Eu nunca gostei muito dessa música, talvez porque a associe inevitavelmente às imitações do... João Kléber?... na época em que eu assistia ao Domingão do Faustão.
Combato a vergonha de algum dia tê-lo feito afirmando que faz muitos anos, talvez mesmo uma década, que eu não vejo mais essa porcaria. Mesmo não ver, não naquelas de ficar vendo sem prestar atenção porque não tenho mais nada o que fazer num domingo de tarde. Graças aos céus eu desenvolvi uma habilidade que me é muito cara: se não tenho nada melhor pra fazer, durmo.
E também não sou assim tão exigente quanto ao melhor, qualquer livrozinho água-com-açúcar me satisfaz, ao menos momentaneamente. O que eu sei que não fala muito a meu favor, mas pelo menos é melhor que Faustão.
Mas aí, lembro como se fosse hoje, eu fui assistir àquele filme em que o Brad Pitt era a morte - isso foi quando eu morava no Guanabara, aquela casa com a sala na frente dando para uma varanda envidraçada. Morei ali quando estava no segundo colegial, portanto tinha... dezesseis anos, portanto isso foi há doze. E gostei do filme, apesar de gostar mais do Brad Pitt sem ser a morte (sim, eu sou tonta a esse ponto, de preferir perder toda a graça do filme e etc.), mas o que me marcou foi que no final, enquanto passavam os créditos, comecei a ouvir uns hmm hmmm que me pareceram tanto, tanto o Milton Nascimento e eu fiquei pensando "uai, será que colocaram o Milton na trilha??!?!" e é óbvio que não colocaram, mas era aquela versão de What a wonderful world junto com somewhere over the rainbow, e quem canta é aquele moço havaiano que morreu.
Então eu gostei, acho que por ser menos pretensiosa que o João Kléber e todo o resto. E calhou de eu ouvir exatamente essa versão na rádio, dia desses, e prestar atenção na letra e pensar "não é que é mesmo?".
Ultimamente passei por uns momentos meio de aperto, da dificuldade que é aquela história da gente não poder ter tudo e ter de abrir mão, e abrir mão, e abrir mão, e sempre deixar ir alguma coisa que a gente queria que ficasse. Mas ainda no meio da crise... não sei, às vezes quando eu fico pra baixo acontece também de, na hipersensibilidade, achar o resto das coisas bonitas. É só que então elas são de uma beleza meio desesperada, algo assim voraz, destruidor.
Nessa levada os dias passam, os hormônios assentam, até que essa noite fui à abertura da temporada da sinfônica. Nunca tinha ido, na abertura, e fui hoje porque pedi ao meu pai, ainda ano passado, que ele me desse uma assinatura de presente. Ele lá já tem duas, o que significa concertos a cada quinze dias, e dentro da enrolação master dele conseguiu comprar mais uma pra mim, portanto toca pra sinfônica.
E o concerto de abertura foi a Nona do Beethoven.
Aí é a puta que o pariu, né? Tem nem o que conversar, o cara tinha que ser pirado de tudo pra inventar um troço daqueles. Aí você fica lá, naquela sala linda linda que é a São Paulo, e sei lá quantas pessoas, talvez umas duzentas?, fazendo aquela loucura na sua frente e você ali só conseguindo pensar "eita, caralho!".
Eu particularmente acho muito muito foda.
Primeiro que me impressiona, com essa mania que tenho de me impressionar, isso que a gente inventa. Quer dizer, um dia um cara falou "óia, um pedaço de madeira, se a gente cavocar um buraco e prender umas cordas de atravessado, depois rapar as cordas com um toco, pode ficar uma coisa bacana". Aí pronto, estamos nós ali diante de violas e violinos e violoncelos e eles falam alto ou baixo ou ainda explodem, a ponto de expulsar da gente qualquer pensamento.
Fiquei ali, sentada, e pensando tanta tanta coisa, algumas agradáveis, outras agridoces, sentindo desejos enormes e angústias profundas, enquanto era tomada pela beleza, mal conseguindo respirar, porque a música vai te levando e quando a gente vê tá todo duro na cadeira e tem que se forçar a relaxar, até começar a endurecer de novo.
E pensando, pensando, respirando fundo de tempos em tempos, até que o volume da música te preenche, depois retrocede, depois cresce, e você...
Até que entram as vozes e puta-que-o-pariu.
Não me lembro se algum dia ouvi a Nona de cabo a rabo, mas nem faz diferença, porque ouvir pelo rádio ou ver na televisão não tem nada a ver com a coisa real. Sabendo que ela acontece ali, naquela hora, que você não tem controle nenhum sobre volume, não pode avançar nem retroceder, e tudo é tridimensional e o som vem por todos os lados e você está ali naquela hora só fazendo isso, só ouvindo e sentindo. Não tem outro jeito de ouvir que não assim, na Sala. Porque aí de repente você se distrai um momento com alguma coisa, olha um violinista e vê o quanto ele balança a cabeça e parece querer levantar, e de repente entra a voz da soprano e meio que dá vontade de morrer, e de fazer o tempo parar, e de fazer o tempo voltar e ficar ali pra sempre, com a entrada da soprano.
E nem é que a gente seja feliz e o nosso mundo esteja perfeito mas, mesmo que seja ao contrário, a entrada da soprano é.
E a minha saída é mesmo respirar fundo e morder os lábios, porque a vontade é cair em choro desesperado ali mesmo.
E é maravilhoso.
Um comentário:
Senti uma baita vontade deste maravilhoso...saudades. bjo. le.
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