Domingão à tarde, aquele banzo inevitável e uma insuportável onda de calor meio fora de época.
Já tava dando até para fazer aqueles comentários, do vento mais fresco que começa a soprar, ainda que em dias quentes, o vento algo gelado anunciando a mudança de estação. Ainda que por aqui não tenhamos isso de estações marcadas, mas não se pode negar que, ainda assim, o clima vai mudando, dá uma esquentada, depois dá uma esfriada e assim por diante.
Coisas para fazer, ler, escrever, jogos a assistir, mas aí passou na tv um dos meus filmes favoritos de todos os tempos: em português chama Caindo na Real, acho que o título original é Reality Bites, e é um filme do Ben Stiller de 1994, com Ethan Hawke e Winona Rider. O filme mostra um pouco da vida de jovens recém-formados na universidade meio que tentando ver o que fazem da vida.
Aí que eu gosto demais de tudo, desde a fotografia aos diálogos aos personagens, todos, da história; gosto muito do filme e fiquei pensando, nessa tarde quente... não sei, em 1994 eu tinha meros 11 anos de idade e já se passaram outros 17 e eu não sei exatamente quando assisti ao filme pela primeira vez mas certamente foi aí em algum lugar adolescência. E, não sei, fiquei pensando que de repente é mau negócio. No sentido da gente ir criando expectativas e gostos que, talvez, carreguemos pela vida afora. E o personagem do Hawke, Troy, tem todo aquele ar blasé existencialista inteligente-pra-caralho sujinho que eu até hoje acho bacana demais. E é meio problema, isso, né? Acho que o forte mesmo do Ethan Hawke é esse tipo de personagem, parecido demais com o que ele faz em Antes do Amanhecer, mesmo tipo sujinho, mas o Troy é filósofo. E perdidaço, mas tão legal.
E tem a Janeane Garofalo, que eu simplesmente adoro. E a personagem dela é o máximo.
Sei lá se rolava fazer esse filme hoje mas, mesmo que rolasse, não ia sair do mesmo jeito. Tudo tão assim... sei lá, algo desleixado. As roupas da Winona são uma coisa de louco, calças largas e camiseta e pouca maquiagem, pelo menos aparentemente, e o protagonista sujinho que só. Acho que a geração saúde meio que não permite isso. Além deles fumarem o tempo absolutamente todo. Tem essa coisa de um retrato de geração, talvez, que não cabe mais. Bem é a minha geração, obviamente, mas eu ainda pude ver, quando estava na faculdade, a mudança do pessoal da minha época em relação aos novos alunos. Que são de um conservadorismo assustador, até pra mim que sempre fui caxias pra caramba. Todos muito riquinhos e focados em se tornar intelectuais e ligando pra mãe porque um palestrante fumou maconha na universidade. Quer dizer, quer ser filho-da-puta, liga pra polícia, mas pra mãe?! Conclusão de que o mundo tá mesmo ficando sem saída.
Então no filme do Stiller os caras são todos perdidos, desarrumados, aquele lance meio infinita-highway-só-queremos-ir e tudo o mais. E o foda é que a Lelaina, personagem da Winona, combina com as roupas, toda descabelada e andrajosa com um baita batom vermelho e só.
De repente a inocência é minha, mas eu me engano contente com essa ilusão de que outras coisas importam.
Quebrei a cabeça tentando pensar num equivalente contemporâneo e só consegui lembrar daquele com a menina de Gilmore Girls em que ela se forma e não sabe o que fazer e vai procurar emprego como editora porque ama livros, ou coisa assim, e ela tá sempre tão bem penteada que não tem nem o que dizer.
Depois lembrei de alguém me contar que foi uma vez num casamento e tocou aquela baladinha do U2, "I still haven't found what i'm looking for", tipos quando a noiva entrava na igreja e a pessoa comentando o total absurdo disso, porque, né? E o fato é que essas baladinhas do U2 meio que são super parecidas, essa e aquela "with or without you" e "all I want is you" (que toca no filme) são para mim a mesma até eu reconhecer a letra e ainda assim só tenho certeza de qual é no refrão. Meio como a Adriana Calcanhoto com "metade" e "mentira".
Nem faz muito sentido, na verdade, só que eu gosto tanto tanto desse filme e acho que ele estabeleceu padrões, pra mim. Do que é legal e desejável e do que não é.
Aí uma hora a Laney diz que achou que seria alguma coisa da vida aos 23 anos e eu tenho tão clara a memória de 23 anos ser uma idade muito distante, depois se aproximar, depois ir sendo deixada pra trás até estar há muito ultrapassada, como agora. E de repente daqui a outros 17 anos eu volte aqui e pense que não estava há muito ultrapassada, mas não é essa a graça da coisa?
E sei lá se eu sou alguma coisa, aos 28 anos. Acho que talvez sim, mas é cedo ainda pra dizer.
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domingo, 27 de março de 2011
segunda-feira, 21 de março de 2011
sexta-feira, 18 de março de 2011
Do mundo maravilhoso
Eu nunca gostei muito dessa música, talvez porque a associe inevitavelmente às imitações do... João Kléber?... na época em que eu assistia ao Domingão do Faustão.
Combato a vergonha de algum dia tê-lo feito afirmando que faz muitos anos, talvez mesmo uma década, que eu não vejo mais essa porcaria. Mesmo não ver, não naquelas de ficar vendo sem prestar atenção porque não tenho mais nada o que fazer num domingo de tarde. Graças aos céus eu desenvolvi uma habilidade que me é muito cara: se não tenho nada melhor pra fazer, durmo.
E também não sou assim tão exigente quanto ao melhor, qualquer livrozinho água-com-açúcar me satisfaz, ao menos momentaneamente. O que eu sei que não fala muito a meu favor, mas pelo menos é melhor que Faustão.
Mas aí, lembro como se fosse hoje, eu fui assistir àquele filme em que o Brad Pitt era a morte - isso foi quando eu morava no Guanabara, aquela casa com a sala na frente dando para uma varanda envidraçada. Morei ali quando estava no segundo colegial, portanto tinha... dezesseis anos, portanto isso foi há doze. E gostei do filme, apesar de gostar mais do Brad Pitt sem ser a morte (sim, eu sou tonta a esse ponto, de preferir perder toda a graça do filme e etc.), mas o que me marcou foi que no final, enquanto passavam os créditos, comecei a ouvir uns hmm hmmm que me pareceram tanto, tanto o Milton Nascimento e eu fiquei pensando "uai, será que colocaram o Milton na trilha??!?!" e é óbvio que não colocaram, mas era aquela versão de What a wonderful world junto com somewhere over the rainbow, e quem canta é aquele moço havaiano que morreu.
Então eu gostei, acho que por ser menos pretensiosa que o João Kléber e todo o resto. E calhou de eu ouvir exatamente essa versão na rádio, dia desses, e prestar atenção na letra e pensar "não é que é mesmo?".
Ultimamente passei por uns momentos meio de aperto, da dificuldade que é aquela história da gente não poder ter tudo e ter de abrir mão, e abrir mão, e abrir mão, e sempre deixar ir alguma coisa que a gente queria que ficasse. Mas ainda no meio da crise... não sei, às vezes quando eu fico pra baixo acontece também de, na hipersensibilidade, achar o resto das coisas bonitas. É só que então elas são de uma beleza meio desesperada, algo assim voraz, destruidor.
Nessa levada os dias passam, os hormônios assentam, até que essa noite fui à abertura da temporada da sinfônica. Nunca tinha ido, na abertura, e fui hoje porque pedi ao meu pai, ainda ano passado, que ele me desse uma assinatura de presente. Ele lá já tem duas, o que significa concertos a cada quinze dias, e dentro da enrolação master dele conseguiu comprar mais uma pra mim, portanto toca pra sinfônica.
E o concerto de abertura foi a Nona do Beethoven.
Aí é a puta que o pariu, né? Tem nem o que conversar, o cara tinha que ser pirado de tudo pra inventar um troço daqueles. Aí você fica lá, naquela sala linda linda que é a São Paulo, e sei lá quantas pessoas, talvez umas duzentas?, fazendo aquela loucura na sua frente e você ali só conseguindo pensar "eita, caralho!".
Eu particularmente acho muito muito foda.
Primeiro que me impressiona, com essa mania que tenho de me impressionar, isso que a gente inventa. Quer dizer, um dia um cara falou "óia, um pedaço de madeira, se a gente cavocar um buraco e prender umas cordas de atravessado, depois rapar as cordas com um toco, pode ficar uma coisa bacana". Aí pronto, estamos nós ali diante de violas e violinos e violoncelos e eles falam alto ou baixo ou ainda explodem, a ponto de expulsar da gente qualquer pensamento.
Fiquei ali, sentada, e pensando tanta tanta coisa, algumas agradáveis, outras agridoces, sentindo desejos enormes e angústias profundas, enquanto era tomada pela beleza, mal conseguindo respirar, porque a música vai te levando e quando a gente vê tá todo duro na cadeira e tem que se forçar a relaxar, até começar a endurecer de novo.
E pensando, pensando, respirando fundo de tempos em tempos, até que o volume da música te preenche, depois retrocede, depois cresce, e você...
Até que entram as vozes e puta-que-o-pariu.
Não me lembro se algum dia ouvi a Nona de cabo a rabo, mas nem faz diferença, porque ouvir pelo rádio ou ver na televisão não tem nada a ver com a coisa real. Sabendo que ela acontece ali, naquela hora, que você não tem controle nenhum sobre volume, não pode avançar nem retroceder, e tudo é tridimensional e o som vem por todos os lados e você está ali naquela hora só fazendo isso, só ouvindo e sentindo. Não tem outro jeito de ouvir que não assim, na Sala. Porque aí de repente você se distrai um momento com alguma coisa, olha um violinista e vê o quanto ele balança a cabeça e parece querer levantar, e de repente entra a voz da soprano e meio que dá vontade de morrer, e de fazer o tempo parar, e de fazer o tempo voltar e ficar ali pra sempre, com a entrada da soprano.
E nem é que a gente seja feliz e o nosso mundo esteja perfeito mas, mesmo que seja ao contrário, a entrada da soprano é.
E a minha saída é mesmo respirar fundo e morder os lábios, porque a vontade é cair em choro desesperado ali mesmo.
E é maravilhoso.
Combato a vergonha de algum dia tê-lo feito afirmando que faz muitos anos, talvez mesmo uma década, que eu não vejo mais essa porcaria. Mesmo não ver, não naquelas de ficar vendo sem prestar atenção porque não tenho mais nada o que fazer num domingo de tarde. Graças aos céus eu desenvolvi uma habilidade que me é muito cara: se não tenho nada melhor pra fazer, durmo.
E também não sou assim tão exigente quanto ao melhor, qualquer livrozinho água-com-açúcar me satisfaz, ao menos momentaneamente. O que eu sei que não fala muito a meu favor, mas pelo menos é melhor que Faustão.
Mas aí, lembro como se fosse hoje, eu fui assistir àquele filme em que o Brad Pitt era a morte - isso foi quando eu morava no Guanabara, aquela casa com a sala na frente dando para uma varanda envidraçada. Morei ali quando estava no segundo colegial, portanto tinha... dezesseis anos, portanto isso foi há doze. E gostei do filme, apesar de gostar mais do Brad Pitt sem ser a morte (sim, eu sou tonta a esse ponto, de preferir perder toda a graça do filme e etc.), mas o que me marcou foi que no final, enquanto passavam os créditos, comecei a ouvir uns hmm hmmm que me pareceram tanto, tanto o Milton Nascimento e eu fiquei pensando "uai, será que colocaram o Milton na trilha??!?!" e é óbvio que não colocaram, mas era aquela versão de What a wonderful world junto com somewhere over the rainbow, e quem canta é aquele moço havaiano que morreu.
Então eu gostei, acho que por ser menos pretensiosa que o João Kléber e todo o resto. E calhou de eu ouvir exatamente essa versão na rádio, dia desses, e prestar atenção na letra e pensar "não é que é mesmo?".
Ultimamente passei por uns momentos meio de aperto, da dificuldade que é aquela história da gente não poder ter tudo e ter de abrir mão, e abrir mão, e abrir mão, e sempre deixar ir alguma coisa que a gente queria que ficasse. Mas ainda no meio da crise... não sei, às vezes quando eu fico pra baixo acontece também de, na hipersensibilidade, achar o resto das coisas bonitas. É só que então elas são de uma beleza meio desesperada, algo assim voraz, destruidor.
Nessa levada os dias passam, os hormônios assentam, até que essa noite fui à abertura da temporada da sinfônica. Nunca tinha ido, na abertura, e fui hoje porque pedi ao meu pai, ainda ano passado, que ele me desse uma assinatura de presente. Ele lá já tem duas, o que significa concertos a cada quinze dias, e dentro da enrolação master dele conseguiu comprar mais uma pra mim, portanto toca pra sinfônica.
E o concerto de abertura foi a Nona do Beethoven.
Aí é a puta que o pariu, né? Tem nem o que conversar, o cara tinha que ser pirado de tudo pra inventar um troço daqueles. Aí você fica lá, naquela sala linda linda que é a São Paulo, e sei lá quantas pessoas, talvez umas duzentas?, fazendo aquela loucura na sua frente e você ali só conseguindo pensar "eita, caralho!".
Eu particularmente acho muito muito foda.
Primeiro que me impressiona, com essa mania que tenho de me impressionar, isso que a gente inventa. Quer dizer, um dia um cara falou "óia, um pedaço de madeira, se a gente cavocar um buraco e prender umas cordas de atravessado, depois rapar as cordas com um toco, pode ficar uma coisa bacana". Aí pronto, estamos nós ali diante de violas e violinos e violoncelos e eles falam alto ou baixo ou ainda explodem, a ponto de expulsar da gente qualquer pensamento.
Fiquei ali, sentada, e pensando tanta tanta coisa, algumas agradáveis, outras agridoces, sentindo desejos enormes e angústias profundas, enquanto era tomada pela beleza, mal conseguindo respirar, porque a música vai te levando e quando a gente vê tá todo duro na cadeira e tem que se forçar a relaxar, até começar a endurecer de novo.
E pensando, pensando, respirando fundo de tempos em tempos, até que o volume da música te preenche, depois retrocede, depois cresce, e você...
Até que entram as vozes e puta-que-o-pariu.
Não me lembro se algum dia ouvi a Nona de cabo a rabo, mas nem faz diferença, porque ouvir pelo rádio ou ver na televisão não tem nada a ver com a coisa real. Sabendo que ela acontece ali, naquela hora, que você não tem controle nenhum sobre volume, não pode avançar nem retroceder, e tudo é tridimensional e o som vem por todos os lados e você está ali naquela hora só fazendo isso, só ouvindo e sentindo. Não tem outro jeito de ouvir que não assim, na Sala. Porque aí de repente você se distrai um momento com alguma coisa, olha um violinista e vê o quanto ele balança a cabeça e parece querer levantar, e de repente entra a voz da soprano e meio que dá vontade de morrer, e de fazer o tempo parar, e de fazer o tempo voltar e ficar ali pra sempre, com a entrada da soprano.
E nem é que a gente seja feliz e o nosso mundo esteja perfeito mas, mesmo que seja ao contrário, a entrada da soprano é.
E a minha saída é mesmo respirar fundo e morder os lábios, porque a vontade é cair em choro desesperado ali mesmo.
E é maravilhoso.
sexta-feira, 11 de março de 2011
Dois
Pois é, também não queria esquecer de outras coisas.
Também sem muito a ver, só achei interessante que tava num supermercado esses tempos, eu e meu pai.
Ok, antes é preciso explicar que meu pai adquiriu a mania, também não sei quando, de andar por aí de chapéu. Comprou lá uns, ganhou outros, e agora só sai na rua de chapéu.
Menos quando ele perde os chapéus - coisa que quem conhece meu pai (e, por herança genética, me conhece) sabe, acontece com uma frequência que varia entre assustadora e cômica. Somos ambos péssimos em achar as coisas, quaisquer coisas, e meu pai tem o aditivo particularmente irritante de sempre achar que alguém escondeu o que ele procurava. E ele consegue ser pior do que eu e, resumindo, meio que nunca sabe onde está nada.
Pois sim, aí fomos viajar juntos e meio de brincadeira coloquei na cabeça (onde mais?!) um dos chapéus dele. O lance todo tem uma baita vantagem: impede os cabelos de esvoaçarem enlouquecidos com o vento da estrada. E eu curto vento na estrada. Aliás, só curto estrada com vento. Mas não gosto do cabelo esvoaçando enlouquecido, nem porque ele embaraça, ou dá nó, mesmo porque bate no rosto e incomoda e atrapalha um pouco a visão.
De brincadeira ou não, pus e mantive o chapéu, até que fomos comprar uns ítens básicos de sobrevivência num mercado e, depois de eu encher a cesta de um monte de coisa que não precisava absolutamente (tenho mesmo um certo problema com mercados, raramente consigo entrar e sair de um rapidamente, sem dar voltas e mais voltas pelos corredores, pensando no que quero/preciso comprar), fomos, naturalmente, para o caixa.
Era uma moça, a operadora de caixa, e enquanto demorava dois séculos para atender a senhora da frente, no maior papo, lançou a mim e ao pai alguns olhares curiosos. Eu meio que me irritando, naquelas ondas bem-educadas e tolerantes que vibram "fala menos e cobra mais, minha filha!", até que ela terminou de atender a mulher e chegou a nossa vez.
Olhou então de novo para a gente: "nossa, vocês são mesmo muito parecidos, sua filha é a sua cara!".
Acabou a antipatia. Engraçado isso como tem gente que consegue, num segundo, conquistar a gente, por um nada, muitas vezes por muito menos do que outras pessoas tentam fazer. Dá pra entender? Quer dizer, acontece com frequencia da gente encontrar por aí um bando de gente que tenta ser simpática, educada, gentil ou o diabo, e meio que gera só implicância. Sei lá, soa falso, ou over, ou nada a ver.
Mas a caixa pareceu mesmo legal e conversadeira. De repente, eu pensei mesmo na hora, ela me ouviu chamando meu pai de "pai" e etc, mas de repente também não.
E o fato é que eu acho que a minha família é toda meio esparsa, quer dizer, eu não pareço com meus pais, nem minha irmã, nem nós duas entre nós. Minha sobrinha é a cara da mãe, mas aí já é outra geração.
Então é engraçado a moça lá dizer isso. Meu pai deu uma risadinha e fez uma cara que faz de vez em quando, quando não fala nada e a gente não sabe o que ele tá pensando. Ele dá uma risadinha e fica olhando, com cara de bonzinho.
Eu respondi - claro que para incompreensão absoluta da moça, que não sabe nada de nada - que ela achava isso porque eu estava usando o chapéu. De vez em quando a gente diz umas coisas totalmente nada a ver, mas que são tão piada interna, que não importa que o resto do mundo não entenda.
Mas aí conversamos praí um ou dois minutos - o tempo de passar as compras e o tempo que a gente tem para contatar as pessoas nesse mundo -, ela perguntando se a gente era de São Paulo, eu dizendo que meu pai é do Ceará mas veio para cá adolescente, ela respondendo que é de Sergipe e já está por aqui há nove anos mas que quer voltar, que não acostuma não e coisa e tal.
Obrigada, tchau, boa tarde, boa sorte, vai com Deus e tudo o mais.
É só que achei graça e inesperado e diferente isso de uma estranha ver uma semelhança que para nós meio que não existe.
E a cara de bonzinho do meu pai, com os olhinhos pequenos, meio parecidos com os da mãe dele, e uma risadinha algo sem jeito, sem mostrar o que está pensando e tão bonzinho.
Ai, que a gente vai esquecendo tudo, nessa vida.
Menos quando escreve. Porque aí passa, que não tem jeito, mas também volta, ainda que diferente.
Também sem muito a ver, só achei interessante que tava num supermercado esses tempos, eu e meu pai.
Ok, antes é preciso explicar que meu pai adquiriu a mania, também não sei quando, de andar por aí de chapéu. Comprou lá uns, ganhou outros, e agora só sai na rua de chapéu.
Menos quando ele perde os chapéus - coisa que quem conhece meu pai (e, por herança genética, me conhece) sabe, acontece com uma frequência que varia entre assustadora e cômica. Somos ambos péssimos em achar as coisas, quaisquer coisas, e meu pai tem o aditivo particularmente irritante de sempre achar que alguém escondeu o que ele procurava. E ele consegue ser pior do que eu e, resumindo, meio que nunca sabe onde está nada.
Pois sim, aí fomos viajar juntos e meio de brincadeira coloquei na cabeça (onde mais?!) um dos chapéus dele. O lance todo tem uma baita vantagem: impede os cabelos de esvoaçarem enlouquecidos com o vento da estrada. E eu curto vento na estrada. Aliás, só curto estrada com vento. Mas não gosto do cabelo esvoaçando enlouquecido, nem porque ele embaraça, ou dá nó, mesmo porque bate no rosto e incomoda e atrapalha um pouco a visão.
De brincadeira ou não, pus e mantive o chapéu, até que fomos comprar uns ítens básicos de sobrevivência num mercado e, depois de eu encher a cesta de um monte de coisa que não precisava absolutamente (tenho mesmo um certo problema com mercados, raramente consigo entrar e sair de um rapidamente, sem dar voltas e mais voltas pelos corredores, pensando no que quero/preciso comprar), fomos, naturalmente, para o caixa.
Era uma moça, a operadora de caixa, e enquanto demorava dois séculos para atender a senhora da frente, no maior papo, lançou a mim e ao pai alguns olhares curiosos. Eu meio que me irritando, naquelas ondas bem-educadas e tolerantes que vibram "fala menos e cobra mais, minha filha!", até que ela terminou de atender a mulher e chegou a nossa vez.
Olhou então de novo para a gente: "nossa, vocês são mesmo muito parecidos, sua filha é a sua cara!".
Acabou a antipatia. Engraçado isso como tem gente que consegue, num segundo, conquistar a gente, por um nada, muitas vezes por muito menos do que outras pessoas tentam fazer. Dá pra entender? Quer dizer, acontece com frequencia da gente encontrar por aí um bando de gente que tenta ser simpática, educada, gentil ou o diabo, e meio que gera só implicância. Sei lá, soa falso, ou over, ou nada a ver.
Mas a caixa pareceu mesmo legal e conversadeira. De repente, eu pensei mesmo na hora, ela me ouviu chamando meu pai de "pai" e etc, mas de repente também não.
E o fato é que eu acho que a minha família é toda meio esparsa, quer dizer, eu não pareço com meus pais, nem minha irmã, nem nós duas entre nós. Minha sobrinha é a cara da mãe, mas aí já é outra geração.
Então é engraçado a moça lá dizer isso. Meu pai deu uma risadinha e fez uma cara que faz de vez em quando, quando não fala nada e a gente não sabe o que ele tá pensando. Ele dá uma risadinha e fica olhando, com cara de bonzinho.
Eu respondi - claro que para incompreensão absoluta da moça, que não sabe nada de nada - que ela achava isso porque eu estava usando o chapéu. De vez em quando a gente diz umas coisas totalmente nada a ver, mas que são tão piada interna, que não importa que o resto do mundo não entenda.
Mas aí conversamos praí um ou dois minutos - o tempo de passar as compras e o tempo que a gente tem para contatar as pessoas nesse mundo -, ela perguntando se a gente era de São Paulo, eu dizendo que meu pai é do Ceará mas veio para cá adolescente, ela respondendo que é de Sergipe e já está por aqui há nove anos mas que quer voltar, que não acostuma não e coisa e tal.
Obrigada, tchau, boa tarde, boa sorte, vai com Deus e tudo o mais.
É só que achei graça e inesperado e diferente isso de uma estranha ver uma semelhança que para nós meio que não existe.
E a cara de bonzinho do meu pai, com os olhinhos pequenos, meio parecidos com os da mãe dele, e uma risadinha algo sem jeito, sem mostrar o que está pensando e tão bonzinho.
Ai, que a gente vai esquecendo tudo, nessa vida.
Menos quando escreve. Porque aí passa, que não tem jeito, mas também volta, ainda que diferente.
Fusca!
Minha sobrinha já está no primeiro ano. Diferente de mim, que fui à primeira série um ano mais velha do que ela está agora - sim, o sistema de ensino mudou, não tenho certeza de quando isso aconteceu, mas causa ainda alguma estranheza.
Dentro de todo o contexto da mudança, ela passou a ir à escola, bastante mais longe do que a que ela frequentava até o ano passado, de perua escolar.
Sei lá, acho que ninguém mais fala de perua a não ser escolar, exceto que minha família tem algo de esquisita e sacana e chama de perua a caminhonete último tipo de um tio meu e ele nos manda à pqp todas as vezes, porque, né? Nego não compra caminhonete último tipo pra vê-la chamada de perua.
Pois então, a perua que a leva diariamente para a escola é dirigida por uma mulher. Interessante e talz, poderíamos pensar sobre todo o estereótipo do motorista homem brigando com o outro estereótipo segundo o qual quem cuida de criança é mulher, mas enfim. O lance é que a motorista ensinou para a Clara um jogo, desses de trânsito, que se chama "Fusca!". Quer dizer, não sei como se chama, mas o nome me parece muito adequado.
A brincadeira consiste nos jogadores berrarem "fusca!" todas as vezes que virem um fusca pelas ruas. "Fusca!", mesmo, com exclamação. Dizer "olha, um fusca!" não vale.
Muito imaginamos o contexto do jogo, idêntico a todos esses passatempos inventados para distrair as crianças no carro, principalmente em viagens mais longas.
A viagem para a escola nem é nada longa, mas enquanto uma família - mais ou menos - normal tem de distrair praí uma ou duas crianças, a pobre da motorista da perua escolar tem que se deslocar por aí, em meio aos péssimos motoristas campineiros, com, sei lá, quinze pimpolhos botando o terror ao redor dela.
Então, voilá, "Fusca!".
Aí o negócio é que esse diabo virou mania, todos viciados em andar pelas ruas olhando atentos ao redor, procurando o carro redondinho. Eu entrei na maior paranóia e esses dias, numa curta viagem, contei pra mais de quarenta.
Fusca vai, fusca vem, estávamos fazendo uma viagem em família e gritando enlouquecidos dentro do carro quando ao sobrinha, ao perceber que perdia no jogo (obviamente, ganha quem encontra mais fuscas) decidiu, como boa criança de seis anos, que não queria mais brincar.
"Ah, muito chata essa brincadeira, não quero mais".
Problema, né? Ou problemas, porque eram dois: uma que teríamos que arranjar outra coisa para distraí-la durante uma hora ou duas de viagem adiante. Outra que, viciados como estamos em "fusca!", sempre que vemos um não seguramos o impulso de gritar.
Surge então uma idéia para contentar a pequena: vamos então gritar os nomes dos animais que virmos pelo caminho.
Normal e distrativo, bora lá.
Todo mundo gritando: galinha, cachorro, cavalo - menos a sobrinha que ainda não via nada antes dos outros.
Até que ela vê um burro. Ou um jegue. Ou, sei lá, um cavalo, nunca aprendi a distingui-los, ainda mais em velocidade.
A sobrinha se anima e berra: "Fusca!".
Quer dizer, as coisas nessa vida não são assim tão simples, né? Não é porque a gente cansou de uma brincadeira que os reflexos adquiridos nela desaparecem instantaneamente. Vejam que baita lição de vida, que a gente pode super utilizar para outros e mais sérios aspectos da nossa vida - quase - adulta.
Enfim, caímos todos na risada, inclusive a sobrinha; mas ela não quis continuar brincando, dormiu e acordou amuada quando chegamos ao destino.
E é um tal de "tchau, Clara", "dá um beijo, Clara", "tudo bem, Clara?" e um monte de "Claras" sem resposta, ela no colo da mãe, sem falar com ninguém até que de repente:
- "Fusca!".
Sei lá, de repente isso nem é tão engraçado, mas realmente foi.
E tem toda a graça de ela dizer, com entonação e voz de criança e empolgação e sotaque e.
Só não queria esquecer.
Dentro de todo o contexto da mudança, ela passou a ir à escola, bastante mais longe do que a que ela frequentava até o ano passado, de perua escolar.
Sei lá, acho que ninguém mais fala de perua a não ser escolar, exceto que minha família tem algo de esquisita e sacana e chama de perua a caminhonete último tipo de um tio meu e ele nos manda à pqp todas as vezes, porque, né? Nego não compra caminhonete último tipo pra vê-la chamada de perua.
Pois então, a perua que a leva diariamente para a escola é dirigida por uma mulher. Interessante e talz, poderíamos pensar sobre todo o estereótipo do motorista homem brigando com o outro estereótipo segundo o qual quem cuida de criança é mulher, mas enfim. O lance é que a motorista ensinou para a Clara um jogo, desses de trânsito, que se chama "Fusca!". Quer dizer, não sei como se chama, mas o nome me parece muito adequado.
A brincadeira consiste nos jogadores berrarem "fusca!" todas as vezes que virem um fusca pelas ruas. "Fusca!", mesmo, com exclamação. Dizer "olha, um fusca!" não vale.
Muito imaginamos o contexto do jogo, idêntico a todos esses passatempos inventados para distrair as crianças no carro, principalmente em viagens mais longas.
A viagem para a escola nem é nada longa, mas enquanto uma família - mais ou menos - normal tem de distrair praí uma ou duas crianças, a pobre da motorista da perua escolar tem que se deslocar por aí, em meio aos péssimos motoristas campineiros, com, sei lá, quinze pimpolhos botando o terror ao redor dela.
Então, voilá, "Fusca!".
Aí o negócio é que esse diabo virou mania, todos viciados em andar pelas ruas olhando atentos ao redor, procurando o carro redondinho. Eu entrei na maior paranóia e esses dias, numa curta viagem, contei pra mais de quarenta.
Fusca vai, fusca vem, estávamos fazendo uma viagem em família e gritando enlouquecidos dentro do carro quando ao sobrinha, ao perceber que perdia no jogo (obviamente, ganha quem encontra mais fuscas) decidiu, como boa criança de seis anos, que não queria mais brincar.
"Ah, muito chata essa brincadeira, não quero mais".
Problema, né? Ou problemas, porque eram dois: uma que teríamos que arranjar outra coisa para distraí-la durante uma hora ou duas de viagem adiante. Outra que, viciados como estamos em "fusca!", sempre que vemos um não seguramos o impulso de gritar.
Surge então uma idéia para contentar a pequena: vamos então gritar os nomes dos animais que virmos pelo caminho.
Normal e distrativo, bora lá.
Todo mundo gritando: galinha, cachorro, cavalo - menos a sobrinha que ainda não via nada antes dos outros.
Até que ela vê um burro. Ou um jegue. Ou, sei lá, um cavalo, nunca aprendi a distingui-los, ainda mais em velocidade.
A sobrinha se anima e berra: "Fusca!".
Quer dizer, as coisas nessa vida não são assim tão simples, né? Não é porque a gente cansou de uma brincadeira que os reflexos adquiridos nela desaparecem instantaneamente. Vejam que baita lição de vida, que a gente pode super utilizar para outros e mais sérios aspectos da nossa vida - quase - adulta.
Enfim, caímos todos na risada, inclusive a sobrinha; mas ela não quis continuar brincando, dormiu e acordou amuada quando chegamos ao destino.
E é um tal de "tchau, Clara", "dá um beijo, Clara", "tudo bem, Clara?" e um monte de "Claras" sem resposta, ela no colo da mãe, sem falar com ninguém até que de repente:
- "Fusca!".
Sei lá, de repente isso nem é tão engraçado, mas realmente foi.
E tem toda a graça de ela dizer, com entonação e voz de criança e empolgação e sotaque e.
Só não queria esquecer.
terça-feira, 8 de março de 2011
Do erro
A lógica me diz que como só quem vive a minha vida sou eu e como eu a vivo o tempo todo, sempre presente em tudo que faço, o que me acontece é de ficar dias e anos falando a mesma coisa por aí. Mas eu, dentro talvez de alguma loucura, tenho às vezes a impressão de que alguns discursos que faço se repetem, meio que sozinhos, em diferentes ocasiões. Como se o assunto viesse, chegasse por suas próprias pernas, e se apresentasse diante de mim e então eu tivesse ocasião de repetir o que já disse antes, em outro cenário, para outra platéia.
Ou então é mesmo mais simples que isso e acontece só de eu ficar pensando uma coisa, e pensando e pensando a tal coisa, e fico repetindo inúmeras vezes minhas considerações sobre ela a cada oportunidade que surge.
Não que importe, mas eu sou fascinada por isso da coincidência ou, talvez me explique melhor, pela ligação entre as coisas. Os caminhos.
A idéia que venho repetindo, em relação a coisas deveras importantes ou a outras realmente menores, é que às vezes a gente planeja alguma coisa e ela meio que dá errado.
Elementar, meu caro, e tudo o mais.
Mas o curioso não é isso, mas o fato de o erro se transformar em acerto. Em outras palavras, tenho percebido na minha vida que nos momentos em que meus planos dão errado, o desconhecido com que me deparo é também muito bom. Gostaria até de dizer que melhor, mas cometeria aí uma desonestidade porque não tem como a gente saber o que seria da nossa vida se num determinado ponto virássemos à esquerda, ao invés de à direita. Mas é tentador afirmar pelo absoluto, porque a verdade é que tenho encontrado alguns momentos de plenitude, terrivelmente assustadores, nos últimos metros da caminhada.
E se alguma coisa é plena, não poderia ser melhor - não é esse o princípio?
Mas dá medo, isso, de as coisas estarem no lugar. E serem certas. Porque elas não permanecem assim, como nada nunca permanece de jeito nenhum por muito tempo, então acho que a saída é curtir enquanto dá e guardar fôlego pro que vem.
E sempre vem, como sempre vai.
É só que tive várias oportunidades de conversar sobre isso, ultimamente, e achei curioso. Talvez só porque tenho pensado no assunto.
No fim das contas, parece ótima a idéia de se deixar levar pela vida, não em completo abandono, mas sem aquela neura de tentar controlá-la para ir por onde a gente quer. A idéia de que coisas legais chegam assim, por si só, ou mesmo contra a nossa vontade.
De repente parece bom porque a gente vai meio desacreditando e não cria aí tanta expectativa então pode só aproveitar, sem grandes decepções.
Já fui muito - e acho que ainda sou mais do que gostaria - partidária daquele ditado sobre as festas e a espera. Sendo muito sincera, olhando daqui dá para ver que falta ainda muito chão para eu superá-lo.
Mas talvez eu já esteja a meio caminho e, por não saber de festa alguma, tudo pareça melhor.
Ou então é mesmo mais simples que isso e acontece só de eu ficar pensando uma coisa, e pensando e pensando a tal coisa, e fico repetindo inúmeras vezes minhas considerações sobre ela a cada oportunidade que surge.
Não que importe, mas eu sou fascinada por isso da coincidência ou, talvez me explique melhor, pela ligação entre as coisas. Os caminhos.
A idéia que venho repetindo, em relação a coisas deveras importantes ou a outras realmente menores, é que às vezes a gente planeja alguma coisa e ela meio que dá errado.
Elementar, meu caro, e tudo o mais.
Mas o curioso não é isso, mas o fato de o erro se transformar em acerto. Em outras palavras, tenho percebido na minha vida que nos momentos em que meus planos dão errado, o desconhecido com que me deparo é também muito bom. Gostaria até de dizer que melhor, mas cometeria aí uma desonestidade porque não tem como a gente saber o que seria da nossa vida se num determinado ponto virássemos à esquerda, ao invés de à direita. Mas é tentador afirmar pelo absoluto, porque a verdade é que tenho encontrado alguns momentos de plenitude, terrivelmente assustadores, nos últimos metros da caminhada.
E se alguma coisa é plena, não poderia ser melhor - não é esse o princípio?
Mas dá medo, isso, de as coisas estarem no lugar. E serem certas. Porque elas não permanecem assim, como nada nunca permanece de jeito nenhum por muito tempo, então acho que a saída é curtir enquanto dá e guardar fôlego pro que vem.
E sempre vem, como sempre vai.
É só que tive várias oportunidades de conversar sobre isso, ultimamente, e achei curioso. Talvez só porque tenho pensado no assunto.
No fim das contas, parece ótima a idéia de se deixar levar pela vida, não em completo abandono, mas sem aquela neura de tentar controlá-la para ir por onde a gente quer. A idéia de que coisas legais chegam assim, por si só, ou mesmo contra a nossa vontade.
De repente parece bom porque a gente vai meio desacreditando e não cria aí tanta expectativa então pode só aproveitar, sem grandes decepções.
Já fui muito - e acho que ainda sou mais do que gostaria - partidária daquele ditado sobre as festas e a espera. Sendo muito sincera, olhando daqui dá para ver que falta ainda muito chão para eu superá-lo.
Mas talvez eu já esteja a meio caminho e, por não saber de festa alguma, tudo pareça melhor.
quinta-feira, 3 de março de 2011
Não me leve a mal
Eu e Mãe assistindo a um programa sobre o carnaval na tv.
Meio ruim, o programa, mas mostrava imagens antigas e tinha um povo falando sobre todo aquele lance do Zé Pereira e do entrudo que eu nunca entendi muito bem, e as marchinhas e os bailes e etc, tudo combustível para um festival de memórias e opiniões.
"País do carnaval" e etc e o que isso significa.
Eu cá do meu lado nunca fui a maior entusiasta da festa, apesar de tê-la curtido ocasionalmente. Como já curti ignorar ou fugir dela.
No meio de toda a baboseira que o povo do programa falava - um aparte: ultimamente, não sei se estou me tornando cada vez mais mal humorada e impaciente, mas tem me parecido que, sei lá, 90% do que ouço as pessoas falando por aí, ao vivo, no rádio ou na tv, é baboseira... - sim, no meio da baboseira um cara falou uma coisa com a qual eu concordo: carnaval é meio que uma referência aqui pra gente. Pode odiar, amar, criticar, fugir, mas é uma realidade com a qual somos obrigados a lidar - meio como natal e ano-novo.
E tem mesmo umas músicas muito legais - talvez principalmente aquelas que escapam aos grandes circuitos. E como "grandes circuitos" falo mesmo como uma paulistana sentada em uma cadeira no centro do mundo.
Mas as marchinhas e tal.
E a idéia, ou a imagem, de centenas de pessoas pulandinho juntas.
Acho legal demais de ver e de pensar.
Não tanto de fazer. Vou chegando à conclusão de que o lance todo de sair pulando entra para a categoria das coisas que parecem legais, mas quando a gente vai fazer, de dentro não é tão legal como é de fora. Como a história de tocar um instrumento, ou dançar flamenco. Quando a gente vê alguém fazendo parece mágico e há uma inevitável decepção em perceber que, na verdade, não há aí grande mágica, só mesmo uma grande parte de esforço e dedicação e (ausente em mim) algum talento.
Eu já me conformei um pouco com isso, ou melhor, me acostumei a não pensar, a não ser em momentos constrangedores, quando vejo a mim mesma dançando - o que é facilmente evitável. Porque também é legal ir lá e fazer o esforço, mesmo para alcançar um resultado medíocre.
Sim, pular no meio da galera não tem nada a ver com isso, mas... não sei, quando eu pulo no meio da galera não me sinto tão feliz quanto as pessoas que vejo pularem no meio da galera parecem estar. Acho que me sinto melhor vendo a felicidade alheia, seja ela real ou não, do que tentando me mesclar a ela. De repente é toda a questão de onde eu vim, mas também tem tanta coisa que faz a gente ser como é que não dá pra explicar, né? A família, a genética, a criação, sei lá o quê. Não sei o que me torna uma não-puladora e talvez haja aqui alguma de esperança de que, num momento em que fizer sentido, eu mude de time.
Insisto em ter essa esperança nessa coisa do "momento em que fizer sentido", em relação a tantas e tantas coisas que pode ser que eu seja afinal só e simplesmente burra.
Então, quem sabe um dia.
Hoje, não sou. Puladora.
Mas, hoje, eu gosto de assistir, com Mãe, a um programa imbecil e sair cantarolando as musiquinhas, e apreciar a diversão dos outros e esperar que, em algum momento, faça sentido.
Meio ruim, o programa, mas mostrava imagens antigas e tinha um povo falando sobre todo aquele lance do Zé Pereira e do entrudo que eu nunca entendi muito bem, e as marchinhas e os bailes e etc, tudo combustível para um festival de memórias e opiniões.
"País do carnaval" e etc e o que isso significa.
Eu cá do meu lado nunca fui a maior entusiasta da festa, apesar de tê-la curtido ocasionalmente. Como já curti ignorar ou fugir dela.
No meio de toda a baboseira que o povo do programa falava - um aparte: ultimamente, não sei se estou me tornando cada vez mais mal humorada e impaciente, mas tem me parecido que, sei lá, 90% do que ouço as pessoas falando por aí, ao vivo, no rádio ou na tv, é baboseira... - sim, no meio da baboseira um cara falou uma coisa com a qual eu concordo: carnaval é meio que uma referência aqui pra gente. Pode odiar, amar, criticar, fugir, mas é uma realidade com a qual somos obrigados a lidar - meio como natal e ano-novo.
E tem mesmo umas músicas muito legais - talvez principalmente aquelas que escapam aos grandes circuitos. E como "grandes circuitos" falo mesmo como uma paulistana sentada em uma cadeira no centro do mundo.
Mas as marchinhas e tal.
E a idéia, ou a imagem, de centenas de pessoas pulandinho juntas.
Acho legal demais de ver e de pensar.
Não tanto de fazer. Vou chegando à conclusão de que o lance todo de sair pulando entra para a categoria das coisas que parecem legais, mas quando a gente vai fazer, de dentro não é tão legal como é de fora. Como a história de tocar um instrumento, ou dançar flamenco. Quando a gente vê alguém fazendo parece mágico e há uma inevitável decepção em perceber que, na verdade, não há aí grande mágica, só mesmo uma grande parte de esforço e dedicação e (ausente em mim) algum talento.
Eu já me conformei um pouco com isso, ou melhor, me acostumei a não pensar, a não ser em momentos constrangedores, quando vejo a mim mesma dançando - o que é facilmente evitável. Porque também é legal ir lá e fazer o esforço, mesmo para alcançar um resultado medíocre.
Sim, pular no meio da galera não tem nada a ver com isso, mas... não sei, quando eu pulo no meio da galera não me sinto tão feliz quanto as pessoas que vejo pularem no meio da galera parecem estar. Acho que me sinto melhor vendo a felicidade alheia, seja ela real ou não, do que tentando me mesclar a ela. De repente é toda a questão de onde eu vim, mas também tem tanta coisa que faz a gente ser como é que não dá pra explicar, né? A família, a genética, a criação, sei lá o quê. Não sei o que me torna uma não-puladora e talvez haja aqui alguma de esperança de que, num momento em que fizer sentido, eu mude de time.
Insisto em ter essa esperança nessa coisa do "momento em que fizer sentido", em relação a tantas e tantas coisas que pode ser que eu seja afinal só e simplesmente burra.
Então, quem sabe um dia.
Hoje, não sou. Puladora.
Mas, hoje, eu gosto de assistir, com Mãe, a um programa imbecil e sair cantarolando as musiquinhas, e apreciar a diversão dos outros e esperar que, em algum momento, faça sentido.
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