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quarta-feira, 30 de abril de 2008

C.R.A.Z.Y.

É fato que nos últimos tempos eu tenho visto muito mais televisão que o normal. Tal como dormido, me lamentado, mas também pesquisado, etc. Quase termino um livro de história, e isso é realmente um feito. Literatura é que anda mal, não sinto vontade nenhuma de terminar o Proust, nem de retomar o Dost., nem de começar nada.
Acabei de assistir C.R.A.Z.Y., um filme canadense.
O que me conquista num filme é a sensação, principalmente se ela ocorre no início; eu vejo uma cena que me vende o filme. Eu vejo muita porcaria - e gosto, que não haja dúvidas -, mas a diferença, pra mim, entre um filme de que eu só gosto e um que acho mesmo bom é essa cena. Em C.R.A.Z.Y., é quando os irmãos derrubam o Zac no dia em que ele nasce. Lembro, por exemplo, em Garden State, a cena em que o Zach Braff aparece no banheiro com uma camiseta igual à parede. Aí tudo muda, vem uma certeza de que eu vou gostar do que virá e também uma ansiedade em não me decepcionar. Às vezes acontece, um filme promete e não paga, mas tudo bem.
De qualquer modo, este pagou; gostei do roteiro, a trilha é um barato e casa muito bem com a história. Toca Shine on you crazy diamond e o cara tem o prisma do Dark Side pintado na parede do quarto. Deixa uma sensação gostosa. Bittersweet, como todas que chegam à minha boca ultimamente.
Eu, então, me despeço e tento adoçar a vida com língua de gato. Ambas.

Vacum

Eu sempre disse que se fosse possível mudar qualquer coisa em mim, no meu corpo, eu mudaria a voz pra poder cantar no chuveiro sem ouvir reclamações, minhas ou alheias. Isso de abrir a boca e sair uma coisa bonita, simples assim. Já me decidi a fazer curso de canto, há muitos e muitos anos, quando a irmã de uma amiga fez, mas depois lembrei das palavras de uma parenta distante sobre como os alunos dela eram mesmo ruins e isso era chato.
Também já disse que esse ano ia voltar a nadar e fazer curso de espanhol. E de conversação em inglês.
Mas hoje, essa quarta-feira fria e ventosa, eu percebi que preciso de um daqueles cursos de controle de raiva. Ou só calmante resolve?
Tudo começou - claro que numa simplificação absurda - quando eu fui ontem a um arquivo e o tiozinho resolveu que queria conversar comigo. Nunca me disse um oi na vida e veio todo feliz de "ah, faz tempo que você não aparece; o que você tá fazendo agora?". Eu tentei responder o mínimo possível para parecer só meio grossa, em vez de vaca insuportável. Depois quando eu anunciei que sairia no começo da tarde, ele soltou um "ah, você quer sair mais cedo?". Mais cedo que o quê, meu filho? Tenho que bater cartão com você agora, pelo tanto de tempo que eu trabalho? Da última vez que eu chequei, eu não devia satisfação a muita gente e, entre os poucos sortudos que podem me encher o saco, seu nome - que eu aliás desconheço - não constava.
Aí eu fui suportando tudo, a conversa mole do "de onde você é?", "vou me aposentar e mudar prum lugar em que me deixem ser feliz, você acha que deixam?" e "você viu a história do Ronaldinho?", seguida a última de uma conferência com todos os funcionários sobre tão relevante questão.
Aí hoje eu dormi um pouco mais, numa tentativa de dominar o corpo e a mente, mas fui pelo trânsito xingando, como acontece sempre que um filho-da-puta entra na minha frente sem dar seta ou decide que o limite de uma rodovia é 40 km/h. E tudo isso pra quê?
Pra chegar e ouvir o simpático senhor me olhar e dizer "você hoje está com as pernas azuis!". Agora, desde quando é aceitável sair por aí comentando as pernas de desconhecidos? Ou socialmente adequado? Alguém sabe me responder?
A pérola do dia foi ouvir um outro ser reclamando de algum serviço de banco impossível de se obter, exceto que era função de alguém fazer e a pessoa em questão se recusava a fazê-lo. Muitas e muitas horas, enquanto tentava, para desencargo da minha pobre consciência tão atribulada, trabalhar, ouvindo como a mulher era folgada, que ela disse que não podia fazer mas que a superlinha disse que ela podia, e que eu vou não sei aonde e meu pagamento não vai cair e eu vou perder não sei quantos dias. Pausa pra comentar o Ronaldinho e os travestis, e sou obrigada a ouvir que as pessoas levam tudo na maldade, coitado do Ronaldinho. Dois minutos de silêncio e depois: "gente que não quer trabalhar e fica enrolando é foda...!" Sério? Jura, mesmo? Assim, tipo você que, além de não querer e não se tocar que a carapuça te serve, fica falando merda pra atrapalhar os outros? É ruim, né?
Depois desse martírio, mais uma hora andando que nem tartaruga, xingando um pouco mais no trânsito, me xingando por não ter ido por um caminho alternativo, pra chegar em casa e rasgar a meia-calça.
Calma, úlcera, preocupa não que eu te mantenho quentinha e bem alimentada.

Ass.: Vaca Insuportável.

terça-feira, 29 de abril de 2008

E se?

Eu gosto do Teatro Mágico, até muito, mas acho que as pessoas endoidecem demais. Gosto muito mais de Los Hermanos, mas queria ouvir alguma coisa que não doesse tanto, aí coloquei o Teatro, e tava ouvindo aquela do arroz e feijão.
Agora, como prova da minha loucura: eu ando piradinha com essa coisa de saber quem entra ou não no blog, não esse, que é praticamente anônimo, mas enfim. Aí isso não tem como não se tornar um jogo, isso se for uma coisa minimamente saudável, com duas pessoas jogando. No meu caso, há grande chance deu ficar jogando a bolinha na parede, achando que o outro tá jogando de volta, enquanto ela simplesmente bate na parede e volta mas, de novo, enfim.
A tentação de deixar uma brecha é grande, às vezes. Fazer que nem [não a Alice, mente confusa!] os irmãozinhos, lá, João e Maria, que deixam um rastro de farelos que ninguém nunca encontrou. Isso das marcas que a gente deixa e as pessoas vêem ou não é um tema muito complexo. Eu sempre tive um certo pavor das pessoas me lerem com facilidade demais, e um pavor talvez maior de ninguém nunca me ver. Porque eu acredito que a gente vive mesmo deixando rastros gigantes que qualquer pessoa atenta pode seguir, e as pessoas não seguem e nos desmascaram por preguiça ou desinteresse.
Mas, a prova: eu me pergunto o que aconteceria se o rastro fosse claro o o suficiente, e despertasse energia suficiente para vencer a preguiça, e interesse o suficiente pra matar o desinteresse. Será que o que eu ando escrevinhando aqui... não sei. Será que ainda é a mesma coisa? A mesma matéria que uma vez despertou e trouxe, traria, agora, de novo, com essas novas linhas e as novas cores e as novas dores? Ou, ao contrário? Seriam um passo a mais nessa distância?
Como acontece com tanta frequência, eu digo aqui para registrar. Para constar, como dizem meus mais fervorosos interlocutores.
Faço este termo.

Índios

Esses dias, no carro, ouvi na rádio Índios. Eu gostava tanto dessa música, lembro de ouvir com o Fer, na primeira casa dele em Jundiaí, e como eu gostava daquela introdução, e a gente tentava fazer no teclado. E eu queria tanto aprender a tocar. Hoje eu já não acho Legião tão genial quanto eu achava, talvez tenha encontrado coisas que mexem mais comigo, ou por serem mais sofisticadas ou por eu estar menos acostumadas a elas. Ainda assim, eu paro para ouvi-los, quando eles surgem. Ontem foi Vento no Litoral, junto com a Cássia Eller, mas confesso que eu não enfrentei, não. Será que essa música tem mesmo uma dor dentro dela, que sai e causa um mal-estar, ou sou eu? Eu me lembro de ouvi-la na praia, um inverno, tanto, e eu tinha querido tanto estar ali, e eu tinha criado na minha mente um filme estrambólico, totalmente non-sense e fora da realidade, mas que eu queria e gostava e sofria por não ter. Eu já disse, em outras oportunidades, que tenho algum medo do tempo. Isso das coisas passarem, como eu sei que passam, dá a sensação de que nada tem realmente importância, e embora isso seja um bom pensamento quando estamos sofrendo, também é muito triste imaginar que o motivo de tanto sentir hoje amanhã o será só de risadas embaraçadas ou, pior, silêncio.
Mas eu falava de Índios. "É só você que tem a cura pro meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi". Engraçado, eu fui buscar no Idiotia, achando que já escrevi esse verso, mas não. No lugar, encontrei dezenas de outras vezes em que falei de vício. O que eu queria falar era isso, hoje, mais cedo, fui ali, nessa eterna onda de perseguição, e li uns posts tão antigos, e me deu uma saudade, imensa, daquela época, em que eu fervilhava para dizer. E é tanta coisa escrita ali, mesmo muita, e desde sempre, embora não há algum tempo, eu gostei de voltar e reler, redescobrir, tentar lembrar do que eu falava e não conseguir. Agora me emocionei porque vi um comentário à Jasmim, e deu outra saudade, e do meu cabelo muito muito comprido. Estou oficialmente deixando crescer de novo, apesar de curtir a onda presilhinhas. Uma parte de mim pensou: ok, eu já tenho ali coisa pra ler por bastante tempo, aleatoriamente. E outra pensou que queria que eu continuasse tendo, no futuro, e pra isso eu tenho que escrever agora.
Eu agora sinto tantas saudades. Avassaladoras, de sair pelos poros e tomar tudo e apertar o coração e tentar escapar, se lançar na busca. Mas é tanto do que eu não vi. Isso é muito foda, perder o sonho. Tanto que eu queria dizer e fazer e viver, pensei e planejei; ontem no oftalmologista eu fui marcar um retorno, pra junho, e doeu pensar que eu vou, sim, estar aqui em junho. Recorri à balela do "ah, qualquer coisa eu desmarco", mas eu sei que é balela.
Eu até tinha umas coisinhas pra contar, de sonhos doidões ou irritações cotidianas, ou do carro que eu vi que não tinha retrovisor, mas tudo bem. Fica de reserva, pra outra hora, ou se perde assim, em meio às coisas que perdemos que nos perdem todos os dias.
Quem me dera, ao menos uma vez.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Fome

Eu às vezes penso no que leva uma pessoa a ter sucesso.
Ontem, assistindo à Fernanda Young, que eu absolutamente adoro, ela dizia que... ok, claro que eu não me lembro exatamente, mas algo como que Deus é, ou foi, generoso com ela, assim no sentido de tratá-la melhor do que à maioria das pessoas. Eu me lembro de vê-la dizer, no Saia Justa, que fez supletivo noturno, no colegial, e foi expulsa de uma escola, ou algo assim. Aí ela se transforma numa escritora de sucesso. Acho essa teoria de uma ajuda externa muito sedutora, porque talento é necessário, mas não só.
Aí eu fiquei pensando nisso, de as pessoas serem ambiciosas e conseguirem da vida o que querem. Acho que isso é mais um mito do que uma realidade, essa lenda da pessoa persistente e dedicada e sei lá o que mais, que consegue tudo. Eu até compro que ela consiga tudo que depende dela conseguir, mas ainda vivemos num mundo cheio de gente que, feliz ou infelizmente, vive metendo o bedelho na nossa vida [Eu agora paro e me pergunto: mas que diabo é bedelho?!] e limitando nossas ações.
Aí eu não sei, nunca pensei em mim como uma pessoa ambiciosa, apesar de ser mimada. Sei o que eu quero da minha vida, em termos gerais, e não acho nada muito absurdo, tipo ser milionária ou casar com o Brad Pitt. Mas eu acho que eu tenho uma coisa, e conheço algumas pessoas que não têm ou que não me mostram, mas eu tenho fome.
Sabe fome? Não é só vontade ou querer, não é uma coisa morna, é quente e voraz. E é uma característica que eu gosto de ver nas pessoas, que elas têm sangue, que dão sangue, em vez de esperar o tempo passar, simplesmente. Acho diferente de garra, ou mesmo ambição, porque é mais sutil. Tem gente por aí que é muito lutadora e dedicada, que consegue mesmo conquistar coisas impressionantes.
Mas eu acho que a fome transparece no jeito de falar, aquela coisa meio italiana, de falar alto, com convicção, mesmo sabendo que a gente não sabe nada, uma irritação meio comprometida com o que se acha certo.
Eu tava pensando nisso, em mim, e cheguei a essa conclusão. É muito diferente de dizer que eu consigo tudo que eu quero, muito diferente mesmo, eu que às vezes não consigo parar de ver um programa ruim na televisão pra ir dormir e não me odiar na manhã seguinte. Mas é fato que em alguns momentos eu senti uma vontade forte o suficiente pra me mexer e mais, fazer outros se mexerem. E é triste pensar que isso não volta, que o movimento não repercute em mim, que o outro não vai se mexer e esbarrar em mim e me fazer sair da órbita pra fazer alguma coisa que eu digo querer fazer. É uma falta de confiança na vontade alheia, e é triste porque é verdadeira. Não que eu admitisse isso publicamente, se me perguntassem, mas ela existe.
Só que, pensando bem, tudo bem as pessoas serem diferentes de mim, eu costumo esquecer isso. E cada um com seu cada um, que faça o que quer fazer e eu não tenho nada a ver com isso. Mas eu sei que eu tenho fome, sei o que isso já me trouxe de bom e o tanto que isso já me empurrou. Então eu vou ali, comer uma tortinha de limão e, como bola de boliche, talvez eu esbarre em alguma coisa e isso me valha alguma recompensa.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Minha vida sem mim

é um dos meus filmes favoritos de todos os tempos.
Minha carta de hoje é o eremita.
Quem um dia irá dizer que não existe razão...

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Em algum lugar do passado

eu tinha essa mania de desviar mensagens; queria mandar pra Alguém, mas Alguém não queria receber e, no meu inconformismo em me dobrar à vontade alheia, eu achava um jeito de deixar todos (super) felizes: eu mandava e Alguém não recebia, justamente pelo mecanismo salvador do desvio.
Então, já que o mundo é redondo e a história se repete, lá vai:
"Oi! Tudo bem? Que saudade!"
Foi?

PS: Desculpem pela exclamação, escapou!
PPS: Ups, de novo!
PPPS: Ok, parei.

And so it is

Ontem passou na televisão o primeiro filme que eu vi com a Natalie Portman, não me lembro do nome em português, o original é Where the heart is, a tradução deve ser algo como Onde mora o coração. Ela faz uma adolescente grávida abandonada pelo namorado em uma Wal-Mart, aí ela fica morando na loja um tempo, até o bebê nascer e depois tem que se virar sem grana nem formação, numa dessas cidadezinhas americanas que a gente não sabe se existem. Eu gosto muito do filme, acho que tem um ar diferente, alguma coisa que foge do clichê e o torna leve e bonito. Algo como o Garden State, que eu amo, isso de alcançar uma profundidade sem grande peso - ou talvez eu devesse dizer chatice.
Tudo no mundo é tão uma rede.
Hoje quase que eu não levanto, de manhã. Quase. Aí eu pensei na voz me dizendo "ok, deixa eu ver, eu agora tô aqui, sentada nessa cadeira...", e pensei "ok, eu tô aqui, deitada na minha cama, com sono e o familiar aperto no peito, e eu até poderia ficar aqui, mas a verdade é que eu não posso, tenho trabalho a fazer, trabalho a fazer, trabalho a..." A verdade é que a gente não pode ficar largado na cama, né? Quer dizer, pode, mas também não é uma opção.
Eu tenho dito isso a quem me pergunta se eu acho que eu fiz uma boa opção: não foi uma opção, porque opção é quando a gente tem escolha e eu não tive escolha, porque ficar morrendo pra mim não é uma opção válida. Isso de me destruir e esperar que o último a sair apague as luzes. Eu saio correndo mesmo e deixo as luzes acesas. Então a gente não pode ficar largado na cama.
Surpreendentemente, deu certo abandonar a auto-comiseração e botar a cara no mundo; depois de ficar duas horas dopadinha, super li cinquenta páginas, e ainda copiando.
Eu dizia, já há algumas semanas, que ando sentindo tão pouco prazer nas coisas que a única coisa que me dava prazer era justamente o que ordinariamente não me dá prazer: cumprir minhas obrigações e depois parar e apreciar a sensação de dever cumprido (ok, também comprido).
Assim, caiu a noite, o calor diminuiu, eu me obriguei a ficar acordada para não perder a noite em insônia, mas já é madrugada e eu estou aqui, ainda com aperto no peito.
Então me obrigo novamente a cumprir uma nova obrigação, vir aqui e vomitar, mais contente com as unhas feitas, e espero que venha alguma compensação.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Sei lá,

sem nunca questionar minha própria mediocridade, há consolo em saber que há no mundo uns mais medíocres que outros.
Desconfio de pessoas que riem muito.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Mea culpa

Porque antes, quando eu escrevia ali aquele último post, eu pensava que o estava odiando, que eu ando escrevendo muito mal, sendo muito chata e repetitiva, e pensei em parar e não publicar, e pensei em xingar esse blog, apagar tudo.
Sim, meu coraçãozinho anda cheio de amargor.
E eu resolvi parar de me dar porrada, escrever o diabo do post, apertar a porra do botão de publicar e me mandar passear. Me obedeci, claro, porque gritos costumam ser muito persuasivos, e quando fui ler, revisar os erros e comidas de bola, não sei se achei bom, mas lembrei porque eu tive um blog em que escrevi durante um ano e meio, menos, se contar os meses finais que foram de silêncio persistente, lembrei por que durante esse tempo postei mais de 400 vezes. Porque sendo uma merda ou não, chato e repetitivo, mal escrito e monocórdico, é bom demais depois ver o que saiu da gente numa hora de aperto. Porque é balsâmico e analgésico. Exorciza.
Então é isso, eu escrevi uma vez e me ajudou, talvez pelos motivos errados, no longo prazo, mas ajudou, e pode, de novo. Vai saber quem algum dia procura alguma coisa maluca como bezourosuco no google e vem parar aqui e muda a minha vida.
E vai saber se eu não despejo aqui, não tudo, porque tudo é um conceito inexistente, mas o tudo possível, e mudo a minha vida.
Em todo caso, desculpa, blog. Não me pega lá fora, não, que eu sou legalzinha. Chega fiz o que anunciei que não faria; de vez em quando eu admito que estou errada.

Surfando em ondas gigantes

Aparentemente, o pior já passou.
Hoje é muito domingo, né? Inclusive a falta de boa programação na tv.
Então que eu ultimamente estou em reabilitação da internet, seguindo o programa dos passos e tal. Não vou pedir desculpas a ninguém, não, afinal tenho cá minha rebeldia, mas vou indo, um dia de cada vez. Mas o problema do vício é que ele é persistente e traiçoeiro. E o problema de vício cibernético é que às vezes ele pode ser inofensivo, outras, fatal.
Já me aconteceu essa semana, de vir ver meus e-mails inocentemente e ser pega de surpresa por ele. De novo, agora, só que a porrada foi mais forte.
Eu me lembro de uma vez, há séculos, fazíamos churrasco em uma das casas que morei, e eu com a mão machucada fui cortar um limão, e espirrou suco no machucado que doeu, e eu reclamei, e uma prima minha que estava perto disse que tudo que arde cura.
Desde então essa máxima tem permeado a minha vida, todas as vezes em que eu sofro intensamente por alguma coisa, penso que esse mesmo sofrimento que agora dói é exatamente o que vai me curar do sofrimento. Porque a gente cansa, né?
Não é só de perdoar que se cansa. Também isso, o sentimento que vem vindo e nos invade; já falei muito nele, eu tenho sempre um mal estar que vem chegando, é como uma onda, primeiro vem um vazio, e eu sei que em seguida vem ele, devagar, chega e me toma e eu não consigo me mexer, então prendo a respiração e fecho os olhos, não me mexo porque sei que não adianta, é como a onda, que vem e nos leva pra baixo, e a gente tem que tentar só sobreviver a ela, porque não se pode vencê-la, então a gente fica lá embaixo, espera ela passar, e volta pra respirar.
E eu não sei se é bom ou ruim isso, de ser um sentimento conhecido. Significa que eu sinto frequentemente, mas a familiaridade o torna um pouco menos assustador. Mas não menor.Nem menos desesperadora a falta de ar.
Hoje não foi exatamente isso que eu senti, mas a familiaridade era a mesma. Uma dor diferente, por razões diferentes, mas muito conhecidas; que eu já senti tantas e tantas vezes, e tantas vezes me repreendi por sentir, por saber que não havia motivo, e agora há menos ainda, e a repreensão é ainda maior, mas a dor é a mesma, senão mais funda, porque não resta nada. Acho que antes ainda tinha o assopro depois do tapa, e agora sou eu me estapeando e preocupada demais em procurar onde estava a minha mão para me assoprar.
E nessa eu perco o chão, e não acho as palavras, e depois acho e me digo que nunca mais. Nunca mais. São palavras tão fortes.
Mas eu as reconheço em mim, elas fazem parte de mim, há muito e muito tempo. Já as disse muitas vezes, não posso dizer que acertadamente, mas nunca me arrependi, porque sei que o único meio de passar pelas coisas, quando eu desconhecia outras palavras, era dizendo nunca mais. Depois briguei muito comigo, me preparando para não dizê-las, quando a vontade viesse, quando a ocasião chegasse, e a ocasião chegou, e eu não disse, mas a ocasião era essa, o nunca mais acontece às vezes independente de nossa vontade ou verbalização. Porque o fato é que as coisas terminam, mesmo, umas mais tarde do que outras, de maneiras diferentes, às vezes naturalmente, mas sempre.
E ainda mais marcante, eu ia dizer que não tenho medo do fim, e é mentira, nem sequer posso dizer que tenho medo e não fujo dele, pois também é mentira. Mas mais marcante é que eu acho, acredito de verdade, que tenho a coragem de, uma hora, parar e ver o fim, e parar e me obrigar a aceitá-lo, e se eu não aceito, por medo ou apego ou amor ou por qualquer motivo, se eu não aceito, eu me laço e me tiro dali, e me coloco na cama, e eu sei que nunca mais. Eu posso não ter mira pra mais ninguém nesse mundo, mas eu me laço e me tiro dali.
E quando eu sinto vontade de me soltar, ou acho que não vou aguentar, posso me soltar um pouquinho, pra por acaso encontrar de novo a dor, sem querer, até, e voltar pra cama sabendo que eu desconheço o futuro, mas sabendo que eu conheço o presente e o presente é a impossibilidade.
Então eu ouço meu cd do Baden, e minha garganta dói e meus olhos não se contêm, mas eu sei que é impossível, não sei se é melhor assim, mas não existe melhor nem pior, existe o que é e o que é é impossível.
Saber disso também é como uma onda, vem e me toma e me afunda, então eu me despeço, pra ficar imóvel esperando voltar à tona.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Natureza selvagem ou assim

Fala sério que uma das coisas mais enervantes do mundo é querer dizer alguma coisa e não conseguir.
Às vezes temos desculpas plausíveis e plenamente aceitáveis, como a falta de domínio na língua, estrangeira ou só diferente dentro na nossa própria. É como ler um documento jurídico e não ter a menor idéia do que ele está falando.
Dizendo isso, eu bato na minha cabeça e digo: "ok, mas e essa coisa de sentimento, desde quando a gente tem domínio?".
Depois bato de novo na minha cabeça, porque tudo bem a gente falar com a gente, tudo bem até a gente responder, mas é ainda mais enervante isso de ver uma pessoa narrar os próprios diálogos mentais, ainda mais de maneira tão infantil como essas aspas, ali em cima.
De todo modo, o que eu queria dizer é que, dentre todos os conflitos que enfrentamos cotidianamente, um hoje me incomodou particularmente, e é o seguinte: sabem aquela coisa da gente ter o direito de dizer certas coisas que as outras pessoas não podem dizer? Um exemplo banal é nossa relação com nós mesmos: eu posso dizer que sou chata ou não gosto do meu cabelo, mas isso dito por nós tem um peso muito diferente do dizer de outra pessoa.
Aí não sei, dá um mal-estar, e a gente se promete nunca fazer isso, e essa promessa também é infantil.
Eu ultimamente vivo com a sensação de que disse, literalmente, ao mundo "pára que eu quero descer". Engraçado que eu me lembro de ver muita gente dizendo isso, lembro de um blog nada a ver em que aparecia escrito assim, sem mais. Eu realmente não sei porque eu me lembro dessas coisas, a imagem de uma página branca, escrito em branco "pára, eu quero descer". Mas não me lembro de nunca ter visto: "olha, eu falei pro mundo que tô descendo, e sei lá se ele vai parar, mas ok, fui". Eu me envolvi tanto na minha vida e nos meus demônios e nas minhas espirais e sei lá mais o que, que não sobrou muito espaço pra outras coisas, e vidas, e demônios e espirais. É mesmo autista isso, uma incapacidade de se relacionar com o mundo externo. E nessa brincadeira, muita gente entra de gaiato, e é difícil fazer outra coisa que não dizer "olha, eu sei que você tá aí, mas eu tô aqui e agora não consigo atravessar a ponte e sinceramente não sei o quanto eu quero atravessar, você simplesmente vai ter que esperar ou seguir o seu caminho, eu posso te alcançar depois, ou então a gente anda mesmo por caminhos diferentes, a partir de agora." Isso tem um grau enorme de egocentrismo e falta de generosidade, eu admito. Achar que as pessoas estão à nossa disposição, esperando pela nossa vontade e capacidade de cuidar delas. Além disso, há uma irritação quase incontrolável quando somos cobrados por isso, por mais que nos cobremos constantemente. E às vezes as pessoas são tão iguais, não?
Não sei, hoje eu senti um mal estar muito grande, que eu conheço e vi e preferia nenhum dos dois. Adoraria dizer que faria diferente, mas não estou fazendo.
E pra piorar, não consigo desviar a atenção de um documentário sobre sucuris, num desses programas sobre a natureza terrível ou sei lá o quê.
Merda de texto. Mas tudo bem, a gente sempre pode pensar que é pra provar alguma coisa.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Estranho mundo

A gente... ok, parei de me esconder nos coletivos.
Hm, coletivos podem ser entendidos como ônibus. Coletividade, então, porque eu de fato não me escondi em um coletivo.
No entanto, é fato que ali, na praça, enquanto a tarde caía e eu finalmente não sentia frio e não tinha que carregar peso, sentada que estava, esperando a carona, sentada num banco de concreto, na rua, de costas para a avenida larga, fui assolada pela impressão de que levaria um tiro na cabeça.
Eu sou mesmo muito louca, não?
Aí eu tive aquela dúvida usual: isso é piração da minha cabeça ou uma intuição gritante que pode salvar a minha vida?
Lembro de quantas vezes, tendo ido dormir muito, muito tarde, acordava às seis da matina e, por não querer ir pra escola, encasquetava que alguma terrível tragédia (isso é pleonasmo?) aconteceria no longo trajeto de uma quadra entre a minha casa e o colégio. Quando minha retórica acordava de bom humor - ou simplesmente a chatice adolescente imperava - eu conseguia convencer a minha mãe a me deixar faltar. Quando não, ia lá eu, pela quadra, e pelo que me lembro nada de terrível aconteceu, exceto uma vez que eu fui assaltada e levaram meu relógio, mas isso era na volta, e não na ida. E todo mundo sabe que a gente não tem tanta preguiça de voltar pra baixo das cobertas quanto de sair debaixo delas, então eu nunca tive intuição de passar a tarde na escola, em vez de voltar pra casa e assistir televisão.
Enfim, o fato é que eu fiquei ali, sentada no banco da praça, com uma vontade louca de escorregar pelo assento até que minha cabeça fosse protegida pelo encosto de concreto. E não foi dessas sensações que dão e passam, ela ficou comigo enquanto eu permaneci ali. Não tive mesmo peito pra ficar deitadona no banco, mas ficava passando a mão pela cabeça o tempo todo, numas de escudo, ver se ajudava alguma coisa.
Aí sabe lá Deus porque eu me lembrei de contar isso agora; acho que eu ia fazer uma ligação com alguma constatação genial sobre a existência, mas se era, me escapou.
Tal como eu, da dita bala.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Nota

Essa história de escrever pequenos posts sem dizer muita coisa, por mais que pareça uma compulsão, na verdade é um jeito da gente se obrigar a escrever, pra não perder o hábito e estar pronto pra quando tiver mesmo alguma coisa (talvez) interessante a dizer.
É só que num exercício de indulgência eu pensei que eu gosto do nome desse blog e, junto com o outro, acho que, até agora, tenho em meu currículo belos nomes de blogs.
Só assim, pra dar um ânimo pra esse dia de sol e pijama.

Há perigo na esquina

Aí que todo mundo cita o Guimarães Rosa dizendo que viver é perigoso.
Eu confesso aqui que, amando o Miguilim com todas as minhas forças, esse ano só que resolvi encarar o Grande Sertão, e não dei conta. Vale ressaltar que eu ultimamente não ando dando conta de muita coisa, pela primeira vez na vida tô de ressaca literária, e é das bravas. Então não li o Guimarães e não gosto de citar o que não li.
Mas tinha que falar alguma coisa sobre os perigos dessa vida, que são demais pra quem tem paixão. É assim, a gente chega no computador procurando um arquivo qualquer de trabalho, que se a gente não achar a gente morre, e a gente se depara com a gente, e aí a gente quase morre.
Bons tempos em que o passado não ficava assim estampado na nossa cara o tempo todo, dando tchauzinho e nos convidando pra um chá.
Por isso, cuidado, meu bem.
O sinal está fechado pra nós.

Tristeza

é acordar e não ter pão caseiro torrado com manteiga para comer.
Chega dá um vazio.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Prazer, Doralice

Uma cena de abertura de Comédias da Vida Privada, um dos meus programas de TV favoritos de todos os tempos, com episódios clássicos, entre eles o meu favorito de todos os tempos, todinho ele decorado e citado religiosamente, todos os dias da minha vida, se não para alguma cara desentendida, para mim mesma.
A cena de abertura é de um outro episódio, em que o Nanini perde a memória. Começa com ele e um amigo - que depois descobriríamos ser o Rei Roberto Carlos (sim, o cantor, não o jogador de futebol) - num trem, cantando uma versão de uma música dos Beatles que diz, literalmente: "Do-o-o-ralice" e seguia com algum outro verso que eu não lembro, mas me parece que dizia algo assim "juro, nunca vi coisa tão triste".
A mente é mesmo impressionante, porque eu primeiro coloquei o título do post, depois foi que pensei na música, e agora tá parecendo mesmo que eu, me apresentando como Doralice, me afirmo como coisa mais triste do mundo. Admito, entretanto, que em algum momento dos últimos... doze dias, saiu de meus lábios a seguinte frase: é uma dor que não cabe no mundo.
Eu gosto muito de posts de estréia e isso já me causou antes algum problema. Porque, veja bem, o primeiro post é sempre uma coisa que eu leio quando caio por acidente em um blog e define se eu quero continuar lendo ou não; gosto de ver ali a explicação do nome, ou do motivo que levou a pessoa a querer dizer alguma coisa - pra ninguém ler, ou uma ou duas pessoas lerem, e isso não fazer grande diferença na vida de ninguém. Exceto que faz diferença, alguma, e em alguns casos, como o meu, muita.
E então, a que eu vim?
Não sei, mas sei que vim errando.
Assim, meio estabanadamente, como é de praxe, mas aqui estou.
Esses dias, noite, aliás, uma das mais bacanas que vivi nos últimos tempos, entre outras coisas maiores e mais bonitas e mais emocionantes, ouvi uma menor, uma batida familiar, depois o reconhecimento de uma música do Zé Ramalho, em que ele diz "que eu não vim de longe para me enganar". E me lembrei do quanto eu ouvia essa música e colocava nessa frase uma força, dizia com a boca cheia, talvez lágrimas nos olhos, como também é praxe, e percebi que há muito tempo eu não pensava nisso. Eu não vim de longe para me enganar.
Também não sei o que isso significa, mas me pareceu bem.
O caminho que me trouxe eu certamente revelarei em uma noite de bebedeira e bode, em que chegarei em casa com uma dor que não cabe no mundo e, na impossibilidade de falar a quem é de direito, virei aqui a esse espaço, maldizendo e lamentando, e escreverei.
Por enquanto, eu prometo solenemente não usar muitas exclamações e cometer tão poucos erros de português quantos me forem possíveis (ou impossíveis de escapar, em minha vasta ignorância). Vale o aviso de que nos últimos meses, digamos desde o começo deste 2008º ano, eu descambei a falar e escrever errado, mas na fala a gente disfarça melhor. Quando a desculpa for fácil, favor assumir que foi erro de digitação. Nos casos mesmo de erro cra...sso, peço desculpas adiantadas.
Começo, assim, o errar.