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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O paraíso dos voyeurs

Qualquer pessoa que já andou comigo pelas ruas sabe que eu tenho uma fixação por janelas. Nada doentio, acho, mas eu gosto muito de ver esse pedacinho da vida das pessoas que transparece através dos vidros, com uma luz e um recorte diferentes do que se vê pelo lado de dentro.
Quando eu estive no Rio, da última vez, tinha um apartamento, na rua do hotel, cuja janela deixava ver o topo de uma biblioteca. Era mais um armário que cobria a parede de uma porta, e todas as vezes que eu passava por ali ficava olhando.
Já falei muito sobre isso, e mesmo falando é difícil de superar, essa idéia de como a vida das pessoas parece interessante vista de fora.
Enfim, a questão é que essa cidade - não sei ainda o país, mas imagino que seja o mesmo - é uma loucura: praticamente todas as casas têm grandes janelas na altura da rua, sem persianas, no máximo uma cortininha que não esconde nada, ou nem isso. Então você anda pela rua com total acesso às casas das pessoas, salas, cozinhas, escritórios. Na primeira noite, em uma rua aqui perto, em duas casas vizinhas, velhinhos assistindo televisão. Hoje, já na minha rua, uma vidraça adesivada de "happy birthday" e dois menininhos correndo de cueca pela sala. Deviam ser gêmeos, eu fiquei na dúvida se era um só ou dois, até que um veio em direção à janela fazer não sei o quê. Qualquer hora eu penso sobre o que isso significa, essa exposição quase despudorada, se é apenas um sinal da supereducação das pessoas, que não se permitem invadir a privacidade alheia, ou o quê. Ou talvez não haja um motivo, ou talvez não importe, e talvez eu não pense.
De todo modo a tentação persiste, o contraste entre o frio cinza da rua e o interior quente atraem esses olhos, ainda que discretamente.
Por quanto tempo, será?

Um comentário:

Loy disse...

que lindo olhar para se ter invandindo a sala...

mas é engraçado. segundos antes de ler sua teoria sobre supereducação e não invadir a privacidade alheia eu teci minha própria pseudo-tese: a de que talvez as pessoas sintam que não tem nada a esconder, ou que o espaço da rua faz parte da casa e da vida delas, e vice-versa.