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sexta-feira, 11 de março de 2011

Fusca!

Minha sobrinha já está no primeiro ano. Diferente de mim, que fui à primeira série um ano mais velha do que ela está agora - sim, o sistema de ensino mudou, não tenho certeza de quando isso aconteceu, mas causa ainda alguma estranheza.
Dentro de todo o contexto da mudança, ela passou a ir à escola, bastante mais longe do que a que ela frequentava até o ano passado, de perua escolar.
Sei lá, acho que ninguém mais fala de perua a não ser escolar, exceto que minha família tem algo de esquisita e sacana e chama de perua a caminhonete último tipo de um tio meu e ele nos manda à pqp todas as vezes, porque, ? Nego não compra caminhonete último tipo pra vê-la chamada de perua.
Pois então, a perua que a leva diariamente para a escola é dirigida por uma mulher. Interessante e talz, poderíamos pensar sobre todo o estereótipo do motorista homem brigando com o outro estereótipo segundo o qual quem cuida de criança é mulher, mas enfim. O lance é que a motorista ensinou para a Clara um jogo, desses de trânsito, que se chama "Fusca!". Quer dizer, não sei como se chama, mas o nome me parece muito adequado.
A brincadeira consiste nos jogadores berrarem "fusca!" todas as vezes que virem um fusca pelas ruas. "Fusca!", mesmo, com exclamação. Dizer "olha, um fusca!" não vale.
Muito imaginamos o contexto do jogo, idêntico a todos esses passatempos inventados para distrair as crianças no carro, principalmente em viagens mais longas.
A viagem para a escola nem é nada longa, mas enquanto uma família - mais ou menos - normal tem de distrair praí uma ou duas crianças, a pobre da motorista da perua escolar tem que se deslocar por aí, em meio aos péssimos motoristas campineiros, com, sei lá, quinze pimpolhos botando o terror ao redor dela.
Então, voilá, "Fusca!".
Aí o negócio é que esse diabo virou mania, todos viciados em andar pelas ruas olhando atentos ao redor, procurando o carro redondinho. Eu entrei na maior paranóia e esses dias, numa curta viagem, contei pra mais de quarenta.
Fusca vai, fusca vem, estávamos fazendo uma viagem em família e gritando enlouquecidos dentro do carro quando ao sobrinha, ao perceber que perdia no jogo (obviamente, ganha quem encontra mais fuscas) decidiu, como boa criança de seis anos, que não queria mais brincar.
"Ah, muito chata essa brincadeira, não quero mais".
Problema, ? Ou problemas, porque eram dois: uma que teríamos que arranjar outra coisa para distraí-la durante uma hora ou duas de viagem adiante. Outra que, viciados como estamos em "fusca!", sempre que vemos um não seguramos o impulso de gritar.
Surge então uma idéia para contentar a pequena: vamos então gritar os nomes dos animais que virmos pelo caminho.
Normal e distrativo, bora lá.
Todo mundo gritando: galinha, cachorro, cavalo - menos a sobrinha que ainda não via nada antes dos outros.
Até que ela vê um burro. Ou um jegue. Ou, sei lá, um cavalo, nunca aprendi a distingui-los, ainda mais em velocidade.
A sobrinha se anima e berra: "Fusca!".
Quer dizer, as coisas nessa vida não são assim tão simples, ? Não é porque a gente cansou de uma brincadeira que os reflexos adquiridos nela desaparecem instantaneamente. Vejam que baita lição de vida, que a gente pode super utilizar para outros e mais sérios aspectos da nossa vida - quase - adulta.
Enfim, caímos todos na risada, inclusive a sobrinha; mas ela não quis continuar brincando, dormiu e acordou amuada quando chegamos ao destino.
E é um tal de "tchau, Clara", "dá um beijo, Clara", "tudo bem, Clara?" e um monte de "Claras" sem resposta, ela no colo da mãe, sem falar com ninguém até que de repente:
- "Fusca!".
Sei lá, de repente isso nem é tão engraçado, mas realmente foi.
E tem toda a graça de ela dizer, com entonação e voz de criança e empolgação e sotaque e.
Só não queria esquecer.

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