Tem uns momentos na vida em que a gente se pega meio que olhando pra trás e colocando na balança.
Tem gente que faz isso diariamente, ou semanalmente, ou na época do ano-novo, ou de aniversário. Eu aqui com a minha dificuldade de fazer as coisas formalmente não consigo pensar muito nisso nessas datas apropriadas, apesar de também fazê-lo. Não consigo evitar um sentimento de surpresa, por exemplo, ao perceber que tenho já 27 anos. Quase trinta, né?
Penso no tempo como penso na morte, homeopaticamente, mas sempre de maneira superficial. Dou uma olhadela de longe, posso até cumprimentar levantando uma sobrancelha (esquisito não ter um 'm' ali, né?), mas logo viro as costas e saio correndo. Ou saltitando, dependendo do humor. O que não deixa de ser um tanto bizarro, porque ao pensar constantemente no tema, mas de maneira tão leviana, parece que eu, afinal, não penso. E, quando penso, me assusto e mudo de assunto. Para em seguida pensar de novo, e desviar de novo, e assim eternamente. Então, afinal, eu penso muito sem propriamente pensar. Ou nunca o suficiente para entender.
Aí ao ouvir o lance do poncho e do mosquito, sinto em mim esse refletir, que é sentir e não pensar. Sinto o tempo que passou, sem estar plenamente consciente dele. Como se eu estivesse dentro e fora, ao mesmo tempo, do mesmo tempo. Como se fizesse e não sentido, como se passasse e voltasse, fosse e ficasse, e eu soubesse e não.
E tudo bem e não.
E o tempo.
"E alguma coisa de lágrimas sem choro arde nos meus olhos hirtos, alguma coisa de angústia que não houve me empola asperamente a garganta seca. Mas aí, nem sei o que chorara, se houvesse chorado, nem por que foi que o não chorei."
Mas existe também alguma coisa numa impossível voz transcontinental que me faz transbordar e, com dor ou sem, sentir algo que parece inteireza.
Então, não tem como não amar isso aqui.
Por um nada, que, ao meu ver, é o único jeito que vale a pena.
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