Domingão à tarde, aquele banzo inevitável e uma insuportável onda de calor meio fora de época.
Já tava dando até para fazer aqueles comentários, do vento mais fresco que começa a soprar, ainda que em dias quentes, o vento algo gelado anunciando a mudança de estação. Ainda que por aqui não tenhamos isso de estações marcadas, mas não se pode negar que, ainda assim, o clima vai mudando, dá uma esquentada, depois dá uma esfriada e assim por diante.
Coisas para fazer, ler, escrever, jogos a assistir, mas aí passou na tv um dos meus filmes favoritos de todos os tempos: em português chama Caindo na Real, acho que o título original é Reality Bites, e é um filme do Ben Stiller de 1994, com Ethan Hawke e Winona Rider. O filme mostra um pouco da vida de jovens recém-formados na universidade meio que tentando ver o que fazem da vida.
Aí que eu gosto demais de tudo, desde a fotografia aos diálogos aos personagens, todos, da história; gosto muito do filme e fiquei pensando, nessa tarde quente... não sei, em 1994 eu tinha meros 11 anos de idade e já se passaram outros 17 e eu não sei exatamente quando assisti ao filme pela primeira vez mas certamente foi aí em algum lugar adolescência. E, não sei, fiquei pensando que de repente é mau negócio. No sentido da gente ir criando expectativas e gostos que, talvez, carreguemos pela vida afora. E o personagem do Hawke, Troy, tem todo aquele ar blasé existencialista inteligente-pra-caralho sujinho que eu até hoje acho bacana demais. E é meio problema, isso, né? Acho que o forte mesmo do Ethan Hawke é esse tipo de personagem, parecido demais com o que ele faz em Antes do Amanhecer, mesmo tipo sujinho, mas o Troy é filósofo. E perdidaço, mas tão legal.
E tem a Janeane Garofalo, que eu simplesmente adoro. E a personagem dela é o máximo.
Sei lá se rolava fazer esse filme hoje mas, mesmo que rolasse, não ia sair do mesmo jeito. Tudo tão assim... sei lá, algo desleixado. As roupas da Winona são uma coisa de louco, calças largas e camiseta e pouca maquiagem, pelo menos aparentemente, e o protagonista sujinho que só. Acho que a geração saúde meio que não permite isso. Além deles fumarem o tempo absolutamente todo. Tem essa coisa de um retrato de geração, talvez, que não cabe mais. Bem é a minha geração, obviamente, mas eu ainda pude ver, quando estava na faculdade, a mudança do pessoal da minha época em relação aos novos alunos. Que são de um conservadorismo assustador, até pra mim que sempre fui caxias pra caramba. Todos muito riquinhos e focados em se tornar intelectuais e ligando pra mãe porque um palestrante fumou maconha na universidade. Quer dizer, quer ser filho-da-puta, liga pra polícia, mas pra mãe?! Conclusão de que o mundo tá mesmo ficando sem saída.
Então no filme do Stiller os caras são todos perdidos, desarrumados, aquele lance meio infinita-highway-só-queremos-ir e tudo o mais. E o foda é que a Lelaina, personagem da Winona, combina com as roupas, toda descabelada e andrajosa com um baita batom vermelho e só.
De repente a inocência é minha, mas eu me engano contente com essa ilusão de que outras coisas importam.
Quebrei a cabeça tentando pensar num equivalente contemporâneo e só consegui lembrar daquele com a menina de Gilmore Girls em que ela se forma e não sabe o que fazer e vai procurar emprego como editora porque ama livros, ou coisa assim, e ela tá sempre tão bem penteada que não tem nem o que dizer.
Depois lembrei de alguém me contar que foi uma vez num casamento e tocou aquela baladinha do U2, "I still haven't found what i'm looking for", tipos quando a noiva entrava na igreja e a pessoa comentando o total absurdo disso, porque, né? E o fato é que essas baladinhas do U2 meio que são super parecidas, essa e aquela "with or without you" e "all I want is you" (que toca no filme) são para mim a mesma até eu reconhecer a letra e ainda assim só tenho certeza de qual é no refrão. Meio como a Adriana Calcanhoto com "metade" e "mentira".
Nem faz muito sentido, na verdade, só que eu gosto tanto tanto desse filme e acho que ele estabeleceu padrões, pra mim. Do que é legal e desejável e do que não é.
Aí uma hora a Laney diz que achou que seria alguma coisa da vida aos 23 anos e eu tenho tão clara a memória de 23 anos ser uma idade muito distante, depois se aproximar, depois ir sendo deixada pra trás até estar há muito ultrapassada, como agora. E de repente daqui a outros 17 anos eu volte aqui e pense que não estava há muito ultrapassada, mas não é essa a graça da coisa?
E sei lá se eu sou alguma coisa, aos 28 anos. Acho que talvez sim, mas é cedo ainda pra dizer.
Nenhum comentário:
Postar um comentário