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sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Perdida

Aí eu fico pensando no tamanho da minha ignorância.
Tamanho gigantesco.
Cheguei eu ao teatro, perguntando se havia ainda ingressos, que não pude comprá-los antes - verdade que porque demoram a iniciar a venda.
O rapaz lá responde que sim, mas não onde eu quero comprar, porque o teatro está quase cheio.
Mas por que estaria cheio o teatro, quase sempre com muitos lugares vazios?
Porque a apresentação da noite é uma ópera e sim, inteira.
E que ópera é essa La Traviata cujo nome em algum momento eu ouvi, registrei que é uma coisa aí, sem fazer idéia do que é?
Pode a pessoa totalmente não saber?
Como pode a pessoa viver sem conhecer La Traviata?
Aí eu acho graça porque penso que tanta gente vive de esconder a própria ignorância, sente de fato vergonha, ou sei lá e eu, abismada, acho que a ignorância, impossível, com todas as maravilhas que desconheço e com tudo que eu sei e não vi e não ouvi e não vivi é o que me permite uma noite entrar no teatro pensando "ah, legal, a Dama das Camélias? Minha mãe gosta, é aquela história lá da cortesã e talz, né?"
Quanta inocência, né?
E se eu conhecesse, tivesse ouvido alguma vez num rádio, em um cd, numa televisão, não poderia sentar ali e ficar absolutamente encantada com aquilo tudo e aquela mulher e aquilo tudo.
E me lembro de quando, há tanto, tanto tempo atrás, eu decidi que não gostava de violino, mas de piano. Porque eu faço dessas coisas, decido assim uma coisa ou outra sem muito sentido e me atenho a essa crença por anos, talvez.
Depois, fez-se a luz e eu percebi como violinos são foda demais e eu "ok, gosto de violino, né".
Aí depois decidi que não gosto de coro e gente cantando, gosto mesmo só da orquestra lá. Porque, sei lá, estranho a gente cantando, me irrita demais.
Até que a vida me deu na cara um Mozart ou um Beethoven da vida e eu, de novo, na posição de ter que admitir a minha magistral burrice, porque minha nossa o que é ouvir uma Lacrimosa ali ao vivo, com o Neschling chamando o coro e chamando mais e mais; ou o que é a soprano enlouquecida no meio da Nona, ouvir a soprano no meio de todo o resto e como pode, meu deus?
Dessas horas em que a gente percebe mesmo como a humanidade, ou alguma humanidade, é essa coisa fantástica capaz de criar um negócio desses. Como pode?!
Mas aí ópera não, né?
Sei lá, acho que não cheguei a elaborar exatamente por que não, nem talvez tenha realmente dito que "não", mas também nunca fui lá.
Dentro da minha ignorância vivo assim, muitas vezes ao léu do puro acaso que pode - ou não - derrubar algo maravilhoso bem no meu colo.
E que ótimo se acontece e que indiferente se não acontece, porque eu não tenho como saber o que estou perdendo.
Isso da gente só poder saber o que sabe, que é das coisas mais ridículas a se aceitar na vida. Como pode a pessoa viver sem La Traviata? E como faz que a pessoa simplesmente não conhece?
Será que pior que desconhecer é conhecer mal?
É chegar ali já sabendo, mas sabendo mal?
É não se arrepiar num momento ou no outro, não sentir lágrimas enchendo os olhos, não experimentar essa plenitude, não ser preenchido por algo que mal compreendemos, que nos escapa, que está tão além da nossa medíocre capacidade de ver e ouvir e sentir e encher?
Eu daqui fico feliz de ter a sorte - e o destino - de estar ali naquele momento. De, naquele momento, ter a mais absoluta certeza de não querer estar em nenhum outro lugar do mundo.
Mas no meio do espetáculo, depois do intervalo, metade das pessoas foi embora.
Como que as pessoas podem simplesmente ir embora, no meio disso? Como podem não ficar ali encantadas e querer que dure para sempre e que comece de novo e de novo e ficar ali pra sempre? Eu já estou ali pra sempre, eu já nunca mais vou sair daquele teatro, das cadeiras vermelhas e do vestido cor-de-rosa e da Violeta e da Provenza e de todo o resto.
Eu já voltei para a segunda apresentação, inadvertidamente cumprindo um ciclo começado há muitos anos, em outra sala de concerto, em outra vida que eu nem tinha percebido que dá a volta agora.
Eu já saí cedo de casa e esperei na fila e fiquei mais três horas encantada.
Eu já voltei para casa e ouvi de novo e de novo e sabendo que não é a mesma coisa, como eu sabia ali nas cadeiras vermelhas, mas sabendo que o que há hoje é isso, o reflexo imperfeito e borrado, mas ainda em vermelho e cor-de-rosa, mas o reflexo que não é vazio porque eu estava lá, com esses ouvidos e esses olhos e esse corpo, meu único corpo, que foi tomado e se deixou tomar por uma beleza que esgota minha capacidade de dizer e vai além das palavras que eu conheço.
E foi uma pessoa que fez isso, né, ou várias pessoas, que fizeram lá atrás e fazem agora e a gente fica ali extasiado, apenas.
Eu já fixei em várias partes, como sou de fixar, e ouvir de novo e de novo e gostei do começo e do meio e do fim, do adeus e do libiamo e da giovinne e de Provenza e da traviata e de tudo, na verdade, mas agora, hoje esta noite, não consigo sair do coro cantando o horror.
Que maravilhoso o horror, com os violinos e o coro e a soprano e a ópera.



domingo, 17 de setembro de 2017

Recomendado

Caí aqui porque assim, é da vida.
Nem sei lá de Rock in Rio, olha que boba.
Mas eis e pura que pariu:



Como dar conta?

domingo, 10 de setembro de 2017

Which one's Pink?

A questão é que não tô achando uma boa rádio para ouvir no carro.
Eu sou dessas pessoas que gosta de ouvir rádio no carro, talvez por preguiça de escolher, talvez porque goste de ser surpreendida - tanta música por aí, vai que toca uma que eu gosto muito e não lembrava, ou uma boa que não conheço. 
Vivo nessas do vai que.
Aí fui sofrer pra colocar num pendrive músicas que pode ser que eu talvez queira em algum momento ouvir no carro e a foda é que eu vou nas mesmas velhas conhecidas. Mesmo que há muito tempo não ouça, mas são aquelas mesmas lá.
Hoje tava nesse processo e começou a tocar o Dark Side of the Moon, que há aaaaanos eu não ouço - tava mais no Animals. Aí tava lá, tentando lembrar as letras que obviamente fui esquecendo e lembrando uns pedaços e dizendo "uia, é mesmo!" e pronto.
Era só isso, mesmo.
Cheguei, tomei um banho e tô aqui ainda derretendo, tomando um negocinho e pensando que preciso muito arrumar uma caixa de som que tá foda, mas também não tá fácil comprar as coisas e saber oque comprar é pior ainda. Se pá passo numa loja qualquer e compro a primeira que vir, provavelmente fico aí uma pá de tempo sem comprar nada, mesmo.
E aaaanos depois ainda gosto das mesmas músicas e aceito outras e vou seguindo viagem.
Tava bem pensando nisso de perder o sinal de partida e sei lá. Às vezes dá a impressão de que sim, às vezes parece que a corrida começou mesmo há muito e tamos aí, um passo depois do outro.
Mas essa noite está tudo bem, levanto os olhos e vejo a silhueta da cidade, está ela ali viva e eu também.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Anti clímax

Estou aqui nesse processo meio de limpeza-de-primavera (existe isso, Arnaldo?) e encontrei uma conversa, já de alguns anos (nossa, de muitos anos!) em que eu dizia da minha então nascente loucura, que me fazia confundir roxo e laranja e - eu tinha esquecido - banana e panela.
Desde então já troquei garfo e colher, já saí na rua com sapatos despareados (true story, mas era pra aula de dança então meio que deu pra disfarçar), já tomei remédio errado, já coloquei o macarrão direto no molho, deixando a panela (não banana!) com água fervendo vazia ao lado, já... que mais que eu fiz??
Lembro não, agora, mas foi muito disso e de trocar os nomes das pessoas. Que coisa, né, isso de conviver um tanto com alguém e todo mundo a partir de então partilhar aquele nome que sai automaticamente.
Hoje mesmo ria com minha irmã de um fora desses que ela deu, há muito e muitos anos, que gerou uma baita saia justa e risos histéricos incontroláveis. E dessas loucuras que a gente faz - ou ela fez - ali aos vinte e poucos anos e como graças aos céus o tempo passou e aquelas loucuras não fazemos mais. Coisa bem de gente pino frouxo, como disse ela.
A questão é que estive acompanhando duas amigas passarem pelo mesmo caminho que trilhei dois anos atrás e, conversando com uma delas, ela dizia dessa experiência esquisita que é, do fim.
Que a gente espera que seja maravilhoso e afinal é mais anticlimático do que qualquer outra coisa.
Eu disse isso à época e meio que desde então, do limbo que se segue e da escuridão que sobrevém até que, com sorte, chega alguma luz para iluminar o breu. Mesmo uma lanterninha, ou o fogo de uma vela ou isqueiro podem trazer alento em alguns momentos difíceis, mas a gente toma é paulada.
É difícil resistir, é difícil acreditar e sobreviver e não se achar um grande monte de merda, é difícil se apegar a outras vivências e seguir acreditando, que é o que se pode fazer.
Mas a luz no fim do túnel...
Há luz no fim do túnel?
A gente quer acreditar que sim e, acreditando mais ou menos, segue tateando as paredes escuras e limosas.
E nessa eu me vejo aqui, com trinta e tais anos e minha vida meio que começando.
Ou recomeçando mais uma vez, ou sei lá.
Houve um tempo em que eu sabia aonde queria chegar ao começar essas viagens, mas esse tempo, tal como (grande?) parte da minha sanidade já foi-se indo ou foi-se ou vai-se, assim como eu vou agora do meio do caminho, sem saber direito a que vim.
Será mesmo só pra dizer da panela e da banana?
Ou pra guardar o eco de uma risada de mim mesma, porque acho que o faço bem?
Talvez nem o faça, mas isso de fato pouco importa.
Agora tenho de ir, pois Potirinha dorme sobre o computador, o que é na verdade muito climático.

domingo, 2 de julho de 2017

Palo seco

Aí a vida tem dessas, de levar a gente por caminhos e a gente tá lá no meio dele sem saber exatamente como foi parar ali.
Não de não saber como deus me colocou aqui, mas de se perguntar mesmo por onde foi que viemos.
Por um acaso do destino, eu até sei o caminho que me trouxe aqui, ou melhor, que trouxe hoje o Belchior.
Porque eu tenho uma amiga, que tem amigos.
E adoram Belchior.
Aí eu vou pensando que já encontrei nesse caminho algumas pá de pessoa que adoram Belchior. Mas não assim, "ah, eu gosto e talz", mas super adoram, mesmo, vivem ali Belchior cotidianamente.
E esses amigos ali são assim, que toda vez vão por lá um Belchior e achar ali um sentido.
E uma beleza, né?
Tenho pensado nisso ultimamente, ou talvez desde sempre, de como esse sul besta se acha tão o centro das coisas, quase como aqueles doidos lá do XVI ou assim que acreditavam que depois dali o mundo acabava numa cachoeira.
Amigos, o mundo é maior que esse sul besta, o Brasil é maior que esse sul besta.
Talvez o melhor do Brasil esteja para lá desse sul besta ou, para não pecar por excesso (Oi, Chico!), pra lá do sul besta tem um Brasil tão bom quanto pra cá.
Mas aí perguntamos: quem foi que disse "se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava, de olhos abertos lhe direi: amigo eu me desesperava! Sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 73, mas ando mesmo descontente, desesperadamente eu grito em português: Tenho vinte cinco anos de sonho e de sangue e de América do Sul! Por força deste destino um tango argentino me vai bem melhor que o blues!"?
Aí você faz o quê?
Grita em português.
E sai do sul besta.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

It´s a l l lll l l l long way

Claro que ficou tosco esse título, porque esse monte de L fica ridículo e nem faz sentido, mas foda-se. Não é assim que o diabo canta?
Não é assim que a música é maravilhosa?
Eita, que eu tentei, mas não coube oralidade aqui. Não pode escrever "maraviosa", fica esquisito, tem que lhe por ali ao meio o L e o H, porque sei lá. Só tem.
Aí eu conversava com uma amiga esses dias sobre esse espaço, que eu deixei de escrever, acho que por ter mesmo perdido o hábito. Tentei reavê-lo algumas vezes, mas acho que afinal a pessoa tem que estar afim de vir e escrever e tem que ter o hábito e eu acho que não tenho tido nenhum dos dois.
Talvez uma calmaria que venha com o tempo, o tempo passando e passando sem freio, tanta coisa pra fazer, ou nada pra fazer e não mais o instinto de vir dizer.
É de fato uma pena, porque é bom ter dito, então quem sabe a vontade do passado estimule em algo o presente.
Sempre sempre sempre a mesma coisa, e a mesma pessoa dizendo a mesma coisa, e as mesmas palavras querendo dizer.
Há uns anos - anos, meu deus, como que podem ter passado anos! - estava eu no sofá expandido de uma outra amiga, dizendo do quanto eu detesto Caetano (repetição, eu sei!), e ela que não, mas ouve o "transa", e eu não querendo ouvir merda nenhuma e sei lá como ela me fez ouvir e me deu o cd.
De fato, o disco é foda. Mas muito bão.
Aí semana passada - na outra semana? Quando foi?!?! - eu estava ali na linha do meio, comendo um peixe e um bolinho (adouro bolinho e essa oralidade não tem como tentar reproduzir) e falando mal do Caetano e um amigo dizia: "pois é, tu já me disse isso, e que detesta a carolina e a piscina e a gasolina" e eu "ah, é mesmo... detesto mesmo, mas eu gosto do 'transa'..." E do meio do tacacá (será que foi isso?) ficamos tentando lembrar do "transa", mas ele veio apenas em vislumbre.
Pois que fui depois caçar o disco e ficar ouvindo e viajando e viajando demais nos éles.
Alguma coisa no mundo se alinha ali, né não?
A questão é que realmente é um long way. Mas um looooong way. Mas um lo lo lo l l lo l l lo l loooong way,
Maio de 2017.
Doismiledezessete.
Eis o mês, em que os caminhos se abrem e se alongam e é como se finalmente, finalmente!, as cortinas do Teatro se abrissem. Como se amanhecesse, como se acendesse, como se começasse, como se.
Sei lá, mas foi um long way, Mas um looong way, Mas um lo lo ll l lo lll looong way e de repente, sempre de repente, parece que a chegada se aproxima, mas a chegada é só mais um caminho, longo, imenso, tortuoso, que se abre pelo meio da mata.
E enquanto isso as crianças gritam no parquinho, enquanto isso a cidade queima, enquanto isso a gente é usurpado, desrespeitado, ferido, enquanto isso a gente volta no tempo, enquanto isso o tempo não para, enquanto isso o tempo fecha, as nuvens se aglomeram e a tempestade vem e não passa.
Tempos tenebrosos, é o que tenho dito tanto ultimamente.
Sombrios.
E as crianças brincam no parquinho. Quais crianças? - pergunta-se. Aquelas que podem, né?, que sabemos bem quais são.
Maio de 2017 e os caminhos se abrem e os caminhos se fecham ao mesmo tempo e contraditoriamente, como costuma ser a vida.
E o mundo se alinha nos éles, pelo menos por enquanto.