensava nisso de letras bonitas, sendo simples, e pensei "é melhor ser alegre que ser triste" e "é doce morrer no mar". A reflexão veio porque eu ouvia no rádio aquela música insuportável "é bom andar a pé devagar", que eu acho uma grandesíssima merda.
Depois cheguei em casa e fiquei sabendo que o Caymmi tinha morrido; eu nem sabia que ele tava doente, minha mãe disse que ficou mais triste da última vez que viu uma entrevista dele, porque ele tava muito mal. E ele sempre foi uma presença tão marcante em casa, teve uma época que todo domingo de manhã minha mãe colocava um cd dele, e a gente acordava com aquele vozeirão, sabendo que a manhã já ia avançada.
O mar de Caymmi.
À noite, fui num show da Adriana Calcanhoto, esperei que ela dissesse algo a respeito, o que ela de fato vez, cantou uma música lindíssima, ela e a música. E que mulher; sentada num banquinho com uns panos vermelhos, indecifráveis à primeira vista, jogados sobre o ombro e as cores combinando em harmonia, vermelho, preto, branco, azul.
Confesso que tive algum medo do show, mas passei incólume. Estava feliz de estar ali e essa sensação é a que eu prezo mais na minha vida; acontece de vez em quando de eu me sentir plena e satisfeita, sem desejos nem vontades, mas contente, e isso é tão raro e isso é tão tudo e só o que a gente tem na vida, que eu prezo muito.
Há alguns anos, quando era muito viciada em forró, eu brincava com umas amigas que tinha um namorado-imaginário-forrozeiro, ele chamava Gaspar. Eram dessas brincadeiras que geram uma ou duas risadas, como dizer que a gente tava muito afim de dançar e na próxima vez ia levar uma plaquinha de néon dizendo "chama eu", pra ver se facilitava o processo.
Mas isso de fantasma é muito maluco, porque eu e ele estamos nos encarando de frente, fazendo o jogo do sério, pra sabe quem desvia primeiro o olhar. Meus demônios têm nome, sobrenome e endereço, e eu sei disso com uma clareza solar, e sabendo-os não me livro deles. O detalhe é que eu acho que é muito vantajoso saber, é como entrar numa casa cujo piso range e as janelas tremem e há um relógio de corda, e em vez de ficar pirando com medo do que tem ali, saber o que é que nos assusta, e talvez pirar de medo, mas muitas vezes saber é mesmo melhor do que imaginar.
Eu já disse aqui "adeus, mais um e quantos mais forem necessários".
Despedidas também são muito malucas. E o tempo. "Você tem meia hora pra mudar a minha vida e o que você demora é o que o tempo leva".
Caymmi, nas marinhas. Tome conta de meu filho que eu também já fui do mar.
Tanto amor e tanto mar.
Obrigada.
A jangada voltou só.
Esses dias uma amiga me perguntou o que era samba, e eu penei pra responder, a diferença entre samba e pagode, aí uns dias depois, como é praxe, me veio a definição exata:
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não.
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não.
Então, sábado de manhã, ainda refletindo sobre o assunto, eu pensava nisso de letras bonitas, sendo simples, e pensei "é melhor ser alegre que ser triste" e "é doce morrer no mar". A reflexão veio porque eu ouvia no rádio aquela música insuportável "é bom andar a pé devagar", que eu acho uma grandesíssima merda.
Depois cheguei em casa e fiquei sabendo que o Caymmi tinha morrido; eu nem sabia que ele tava doente, minha mãe disse que ficou mais triste da última vez que viu uma entrevista dele, porque ele tava muito mal. E ele sempre foi uma presença tão marcante em casa, teve uma época que todo domingo de manhã minha mãe colocava um cd dele, e a gente acordava com aquele vozeirão, sabendo que a manhã já ia avançada.
O mar de Caymmi.
À noite, fui num show da Adriana Calcanhoto, esperei que ela dissesse algo a respeito, o que ela de fato vez, cantou uma música lindíssima, ela e a música. E que mulher; sentada num banquinho com uns panos vermelhos, indecifráveis à primeira vista, jogados sobre o ombro e as cores combinando em harmonia, vermelho, preto, branco, azul.
Confesso que tive algum medo do show, mas passei incólume. Estava feliz de estar ali e essa sensação é a que eu prezo mais na minha vida; acontece de vez em quando de eu me sentir plena e satisfeita, sem desejos nem vontades, mas contente, e isso é tão raro e isso é tão tudo e só o que a gente tem na vida, que eu prezo muito.
Há alguns anos, quando era muito viciada em forró, eu brincava com umas amigas que tinha um namorado-imaginário-forrozeiro, ele chamava Gaspar. Eram dessas brincadeiras que geram uma ou duas risadas, como dizer que a gente tava muito afim de dançar e na próxima vez ia levar uma plaquinha de néon dizendo "chama eu", pra ver se facilitava o processo.
Mas isso de fantasma é muito maluco, porque eu e ele estamos nos encarando de frente, fazendo o jogo do sério, pra sabe quem desvia primeiro o olhar. Meus demônios têm nome, sobrenome e endereço, e eu sei disso com uma clareza solar, e sabendo-os não me livro deles. O detalhe é que eu acho que é muito vantajoso saber, é como entrar numa casa cujo piso range e as janelas tremem e há um relógio de corda, e em vez de ficar pirando com medo do que tem ali, saber o que é que nos assusta, e talvez pirar de medo, mas muitas vezes saber é mesmo melhor do que imaginar.
Eu já disse aqui "adeus, mais um e quantos mais forem necessários".
Despedidas também são muito malucas. E o tempo. "Você tem meia hora pra mudar a minha vida e o que você demora é o que o tempo leva".
Caymmi, nas marinhas. Tome conta de meu filho que eu também já fui do mar.
Tanto amor e tanto mar.
Obrigada.
A jangada voltou só.
sábado, 16 de agosto de 2008
De suspiros
Ai, que o blogger mudou tudo.
Mas tudo bem, sem grandes modificações ou exigências a essa hora da manhã (isso é muito coisa de coletor de pedágio, né, que você passa à uma da madrugada e os caras: "bom dia!").
Na verdade, eu vim só registrar que chorei, um pouquinho, mas chorei, hoje, mais cedo, vendo a natação. Foi mesmo muito emocionante, e eu não sei se já disse aqui, mas eu simplesmente adoro as Olimpíadas. Mesmo, quase de maneira imbecil, de não dormir pra assistir qualquer coisa com qualquer pessoa, tipo vela, que nem tem vento, aí quando tem eu nem entendo nada, mas gosto de ver, e hipismo, que todo mundo acha um saco. Mas eu gosto, gosto até de coisa pior, tipo leilão de cavalo, que eu me controlo pra não assistir porque do contrário fico horas ali, vendo os bichos desfilando.
Só que eu tenho que parar de escrever agora, porque a Sérvia tá jogando e, sabem como é, Miljkovic chama. Ah, e eu perdi já o começo do jogo, vendo reprise da natação, mas me parece que o líbero sérvio subiu numa mesa tentando pegar uma bola, ou eu posso ter sonhado. Mas ele já pairou naquelas plaquetas que eu vi, então não duvido.
Mas bora lá com os Ic. Just do ic.
Ah, eu hoje terminei um processo! Iêi!
PS: Pelamordedeus, alguém me diz o que é esse homem?!?!?!?!
Mas tudo bem, sem grandes modificações ou exigências a essa hora da manhã (isso é muito coisa de coletor de pedágio, né, que você passa à uma da madrugada e os caras: "bom dia!").
Na verdade, eu vim só registrar que chorei, um pouquinho, mas chorei, hoje, mais cedo, vendo a natação. Foi mesmo muito emocionante, e eu não sei se já disse aqui, mas eu simplesmente adoro as Olimpíadas. Mesmo, quase de maneira imbecil, de não dormir pra assistir qualquer coisa com qualquer pessoa, tipo vela, que nem tem vento, aí quando tem eu nem entendo nada, mas gosto de ver, e hipismo, que todo mundo acha um saco. Mas eu gosto, gosto até de coisa pior, tipo leilão de cavalo, que eu me controlo pra não assistir porque do contrário fico horas ali, vendo os bichos desfilando.
Só que eu tenho que parar de escrever agora, porque a Sérvia tá jogando e, sabem como é, Miljkovic chama. Ah, e eu perdi já o começo do jogo, vendo reprise da natação, mas me parece que o líbero sérvio subiu numa mesa tentando pegar uma bola, ou eu posso ter sonhado. Mas ele já pairou naquelas plaquetas que eu vi, então não duvido.
Mas bora lá com os Ic. Just do ic.
Ah, eu hoje terminei um processo! Iêi!
PS: Pelamordedeus, alguém me diz o que é esse homem?!?!?!?!
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Pulsando
Ainda agorinha eu estava ali no quarto, tentando pulsar a hipófise.
Sim, hipófise mesmo, aquele pedacinho do cérebro que eu vi agora na tv que se a gente vibrar não tem depressão. Eu senti umas tonturas e um início de dor de cabeça, mas me convenci de que era a hipófise vibrando, então tudo ok.
Eu tinha algumas coisas a dizer mas, pra variar, esqueci. Agora tenho que procurar um programa de tv que ensine a ativar a memória, mas até eu inventar coisinhas pra dizer aqui, levantar, fazer xixi e sentar novamente em frente ao aparelho certamente já terei esquecido tão nobre objetivo.
Uma das coisas, lembrei, era dizer que eu estou sendo perseguida por aranhas, ou melhor, pelo medo delas. Isso porque há umas semanas apareceu uma armadeira na minha vizinha e eu fiquei alguns dias imaginando que tinha uma escondida da minha cama toda vez que eu me deitava. Todo mundo sabe que hipocondria tem tudo a ver com neurose. Aí, hoje, recebi um e-mail sobre aranhas assassinas que te picam quando você senta num vaso pra fazer xixi e você morre. Ok, quase, mas enfim. Uma vez isso aconteceu comigo, mas era uma formiguinha, só, mas eu levei um baita susto, ao sentir uma picada em lugar e hora tão impróprios.
Acabei também de lembrar que, no mesmo programa que hoje falava da hipófise, também há algumas semanas, falava-se no funcionamento do intestino e em como é um problema pra gente falar sobre isso, que não tem jeito confortável e as pessoas, no fim das contas, simplesmente fingem que não... evacuam? Cagam? Isso aí. E eu, como pessoa, também acho esquisito falar, mas notei que eu disse "quando você senta pra fazer xixi", afirmação essa que eu sou obrigada a remendar, por questão de saúde pública, porque o diabo da aranha te pica também se você sentar pra fazer cocô ou qualquer outra coisa que você sente num vaso sanitário pra fazer.
Mas voltando ao caso da vizinha e da armadeira, ainda antes do e-mail sobre o banheiro, eu sonhei nesse fim-de-semana que era atacada por milhões de aranhas. Elas eram daquelas peludas-que-não-fazem-nada-porque-não-são-venenosas-mas/
-ainda-assim-assustam, cujo nome eu esqueci, e eram mesmo milhões. Eu já tinha meio esquecido isso do sonho, mas enquanto eu falava agora ele voltou num flash distante e já de novo foi para longe.
Foi meio aterrorizante, mas eu acordei. Agora o que promete me tirar o sono nos próximos dias é a reflexão sobre a possibilidade ou não de isso ser um sinal. Todo mundo também sabe que... que o quê, mesmo? Ah, sim, "não há dois sem três". Isso é uma máxima de poder incontestável e aplicação inevitável na vida de todo mortal. Se uma coisa acontece uma vez, pode parar por aí, mas se ela acontece duas, certeza que vem a terceira. Então, aranhas.
Acho que a única saída vai ser uma racionalizada básica, me dizendo que são "avisos-de-aranhas", muito diferente de "aranhas-em-si", uma divisão assim semiótica (pareceu bonito, vai? Mesmo que não caiba, porque eu não sei exatamente o que é "semiótica", como também desconheço o significado de "hermenêutica", e tem ainda a terceira palavra que eu já olhei milhões de vezes no dicionário e ainda não grudou nem uma definição toscona, mas que eu esqueci). Enfim, esse era um assunto.
Talvez outro fossem as risadas imbecis que eu dei, também agorinha, procurando na internet fotos de jogadores de vôlei parecidos com pessoas que eu conheço. Cheguei à conclusão - certamente revolucionária - de que isso de reconhecer parecenças é como andar de bicicleta. Explico: eu nunca na minha vida tive facilidade de achar pessoas parecidas, tipo o Tarcísio Meira e o filho dele, eu achava que não tinham nada a ver. Até que um belo dia, não sei se foi alguma coisa que eu comi ou se dormi virada pro lado errado ou se foi deus mesmo quem me iluminou, um belo dia, plins, eis que eu começo a ver semelhanças a torto e a direito, isso de nariz de irmãos, olhos, bocas; a coisa já evoluiu tanto que eu agora reconheço pessoas que vi, digamos, cinco vezes na vida, em jogadores de voleibol (me recuso a escrever"-ball", mesmo que o google ordene) via satélite. Aí que eu ri como boba, ainda mais ao saber que confere.
Ah, e eu ia contar também do cara que dormia no ônibus, da cara de desprezo do cara que lia ao lado dele e do milagre de demorar menos de uma hora pra atravessar São Paulo através de transporte público em hora de rush, mas acho que não tem muita história aí. Quer dizer, eu acabei de contar e não encheu nem três linhas.
Então, como conclusão e síntese, esse texto não é sobre nada em particular, os jogadores São (vai, óbvio que esse "são" era pra ser minúsculo, e eu peguei na revisão, mas achei tão bom que resolvi deixar. Ia apagar, porque os caras não São nem um Miljkovic, nem fizeram milagre contra os putos dos americanos, mas enfim, quem sou eu pra questionar o porquê das coisas, mas Sejam, então) Zlatanov e Fei, da Itália, os sósias deixa pra lá, eu continuo viva, melhor hoje do que ontem porque vi, depois de muitas horas na penumbra, que há uma luz no fim do túnel. Quiçá, até, duas! Ora, ora, quem diria?
Parece até que esse coração amante (à Teresa Cristina) ou, como eu gosto de trocar num dos meus inúmeros mal-entendidos musicais, esse pobre navegante, meu coração errante, enfrentou a tempestade e diz agora que aqui a dor não tem razão.
Sim, olhemos todos, daqui de cima, a paisagem ao redor, os pássaros e o sol se pondo vermelho e laranja e o azul naquele tom preferido, e o silêncio, um perfume agradável - no meu caso algo parecido com bolo de chocolate -, um vento gostoso, um arrepio seguido de um agasalho, vamos todos olhar muito bem, respirar fundo, contar até, digamos, cinco, e nos preparar para ladeira abaixo. Porque, como diziam os Ursinhos Carinhosos "faz parte da vida".
Sim, hipófise mesmo, aquele pedacinho do cérebro que eu vi agora na tv que se a gente vibrar não tem depressão. Eu senti umas tonturas e um início de dor de cabeça, mas me convenci de que era a hipófise vibrando, então tudo ok.
Eu tinha algumas coisas a dizer mas, pra variar, esqueci. Agora tenho que procurar um programa de tv que ensine a ativar a memória, mas até eu inventar coisinhas pra dizer aqui, levantar, fazer xixi e sentar novamente em frente ao aparelho certamente já terei esquecido tão nobre objetivo.
Uma das coisas, lembrei, era dizer que eu estou sendo perseguida por aranhas, ou melhor, pelo medo delas. Isso porque há umas semanas apareceu uma armadeira na minha vizinha e eu fiquei alguns dias imaginando que tinha uma escondida da minha cama toda vez que eu me deitava. Todo mundo sabe que hipocondria tem tudo a ver com neurose. Aí, hoje, recebi um e-mail sobre aranhas assassinas que te picam quando você senta num vaso pra fazer xixi e você morre. Ok, quase, mas enfim. Uma vez isso aconteceu comigo, mas era uma formiguinha, só, mas eu levei um baita susto, ao sentir uma picada em lugar e hora tão impróprios.
Acabei também de lembrar que, no mesmo programa que hoje falava da hipófise, também há algumas semanas, falava-se no funcionamento do intestino e em como é um problema pra gente falar sobre isso, que não tem jeito confortável e as pessoas, no fim das contas, simplesmente fingem que não... evacuam? Cagam? Isso aí. E eu, como pessoa, também acho esquisito falar, mas notei que eu disse "quando você senta pra fazer xixi", afirmação essa que eu sou obrigada a remendar, por questão de saúde pública, porque o diabo da aranha te pica também se você sentar pra fazer cocô ou qualquer outra coisa que você sente num vaso sanitário pra fazer.
Mas voltando ao caso da vizinha e da armadeira, ainda antes do e-mail sobre o banheiro, eu sonhei nesse fim-de-semana que era atacada por milhões de aranhas. Elas eram daquelas peludas-que-não-fazem-nada-porque-não-são-venenosas-mas/
-ainda-assim-assustam, cujo nome eu esqueci, e eram mesmo milhões. Eu já tinha meio esquecido isso do sonho, mas enquanto eu falava agora ele voltou num flash distante e já de novo foi para longe.
Foi meio aterrorizante, mas eu acordei. Agora o que promete me tirar o sono nos próximos dias é a reflexão sobre a possibilidade ou não de isso ser um sinal. Todo mundo também sabe que... que o quê, mesmo? Ah, sim, "não há dois sem três". Isso é uma máxima de poder incontestável e aplicação inevitável na vida de todo mortal. Se uma coisa acontece uma vez, pode parar por aí, mas se ela acontece duas, certeza que vem a terceira. Então, aranhas.
Acho que a única saída vai ser uma racionalizada básica, me dizendo que são "avisos-de-aranhas", muito diferente de "aranhas-em-si", uma divisão assim semiótica (pareceu bonito, vai? Mesmo que não caiba, porque eu não sei exatamente o que é "semiótica", como também desconheço o significado de "hermenêutica", e tem ainda a terceira palavra que eu já olhei milhões de vezes no dicionário e ainda não grudou nem uma definição toscona, mas que eu esqueci). Enfim, esse era um assunto.
Talvez outro fossem as risadas imbecis que eu dei, também agorinha, procurando na internet fotos de jogadores de vôlei parecidos com pessoas que eu conheço. Cheguei à conclusão - certamente revolucionária - de que isso de reconhecer parecenças é como andar de bicicleta. Explico: eu nunca na minha vida tive facilidade de achar pessoas parecidas, tipo o Tarcísio Meira e o filho dele, eu achava que não tinham nada a ver. Até que um belo dia, não sei se foi alguma coisa que eu comi ou se dormi virada pro lado errado ou se foi deus mesmo quem me iluminou, um belo dia, plins, eis que eu começo a ver semelhanças a torto e a direito, isso de nariz de irmãos, olhos, bocas; a coisa já evoluiu tanto que eu agora reconheço pessoas que vi, digamos, cinco vezes na vida, em jogadores de voleibol (me recuso a escrever"-ball", mesmo que o google ordene) via satélite. Aí que eu ri como boba, ainda mais ao saber que confere.
Ah, e eu ia contar também do cara que dormia no ônibus, da cara de desprezo do cara que lia ao lado dele e do milagre de demorar menos de uma hora pra atravessar São Paulo através de transporte público em hora de rush, mas acho que não tem muita história aí. Quer dizer, eu acabei de contar e não encheu nem três linhas.
Então, como conclusão e síntese, esse texto não é sobre nada em particular, os jogadores São (vai, óbvio que esse "são" era pra ser minúsculo, e eu peguei na revisão, mas achei tão bom que resolvi deixar. Ia apagar, porque os caras não São nem um Miljkovic, nem fizeram milagre contra os putos dos americanos, mas enfim, quem sou eu pra questionar o porquê das coisas, mas Sejam, então) Zlatanov e Fei, da Itália, os sósias deixa pra lá, eu continuo viva, melhor hoje do que ontem porque vi, depois de muitas horas na penumbra, que há uma luz no fim do túnel. Quiçá, até, duas! Ora, ora, quem diria?
Parece até que esse coração amante (à Teresa Cristina) ou, como eu gosto de trocar num dos meus inúmeros mal-entendidos musicais, esse pobre navegante, meu coração errante, enfrentou a tempestade e diz agora que aqui a dor não tem razão.
Sim, olhemos todos, daqui de cima, a paisagem ao redor, os pássaros e o sol se pondo vermelho e laranja e o azul naquele tom preferido, e o silêncio, um perfume agradável - no meu caso algo parecido com bolo de chocolate -, um vento gostoso, um arrepio seguido de um agasalho, vamos todos olhar muito bem, respirar fundo, contar até, digamos, cinco, e nos preparar para ladeira abaixo. Porque, como diziam os Ursinhos Carinhosos "faz parte da vida".
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Notas
Vez ou outra, quando se resolve fazer uma faxina na minha casa, reaparecem uns caderninhos, daqueles de estampa claramente antiga, folhas amareladas e cheiro característico, delicioso, de coisa velha. São dois, creio eu, um meu e outro da minha irmã, da época em que começamos a ir para a escola - ou seja, desde sempre - em que meus pais e professoras (nem adianta aqui colocar o masculino genérico, né, todo mundo sabe que eram mesmo mulheres) se comunicavam. Tem algumas anotações engraçadas de coisas que dissemos e, no meu caso, muitos e muitos recados de remédios a me serem ministrados, religiosamente, em resposta às minhas constantes febres e inflamações.
Quem me conhece um pouco melhor já me ouviu contar como eu sofri anos de uma otite crônica porque meu brilhante pai, ao ler a prescrição receitada pelo médico, julgava do alto de seus conhecimentos curativos ser muito alta a dose de antibiótico e, sendo pró-ativo como desde então ele nunca mais chegou a ser, cortava-a pela metade, ou ainda menos. Resultado: a infecção passava para dias depois voltar, desafiando a ciência com a sua persistência. A situação perdurou até que minha mãe, não sei como, descobriu e, conhecendo-a como eu conheço, depois de uma crise de apoplexia, de um esfrega no meu pobre pai que resolveu o problema.
Apesar de ser de uma geração muito mais registrável do que a de meus pais - minha certidão de nascimento, por exemplo, é fidedigna, nós todos temos certeza do dia em que nasci (apesar de minhas crises astrólogicas a esse respeito) -, com muitas fotos e os tais caderninhos que toda vez que eu encontro adoro folhear, ainda é muito menos do que essas crianças de agora, que têm milhões de fotos e filmes gravados em computadores através de máquinas digitais. Eu às vezes penso que, quando a Clara crescer, vai sentir o mesmo prazer que eu sinto agora, remexendo num passado já muito distante e esquecido, mas potencializado pelo número maior de registros de que ela vai dispor.
E eu, como tia coruja, gosto de pensar que vou contribuir para isso, não só com as minhas memórias, mas com os pequenos causos relativos a ela que vira e mexe eu resolvo contar. Hoje foi um dia desses; ela não foi à escola para me acompanhar - e à minha mãe - numa visita a uma fazenda da região, que talvez interessasse pesquisar no meu trabalho. Tudo muito lindo, maravilhoso, eu enrolei um tempão para sair de casa, depois ela enrolou, buscado todos os brinquedos possíveis e imagináveis de que ela precisaria sem falta, e fomos nós. Ela perguntando a cada cinco minutos onde estávamos, aonde iámos, e por que era tão longe até quem em um dado momento, já no fim da viagem e sem aviso prévio, o meio litro de suco de uva que ela engolira pouco antes (sim, meio litro, tentem vocês controlar uma criança empolgada com um copinho novo) teve que sair.
Aí foi aquele desespero, minha mãe tentando conter a poça, eu sem saber o que fazer, no meio de uma curva, seguindo adiante para parar em local um pouco mais seguro. Toca limpar mais ou menos o carro, tirá-la da cadeirinha tentando não me lembuzar toda, sentá-la numa muretinha, limpá-la mais ou menos, tirar a roupa dela tentando não lambuzá-la ainda mais, limpar mais um pouquinho, colocar outra roupa, torcendo para ela não vomitar mais, e tudo enquanto ela ficava ali, no sol, meio passada, com as sardas ainda mais salientes, reclamando de frio num calor estonteante.
Podem me acusar de mau gosto ou mesmo maldade, mas foi tão bonitinho, ela toda molinha, com carinha de nojo e sem entender o que acontecia. Claro que em cinco minutos, limpa e depois de beber um golinho de água, ela já estava de novo toda serelepe, vendo os bois e os cavalos e gritando "o vento, o vento!!!" pendurada na janela do carro. E depois ela almoçou otimamente, correu por todos os lados, brincou com um graveto num laguinho, subiu escada, desceu escada, ensinou a todo mundo o caminho do banheiro, ordenou que só se andasse pisando em pedras grandes, etc.
Quando íamos voltar pra casa, ela começou a comer um pão, enlouquecidamente, e eu falei: "Clara, agora é melhor você não comer o pão inteiro, senão depois você passa mal, né?" E ela, surpreendentemente, acatou minha sugestão sem discutir - coisa que não é muito comum, em relação a mim - me devolveu o pão, eu guardei, perguntei se ela queria um pouco de suco, água ou danone (já não me lembro), ao que ela respondeu "Não, porque depois eu vomito".
Vale também lembrar que, apesar de - na maioria das vezes - inteligível, ela não fala exatamente assim, a frase soando mais como "nã puquê apois eu iito", o que torna a coisa toda ainda mais fofa. Ah, e uma coisa que ela fala que eu pensava, no caminho, em escrever: além dela não falar, sob hipótese alguma, a palavra "minha", optando, como eu já comentei, pelo "meu" (pai, mãe, tia, mão, amiga, etc), ela sabe contar até um tanto, acho que era mais do que 10, mas ela às vezes se confunde e vai do 3 para o 7. Mas quando ela vai falar o 2, no masculino sai direitinho, "dois", mas no feminino ela só fala "dusa". "Dusa mão", "vocês dusa", e por aí. E quando ela vai dizer "1, 2, 3 e já" ela acha que 3 tempos é pouco para se preparar para qualquer coisa, portanto ela segue contando, normalmente até 14 (claro que no maior estilo U2, "1, 2, 3, 4, 7 [ininteligível] 14", ah, e tudo isso contando nos dedos), e só então diz "já".
Enfim, só pra dizer que é mesmo muito divertido conviver com uma criança, mesmo a gente ficando todo quebrado. E também é tão gostoso, vez em quando, lembrar dessas coisas que a memória da gente não consegue reter. E porque eu gosto de guardar as coisas, então, hoje, além de umas imagens mesmo lindas, eu guardo um "eu iito" e, quem sabe, durmo com um sorriso nos lábios.
Quem me conhece um pouco melhor já me ouviu contar como eu sofri anos de uma otite crônica porque meu brilhante pai, ao ler a prescrição receitada pelo médico, julgava do alto de seus conhecimentos curativos ser muito alta a dose de antibiótico e, sendo pró-ativo como desde então ele nunca mais chegou a ser, cortava-a pela metade, ou ainda menos. Resultado: a infecção passava para dias depois voltar, desafiando a ciência com a sua persistência. A situação perdurou até que minha mãe, não sei como, descobriu e, conhecendo-a como eu conheço, depois de uma crise de apoplexia, de um esfrega no meu pobre pai que resolveu o problema.
Apesar de ser de uma geração muito mais registrável do que a de meus pais - minha certidão de nascimento, por exemplo, é fidedigna, nós todos temos certeza do dia em que nasci (apesar de minhas crises astrólogicas a esse respeito) -, com muitas fotos e os tais caderninhos que toda vez que eu encontro adoro folhear, ainda é muito menos do que essas crianças de agora, que têm milhões de fotos e filmes gravados em computadores através de máquinas digitais. Eu às vezes penso que, quando a Clara crescer, vai sentir o mesmo prazer que eu sinto agora, remexendo num passado já muito distante e esquecido, mas potencializado pelo número maior de registros de que ela vai dispor.
E eu, como tia coruja, gosto de pensar que vou contribuir para isso, não só com as minhas memórias, mas com os pequenos causos relativos a ela que vira e mexe eu resolvo contar. Hoje foi um dia desses; ela não foi à escola para me acompanhar - e à minha mãe - numa visita a uma fazenda da região, que talvez interessasse pesquisar no meu trabalho. Tudo muito lindo, maravilhoso, eu enrolei um tempão para sair de casa, depois ela enrolou, buscado todos os brinquedos possíveis e imagináveis de que ela precisaria sem falta, e fomos nós. Ela perguntando a cada cinco minutos onde estávamos, aonde iámos, e por que era tão longe até quem em um dado momento, já no fim da viagem e sem aviso prévio, o meio litro de suco de uva que ela engolira pouco antes (sim, meio litro, tentem vocês controlar uma criança empolgada com um copinho novo) teve que sair.
Aí foi aquele desespero, minha mãe tentando conter a poça, eu sem saber o que fazer, no meio de uma curva, seguindo adiante para parar em local um pouco mais seguro. Toca limpar mais ou menos o carro, tirá-la da cadeirinha tentando não me lembuzar toda, sentá-la numa muretinha, limpá-la mais ou menos, tirar a roupa dela tentando não lambuzá-la ainda mais, limpar mais um pouquinho, colocar outra roupa, torcendo para ela não vomitar mais, e tudo enquanto ela ficava ali, no sol, meio passada, com as sardas ainda mais salientes, reclamando de frio num calor estonteante.
Podem me acusar de mau gosto ou mesmo maldade, mas foi tão bonitinho, ela toda molinha, com carinha de nojo e sem entender o que acontecia. Claro que em cinco minutos, limpa e depois de beber um golinho de água, ela já estava de novo toda serelepe, vendo os bois e os cavalos e gritando "o vento, o vento!!!" pendurada na janela do carro. E depois ela almoçou otimamente, correu por todos os lados, brincou com um graveto num laguinho, subiu escada, desceu escada, ensinou a todo mundo o caminho do banheiro, ordenou que só se andasse pisando em pedras grandes, etc.
Quando íamos voltar pra casa, ela começou a comer um pão, enlouquecidamente, e eu falei: "Clara, agora é melhor você não comer o pão inteiro, senão depois você passa mal, né?" E ela, surpreendentemente, acatou minha sugestão sem discutir - coisa que não é muito comum, em relação a mim - me devolveu o pão, eu guardei, perguntei se ela queria um pouco de suco, água ou danone (já não me lembro), ao que ela respondeu "Não, porque depois eu vomito".
Vale também lembrar que, apesar de - na maioria das vezes - inteligível, ela não fala exatamente assim, a frase soando mais como "nã puquê apois eu iito", o que torna a coisa toda ainda mais fofa. Ah, e uma coisa que ela fala que eu pensava, no caminho, em escrever: além dela não falar, sob hipótese alguma, a palavra "minha", optando, como eu já comentei, pelo "meu" (pai, mãe, tia, mão, amiga, etc), ela sabe contar até um tanto, acho que era mais do que 10, mas ela às vezes se confunde e vai do 3 para o 7. Mas quando ela vai falar o 2, no masculino sai direitinho, "dois", mas no feminino ela só fala "dusa". "Dusa mão", "vocês dusa", e por aí. E quando ela vai dizer "1, 2, 3 e já" ela acha que 3 tempos é pouco para se preparar para qualquer coisa, portanto ela segue contando, normalmente até 14 (claro que no maior estilo U2, "1, 2, 3, 4, 7 [ininteligível] 14", ah, e tudo isso contando nos dedos), e só então diz "já".
Enfim, só pra dizer que é mesmo muito divertido conviver com uma criança, mesmo a gente ficando todo quebrado. E também é tão gostoso, vez em quando, lembrar dessas coisas que a memória da gente não consegue reter. E porque eu gosto de guardar as coisas, então, hoje, além de umas imagens mesmo lindas, eu guardo um "eu iito" e, quem sabe, durmo com um sorriso nos lábios.
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Alegrías
É oficial: eu hoje voltei ao flamenco. Seis anos depois da primeira vez, um depois da última.
Fiquem tranquilos em saber que eu ainda sei o que é um taco, um tacón, uma planta e um golpe, lembro que a maioria dos compassos é de doze tempos, muitas vezes divididos em "é" e "e-é" (vulgos colcheia e tercina), eu também folguei em saber que a professora continua a mesma e explica movimentos dizendo "aí agora puxa a flecha, que nem o Robin Wood, mesmo, faz 9, 10 e puxa, com tudo".
Mas é fato que, apesar disso tudo, eu não consigo fazer colcheia nem tercina, o tacón se confunde com o golpe, mexer braços e pés ao mesmo tempo realmente não é fácil e manter uma postura ereta, para mim que sou cacunda, está ainda mais difícil do que antes.
No entanto eu permaneço viva, apesar de com alguma dor nos pés.
Vale também a nota: cheguei na aula, conversei com o pessoal, reclamei um pouco da vida que anda corrida, alonguei, aqueci, aprendi - mais ou menos - os passos novos, mas na hora em que veio a música, ainda que gravada, já que não teremos ao vivo, deu aquela sensação boa, da música boa e a gente tentando se encaixar nela. Eu não tenho nenhuma formação musical, nem sou disciplinada para ser auto-didata, então é sempre um desafio achar o compasso e permanecer nele, e quando acontece é bom demais. O bom da distância é que ela traz saudade, que por sua vez nos faz voltar. Aquilo do elástico cósmico ou sei lá o que da Bridget Jones, mas aplicado a temas mais seguros e confiáveis do que homens. - Perceberam o amargor? Praticamente virei o whisky, dei aquela tragada no cigarro e caí da cadeira ao lado de um frasco de comprimidos pra acordar só amanhã ou no hospital, depois de uma lavagem estomacal.
Bem, agora, depois do drama, lembrei do Heath Ledger e da tristeza que me deu quando eu soube - nunca tinha me dado conta - que o nome dele era Heathcliff.
E, falando nisso, minha biblioteca está inabitável o que significa que amanhã, depois do médico (afinal, eu sou ou não sou hipocondríaca?) vou fazer uma visita básica ao sebo. Sugestões são sempre bem-vindas, apesar deu não acreditar que elas venham. Mas eu ando numa onda otimista, fazer o quê?
Todo mundo tem defeitos, ora bolas.
Fiquem tranquilos em saber que eu ainda sei o que é um taco, um tacón, uma planta e um golpe, lembro que a maioria dos compassos é de doze tempos, muitas vezes divididos em "é" e "e-é" (vulgos colcheia e tercina), eu também folguei em saber que a professora continua a mesma e explica movimentos dizendo "aí agora puxa a flecha, que nem o Robin Wood, mesmo, faz 9, 10 e puxa, com tudo".
Mas é fato que, apesar disso tudo, eu não consigo fazer colcheia nem tercina, o tacón se confunde com o golpe, mexer braços e pés ao mesmo tempo realmente não é fácil e manter uma postura ereta, para mim que sou cacunda, está ainda mais difícil do que antes.
No entanto eu permaneço viva, apesar de com alguma dor nos pés.
Vale também a nota: cheguei na aula, conversei com o pessoal, reclamei um pouco da vida que anda corrida, alonguei, aqueci, aprendi - mais ou menos - os passos novos, mas na hora em que veio a música, ainda que gravada, já que não teremos ao vivo, deu aquela sensação boa, da música boa e a gente tentando se encaixar nela. Eu não tenho nenhuma formação musical, nem sou disciplinada para ser auto-didata, então é sempre um desafio achar o compasso e permanecer nele, e quando acontece é bom demais. O bom da distância é que ela traz saudade, que por sua vez nos faz voltar. Aquilo do elástico cósmico ou sei lá o que da Bridget Jones, mas aplicado a temas mais seguros e confiáveis do que homens. - Perceberam o amargor? Praticamente virei o whisky, dei aquela tragada no cigarro e caí da cadeira ao lado de um frasco de comprimidos pra acordar só amanhã ou no hospital, depois de uma lavagem estomacal.
Bem, agora, depois do drama, lembrei do Heath Ledger e da tristeza que me deu quando eu soube - nunca tinha me dado conta - que o nome dele era Heathcliff.
E, falando nisso, minha biblioteca está inabitável o que significa que amanhã, depois do médico (afinal, eu sou ou não sou hipocondríaca?) vou fazer uma visita básica ao sebo. Sugestões são sempre bem-vindas, apesar deu não acreditar que elas venham. Mas eu ando numa onda otimista, fazer o quê?
Todo mundo tem defeitos, ora bolas.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Régua e compasso
Tava aqui cantarolando a música do Gil, repetindo à exaustão um verso, como normalmente acontece quando uma música gruda na nossa cabeça.
"A Bahia já me deu régua e compasso".
Eu cantava, adolescente, tão embevecida esse verso, em específico, pensando "pô, é mesmo, né? Na vida a gente não precisa mais que régua e compasso pra ir em frente", numas hippie-lesado ou Luciano-Huck-insuportável "saúde-é-que-importa-o-resto-a-gente-corre-atrás".
Aí numa onda autodepreciativa - como sempre, mas eu tenho um quê por essa coisa mau humorada e já dizia a Fernanda Young, ou um de seus personagens, que pessoas de bom senso não podem ter boa auto estima - eu pensava: "porra, mas que régua e compasso, eu tenho mais é um toquinho torto e um lápis preso numa cordinha - sabem como é, que a gente aprende a fazer na escola pra desenhar um círculo toscão? -, precisava mais era de um astrolábio - instrumento que eu não faço idéia de como é nem como funciona, pra que serve também me é um tanto quanto nebuloso, acho que no fundo ninguém sabe mas todo mundo finge pra deixar o professor de história pesudo-contente - de bússola, gps (com manual de instruções e personal-ensinador-de-gps, como tem agora pra celular hightech, embutidos). E de repente nascer de novo pra ver se incorporo de série um senso básico de direção, conseguindo então fazer alguma idéia de como achar pontos cardeais e o que fazer com eles, se tenho a sorte de me cair um mapa nas mãos e, caindo, portanto, saber o que diabos fazer com ele."
"A Bahia já me deu régua e compasso".
Eu cantava, adolescente, tão embevecida esse verso, em específico, pensando "pô, é mesmo, né? Na vida a gente não precisa mais que régua e compasso pra ir em frente", numas hippie-lesado ou Luciano-Huck-insuportável "saúde-é-que-importa-o-resto-a-gente-corre-atrás".
Aí numa onda autodepreciativa - como sempre, mas eu tenho um quê por essa coisa mau humorada e já dizia a Fernanda Young, ou um de seus personagens, que pessoas de bom senso não podem ter boa auto estima - eu pensava: "porra, mas que régua e compasso, eu tenho mais é um toquinho torto e um lápis preso numa cordinha - sabem como é, que a gente aprende a fazer na escola pra desenhar um círculo toscão? -, precisava mais era de um astrolábio - instrumento que eu não faço idéia de como é nem como funciona, pra que serve também me é um tanto quanto nebuloso, acho que no fundo ninguém sabe mas todo mundo finge pra deixar o professor de história pesudo-contente - de bússola, gps (com manual de instruções e personal-ensinador-de-gps, como tem agora pra celular hightech, embutidos). E de repente nascer de novo pra ver se incorporo de série um senso básico de direção, conseguindo então fazer alguma idéia de como achar pontos cardeais e o que fazer com eles, se tenho a sorte de me cair um mapa nas mãos e, caindo, portanto, saber o que diabos fazer com ele."
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Inspiração
Porque ela não me sai da cabeça. E pra gente saber.
Que há mulheres que se pintam de caulim na Costa do Marfim para o deus louvar.
Eu também me pinto para o luar, em mim, a prata derramar.
Oh, musa da inspiração!
Caia sobre mim este céu sem fim.
Que há mulheres que se pintam de caulim na Costa do Marfim para o deus louvar.
Eu também me pinto para o luar, em mim, a prata derramar.
Oh, musa da inspiração!
Caia sobre mim este céu sem fim.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Epifania
Terminei, na última madrugada, o Proust. A última página é incrível, como toda metade do último livro. Fico pensando se, quando eu for reler, serei capaz de reter essa coisa que ele deixa, no final, que acho que faz uma puta diferença saber ao começar a ler. Sim, eu recomendo. E, além de ser bom, é um excelente livro para releitura, exatamente por isso, ir crescendo e, no final, depois de chegar nas revelações, parece que as coisas se fundem, começo e fim, fim e começo e, afinal, talvez ele não tenha final.
Não sei em que momento, entre o ir me deitar e o dormir, tive uma epifania. Antes de tudo isso, revisitei alguns lugares, eu gosto de me ler, talvez não puramente por vaidade, mas porque eu consigo, comigo, recuperar coisas que eu vivi, senti e pensei; além da conexão ser direta, simples, essas coisas ficaram marcadas, registradas, se bem ou mal ou poderia ser melhor não importa, porque elas estão ali, para sempre, me dizendo do que fui e foi. Mas então, o momento: eu pensei (à Cebolinha, com seus planos infalíveis) que há uma chance deu poder reler Cem anos de solidão. Lendo, oras bolas, em espanhol! Será que não é, então, um novo livro? Pode ser que não, mas a idéia me consola. E eu vou alimentá-la carinhosamente, mantê-la aquecida por um bom tempo, aprender a língua, com paciência e, um dia, tentar ler em espanhol, daqui a muitos anos porque não se desperdiça uma possível última chance com ansiedade e precipitação. Eu pensei nisso e pensei hoje.
Depois eu dormi e sonhei que aquela mulher Brasil reformava um flat em que moravam três caras. O apartamento era bacanérrimo e a área social do prédio também. No entanto, permanece a questão do porquê a merda do meu inconsciente não acha que eu posso voar.
Não sei em que momento, entre o ir me deitar e o dormir, tive uma epifania. Antes de tudo isso, revisitei alguns lugares, eu gosto de me ler, talvez não puramente por vaidade, mas porque eu consigo, comigo, recuperar coisas que eu vivi, senti e pensei; além da conexão ser direta, simples, essas coisas ficaram marcadas, registradas, se bem ou mal ou poderia ser melhor não importa, porque elas estão ali, para sempre, me dizendo do que fui e foi. Mas então, o momento: eu pensei (à Cebolinha, com seus planos infalíveis) que há uma chance deu poder reler Cem anos de solidão. Lendo, oras bolas, em espanhol! Será que não é, então, um novo livro? Pode ser que não, mas a idéia me consola. E eu vou alimentá-la carinhosamente, mantê-la aquecida por um bom tempo, aprender a língua, com paciência e, um dia, tentar ler em espanhol, daqui a muitos anos porque não se desperdiça uma possível última chance com ansiedade e precipitação. Eu pensei nisso e pensei hoje.
Depois eu dormi e sonhei que aquela mulher Brasil reformava um flat em que moravam três caras. O apartamento era bacanérrimo e a área social do prédio também. No entanto, permanece a questão do porquê a merda do meu inconsciente não acha que eu posso voar.
Teoria
Terceiro ano de faculdade. Talvez segundo. Era um curso desses de nos deixar de cabeça fervendo. Minha irmã, carro azul, ao lado da cantina, garoando, eu entro e falo que estou com dor de cabeça. Era fim de tarde.
Eu que não sei nada de mim.
Um esforço fenomenal para aceitar o limite. No curso. Sempre pontas soltas, não importa a sua genialidade ou dedicação. Eis uma certeza, única.
Não sei aonde me levou essa estrada, mas eu comecei, com uma dor de cabeça, e até hoje sigo. Sempre. Não importa.
Mas eu não entendo por que continuo perguntando "por quê?".
Espero o curso que me traga dor de cabeça e a compreensão de que sempre. Não importa.
Eu que não sei nada de mim.
Um esforço fenomenal para aceitar o limite. No curso. Sempre pontas soltas, não importa a sua genialidade ou dedicação. Eis uma certeza, única.
Não sei aonde me levou essa estrada, mas eu comecei, com uma dor de cabeça, e até hoje sigo. Sempre. Não importa.
Mas eu não entendo por que continuo perguntando "por quê?".
Espero o curso que me traga dor de cabeça e a compreensão de que sempre. Não importa.
Parfum
Claro que eu devia estar estudando, mas, como efeito da concentração negativa, fui foi ver um filme. O Perfume. Me deixou num estado absolutamente estranho, não sei se em leveza ou peso. Como cheio e vazio; enquanto me preparava para escrever esse texto pensei "insustentável leveza do ser".
Isso da vida e das coisas que ela ensina. Será possível simplesmente saber, por ao menos um segundo? Menos, um centésimo, em que se sabe o indizível. Ou que se sabe um centésimo.
Eu já, por um segundo, não temi a morte.
Uma vez eu fiz um pacto. Quando ele se cumpriu eu, imbecil, porque tenho - alguma - palavra, cumpri, por minha vez, a minha parte.
Eu sinto já não sei o que e não sei por quem.
Isso que a vida ensina, a gente tem que fazer prova pra saber se aprendeu?
Isso da vida e das coisas que ela ensina. Será possível simplesmente saber, por ao menos um segundo? Menos, um centésimo, em que se sabe o indizível. Ou que se sabe um centésimo.
Eu já, por um segundo, não temi a morte.
Uma vez eu fiz um pacto. Quando ele se cumpriu eu, imbecil, porque tenho - alguma - palavra, cumpri, por minha vez, a minha parte.
Eu sinto já não sei o que e não sei por quem.
Isso que a vida ensina, a gente tem que fazer prova pra saber se aprendeu?
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Pachorra
Tarde de inverno, nubladinha, eu ainda sem conseguir trabalhar, concentração negativa, umidade do ar mais elevada. Venho ver, inocentemente, meus e-mails e, voando através do monitor, enquanto eu espero distraída que a página seja carregada, olhando para o lado, para a televisão talvez, vem, voando através do monitor, um carimbo como o que acabei de ver, na sala, em que sujei minha mão de tinta, vem um carimbo e me carimba na testa: "imbecil!". Assim, sem nem a consideração de colocar em maiúscula, dizer meu nome, pra eu me sentir, ao menos, uma imbecil única, diferente de todos os outros imbecis do mundo.
Um grande amigo, há muito anos, antes de ser um grande amigo, sendo só dessas paixões nascentes, para me provocar, me chamava de Ms. Right. Lembro da cena e da voz e da luz, ali, na escada, indo para o estacionamento, anoitecia.
Já dizem eles, que hoje, sendo bons, me decepcionaram: "no good deed goes inpunished".
Veja e aprenda, Maíra, veja e aprenda.
Um grande amigo, há muito anos, antes de ser um grande amigo, sendo só dessas paixões nascentes, para me provocar, me chamava de Ms. Right. Lembro da cena e da voz e da luz, ali, na escada, indo para o estacionamento, anoitecia.
Já dizem eles, que hoje, sendo bons, me decepcionaram: "no good deed goes inpunished".
Veja e aprenda, Maíra, veja e aprenda.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
A próxima
Há pouco, falando com a Deborah, sei lá por que ela falou do Rogério. Sorte que ela foi logo explicando, "de Ouro Preto", então não deu tempo antes do branco se estabelecer para depois a lembrança ressurgir, com aquela intensidade de doer.
Depois de muito caçar na internet, não encontrei o disco do Baden Powell que, afinal, encontrei nos escombros do computador.
Baden.
A luz de Ouro Preto.
A comida.
O vinho.
A música.
Baden.
Aquela saudade e saber que não adianta, o tempo não para nem volta. Aquilo foi ali, naquele momento.
Ainda na viagem anterior, ficamos com vontade de entrar num restaurante com música ao vivo, mas não deu, sei lá por quais motivos, mas dessa entramos e nos apaixonamos. O Rogério foi quem tocou pra gente, assumiu o violão e o cara é um músico fantástico. Tocou muito Baden, ficamos mais ou menos amigos, nos encontramos outras vezes durante a nossa estadia.
Vêm saudade e nostalgia, agora, ouvindo, lembrando da luz. E o tempo não volta, isso pode ser uma verdade tão dolorosa, como corte de papel no dedo, é superficial mas arde muito. Às vezes a gente é só um dedo.
Foste o que tinha de ser?
Na segunda viagem a Ouro Preto.
Engraçado que eu vivo dizendo isso, olhando para trás, na minha vida, acho que todas as coisas bacanas que me aconteceram, aconteceram na segunda vez, com a segunda opção. Escola, vestibular, mestrado, correção, até amigos. Até Ouro Preto.
O que tinha de ser?
Nunca é, né? A gente pode até aceitar que foste, mas nunca o que tinha de ser e, indo, já não importa. O passado pode ser imperativo. Foste.
Chão de estrelas.
Depois de muito caçar na internet, não encontrei o disco do Baden Powell que, afinal, encontrei nos escombros do computador.
Baden.
A luz de Ouro Preto.
A comida.
O vinho.
A música.
Baden.
Aquela saudade e saber que não adianta, o tempo não para nem volta. Aquilo foi ali, naquele momento.
Ainda na viagem anterior, ficamos com vontade de entrar num restaurante com música ao vivo, mas não deu, sei lá por quais motivos, mas dessa entramos e nos apaixonamos. O Rogério foi quem tocou pra gente, assumiu o violão e o cara é um músico fantástico. Tocou muito Baden, ficamos mais ou menos amigos, nos encontramos outras vezes durante a nossa estadia.
Vêm saudade e nostalgia, agora, ouvindo, lembrando da luz. E o tempo não volta, isso pode ser uma verdade tão dolorosa, como corte de papel no dedo, é superficial mas arde muito. Às vezes a gente é só um dedo.
Foste o que tinha de ser?
Na segunda viagem a Ouro Preto.
Engraçado que eu vivo dizendo isso, olhando para trás, na minha vida, acho que todas as coisas bacanas que me aconteceram, aconteceram na segunda vez, com a segunda opção. Escola, vestibular, mestrado, correção, até amigos. Até Ouro Preto.
O que tinha de ser?
Nunca é, né? A gente pode até aceitar que foste, mas nunca o que tinha de ser e, indo, já não importa. O passado pode ser imperativo. Foste.
Chão de estrelas.
In the air
A gente é muito besta.
Eu assistia à primeira fase da liga mundial de vôlei, Brasil e Sérvia, no terceiro set o juiz roubou o time sérvio e eu comecei a torcer por eles, pra reverterem o resultado, porque o que é justo é justo. Eles viraram e venceram o jogo, eu até ficaria chateadinha, mas era primeira fase do campeonato e isso não afetava a permanência do Brasil na competição.
Eu adoro vôlei. Minha mãe também.
A coisa é que nós duas sempre ficamos tristes no final de cada jogo, porque sentimos alguma pena do time adversário, que sempre angaria alguma - ou muita- simpatia de nossos bondosos corações.
Nesse jogo em particular, eu me lembrava vagamente - com a memória de elefante que me é característica - da estrela do time sérvio. Miljkovic. O cara é lindo e quadrado. Ombros largos muito largos.
É tão estúpido isso, mas às vezes a gente não simplesmente se apaixona por pessoas ou coisas que acontecem ou aparecem na nossa vida, assim, sem maior motivo, sem maior profundidade, mas, pegos de surpresa, caímos nessa rede que, diferente de paixões mais sérias, não prende nem machuca?
Aí, nesse jogo, eis que o Miljkovic vai pro banco e entra um outro jogador, novinho, também mega fofo, mas ele volta, em determinado momento, a Sérvia faz um ponto e ele é quem vai sacar, aí na hora da comemoração, que os caras se abraçam no meio da quadra, ele dá um puta sorriso, desses que vêm mesmo do fundo, satisfeito, completo, e vai sacar. Não sei, achei bonito e me apaixonei.
Hoje, dda que sou, assisti a outro jogo da seleção e uma hora o narrador me solta uma dessas: o Miljkovic gosta de música dance, dos anos 70. Lembrei na hora de um post secret dessa semana, uma pessoa dizendo "I fear that my unnatural affinity for Abba will prevent me for ever fiding a man". De novo, fiquei rindo sozinha.
Pra completar, ele deu de cara no poste, aquele que segura a rede.
Só porque é muito legal quando essas coisinhas conseguem nos trazer uma felicidadezinha assim, que dura um sorriso.
Eu queria também falar do Baden e do Calabouço e das saudades, mas fica pra próxima.
Eu assistia à primeira fase da liga mundial de vôlei, Brasil e Sérvia, no terceiro set o juiz roubou o time sérvio e eu comecei a torcer por eles, pra reverterem o resultado, porque o que é justo é justo. Eles viraram e venceram o jogo, eu até ficaria chateadinha, mas era primeira fase do campeonato e isso não afetava a permanência do Brasil na competição.
Eu adoro vôlei. Minha mãe também.
A coisa é que nós duas sempre ficamos tristes no final de cada jogo, porque sentimos alguma pena do time adversário, que sempre angaria alguma - ou muita- simpatia de nossos bondosos corações.
Nesse jogo em particular, eu me lembrava vagamente - com a memória de elefante que me é característica - da estrela do time sérvio. Miljkovic. O cara é lindo e quadrado. Ombros largos muito largos.
É tão estúpido isso, mas às vezes a gente não simplesmente se apaixona por pessoas ou coisas que acontecem ou aparecem na nossa vida, assim, sem maior motivo, sem maior profundidade, mas, pegos de surpresa, caímos nessa rede que, diferente de paixões mais sérias, não prende nem machuca?
Aí, nesse jogo, eis que o Miljkovic vai pro banco e entra um outro jogador, novinho, também mega fofo, mas ele volta, em determinado momento, a Sérvia faz um ponto e ele é quem vai sacar, aí na hora da comemoração, que os caras se abraçam no meio da quadra, ele dá um puta sorriso, desses que vêm mesmo do fundo, satisfeito, completo, e vai sacar. Não sei, achei bonito e me apaixonei.
Hoje, dda que sou, assisti a outro jogo da seleção e uma hora o narrador me solta uma dessas: o Miljkovic gosta de música dance, dos anos 70. Lembrei na hora de um post secret dessa semana, uma pessoa dizendo "I fear that my unnatural affinity for Abba will prevent me for ever fiding a man". De novo, fiquei rindo sozinha.
Pra completar, ele deu de cara no poste, aquele que segura a rede.
Só porque é muito legal quando essas coisinhas conseguem nos trazer uma felicidadezinha assim, que dura um sorriso.
Eu queria também falar do Baden e do Calabouço e das saudades, mas fica pra próxima.
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Branco
Todas as vezes que eu resolvo escrever qualquer coisa tenho que começar com um mea culpa. Certamente Freud explica, mas é fato e contra fatos não há argumentos.
O de hoje é sobre os clichês. Não sobre a... clichezice deles, mas sobre como eles são verdadeiros, apesar dela. E o clichê da vez é a liberdade.
Todo mundo vive falando em liberdade isso, aquilo, é direito, tem que ser assim ou assado, mas eu agora me pego pensando nas vezes em que vi/ouvi/li alguém sendo, verdadeiramente livre. Não absolutamente, porque eu passei da fase - ou ela saiu de férias - dos absolutos, mas assim, um momento que seja de total liberdade. Sem amarras, portanto feliz, leve.
Eu hoje, mais cedo, pensava que eu preciso - atenção, o verbo está colocado corretamente - chorar, digamos, ao menos uma vez a cada duas semanas. Hoje, mais cedo, eu pensava: ih, faz tempo que eu não choro, acho que tá na hora. Porque senão fica que nem açude em época de cheia, uma hora tem que sangrar. Aí vai, sangra e fica tudo bem. Atingir o limite e transbordar. No meu caso, como eu concluí há pouco que sou uma pessoa melancólica, não preciso ter os motivos mais fortes para abrir o berreiro - já que os travessões estão em alta, vale dizer que eu não abro berreiro, mas choro em silêncio. É só que eu preciso chorar a cada duas semanas, no máximo.
Hoje, mais cedo, eu sentia uma tristeza, cuja principal razão de ser, a meu ver, era a necessidade de chorar. Por tudo e nada, e o mundo e o vácuo.
Mas eis que acontece o quê? Venho eu, de novo, no carro, mudando as estações de rádio e sou acometida por liberdade. Eu como historiadora ouso dizer que a ausência de história às vezes é crucial, necessária, imprescindível. Ouço rádio e toca "loosing my religion" e eu posso cantar, com direito a caretas expressivas e tapinhas no peito, sem me recordar de nada, nenhuma conversa, nenhuma audição conjunta, nenhuma referência, só eu e a música e ela dizendo o que eu quero dizer. É nesse ponto que acaba a tristeza e dá pra ser feliz, assim em dose homeopática, mas ainda assim feliz.
Liberdade pode ser tanta coisa, né? Tão diferente para cada pessoa, em cada lugar e em cada momento, mas pra mim, hoje, é só um vazio, como o caderno que eu ouvia o Chico cantar ontem, ou anteontem.
O de hoje é sobre os clichês. Não sobre a... clichezice deles, mas sobre como eles são verdadeiros, apesar dela. E o clichê da vez é a liberdade.
Todo mundo vive falando em liberdade isso, aquilo, é direito, tem que ser assim ou assado, mas eu agora me pego pensando nas vezes em que vi/ouvi/li alguém sendo, verdadeiramente livre. Não absolutamente, porque eu passei da fase - ou ela saiu de férias - dos absolutos, mas assim, um momento que seja de total liberdade. Sem amarras, portanto feliz, leve.
Eu hoje, mais cedo, pensava que eu preciso - atenção, o verbo está colocado corretamente - chorar, digamos, ao menos uma vez a cada duas semanas. Hoje, mais cedo, eu pensava: ih, faz tempo que eu não choro, acho que tá na hora. Porque senão fica que nem açude em época de cheia, uma hora tem que sangrar. Aí vai, sangra e fica tudo bem. Atingir o limite e transbordar. No meu caso, como eu concluí há pouco que sou uma pessoa melancólica, não preciso ter os motivos mais fortes para abrir o berreiro - já que os travessões estão em alta, vale dizer que eu não abro berreiro, mas choro em silêncio. É só que eu preciso chorar a cada duas semanas, no máximo.
Hoje, mais cedo, eu sentia uma tristeza, cuja principal razão de ser, a meu ver, era a necessidade de chorar. Por tudo e nada, e o mundo e o vácuo.
Mas eis que acontece o quê? Venho eu, de novo, no carro, mudando as estações de rádio e sou acometida por liberdade. Eu como historiadora ouso dizer que a ausência de história às vezes é crucial, necessária, imprescindível. Ouço rádio e toca "loosing my religion" e eu posso cantar, com direito a caretas expressivas e tapinhas no peito, sem me recordar de nada, nenhuma conversa, nenhuma audição conjunta, nenhuma referência, só eu e a música e ela dizendo o que eu quero dizer. É nesse ponto que acaba a tristeza e dá pra ser feliz, assim em dose homeopática, mas ainda assim feliz.
Liberdade pode ser tanta coisa, né? Tão diferente para cada pessoa, em cada lugar e em cada momento, mas pra mim, hoje, é só um vazio, como o caderno que eu ouvia o Chico cantar ontem, ou anteontem.
domingo, 20 de julho de 2008
Exceção
Onde estão as palavras que me escapam
Onde estão os versos verdadeiros
Contando baixinho o sentido da vida
Onde vou para conhecer a mim mesmo
O amor insensato à humanidade
A corrida para ganhar o que se perde
O trabalho inseguro que é cansaço
Onde está o gosto bom da infância
As cores coloridas do arco-íris
A luz que ilumina um dia de verão
Onde estão as palavras que me escapam...
Do Gera, daqui.
Onde estão os versos verdadeiros
Contando baixinho o sentido da vida
Onde vou para conhecer a mim mesmo
O amor insensato à humanidade
A corrida para ganhar o que se perde
O trabalho inseguro que é cansaço
Onde está o gosto bom da infância
As cores coloridas do arco-íris
A luz que ilumina um dia de verão
Onde estão as palavras que me escapam...
Do Gera, daqui.
Querer
Diz o Gera:
"Eu queria ser Bertold Brecht
escrever poemas feios
e todo mundo achar bonito."
Eu diria que queria escrever poemas, apesar de não gostar deles.
"Eu queria ser Bertold Brecht
escrever poemas feios
e todo mundo achar bonito."
Eu diria que queria escrever poemas, apesar de não gostar deles.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Ainda uma
Só antes de dormir que eu ia começar a cantarolar e lembrei: Não é que aquela música "poema" é do Cazuza? Eu confesso que não sabia, vi na MTV, ele escreveu para a vó aos 17 anos e o Frejat foi quem musicou.
Eu acho isso muito foda, porque a música é toda linda, inclusive a voz do Ney, na minha versão favorita, mas isso já não é culpa do Cazuza.
Eu acho isso muito foda, porque a música é toda linda, inclusive a voz do Ney, na minha versão favorita, mas isso já não é culpa do Cazuza.
Saco
Fato: eu não gosto nem tenho o costume de comentar notícias. Mas como eu hoje fiquei com vontade, abri uma exceção.
Foi quando eu tava passando ao lado da tv e vi uma chamada de um cara de 28 anos que morreu baleado; tava trabalhando no Rio e rolou um tiroreio, polícia e bandido, e ele foi proteger a filha e morreu e a menina, 3 anos, ainda tomou bala na perna. Lembrei na hora do Crash e lembrei também que a gente não vive em filme, apesar daquela cena ser uma das mais maravilhosas que eu já vi. E ok, violência, absurdo, blá blá blá, mas eu não consigo deixar de me perguntar se as coisas sempre foram assim e eu que só agora comecei a acompanhar as notícias. De qualquer modo, esses últimos dias tão que tão.
Eu acho que tinha chegado a alguma conclusão a esse respeito, o mundo, mas esqueci. E no fundo é isso, não é? Tem gente vivendo e morrendo o tempo todo, só que às vezes é melhor simplesmente não pensar nisso.
Eu sou adepta e defensora da política do pensar seletivo. Também aceito que chamem isso de preguiça, mas a questão é que a coisa não tá fácil e eu ainda não tive o prazer de conhecer alguém que consegue manter a sanidade no meio desse saco de gatos se ficar o tempo todo de olho aberto.
Foi quando eu tava passando ao lado da tv e vi uma chamada de um cara de 28 anos que morreu baleado; tava trabalhando no Rio e rolou um tiroreio, polícia e bandido, e ele foi proteger a filha e morreu e a menina, 3 anos, ainda tomou bala na perna. Lembrei na hora do Crash e lembrei também que a gente não vive em filme, apesar daquela cena ser uma das mais maravilhosas que eu já vi. E ok, violência, absurdo, blá blá blá, mas eu não consigo deixar de me perguntar se as coisas sempre foram assim e eu que só agora comecei a acompanhar as notícias. De qualquer modo, esses últimos dias tão que tão.
Eu acho que tinha chegado a alguma conclusão a esse respeito, o mundo, mas esqueci. E no fundo é isso, não é? Tem gente vivendo e morrendo o tempo todo, só que às vezes é melhor simplesmente não pensar nisso.
Eu sou adepta e defensora da política do pensar seletivo. Também aceito que chamem isso de preguiça, mas a questão é que a coisa não tá fácil e eu ainda não tive o prazer de conhecer alguém que consegue manter a sanidade no meio desse saco de gatos se ficar o tempo todo de olho aberto.
Não, mesmo
Bem, caro leitor, você pode não saber que intervalo entre a criação do post anterior e sua respectiva publicação, meu computador querido resolveu travar, como tem feito desde ontem, depois de voltar do conserto, antes do qual ele não travava nunca.
Eu não tive uma mega crise de ódio profundo porque acho que já esgotei por hoje, e também porque eu tive um quê de confiança no santo blogger que salva rascunhos automatiamente, então o trabalho não foi em vão. Ok, nem tão bom trabalho assim, mas é sempre um suorzinho que escorre da nossa face.
Enquanto persistia a dúvida e o suspense - salvou? Não salvou? Salvou?! - eu pensava em escrever assim, como retalho ao post perdido: you can't always get what you want, mesmo, nem que o que você queira seja simples e lógico, como uma coisa consertada funcionando melhor do que uma... não consertada.
Entre mortos e feridos salvaram-se todos, no entanto, e eu paro de reclamar aqui antes que o bicho pegue de verdade.
Eu não tive uma mega crise de ódio profundo porque acho que já esgotei por hoje, e também porque eu tive um quê de confiança no santo blogger que salva rascunhos automatiamente, então o trabalho não foi em vão. Ok, nem tão bom trabalho assim, mas é sempre um suorzinho que escorre da nossa face.
Enquanto persistia a dúvida e o suspense - salvou? Não salvou? Salvou?! - eu pensava em escrever assim, como retalho ao post perdido: you can't always get what you want, mesmo, nem que o que você queira seja simples e lógico, como uma coisa consertada funcionando melhor do que uma... não consertada.
Entre mortos e feridos salvaram-se todos, no entanto, e eu paro de reclamar aqui antes que o bicho pegue de verdade.
You can't always get what you want
Daí que eu agora viciei no House.
Esses dias, vendo junto do meu pai, ele vira e diz: "esse cara parece o Raimundo Alves". Meu avô. Engraçado que parece, mesmo, alguma coisa no queixo e nos olhos.
O House é muito mau. Pode até ser muitas outras coisas além disso, mas ele também é muito mau.
Eu, como todo hipocondríaco, nunca que devia ver essas séries médicas, porque claro que a gente fica maluco e pensa que qualquer coisa é uma doença muito séria não diagnosticada corretamente que vai nos matar. Há umas três ou quatro semanas, eu tava com uma gripe feia e, depois que ela passou, fiquei um dia inteiro com o rosto vazando do lado direito. Sabem como é? Nariz escorrendo e olho lacrimejando nonstop. Eu tinha consulta marcada com o oftalmologista dali a dois dias e resolvi não entrar em pânico - disse o médico que isso era uma conjuntivite - mas eu tenho que confessar que achei que aquilo era líquido espinhal saindo pelo nariz (tipo um... líquido... que fica... na espinha... ou no cérebro... e que com certeza tem algum nome diferente desse, que foi o que eu guardei de algum episódio de GA) e que, enfim, eu ia morrer.
Mas a sorte do ser hipocondríaca é que eu sei que sou, portanto, sabendo da minha tendência ao drama, tenho algum controle sobre minhas reações.
Tudo isso pra dizer que eu viciei no House e que ele gosta muito dessa música.
E que, pensando bem, ela até que faz sentido. Principalmente na conclusão.
Esses dias, vendo junto do meu pai, ele vira e diz: "esse cara parece o Raimundo Alves". Meu avô. Engraçado que parece, mesmo, alguma coisa no queixo e nos olhos.
O House é muito mau. Pode até ser muitas outras coisas além disso, mas ele também é muito mau.
Eu, como todo hipocondríaco, nunca que devia ver essas séries médicas, porque claro que a gente fica maluco e pensa que qualquer coisa é uma doença muito séria não diagnosticada corretamente que vai nos matar. Há umas três ou quatro semanas, eu tava com uma gripe feia e, depois que ela passou, fiquei um dia inteiro com o rosto vazando do lado direito. Sabem como é? Nariz escorrendo e olho lacrimejando nonstop. Eu tinha consulta marcada com o oftalmologista dali a dois dias e resolvi não entrar em pânico - disse o médico que isso era uma conjuntivite - mas eu tenho que confessar que achei que aquilo era líquido espinhal saindo pelo nariz (tipo um... líquido... que fica... na espinha... ou no cérebro... e que com certeza tem algum nome diferente desse, que foi o que eu guardei de algum episódio de GA) e que, enfim, eu ia morrer.
Mas a sorte do ser hipocondríaca é que eu sei que sou, portanto, sabendo da minha tendência ao drama, tenho algum controle sobre minhas reações.
Tudo isso pra dizer que eu viciei no House e que ele gosta muito dessa música.
E que, pensando bem, ela até que faz sentido. Principalmente na conclusão.
terça-feira, 15 de julho de 2008
Bittersweet
É sempre uma coisa dolorosa a gente perceber o quanto é brega. Mas, ao mesmo tempo, se a gente é, por que não assumir?
Eu sou brega, porque queria dizer o seguinte:
Eu gosto do sol de inverno.
Não sou nada garota de praia, nem verã-curtição, mas esse sol de inverno tem a capacidade de me deixar feliz. Acho que o sol sem o calor insuportável, ou a luz, eu não sei o que é, principalmente quando eu saio de carro e acontece de tocar uma música bacana no rádio.
Tem um tempo eu vi uma entrevista com um psiquiatra italiano radicado (eita, é a primeira vez ever que eu escrevo essa palavra!) no Brasil e ele contava um pouco da infância dele, ele fugiu de casa com tipo 14 anos pra ficar com uma mulher (garota? sei lá!), e contava também que, ainda na Itália, ele tinha essa coisa de às vezes ver uma família pela janela, à noite, e desejar aquilo, aquela cena de conforto e aconchego. Eu falo muito disso, tenho essa sensação principalmente na hora de dormir. Lembro sempre daquele filme com a Michelle Pfeiffer e o George Clooney, que a casa dela é mega fofa e no final a câmera sai pela janela e vai mostrando os outros apartamentos, vazios ou com pessoas ali fazendo sei lá o que elas fazem na vida.
Quando eu tava no Rio, na rua do hotel, dava pra ver num apartamento de primeiro andar uma biblioteca. Aí vem aquela sensação, tão familiar já, de que as pessoas que vivem ali têm uma vida diferente da minha, se sentem mais confortáveis ou qualquer outra coisa e, apesar de saber que isso é uma mentira ou uma ilusão, eu não consigo me impedir de sentir um estranhamento quando deito na minha cama e não é um filme ou uma janela alheia.
Mas quando é inverno e tem sol e eu estou no carro e toca uma música legal - nem precisa ser maravilhosa - eu esqueço um pouco disso tudo e pronto: tá ali um momento... de filme.
Ontem, quando eu estava no carro e com sol e inverno e música, eu me dei conta de que, definitivamente eu sou uma pessoa melancólica. Não que eu já não soubesse disso, ou que ninguém nunca tenha me dito, mas saber é diferente de saber. E, ontem, música, inverno, carro, sol, eu soube e senti, e uma tristeza alegre ou alegria triste, ou uma melancolia, chegou e eu percebi, assim, bittersweet, bom e ruim, e eu soube.
Eu não me lembro de nenhum momento da minha vida em que eu não tive uma tristeza. Angústia e aperto e ansiedade eu passo, não faço a menor questão, apesar de elas estarem constantemente ali ao lado, puxando meu cabelo. Mas ok, essa melancolia eu aceito e abraço, porque ela, de alguma maneira que eu não sei explicar, preenche.
Eu continuo pensando "ah, mas se tal coisa acontecer eu vou ser feliz!" enquanto sei que isso não é verdade, que não vai acontecer nada nem ninguém vai me salvar e que depois não existe e a gente tem que achar um jeito de ser feliz agora, mas saber é diferente de saber.
Exceto quando tem sol, carro, música e inverno.
Eu sou brega, porque queria dizer o seguinte:
Eu gosto do sol de inverno.
Não sou nada garota de praia, nem verã-curtição, mas esse sol de inverno tem a capacidade de me deixar feliz. Acho que o sol sem o calor insuportável, ou a luz, eu não sei o que é, principalmente quando eu saio de carro e acontece de tocar uma música bacana no rádio.
Tem um tempo eu vi uma entrevista com um psiquiatra italiano radicado (eita, é a primeira vez ever que eu escrevo essa palavra!) no Brasil e ele contava um pouco da infância dele, ele fugiu de casa com tipo 14 anos pra ficar com uma mulher (garota? sei lá!), e contava também que, ainda na Itália, ele tinha essa coisa de às vezes ver uma família pela janela, à noite, e desejar aquilo, aquela cena de conforto e aconchego. Eu falo muito disso, tenho essa sensação principalmente na hora de dormir. Lembro sempre daquele filme com a Michelle Pfeiffer e o George Clooney, que a casa dela é mega fofa e no final a câmera sai pela janela e vai mostrando os outros apartamentos, vazios ou com pessoas ali fazendo sei lá o que elas fazem na vida.
Quando eu tava no Rio, na rua do hotel, dava pra ver num apartamento de primeiro andar uma biblioteca. Aí vem aquela sensação, tão familiar já, de que as pessoas que vivem ali têm uma vida diferente da minha, se sentem mais confortáveis ou qualquer outra coisa e, apesar de saber que isso é uma mentira ou uma ilusão, eu não consigo me impedir de sentir um estranhamento quando deito na minha cama e não é um filme ou uma janela alheia.
Mas quando é inverno e tem sol e eu estou no carro e toca uma música legal - nem precisa ser maravilhosa - eu esqueço um pouco disso tudo e pronto: tá ali um momento... de filme.
Ontem, quando eu estava no carro e com sol e inverno e música, eu me dei conta de que, definitivamente eu sou uma pessoa melancólica. Não que eu já não soubesse disso, ou que ninguém nunca tenha me dito, mas saber é diferente de saber. E, ontem, música, inverno, carro, sol, eu soube e senti, e uma tristeza alegre ou alegria triste, ou uma melancolia, chegou e eu percebi, assim, bittersweet, bom e ruim, e eu soube.
Eu não me lembro de nenhum momento da minha vida em que eu não tive uma tristeza. Angústia e aperto e ansiedade eu passo, não faço a menor questão, apesar de elas estarem constantemente ali ao lado, puxando meu cabelo. Mas ok, essa melancolia eu aceito e abraço, porque ela, de alguma maneira que eu não sei explicar, preenche.
Eu continuo pensando "ah, mas se tal coisa acontecer eu vou ser feliz!" enquanto sei que isso não é verdade, que não vai acontecer nada nem ninguém vai me salvar e que depois não existe e a gente tem que achar um jeito de ser feliz agora, mas saber é diferente de saber.
Exceto quando tem sol, carro, música e inverno.
sábado, 12 de julho de 2008
Blablalbalbalbalblablabla
Bem, que eu sou uma pessoa irritadiça já é ponto.. pacífico ou passivo? Isso é que nem o círculo vicioso, que durante muitos anos eu achei que fosse um circo. Ou as águas de março, que eram de mar, sufechando o verão, e eu nunca entendia que diabo de verbo era sufechar. Mas, se Tom dizia, devia existir.
Enfim, claro que pensei em muitas coisas pra dizer e elas se foram, como as tais águas, não importa quais.
Sim, uma coisa que eu pensava, ainda agora, era sobre as coisas que a gente perde e acha. Eu fico muito irritada sempre que não encontro alguma coisa, sempre, aí vou perdendo a força de procurar e acabo no limbo.
Mas será que não tem coisas que a gente nem viu que perdeu ou, se viu, não liga, aí encontra e é muito legal? Tipo dinheiro em bolso de calça.
Aí o oposto disso são pessoas que colocam trilha sonora em blog. Ok, o princípio é até divertido, partilhas com as pessoas as músicas que você gosta, quem sabe apresentar algo novo a alguém, etc, mas eu não consigo não achar isso muito invasivo. Porque se eu quiser conhecer as músicas de que você gosta, sei lá, vou te perguntar, ou você escreve sobre elas; mas me deixa subindo pelas paredes eu estar aqui, no meu silêncio e ele ser repentinamente invadido pela merda que alguém resolveu arbitrariamente que eu deveria ouvir naquele instante. Ou eu estar curtindo o meu sonzinho e começar a ouvir um barulho estranho e depois ficar caçando qual das páginas abertas deixa entrar o intruso. Sei lá, acho falta de respeito.
Mas, minha pergunta favorita, que fazer?
Que nem o imbecil que joga caminhão em cima da gente na estrada, ou o infeliz que não dá seta na rua, ou tantas outras coisas que a gente não pode mudar, umas piores outras nem tanto, umas mais pessoais que outras.
Eu não posso fazer nada, aceito, mas isso não me impede de soltar uns belos palavrões no decorrer do processo.
Hoje ainda, assistindo a jogos de vôlei do Brasil, minha mãe comentava: Olha, Maíra, você já reparou que, no masculino, quando eles erram, mandam se foder, ao caralho e mais um monte, e as mulheres nada? Acho que xingar é super saudável e nada disso de não ser feminino. Se é ou não é, foda-se, é a única maneira que eu conheço de aliviar um pouco da raiva causada por essas cagadas que acontecem todos os dias.
Enfim, claro que pensei em muitas coisas pra dizer e elas se foram, como as tais águas, não importa quais.
Sim, uma coisa que eu pensava, ainda agora, era sobre as coisas que a gente perde e acha. Eu fico muito irritada sempre que não encontro alguma coisa, sempre, aí vou perdendo a força de procurar e acabo no limbo.
Mas será que não tem coisas que a gente nem viu que perdeu ou, se viu, não liga, aí encontra e é muito legal? Tipo dinheiro em bolso de calça.
Aí o oposto disso são pessoas que colocam trilha sonora em blog. Ok, o princípio é até divertido, partilhas com as pessoas as músicas que você gosta, quem sabe apresentar algo novo a alguém, etc, mas eu não consigo não achar isso muito invasivo. Porque se eu quiser conhecer as músicas de que você gosta, sei lá, vou te perguntar, ou você escreve sobre elas; mas me deixa subindo pelas paredes eu estar aqui, no meu silêncio e ele ser repentinamente invadido pela merda que alguém resolveu arbitrariamente que eu deveria ouvir naquele instante. Ou eu estar curtindo o meu sonzinho e começar a ouvir um barulho estranho e depois ficar caçando qual das páginas abertas deixa entrar o intruso. Sei lá, acho falta de respeito.
Mas, minha pergunta favorita, que fazer?
Que nem o imbecil que joga caminhão em cima da gente na estrada, ou o infeliz que não dá seta na rua, ou tantas outras coisas que a gente não pode mudar, umas piores outras nem tanto, umas mais pessoais que outras.
Eu não posso fazer nada, aceito, mas isso não me impede de soltar uns belos palavrões no decorrer do processo.
Hoje ainda, assistindo a jogos de vôlei do Brasil, minha mãe comentava: Olha, Maíra, você já reparou que, no masculino, quando eles erram, mandam se foder, ao caralho e mais um monte, e as mulheres nada? Acho que xingar é super saudável e nada disso de não ser feminino. Se é ou não é, foda-se, é a única maneira que eu conheço de aliviar um pouco da raiva causada por essas cagadas que acontecem todos os dias.
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