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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Carvão

Não sei se todo mundo, mas eu tenho cá uns dias em que quero tanto chorar, sem motivo algum, sem hormônios descontrolados, sem horóscopo desarranjado, sem grandes dores nem tristezas, é só uma vontade imensa de chorar que chega sem aviso, despertada por cenas e sons absolutamente vulgares, alimentada pela minha cabeça que pensa coisas choráveis.
Então eu saio de casa, num dia assim, e tudo é motivo. Estamos já começando a pensar em caminhar para o fim do verão, então o sol quente e o céu azul me parecem tão valiosos; depois os meninos, que começam a vida e a têm toda pela frente e eu já não tenho mais, é só que tenho um tanto que vem depois que ela começa, tenho ela vivida, umas vezes bem, noutras mal, esperemos que aprendida, e não sei se fico mais triste por mim, pelo tempo que já perdi, ou por eles, pelo que vão perder. Mas sinto, também, por mim, alguma serenidade porque parte do caminho foi e bem ida, porque a minha vida também começa e, ao fim e ao cabo, anda que anda bem. Tão comum a gente se distrair olhando ao redor e não perceber o quanto somos também jovens, tanto e demais.
Então eu e o sol e os meninos e me dou conta de uma coisa que já sei, mas que sempre mexe comigo quando percebo: como será possível que a gente só é mesmo sozinho? Que será que existe entre o lado de cá e o de lá, que barreira será essa que impede que sejamos com outrem, que sejamos, independente de outrem, que nos força a só sermos sozinhos?
Tenho um exemplo bastante concreto desse tipo de absurdo: eu me considero uma motorista razoável, supero a desatenção inata com uma neurose que, me amedrontando, me força a permanecer atenta e precavida, ando a velocidades permitidas, mantenho distância, dou seta ao fazer conversões, etc. Normal. É só que eu dirijo melhor sozinha. Todos os (pequenos, salve!) acidentes que já sofri, aconteceram quando eu estava acompanhada. Claro que já fiz algumas barbeiragens sola, mas a maioria delas acontece com alguém ao lado e eu não sinto aquela angústia de imaginar o que esse(s) outro(s) pensa(m) de mim, numas de me preocupar com a minha imagem e talz, mas me inquieta saber que ninguém nunca vai perceber como eu dirijo melhor sozinha.
E como eu penso melhor sozinha e como, quando sozinha, eu posso afinal ser mais eu e mais livre.
Que prisão essa em que a gente se encarcera, não sei quando ou por quê, prisão silenciosa de alguém que nos vê.
Contradição das contradições, acontece de também me inquietar ao perceber isso, a liberdade solitária, porque sinto então como fico confortável comigo mesma e o perigo que isso traz à minha vida. Hoje, são pouquíssimas as pessoas ou ocasiões, se é que as há, em que eu faço alguma coisa que não quero. Que fique claro: faço muitas coisas que não quero, mas que devo fazer e, portanto, vou lá, emburrada ou conformada, mas vou lá e faço. Mas esse limbo da não obrigação, da escolha, em que posso simplesmente optar por fazer ou não, quando não quero não há o que me obrigue a fazer e eu percebo, muito claramente, o egoísmo desse comportamento.
Eu não saio do meu caminho, de repente perdi por aí alguma generosidade que já tive, ou endureci no meu radicalismo, ou consegui me tornar mais mimada do que já fui, mas eu não saio do meu caminho.
É só que a vida, as pessoas, essa merda chamada educação, meio que nos obrigam a sair, ? Li agora o Hobsbawm dizendo que o capitalismo extinguiu esse lance todo de comunidade e lançou as pessoas nesse abismo da individualidade e não sei se é isso que vejo em mim, ou se é simplesmente a constatação de que eu vendo a minha liberdade, essa que só conheço sozinha, muito caro.
A merda é que nessa vida tudo tem seu preço e o que é caro por um lado pode ser ainda mais caro por outro. O preço de ser anti-social.
A tentação de concluir que há aí um imenso isolamento pode ser grande, pode mesmo ser a conclusão lógica do raciocínio, mas é que tem dias em que eu sinto uma vontade tão imensa de chorar, sem motivo concreto, sem grandes mágoas ou pesares, e eu acho que é só por estar viva, aqui e agora, vendo o sol e os meninos, aqui, e aí não há isolamento algum, aí o que há é fazer parte e pertencer a essa coisa que eu não sei o que é, que podemos chamar mundo ou vida ou, sei lá, o sol e os meninos.
Eu pertenço ao sol e aos meninos, pertenço sozinha, como pode ser, mas, sozinha, sou parte de alguma coisa maior que eu, que não tem a menor importância e tem a maior importância, porque é a única coisa real que há. Afinal, é isso aí, o que há.
O sol e os meninos.
E eu.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Quem um dia irá dizer...

Acho tanta graça nessa sabedoria que de repente adquirimos na vigília ou naquele estado intermediário entre o sono e o resto.
Desses momentos em que verdadeiramente desvendamos os significados da vida, é só que, como ela, eles se perdem e nós os perdemos.
Pois dia desses, não se precisar quando, não se se aqui ou alhures, não se se de dia, noite ou crepúsculo, eu tive uma epifania e não tenho a menor lembrança do que se tratava. Era importante, ah, era - alguma compreensão máxima sobre a existência que eu disse a mim mesma: nossa, dessa eu não posso esquecer, e ainda fiz aquele exercício de ficar repetindo mentalmente, na esperança de que as idéias se gravassem, mas elas se foram.
Entre dedos e anéis, ficam as risadas. Aquelas mesmo, que vêm irresistíveis e justamente daquelas coisas que um dia a gente pensou "um dia ainda vou rir disso". Ok, talvez não exatamente dessas coisas, porque aí acho que o tabu corre solto e a gente, com a obrigação de rir da própria desgraça, acaba não vendo nela nenhuma graça. Mas daquelas pequenas pedras no caminho, que causam aqui e ali um certo incômodo - e olha que os pequenos incômodos podem às vezes ser os mais sérios - e aí de repente é impossível falar deles com uma cara séria. Contando para alguém, porque acho que muitas vezes as palavras precisam ser pronunciadas em voz alta para que lhes alcancemos os significados, e não conseguir manter uma cara séria.
Tive um amigo, uma vez, ou um semi-amigo, ou um conhecido, que sempre falava que todo mundo e tudo era ridículo - ele em primeiro lugar. E sem nada demais, é ridículo e talz, ponto, acabou.
Mas né? Tem horas em que o ridículo é de um absurdo tal que rir não é a melhor saída, é mesmo a melhor entrada.
É só que cura. Ah, se cura.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Os escafandristas

Tanta, tanta coisa pra fazer, as costas que doem, a voz que acabou, tudo tudo que eu não sei e tenho que saber e eu só fico pensando, musicalmente, eu comigo mesma: "não se afobe, não, que nada é pra já..."
Eu não sei nada de amor, mas sei que quem tem pressa somos mesmo só nós. O resto, o de fora, vai só indo indo, e a gente de dentro querendo correr e não fazendo a menor diferença.
A foda é não se afobar, né?
Ai, que o tempo passa e a gente fica o resto da vida sem saber se ele, afinal de contas, ensinou ou não alguma coisa pra gente.
Isso de ser humano e viver no escuro tem horas que é de uma crueldade sem tamanho.
Mas aí eu pensava, cá com meus botões. Pressa é meio coisa de vagabundo, confere? Porque a gente tem pressa daquilo que não tá fazendo; talvez tenha alguma de terminar logo o que de fato está fazendo, mas eu ao menos sou mais do tipo que tem preguiça de começar e ainda assim quer que acabe. E tenho pressa do que não faço, do que me escapa, porque isso da gente fazer o que está ao nosso alcance dá uma baita tranquilidade.
E tem horas, as mais raras, em que não importa. Nada importa, seja por que motivo for: porque chegamos aonde queríamos, porque somos felizes, ainda que fugazmente, porque estamos cansados, porque estamos miseráveis - nada importa e então somos realmente livres. Só que não duram, essas horas como as outras, e então a gente se vê, de novo, cantarolando a esmo.
Em silêncio.