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segunda-feira, 21 de abril de 2008

Surfando em ondas gigantes

Aparentemente, o pior já passou.
Hoje é muito domingo, né? Inclusive a falta de boa programação na tv.
Então que eu ultimamente estou em reabilitação da internet, seguindo o programa dos passos e tal. Não vou pedir desculpas a ninguém, não, afinal tenho cá minha rebeldia, mas vou indo, um dia de cada vez. Mas o problema do vício é que ele é persistente e traiçoeiro. E o problema de vício cibernético é que às vezes ele pode ser inofensivo, outras, fatal.
Já me aconteceu essa semana, de vir ver meus e-mails inocentemente e ser pega de surpresa por ele. De novo, agora, só que a porrada foi mais forte.
Eu me lembro de uma vez, há séculos, fazíamos churrasco em uma das casas que morei, e eu com a mão machucada fui cortar um limão, e espirrou suco no machucado que doeu, e eu reclamei, e uma prima minha que estava perto disse que tudo que arde cura.
Desde então essa máxima tem permeado a minha vida, todas as vezes em que eu sofro intensamente por alguma coisa, penso que esse mesmo sofrimento que agora dói é exatamente o que vai me curar do sofrimento. Porque a gente cansa, né?
Não é só de perdoar que se cansa. Também isso, o sentimento que vem vindo e nos invade; já falei muito nele, eu tenho sempre um mal estar que vem chegando, é como uma onda, primeiro vem um vazio, e eu sei que em seguida vem ele, devagar, chega e me toma e eu não consigo me mexer, então prendo a respiração e fecho os olhos, não me mexo porque sei que não adianta, é como a onda, que vem e nos leva pra baixo, e a gente tem que tentar só sobreviver a ela, porque não se pode vencê-la, então a gente fica lá embaixo, espera ela passar, e volta pra respirar.
E eu não sei se é bom ou ruim isso, de ser um sentimento conhecido. Significa que eu sinto frequentemente, mas a familiaridade o torna um pouco menos assustador. Mas não menor.Nem menos desesperadora a falta de ar.
Hoje não foi exatamente isso que eu senti, mas a familiaridade era a mesma. Uma dor diferente, por razões diferentes, mas muito conhecidas; que eu já senti tantas e tantas vezes, e tantas vezes me repreendi por sentir, por saber que não havia motivo, e agora há menos ainda, e a repreensão é ainda maior, mas a dor é a mesma, senão mais funda, porque não resta nada. Acho que antes ainda tinha o assopro depois do tapa, e agora sou eu me estapeando e preocupada demais em procurar onde estava a minha mão para me assoprar.
E nessa eu perco o chão, e não acho as palavras, e depois acho e me digo que nunca mais. Nunca mais. São palavras tão fortes.
Mas eu as reconheço em mim, elas fazem parte de mim, há muito e muito tempo. Já as disse muitas vezes, não posso dizer que acertadamente, mas nunca me arrependi, porque sei que o único meio de passar pelas coisas, quando eu desconhecia outras palavras, era dizendo nunca mais. Depois briguei muito comigo, me preparando para não dizê-las, quando a vontade viesse, quando a ocasião chegasse, e a ocasião chegou, e eu não disse, mas a ocasião era essa, o nunca mais acontece às vezes independente de nossa vontade ou verbalização. Porque o fato é que as coisas terminam, mesmo, umas mais tarde do que outras, de maneiras diferentes, às vezes naturalmente, mas sempre.
E ainda mais marcante, eu ia dizer que não tenho medo do fim, e é mentira, nem sequer posso dizer que tenho medo e não fujo dele, pois também é mentira. Mas mais marcante é que eu acho, acredito de verdade, que tenho a coragem de, uma hora, parar e ver o fim, e parar e me obrigar a aceitá-lo, e se eu não aceito, por medo ou apego ou amor ou por qualquer motivo, se eu não aceito, eu me laço e me tiro dali, e me coloco na cama, e eu sei que nunca mais. Eu posso não ter mira pra mais ninguém nesse mundo, mas eu me laço e me tiro dali.
E quando eu sinto vontade de me soltar, ou acho que não vou aguentar, posso me soltar um pouquinho, pra por acaso encontrar de novo a dor, sem querer, até, e voltar pra cama sabendo que eu desconheço o futuro, mas sabendo que eu conheço o presente e o presente é a impossibilidade.
Então eu ouço meu cd do Baden, e minha garganta dói e meus olhos não se contêm, mas eu sei que é impossível, não sei se é melhor assim, mas não existe melhor nem pior, existe o que é e o que é é impossível.
Saber disso também é como uma onda, vem e me toma e me afunda, então eu me despeço, pra ficar imóvel esperando voltar à tona.

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