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terça-feira, 30 de março de 2010

Desreconheço-me

Ai, Marisa. Monte. As viagens que você faz fazer.
Senti aqui um pernambucobucolismo e fui ouvir você cantar o que é que eu sinto.
Tão longe e tão perto.
Bem isso aqui:

"213.

Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora. Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu.
Encontro às vezes, na confusão vulgar das minhas gavetas literárias, papéis escritos por mim há dez anos, há quinze anos, há mais anos talvez. E muitos deles me parecem de um estranho; desreconheço-me neles. Houve quem os escrevesse, e fui eu. Senti-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sono alheio.
É frequente eu encontrar coisas escritas por mim quando ainda muito jovem - trechos dos dezassete anos, trechos dos vinte anos. E alguns têm um poder de expressão que me não lembro de poder ter tido nessa altura da vida. Há em certas frases, em vários períodos, de coisas escritas a poucos passos da minha adolescência, que me parecem produto de tal qual sou agora, educado por anos e por coisas. Reconheço que sou o mesmo que era. E, tendo sentido que estou hoje num progresso grande do que fui, pergunto onde está o progresso se então era o mesmo que hoje sou.
Há nisto um mistério que me desvirtua e oprime.
Ainda há dias sofri uma impressão espantosa com um breve escrito do meu passado. Lembro-me perfeitamente de que o meu escrúpulo, pelo menos relativo, pela linguagem data de há poucos anos. Encontrei numa gaveta um escrito meu, muito mais antigo, em que esse mesmo escrúpulo estava fortemente acentuado. Não me compreendi no passado positivamente. Como avancei para o que já era? Como me conheci hoje o que me desconheci ontem? E tudo se me confunde num labirinto onde, comigo, me extravio de mim.
Devaneio com o pensamento, e estou certo que isto que escrevo já o escrevi. Recordo. E pergunto ao que em mim presume de ser se não haverá no platonismo das sensações outra anamnese mais inclinada, outra recordação de uma vida anterior que seja apenas desta vida...
Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quanto sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim?" (L. do D.)

quinta-feira, 25 de março de 2010

Da arte de não dizer

Tem uns momentos na vida em que a gente se pega meio que olhando pra trás e colocando na balança.
Tem gente que faz isso diariamente, ou semanalmente, ou na época do ano-novo, ou de aniversário. Eu aqui com a minha dificuldade de fazer as coisas formalmente não consigo pensar muito nisso nessas datas apropriadas, apesar de também fazê-lo. Não consigo evitar um sentimento de surpresa, por exemplo, ao perceber que tenho já 27 anos. Quase trinta, né?
Penso no tempo como penso na morte, homeopaticamente, mas sempre de maneira superficial. Dou uma olhadela de longe, posso até cumprimentar levantando uma sobrancelha (esquisito não ter um 'm' ali, né?), mas logo viro as costas e saio correndo. Ou saltitando, dependendo do humor. O que não deixa de ser um tanto bizarro, porque ao pensar constantemente no tema, mas de maneira tão leviana, parece que eu, afinal, não penso. E, quando penso, me assusto e mudo de assunto. Para em seguida pensar de novo, e desviar de novo, e assim eternamente. Então, afinal, eu penso muito sem propriamente pensar. Ou nunca o suficiente para entender.
Aí ao ouvir o lance do poncho e do mosquito, sinto em mim esse refletir, que é sentir e não pensar. Sinto o tempo que passou, sem estar plenamente consciente dele. Como se eu estivesse dentro e fora, ao mesmo tempo, do mesmo tempo. Como se fizesse e não sentido, como se passasse e voltasse, fosse e ficasse, e eu soubesse e não.
E tudo bem e não.
E o tempo.
"E alguma coisa de lágrimas sem choro arde nos meus olhos hirtos, alguma coisa de angústia que não houve me empola asperamente a garganta seca. Mas aí, nem sei o que chorara, se houvesse chorado, nem por que foi que o não chorei."
Mas existe também alguma coisa numa impossível voz transcontinental que me faz transbordar e, com dor ou sem, sentir algo que parece inteireza.
Então, não tem como não amar isso aqui.
Por um nada, que, ao meu ver, é o único jeito que vale a pena.

segunda-feira, 22 de março de 2010

De não estar bem

Eu pra contar as coisas, preciso contar em voz alta, senão me perco. Contar, contar mesmo, não que vi fulano na rua com sicrano, contar 1, 2, 3, 4...
Então tem que ser em voz alta, né?
Aí estou aqui contando uns lances, 1, 2, 3, 4... e percebo que a minha voz contando me soa estranhamente familiar. E continuo (porque sempre recomeço) 1, 2, 3, 4... até perceber: estou contando igualzinho aquela voz da atendente do banco, quando a gente liga na superlinha pra resolver algum pepino, e ela pede pra você, que já é cliente, digitar o-número-da-sua-agência-com-quatro-algarismos, e o-número-da-sua-conta-com-nove-algarismos. Por favor, e tals. Aí depois que você digita ela fala "1", "2", "3", "4"...
Era eu agora.
Tô bem ou não?
Mas comecei a rir e quase perdi a conta e tive que começar 1, 2, 3, 4 de novo.

Da dama.

Isso da gente tomar os rumos das coisas às vezes dá um alívio. Podemos ficar semanas e semanas chafurdando na lama e, ao tomar simples decisões, que não mudam nada nossa vida nem nosso cotidiano, parece que nos sentimos melhor. Mais limpos, talvez, que isso de lama, apesar de poder ser ótimo, não dá pra vida toda, não.
Mas nem era disso que eu ia falar. Nem sei bem dizer, na verdade, do que ia falar.
A não ser que era das carolinas. Isso de estar ao mesmo tempo em dois lugares, que eu sinto, vez em quando, e nos últimos dias tem se acentuado. Não vou saber explicar tão bem quanto o cara das carolinas. Estou numa onda prolixa aqui que tá difícil de conter, vi?
Mas, pra resumir a história, estou me vendo reagir às coisas que me acontecem, ou acontecem ao meu redor, como se eu fosse ao mesmo tempo duas pessoas que têm reações completamente diferentes.
Aí um lado, que eu poderia chamar de malcomportado, fica ali, querendo fazer um drama, arrancar cabelo, se jogar no chão, batendo braços e pernas, esperneando, chorando e babando, sem nem conseguir falar. Patético, sim, mas, né?, quem nunca fez que atire a primeira pedra.
Aí o outro, que poderia talvez ser o bem-comportado, mas que eu acho que parece mais com uma velha corcunda e de verruga no nariz, fica ali olhando, meio rindinho de lado pro outro que se debate, com um ar meio superior de quem já viveu muitas primaveras e sabe que nada disso importa, e mais, que nem adianta fazer nada pelo outro birrento, que birra não escuta conselho.
Uma pessoa desavisada poderia pensar "poxa, mas que bom, pelo menos um lado compensa o outro". Mas a aritmética da vida não é tão simples assim, meu caro. Porque são dois opostos tão violentos que eles acabam se anulando. Se eu não sinto nem o desespero da criança birrenta, o que é muito bom, também estou longe da serenidade da velha cacunda. E não sou nenhuma das duas, sou só uma moça de 27 anos que não tem nada resolvido. Nem perto de resolver, nem sei lá. Nem sei e, muitas vezes, também não quero saber.
E então, como fica? Como fico? Nem tem resposta, eu sei, mas tem como não perguntar? Na dúvida eu fico aqui, no meio, pensando talvez hospício, talvez sorveteria, talvez parque, talvez cama.
Ou talvez a vida seja mesmo conflito, portanto aqui, meio, enquanto o tempo da nó na gente e o cheiro da dama-da-noite invade o resto.

quinta-feira, 18 de março de 2010

É Ciranda, sim, senhor.


Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem

Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem

Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem

O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem

Procurando bem
Todo mundo tem...


Lá é meio verdade, mas chora que só, às vezes claramente forçando, ou diz que tá com dor não sei onde pra não fazer o que não quer, e chora, chora, porque quer ver desenho, quer comer isso ou aquilo, quer ir pra escola, não quer ir pra escola, quer usar essa roupa, quer brincar, quer sair, quer voltar. Chora e grita, também conhecidos como birra. E tá numas de falar demais, demais, dum tanto assim que chega cansa a gente.
Mas tem também o riso mais gostoso do mundo, sobe a sainha bem alta e vem perguntar "tia, o que aconteceu com a minha saia?", com a cara mais marota do mundo. Tem cosquinha e morde fraquinho, canta e tenta falar direito, e sobe escalando em cima que a gente se sente montanha, e quer brincar e correr e ser livre. E ri, ri, ri, e diz que não conhece mochila que fala, meu.
E quer ser bailarina.

Medo de subir, gente, medo de cair, gente, medo de vertigem ela nem tem.

quarta-feira, 17 de março de 2010

L. do D.

"193.

Tenho assistido, incógnito, ao desfalecimento gradual da minha vida, ao soçobro lento de tudo quanto quis ser. Posso dizer, com aquela verdade que não precisa de flores para se saber que está morta, que não há coisa que eu tenha querido, ou em que tenha posto, um momento que fosse, o sonho só desse momento, que se me não tenha desfeito debaixo das janelas como pó parecendo pedra caído de um vaso de andar alto. Parece, até, que o Destino tem sempre procurado, primeiro, fazer-me amar ou querer aquilo que ele mesmo tinha disposto para que no dia seguinte eu visse que não tinha ou teria.
Espectador irónico de mim mesmo, nunca, porém, desanimei de assistir à vida. E, desde que sei, hoje, por antecipação de cada vaga esperança que ela há-de ser desiludida, sofro o gozo especial de gozar já com a desilusão da esperança, como um amargo com doce que torna o doce doce contra o amargo. Sou um estratégico sombrio, que, tendo perdido todas as batalhas, traça já, no papel dos seus planos, gozando-lhe o esquema, os pormenores da sua retirada fatal, na véspera de cada sua nova batalha.
Tem-me perseguido, como um ente maligno, o destino de não poder desejar sem saber que terei de não ter. Se um momento vejo na rua um vulto núbil de uma rapariga, e, indiferentemente que seja, tenho um momento de supor o que seria se ele fosse meu, é sempre certo que, a dez passos do meu sonho, aquela rapariga encontra o homem que vejo que é o marido ou o amante. Um romântico faria disso uma tragédia; um estranho sentiria isto como uma comédia: eu, porém, misturo as duas coisas, pois sou romântico em mim e estranho a mim, e viro a página para outra ironia.
Uns dizem que sem esperança a vida é impossível, outros que com esperança é vazia. Para mim, que hoje não espero nem desespero, ela é um simples quadro externo, que me inclui a mim, e a que assisto como um espetáculo sem enredo, feito só para divertir os olhos - bailado sem nexo, mexer de folhas ao vento, nuvens em que a luz do sol muda de cores, arruamentos antigos, ao acaso, em pontos desconformes da cidade.
Sou, em grande parte, a mesma prosa que escrevo. Desenrolo-me em períodos e parágrafos, faço-me pontuações, e, na distribuição desencadeada das imagens, visto-me, como as crianças, de rei com papel de jornal, ou, no modo como faço ritmo de uma série de palavras, me touco, como os loucos, de flores secas que continuam vivas nos meus sonhos. E, acima de tudo, estou tranquilo, como um boneco de serradura que, tomando consciência de si mesmo, abanasse de vez em quando a cabeça para que o guizo no alto do boné em bico (parte integrante da mesma cabeça) fizesse soar qualquer coisa, vida tinida de morto, aviso mínimo ao Destino.
Quantas vezes, contudo, em pleno meio desta insatisfação sossegada, me não sobe pouco a pouco à emoção consciente o sentimento do vácuo, e do tédio de pensar assim! Quantas vezes não me sinto, como quem ouve falar através de sons que cessam e recomeçam, a amargura essencial desta vida estranha à vida humana - vida em que nada se passa salvo na consciência dela! Quantas vezes, despertando de mim, não entrevejo, do exílio que sou, quanto fora melhor ser o ninguém de todos, o feliz que tem ao menos a amargura real, o contente que tem o cansaço em vez de tédio, que sofre em vez de supor que sofre, que se mata, sim, em vez de se morrer!
Tornei-me uma figura de livro, uma vida alheia. O que sinto é (sem que eu queira) sentido para escrever que se sentiu. O que penso está logo em palavras, misturado com imagens que o desfazem, aberto em ritmos que são outra coisa qualquer. De tanto recompor-me destruí-me. De tanto pensar-me, sou meus pensamentos mas não eu. Sondei-me e deixei cair a sonda; vivo a pensar se sou fundo ou não, sem outra sonda agora senão o olhar que me mostra, claro a negro no espelho do poço alto, meu próprio rosto que me contempla contemplá-lo.
Sou uma espécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, restando única do baralho perdido. Não tenho sentido, não sei do meu valor, não tenho a que me compare para que me encontre, não tenho a que sirva para que me conheça. E assim, em imagens sucessivas em que me descrevo - não sem verdade, mas com mentiras -, vou ficando mais nas imagens do que em mim, dizendo-me até não ser, escrevendo com a alma como tinta, útil para mais nada do que para se escrever com ela. Mas cessa a reação, e de novo me resigno. Volto em mim ao que sou, ainda que seja nada. E alguma coisa de lágrimas sem choro arde nos meus olhos hirtos, alguma coisa de angústia que não houve me empola asperamente a garganta seca. Mas aí, nem sei o que chorara, se houvesse chorado, nem por que foi que o não chorei. A ficção acompanha-me, como a minha sombra. E o que quero é dormir."

...

Da Franny

Foi-se o tempo em que eu tinha alguma dúvida sobre meu vício nessa merda chamada internet. Tava bem hoje conversando com uma amiga e coloquei como hipótese, só para imediatamente rir de mim mesma e reafirmar como fato. Aí alimento, com a capacidade que a gente tem de criar ilusões do tamanho do mundo, a fantasia de um dia ficar sem televisão e computador - ou com computador, que não curto manuscrever, mas sem a rede. Porque guardo cá ainda uma noção da inutilidade que é tudo isso, se aproxima ou distancia as pessoas não interessa, ainda o que move o mundo - ao menos o que eu entendo por mundo - são as pessoas e seus desejos e vontades e ações e limitações. Esse é só mais um palco pra gente ser gente. Acho que não interessa, como todo o resto.
Não sei onde que vi alguém comentar de outro alguém que não era niilista. Será que foi no Manhattan, que revi dia desses? Fiquei com menos raiva do Woody Allen, de repente nenhuma raiva, e fiquei me perguntando o que tanto me incomodou nele da primeira vez, para guardar a lembrança do incômodo.
Mas aí eu paro e me pergunto: não é niilista?! Pera lá, sei nem bem o que é, mas alguém será que ainda é não-niilista? Pode até não ser niilista, mas também não deixa de ser, né não? Ou sou só eu?
Até fui ali na wikipedia, ver se ela me explicava do que se trata, mas fico cada dia mais convencida da minha burrice. Ela se fantasia, entendam bem, disfarça, se esconde, mas tá ali, só raspar um pouquinho ou olhar com alguma atenção que aparece. Ou talvez eu esteja sendo otimista, e ela tá é escancarada pra quem quiser ver, mas eu como quero manter uma imagem positiva de mim mesma não enxergo. Mas eu não entendo nada, não, e é só me dar um peteleco que eu caio.
Como prêmio de consolação, talvez, se eu não consigo muito avançar o pensamento para as profundidades do ser, consigo navegar pelo mundo ou, nesse caso, pela net, e descobrir uma ou outra coisa interessante que me fazem pensar. Ou parar.
A última - ou nem tanto - foi o Salinger. Quem será que me perguntou, também há não tanto tempo, quando eu lia o Apanhador, se era sério que eu curtia? Lembro não, mas eu curti seriamente, e ainda mais ao ler uma certa figura comentando o cara. Engraçado que ela escreve de uma maneira salingeriana e isso costumava me irritar, até eu descobrir a influência e ficar imune. É incrível como esse clichê batidérrimo de que a compreensão destrói muros e cruza abismos é verdadeiro. Ou foi, dessa vez. E a figura discorria tão apaixonadamente sobre o tema que me apaixonou. Ela e ele.
Isso das referências. Ainda esse ano pedi a um amigo que me emprestasse Franny e Zooey, e ele não emprestou, porque esqueceu e nem somos tão amigos assim. Aliás, não sou mais tão amiga assim de quase ninguém. Mas queria ser, de Franny ou Zooey, ou ambos.
Fiquei com vontade de ler esse livro, talvez já tenha comentado aqui, há anos, muitos, através de uma série, que tinha uma personagem que eu adorava, meio perdidona, mas dessas mais silenciosas, que dizia, num depoimento - o seriado era permeado de depoimentos das personagens, em branco e preto - que era o livro favorito dela. E ela tinha uma livraria super mega charmosa, que acho que não andava muito bem das pernas. Nem sabia quem era o autor e podia ter esquecido o nome mas não esqueci. Dizia, a personagem, que a Franny tinha um colapso nervoso - ou algo assim - e tudo bem. Lembro muito, só não sei se é isso.
Fiquei foi com mais vontade ainda de ler e, se houvesse energia para tirar meu corpo da inércia, era bem capaz de ter ido logo a uma livraria qualquer fazer compras, mas as leis da física não são facilmente quebradas.
Muito provavelmente, mesmo que eu me apaixone, nunca vou conseguir discorrer sobre a paixão que nem a figura, nem provavelmente despertá-la assim, de surpresa e sorrateiramente em algum desavisado que por aqui passe, procurando qualquer coisa que eu não sei o que é nem onde está. Provavelmente nem vou entender, como não me sinto capaz de entender nada, mas acredito ainda que tentar, ou ao menos desfrutar, é mais positivo do que não. Afinal, é passivo.
Tava aqui, escrevi uma página e um terço e parei. Pra escrever. Não sei quantas páginas. Talvez meia? A tendência hiperativa se confirmando.
De resto, nem sei. Pode este ser um texto excessivamente pessimista, mas não tem umas horas que não dá pra ser diferente? Sem nem querer comparar, mas o colapso de um pode servir de inspiração, ou consolo, de outro. Ou tirar um sorriso, ou uma lágrima, ou um bufar, ou qualquer coisa que demonstre que, de vez em quando, muros podem ser derrubados e abismos cruzados.

segunda-feira, 15 de março de 2010

L. do D.

179.
"O instinto infame da humanidade que faz que o mais orgulhoso de nós, se é homem e não louco, anseie, beatíssimo Padre, pela mão paternal que o guie, como quer que seja logo que o guie, através do mistério e da confusão do mundo. Cada um de nós é um grão de pó que o vento da vida levanta, e depois deixa cair. Temos que arrimar-nos a um esteio, que pôr a mão pequena em uma outra mão; porque a hora é sempre incerta, o céu sempre longe, e a vida sempre alheia.
O mais alto de nós não é mais que um conhecedor mais próximo do oco e do incerto de tudo.
Pode ser que nos guie uma ilusão; a consciência, porém, é que nos não guia."

Tão detesto gente que fica postando só músicas ou citações ou imagens alheias. Só? Faz lá então um blog em homenagem a fulano, em que você reproduz tudo que ele fez, mas não vem me dizer que é teu.
Mas e aí? E quando a gente não é nada, a não ser uma reprodução tosca de um outro que imaginamos? E quando das nossas bocas e dedos não podemos sair, deixemos então o silêncio ou o outro?
Eu daqui não sei é nada e o que achei que aprendi, acabei de esquecer.
E daí, né?

quarta-feira, 10 de março de 2010

Juno

É tãããão legal...
Tõ aqui caçando a trilha sonora.
Só pra constar, que custou um sorriso.

PS: E agora uma lagrimazinha.

sábado, 6 de março de 2010

118.
Que me pesa que ninguém leia o que escrevo? Escrevo-o para me distrair de viver, e publico-o porque o jogo tem essa regra. Se amanhã se perdessem todos os meus escritos, teria pena, mas, creio bem, não com pena violenta e louca como seria de supor, pois que em tudo isso ia toda a minha vida. Não é outra, pois, que a mãe, morto o filho, meses depois estar aí e é a mesma. A grande terra que serve os mortos serviria, menos maternalmente, esses papéis. Tudo não importa e creio bem que houve quem visse a vida sem uma grande paciência para essa criança acordada e com grande desejo do sossego de quando ela, enfim, se tenha ido deitar.
L. do D.

sexta-feira, 5 de março de 2010

China ou não

"123.

A renúncia é a libertação. Não querer é poder.
Que me pode dar a China que a minha alma me não tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar riqueza no Oriente, mas não riqueza de alma, porque a riqueza de minha alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele. (...)" L. do D.

Ai, ai, ai, ai, ai, hein?
Tem nem o que comentar, exceto que eu, daqui, com essa loucura que aqui habita, sinto um incômodo feroz com esse lance das viagens. Não sei o quê em mim, como diria a Calcanhoto, fica querendo ser toda igual àqueles que amo, mesmo sabendo impossível a igualdade. E se a cabeça do Pessoa diz que o lance é ficar, minhas pernocas querem mais é ir, para a China ou além dela. Fazer o que também não sei, talvez não procurar riqueza alguma, além da possibilidade de ser em um lugar diferente do habitual. Porque eu acho que, se a gente é mesmo obrigado a ser sempre a gente, em lugares diferentes pode acontecer da gente ser a gente também um pouquinho diferente.
Sei lá, só que meu astral anda mudando que só, só em ver um mapinha na minha frente. Chega quase vou fazendo as malas, porque vai que.
Mas aí cai a ficha que daqui até qualquer partida há um, se não tão longo, árduo caminho pela frente. Pedras e fogos e tudo mais a que tenho direito.
Mas né? Vai que eu vou...

Magalzira

Alzira bebendo vodka
defronte da Torre Malakof.
Descobre que o chão do Recife
afunda um milímetro a cada gole.
Alzira na rua do hospício
no meio do asfalto fez um jardim.
Em que paraíso distante, Alzira,
ela ainda espera por mim?

Eita, que se essa não é a Maga sei não quem é.
Eu cá nem subi na Torre, nem vodka bebi defronte dela, mas aí são as coisas por fazer que nos fazem voltar, né?

quinta-feira, 4 de março de 2010

Montana

Vez em quando me dói o tanto que eu não vejo da vida. Fico é muito assistindo televisão ou ouvindo música ou lendo ou falando ou ouvindo, indo ou vindo, esperando, comendo, chorando, rindo, e não sobra tempo para ver.
Haverá ainda hoje o que ver? Ou por onde ver? É tanto prédio... Ou serão só, mesmo e sempre, os olhos? Se houvesse neste instante uma paisagem magnífica na minha frente, eu veria?
A gente sempre acha que sim, né?