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sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Novas tradições

Então é definitivo.
A partir desse instante, todas as vezes que eu fizer uma viagem ao exterior vou perder dinheiro.
Não só pelo câmbio ou preços elevados ou a necessidade de fazer gastos excessivos desenfreadamente. Eu quero dizer literalmente.
Ano passado, quando eu estava em Cuzco, numa noite de desespero eu saí pelas ruas e, depois de sentar pateticamente na porta de uma igreja, responder aos guardas que estava, sim, tudo bem comigo, ao voltar para o hotel percebi que tinha perdido a nota de 50 soles que eu carregava no bolso da jaqueta. Voltei para procurar e foi quando eu encontrei o que eu considero até hoje ser um anjo, que apareceu naquele dia e depois nunca mais, que me perguntou se eu tinha perdido meu "sweetheart" e quando eu digo que não exatamente, que eu procurava ali meus 50 soles, ele disse: "bem, tomara que uma pessoa que precisa bastante tenha achado". Eu às vezes me pergunto se era ele a pessoa que precisava e, sendo ou não, tudo bem. Fiquei tranquila em relação ao dinheiro, embora não quanto a todo o resto. Ou até um tanto quanto ao resto em que o anjo pôde ajudar.
Mas, numa versão muito menos romântica, a história se repetiu hoje, mais como comédia do que farsa, porque juro que é verdade. Vou tomar um café com uma conhecida holandesa, coloco no bolso uma nota de 20 euros e, depois do café, quando vem a conta, cadê a nota?
Sim, senhores, perdida para sempre. E o consolo da necessidade do sortudo que a encontrou aqui é mais duvidosa, mas ainda assim eu espero que a pessoa precisasse ou, no mínimo, faça bom proveito. Posso achar consolo na idéia de que a minha confusão fez a alegria - ainda que momentânea - de algum desconhecido, coisa até bastante romântica. Se eu tivesse pensado em escrever meu telefone ou e-mail na nota, aí a história dava um filme.
E como eu acredito piamente que não há dois sem três - fé que hoje foi maior que a no santo protetor, a quem eu pedi mas sem muito entusiasmo e que, claramente, não me atendeu - acho melhor começar a me conformar com o fato de que essa se torna, a partir de hoje, uma nova tradição na minha vida.
Eu que ontem falava em comprar um casaco por 20 euros... Mas é a vida e não se pode fazer nada. Nem lamentar muito, que eu tenho motivos mais sérios com que me martirizar, como a concentração negativa que ainda me persegue.

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