Eu sempre disse que se fosse possível mudar qualquer coisa em mim, no meu corpo, eu mudaria a voz pra poder cantar no chuveiro sem ouvir reclamações, minhas ou alheias. Isso de abrir a boca e sair uma coisa bonita, simples assim. Já me decidi a fazer curso de canto, há muitos e muitos anos, quando a irmã de uma amiga fez, mas depois lembrei das palavras de uma parenta distante sobre como os alunos dela eram mesmo ruins e isso era chato.
Também já disse que esse ano ia voltar a nadar e fazer curso de espanhol. E de conversação em inglês.
Mas hoje, essa quarta-feira fria e ventosa, eu percebi que preciso de um daqueles cursos de controle de raiva. Ou só calmante resolve?
Tudo começou - claro que numa simplificação absurda - quando eu fui ontem a um arquivo e o tiozinho resolveu que queria conversar comigo. Nunca me disse um oi na vida e veio todo feliz de "ah, faz tempo que você não aparece; o que você tá fazendo agora?". Eu tentei responder o mínimo possível para parecer só meio grossa, em vez de vaca insuportável. Depois quando eu anunciei que sairia no começo da tarde, ele soltou um "ah, você quer sair mais cedo?". Mais cedo que o quê, meu filho? Tenho que bater cartão com você agora, pelo tanto de tempo que eu trabalho? Da última vez que eu chequei, eu não devia satisfação a muita gente e, entre os poucos sortudos que podem me encher o saco, seu nome - que eu aliás desconheço - não constava.
Aí eu fui suportando tudo, a conversa mole do "de onde você é?", "vou me aposentar e mudar prum lugar em que me deixem ser feliz, você acha que deixam?" e "você viu a história do Ronaldinho?", seguida a última de uma conferência com todos os funcionários sobre tão relevante questão.
Aí hoje eu dormi um pouco mais, numa tentativa de dominar o corpo e a mente, mas fui pelo trânsito xingando, como acontece sempre que um filho-da-puta entra na minha frente sem dar seta ou decide que o limite de uma rodovia é 40 km/h. E tudo isso pra quê?
Pra chegar e ouvir o simpático senhor me olhar e dizer "você hoje está com as pernas azuis!". Agora, desde quando é aceitável sair por aí comentando as pernas de desconhecidos? Ou socialmente adequado? Alguém sabe me responder?
A pérola do dia foi ouvir um outro ser reclamando de algum serviço de banco impossível de se obter, exceto que era função de alguém fazer e a pessoa em questão se recusava a fazê-lo. Muitas e muitas horas, enquanto tentava, para desencargo da minha pobre consciência tão atribulada, trabalhar, ouvindo como a mulher era folgada, que ela disse que não podia fazer mas que a superlinha disse que ela podia, e que eu vou não sei aonde e meu pagamento não vai cair e eu vou perder não sei quantos dias. Pausa pra comentar o Ronaldinho e os travestis, e sou obrigada a ouvir que as pessoas levam tudo na maldade, coitado do Ronaldinho. Dois minutos de silêncio e depois: "gente que não quer trabalhar e fica enrolando é foda...!" Sério? Jura, mesmo? Assim, tipo você que, além de não querer e não se tocar que a carapuça te serve, fica falando merda pra atrapalhar os outros? É ruim, né?
Depois desse martírio, mais uma hora andando que nem tartaruga, xingando um pouco mais no trânsito, me xingando por não ter ido por um caminho alternativo, pra chegar em casa e rasgar a meia-calça.
Calma, úlcera, preocupa não que eu te mantenho quentinha e bem alimentada.
Ass.: Vaca Insuportável.
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