Ontem à noite, já noite adentro, voltando para casa, tinha um homem deitado num banco, dormindo.
O banco é diferente, não de rua, mas algumas casas tem alguns embaixo da janela, às vezes até com mesa; aqui mesmo na rua tem um com cinzeiros que dizem "Côte d'Azur", e eu me pego imaginando o que é e, se eu fumasse, ou andasse com alguém que fuma, o que aconteceria se simplesmente nos sentássemos no banco, debaixo da janela de alguém, e usássemos o cinzeiro que está em cima da mesa.
Mas o homem, ontem à noite, dormia, com o casaco aberto e a noite gelada. Ele não cabia inteiramente no banco, então estava com um joelho sobre o braço e a outra perna apoiada no chão, a boca aberta e um sono tranquilo. Primeiro passei reto, em seguida parei e voltei, para tentar descobrir se ele respirava. Nunca mais, depois que uma tia me contou que quando era moça não dormia bem pensando se os irmãos ainda estavam respirando e se levantava periodicamente para checar, nunca mais eu me livrei desse medo de se parar de respirar dormindo. E o homem dormia e, após algum tempo de observação atenta pude checar, respirava. No banco, debaixo da janela, na noite gelada.
As vidas - e as noites - das pessoas às vezes são mesmo um total mistério.
Um comentário:
ai, Má.
Esse tipo de observação e reflexão só são possíveis mesmo na caminhada solitária de quem chegou numa cidade onde não conhece ninguém. Acho uma delícia.
Não é?
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