Só porque eu fui na feira do livro da Usp, semana passada (eita que parece ter sido há mais tempo), e o primeiro lugar em que parei foi na L&PM. Sem querer dar ordem de valor às coisas por elas serem primeiras ou segundas ou últimas, mas no caso a colocação é muito importante, porque significa que eu ainda estava com paciência de olhar todos os títulos disponíveis e, pra variar, os livros estavam razoavelmente arrumados. E o melhor é que as edições são de bolso, então além de mais baratas são levinhas e dá pra carregar na bolsa sem agravar demais a cacunda.
Bem por acaso achei o do Salinger sobre o Seymour que eu tava querendo ler faz tempo, mas sempre esquecia de comprar ou não achava ou sei lá* e ia já começar a ler, mas ele é o mais fininho e resolvi deixar pra estrada. Ironica ou belamente, comecei foi o On the road e acho que seguiremos até o fim. É o manuscrito original, sei lá que importância tem isso, mas tá lá destacado na capa.
E toda a história do fluxo, tenho aqui alguma sensação de reconhecimento que não consigo identificar bem. Pode ser total piração, até porque leio traduções, mas fiquei pensando que afinal os dois, Kerouac e Salinger, parecem ter alguma coisa em comum, talvez vocabulário, ou um jeito meio engraçado de dizer as coisas. Ou eu estou mesmo só forçando a barra, porque estão ambos abraçados na mesa de cabeceira.
E é claro, não tem como não, fiquei pensando no lance todo da estrada e tentando despertar em mim essa fome e entendendo que a estrada dos caras não é a minha mas quem sabe elas se cruzam, e se cruzarem, quem sabe se seria bom?
Fico me colocando no lugar de algumas das personagens, imaginando o que eu diria no lugar delas e está tão no nível do impossível, porque é óbvio que o que parece extremamente sedutor desenhado numa folha de papel pode ser completamente abominável em carne e osso e além do mais eu tenho esse jeito de travar em momentos chave, de ficar sem resposta e me quedar em silêncio porque não sei bem o que dizer e de repente é isso que põe tudo a perder. Ou a ganhar, se é verdade que só acaba quando termina e, como diria Cazuza, ainda estão rolando os dados.
Pois vou lá, ao encontro de Jack, ver se ela me chama e para onde nos leva.
* Lembrei, lembrei: fiquei matutando por que tinha deixado pra lá toda a história do Seymour depois de ter fixado nela como fixei há relativamente pouco tempo, mas agora lembrei. Ao invés de comprar esse livrinho, o da cumeeira e da apresentação e etc, baixei a novela ou sei lá como chama aquilo, aquela carta que supostamente o Seymour escreveu quando era criança e tava num acampamento com o Buddy e não foi traduzida e eu pensei "oras, lerei no original" mas larguei no meio, em parte porque não entendia, noutra porque o que eu entendia parecia totalmente fritado e, por essas e outras, deixei de lado. O engraçado é que tenho pensado bastante no Seymour, de modo assim meio abstrato, acho que mais na história dele como personagem e os caminhos que o Salinger criou ou descriou pra ele. Mas, como diz o Kerouac, mais sobre isso adiante, quando eu chegar lá.
Páginas
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
sábado, 17 de dezembro de 2011
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Transa
Só porque eu tinha esquecido e de repente me lembrei. E poucas pessoas, se alguma, nesse mundo podem entender a beleza e a tragédia do seguinte: gamei no Caetano.
E odeio Caetano.
Ok, talvez odiar seja um termo forte, mas eu seguramente desgosto com regularidade aferrada.
Mas gamei e está feita a merda.
Mais a dizer, em anotações perdidas em cadernos vermelhos, mas por hoje é só.
E odeio Caetano.
Ok, talvez odiar seja um termo forte, mas eu seguramente desgosto com regularidade aferrada.
Mas gamei e está feita a merda.
Mais a dizer, em anotações perdidas em cadernos vermelhos, mas por hoje é só.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Novembro
Do meio do caos.
Eu agora.
Tanta coisa para arrumar, embalar agora para desembalar já já e depois arrumar tudo e em seguida desarrumar e embalar e partir. E tudo que quebra e se parte e se renova, tantas despedidas e esperanças.
Assim acordei, hoje. E enquanto tudo paira e nada se assenta, encontro num fundo de gaveta um manuscrito, reconheço minha letra garranchosa, vejo a data. Época em que fui feliz e apreciei e, para o bem ou para o mal, passou e eu sigo ainda hoje tentando recuperar, mas tempo passado é tempo ido.
Pois sigo guardando, procuro uma música de empacotar, toca Nando Reis, que me lembra mar e sol, e eu transcrevo:
"Não sei o que em mim insiste em resistir ao sono.
Aquele cansaço doído e gostoso, a possibilidade de recuperar nem sei o que que volta com as manhãs. Como uma vontade muito grande que tem a realização adiada não para lhe aumentar o valor, mas para aproveitar isso. Do cansaço do justo, das tarefas realizadas, da sensação de dever cumprido. Amanhã não terá isso, talvez. Terá cheiro de dia novo, de livros novos, de chuva e um calor gostoso, mas será amanhã, não sono.
Então depois de muito postergar eu me deito, mas rapidamente me levanto, para adiar, ouvir, dizer.
Conversei esses dias, depois de muito tempo, depois de anos, sobre o Kundera [opa, foi daí que ele ressurgiu!]. Perguntada assim, de chofre, se já li a Insustentável e me surpreendo com á forma como posso ser totalmente desconhecida para alguém.Quer dizer, sem ser o cúmulo do egocentrismo, mas é estranho - apesar de óbvio - pensar no tanto de gente aí fora que não faz a menor idéia de quem eu sou, muito menos do que eu já li.
E isso é tanto o Kundera, né? A referência feita foi sobre essa coisa do apaixonar-se, que torna o mundo lindo/melhor e depois acaba. Eu já acho que guardei do livro - quem sabe da vida - a história da sinfonia. Que a gente vai compondo e se encontra no começo do trabalho alguém para compor junto, fazemos lá a música, mas se não, se seguimos compondo solitariamente e só no meio do caminho encontramos um parceiro de estrada, afinar e harmonizar as músicas já compostas em separado é difícil demais.
Mas, mais que isso, a conversa avançou para as janelas. Metáfora mais que batida, mas ainda muito acurada, do mundo que se abre. Abrir, eis o verbo. O que antes estava fechado, o que antes não existia e se abre, assim nasce, e transforma, e então é tarde, já o antes é que não mais existe, o mundo é outro e pode ser novo.
Eu não saberia responder, nessa madrugada, sobre as minhas janelas. O instinto primeiro é dizer que elas não existem, o que é uma simplificação tremenda, mais do que uma mentira. A verdade é que ao fim e ao cabo, somos nós a janela, não parece? Somos o antigo e o novo, que coexistem e se revezam e podem permanecer em eterno descompasso.
Vez em quando tenho a impressão de que a vida é que nos vive, bem naquelas do "não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar". E a gente se deixa ir e vir, porque não tem como impedir, e quando pode curte o balanço, porque tudo é a viagem, com altos, baixos e ocasionais náuseas. É a brincadeira e o jogo e as janelas somos nós, com todas as possibilidades enterradas e esquecidas, e o tempo que passa, e o medo e a hesitação e a exultação.
Vale só lembrar de não ser Carolina."
São Paulo, 24 de novembro de 2010, 1:53.
Eu agora.
Tanta coisa para arrumar, embalar agora para desembalar já já e depois arrumar tudo e em seguida desarrumar e embalar e partir. E tudo que quebra e se parte e se renova, tantas despedidas e esperanças.
Assim acordei, hoje. E enquanto tudo paira e nada se assenta, encontro num fundo de gaveta um manuscrito, reconheço minha letra garranchosa, vejo a data. Época em que fui feliz e apreciei e, para o bem ou para o mal, passou e eu sigo ainda hoje tentando recuperar, mas tempo passado é tempo ido.
Pois sigo guardando, procuro uma música de empacotar, toca Nando Reis, que me lembra mar e sol, e eu transcrevo:
"Não sei o que em mim insiste em resistir ao sono.
Aquele cansaço doído e gostoso, a possibilidade de recuperar nem sei o que que volta com as manhãs. Como uma vontade muito grande que tem a realização adiada não para lhe aumentar o valor, mas para aproveitar isso. Do cansaço do justo, das tarefas realizadas, da sensação de dever cumprido. Amanhã não terá isso, talvez. Terá cheiro de dia novo, de livros novos, de chuva e um calor gostoso, mas será amanhã, não sono.
Então depois de muito postergar eu me deito, mas rapidamente me levanto, para adiar, ouvir, dizer.
Conversei esses dias, depois de muito tempo, depois de anos, sobre o Kundera [opa, foi daí que ele ressurgiu!]. Perguntada assim, de chofre, se já li a Insustentável e me surpreendo com á forma como posso ser totalmente desconhecida para alguém.Quer dizer, sem ser o cúmulo do egocentrismo, mas é estranho - apesar de óbvio - pensar no tanto de gente aí fora que não faz a menor idéia de quem eu sou, muito menos do que eu já li.
E isso é tanto o Kundera, né? A referência feita foi sobre essa coisa do apaixonar-se, que torna o mundo lindo/melhor e depois acaba. Eu já acho que guardei do livro - quem sabe da vida - a história da sinfonia. Que a gente vai compondo e se encontra no começo do trabalho alguém para compor junto, fazemos lá a música, mas se não, se seguimos compondo solitariamente e só no meio do caminho encontramos um parceiro de estrada, afinar e harmonizar as músicas já compostas em separado é difícil demais.
Mas, mais que isso, a conversa avançou para as janelas. Metáfora mais que batida, mas ainda muito acurada, do mundo que se abre. Abrir, eis o verbo. O que antes estava fechado, o que antes não existia e se abre, assim nasce, e transforma, e então é tarde, já o antes é que não mais existe, o mundo é outro e pode ser novo.
Eu não saberia responder, nessa madrugada, sobre as minhas janelas. O instinto primeiro é dizer que elas não existem, o que é uma simplificação tremenda, mais do que uma mentira. A verdade é que ao fim e ao cabo, somos nós a janela, não parece? Somos o antigo e o novo, que coexistem e se revezam e podem permanecer em eterno descompasso.
Vez em quando tenho a impressão de que a vida é que nos vive, bem naquelas do "não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar". E a gente se deixa ir e vir, porque não tem como impedir, e quando pode curte o balanço, porque tudo é a viagem, com altos, baixos e ocasionais náuseas. É a brincadeira e o jogo e as janelas somos nós, com todas as possibilidades enterradas e esquecidas, e o tempo que passa, e o medo e a hesitação e a exultação.
Vale só lembrar de não ser Carolina."
São Paulo, 24 de novembro de 2010, 1:53.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Ventania
Tive bem agora um baita deja vu; não sei por que caminho cheguei ali mas fui lembrando de uma manhã, já há uns bons anos, manhã cedo num acampamento com amigos queridos, e acordar cedo com o calor do sol ouvindo uma música então desconhecida, violão e voz, e de repente as pessoas ao redor da minha barraca irem cantando junto e ser tão bom.
Um despertar feliz, desses momento meio mágicos porque tão simples, nada e tanto, uma ilusão de contato, uma falta de ausência, acho que a definição de felicidade como não querer estar em nenhum outro lugar do mundo. A única que conheço, tão pouco e tão difícil de alcançar.
A música, só depois descoberta, é do Ventania e e fala dos cogumelos azuis e do "violão na costa".
Saudade pra caralho.
You Oughta Know
Meio bipolar, mas é isso.
Essa é uma ótima música para karaokê.
A melhor, talvez.
Tem todo esse lance da raiva que explode pelos poros e não tem nada a ver, mas me lembra a Joana, que eu fui ver uma segunda vez antes do fim da temporada.
Esse ódio sem fim e sem saída, totalmente incorreto mas parece tão... não sei, a gente passa a vida tentando não entrar por esse caminho, porque sabe perfeitamente que ele só pode levar à total destruição, então vamos respirando fundo, tentando esquecer, talvez perdoar, deixando ir, mas tem alguma coisa catártica no ódio puro.
Num mundo tão cinza, tudo em meio tom, chegar ao absoluto parece mais precioso. E desgastante, tal como passar a vida tentando não chegar a extremos. Acho que a conclusão é que cansa, mesmo. Tudo.
Mas eu tinha me esquecido dessa música e dessa mulher e desse disco e agora me pergunto como.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Fim
Rápido, tenho que escrever logo, ou logo não escrever, que a vida ou o que a gente chama de vida e na verdade é uma farsa chama, demanda, exige e é preciso ir. Para onde não importa, só seguir indo, em frente ou em círculos, para o alto ou para baixo, norte ou sul, mas ir e jamais voltar.
Voltar nunca.
E tudo que poderia ser, tudo que poderia ter sido, esse tempo verbal atemporal nem futuro nem presente, pura impossibilidade, tudo que poderia ser e não é e não foi e não será dói de repente, inesperadamente, de forma tão completa que nada resta além de uma dor pontiaguda, congelante sob o sol num céu azul.
Tanta coisa que ficará desconhecida, tanta vida em desencontro e você não vai estar aqui para ver, ouvir, sentir, rir e cantar e estar aqui, estar aqui, estar. Aqui.
Sim, eu sei que é pouco, mas só resta hoje dor e saudade.
Voltar nunca.
E tudo que poderia ser, tudo que poderia ter sido, esse tempo verbal atemporal nem futuro nem presente, pura impossibilidade, tudo que poderia ser e não é e não foi e não será dói de repente, inesperadamente, de forma tão completa que nada resta além de uma dor pontiaguda, congelante sob o sol num céu azul.
Tanta coisa que ficará desconhecida, tanta vida em desencontro e você não vai estar aqui para ver, ouvir, sentir, rir e cantar e estar aqui, estar aqui, estar. Aqui.
Sim, eu sei que é pouco, mas só resta hoje dor e saudade.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Numb
Me sentindo assim meio "comfortably numb".
Desses dias, ou noites, em que a gente percebe com inteireza o fato de estarmos total e absolutamente sós sob o céu. Percepção essa que não traz nada, nem angústia, nem tristeza, nem felicidade, talvez resultante de alguma idéia de independência. Numb. Confortavelmente.
Pode ser algo de cansaço, pode ser a ansiedade mostrando suas garras, além de tantas outras coisas que se misturam e se formam e se transmutam do lado de dentro da gente.
É só um fato, o mais banal e imponderável fato, esse da solidão.
Sem remédio, sem saída, sem conversa, chegamos sós e partimos sós e nesse meio tempo... tem sido difícil não me perguntar, mais constantemente do que de costume, por que estamos aqui. E tantas outras perguntas, tantas não-respostas também cheias de significados e enquanto isso tanta tanta solidão.
Não, nada de novo sob o céu. Só tudo. Tudo só.
Desses dias, ou noites, em que a gente percebe com inteireza o fato de estarmos total e absolutamente sós sob o céu. Percepção essa que não traz nada, nem angústia, nem tristeza, nem felicidade, talvez resultante de alguma idéia de independência. Numb. Confortavelmente.
Pode ser algo de cansaço, pode ser a ansiedade mostrando suas garras, além de tantas outras coisas que se misturam e se formam e se transmutam do lado de dentro da gente.
É só um fato, o mais banal e imponderável fato, esse da solidão.
Sem remédio, sem saída, sem conversa, chegamos sós e partimos sós e nesse meio tempo... tem sido difícil não me perguntar, mais constantemente do que de costume, por que estamos aqui. E tantas outras perguntas, tantas não-respostas também cheias de significados e enquanto isso tanta tanta solidão.
Não, nada de novo sob o céu. Só tudo. Tudo só.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Quarta-feira
Não sei se de repente, ou se muito natural e previsivelmente, mas estou/estava com todas essas bolas no ar, muitas bolas de todos os tipos e tamanhos, e de repente, ou logicamente, parece que elas começam a cair na minha cabeça.
Não tenho alma - e coordenação - de malabarista, suponho. Ou "balabarista", como dizia uma amiga minha do colégio. E dizia a sério e eu me lembro do tanto que rimos disso, na ocasião. Foi num chat que ela escreveu, no meio de uma aula do curso de química - é, a gente era panacão e arrancava uma folha do caderno e escrevia "chat" em cima e ficava passando de um pro outro, sem falar nada em particular, mas brincando e passando o tempo (e desrespeitando os pobres professores, mas que fazer?).
Mas eis que as bolas começam a cair, uma por uma e em velocidades distintas. Eu percebo, porque adquiri nos últimos dias uma tremenda dificuldade de lidar com as menores e mais insignificantes frustrações. O engraçado é que eu muito vejo que estou dramatizando, então a consciência me impede de enlouquecer e eu vou voltando devagar para a realidade, mas o peito começa a apertar e eu não sei como fazer pra ele soltar.
E muitas vezes, como hoje, não sei exatamente porque dói. Acho que é por tudo e a pressão que vem de todos os lados, principalmente de mim.
Estou totalmente pirada no Lirinha e tem uma que chama "ela vai dançar" e ele diz que "pra desfazer a dor da quarta-feira".
E no show ele perguntou se a gente sabia o que era a dor da quarta-feira e eu fiquei tão pensando. Que não sei, mas imagino. E hoje me dei conta de como a coisa de que eu mais gosto no mundo são as idéias. Não as coisas, festas, pessoas, mas as idéias que eu crio delas - e sei que isso é uma completa loucura egocêntrica e egoísta, sei que vou me foder grandão pra sempre, porque idéias simplesmente não existem, mas ao mesmo tempo há nelas e na própria abstração algo que me completa e não existe nada mais real que isso.
Então, não, eu não conheço a dor da quarta-feira, mas imagino e pra mim é mais. E bem hoje, nessa noite fria de novembro eu dramatizei total e concluí que a estou sentindo, a quarta, só que sem a terça.
A dor da quarta-feira sem antes o carnaval, como ela em si sem aquilo que a compensa e justifica. Ela como pura e cortante, ela fim e eu esperando o começo.
Eu aqui ameaçando sucumbir, mas tão me acostumei a permanecer de pé, tão endureci a casca de outras quedas que nem sei. Pode ser que as bolas vão caindo sem causar qualquer dano e só fiquem no ar as essenciais. E tudo bem, amanhã melhor, mas hoje está tudo meio difícil.
Não tenho alma - e coordenação - de malabarista, suponho. Ou "balabarista", como dizia uma amiga minha do colégio. E dizia a sério e eu me lembro do tanto que rimos disso, na ocasião. Foi num chat que ela escreveu, no meio de uma aula do curso de química - é, a gente era panacão e arrancava uma folha do caderno e escrevia "chat" em cima e ficava passando de um pro outro, sem falar nada em particular, mas brincando e passando o tempo (e desrespeitando os pobres professores, mas que fazer?).
Mas eis que as bolas começam a cair, uma por uma e em velocidades distintas. Eu percebo, porque adquiri nos últimos dias uma tremenda dificuldade de lidar com as menores e mais insignificantes frustrações. O engraçado é que eu muito vejo que estou dramatizando, então a consciência me impede de enlouquecer e eu vou voltando devagar para a realidade, mas o peito começa a apertar e eu não sei como fazer pra ele soltar.
E muitas vezes, como hoje, não sei exatamente porque dói. Acho que é por tudo e a pressão que vem de todos os lados, principalmente de mim.
Estou totalmente pirada no Lirinha e tem uma que chama "ela vai dançar" e ele diz que "pra desfazer a dor da quarta-feira".
E no show ele perguntou se a gente sabia o que era a dor da quarta-feira e eu fiquei tão pensando. Que não sei, mas imagino. E hoje me dei conta de como a coisa de que eu mais gosto no mundo são as idéias. Não as coisas, festas, pessoas, mas as idéias que eu crio delas - e sei que isso é uma completa loucura egocêntrica e egoísta, sei que vou me foder grandão pra sempre, porque idéias simplesmente não existem, mas ao mesmo tempo há nelas e na própria abstração algo que me completa e não existe nada mais real que isso.
Então, não, eu não conheço a dor da quarta-feira, mas imagino e pra mim é mais. E bem hoje, nessa noite fria de novembro eu dramatizei total e concluí que a estou sentindo, a quarta, só que sem a terça.
A dor da quarta-feira sem antes o carnaval, como ela em si sem aquilo que a compensa e justifica. Ela como pura e cortante, ela fim e eu esperando o começo.
Eu aqui ameaçando sucumbir, mas tão me acostumei a permanecer de pé, tão endureci a casca de outras quedas que nem sei. Pode ser que as bolas vão caindo sem causar qualquer dano e só fiquem no ar as essenciais. E tudo bem, amanhã melhor, mas hoje está tudo meio difícil.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Lirinha - Ah se não fosse o amor
Porque eu vi e não conhecia e, novamente, me apaixonei. Repeat one há horas e mais que horas na minha cabeça.
Só pra ter uma vaga idéia do que é esse cara. Pensei nisso, quando ouvi, todo o clichê de "amor" rimar com "dor", e nem é isso, né? "A força incrível do seu reator".
E como pode, alguém entrar e dentro se desmanchar?
E o sotaque. Ah, o sotaque...
"Nunca esqueça as oferendas quando contar na rua as nossas lendas"
Lindo.
"Chamei você, mas você não veio e eu entendi que era normal, nada pessoal"
Tive ainda hoje essa experiência, mesmo sensação corpórea, do reator explodindo dentro de mim e eu sei que tem valor em si, mas e a falta de endereço certo? E o que vaza e parece se perder, ao invés de acender alguma luz em algum lugar?
Ah, se não fosse o amor.
Nada pessoal.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Insustentável
Tenho sido ultimamente assombrada pelo Kundera.
Na verdade, bem agora, eu dormia e sonhava com vampiros russos que faziam inseminação artificial em doze mulheres, mas não acordei assombrada e, sim, numas de "wtf?!". Eu digo sempre que meu inconsciente é burro e não se liga que pode fazer coisas totalmente absurdas enquanto eu durmo, e eis a prova. Quando ele resolve viajar vai até a Rússia encontrar vampiros. E antes disso, ontem, sonhei com "os outros" e foi bem apavorante - apesar de nada original. Aí, sim, acordei com medo e, confesso, como tinha ainda muito sono e voltava sempre ao mesmo sonho, para acordar assustada e voltar ao sonho e etc., tive de dormir com a luz acesa. Penso que até racionalizei a coisa, com a lâmpada incandescente e "os outros" não curtindo calor.
Mas o que verdadeiramente tem me assombrado é o Kundera.
Ele está tão ou mais presente do que na época em que li. Será que devo voltar? Mas tenho medo.
Há algumas semanas até peguei outro livro dele, que não a Insustentável, numa livraria, mas olhei bem para ele e decidi não. E mesmo assim tenho citado - o que eu lembro de - a Insustentável com grande frequência, brincando com o fato de "eu ter de ser mais leve" como ela, ou das sinfonias, ou do ensaio, ou do "tem de ser?" ou do final. Será que devo voltar?
Diria, se bem me lembro, o Kundera que a gente não volta. E o incrível é que perdemos um tempo gigantesco imaginando como seria a vida se, mesmo sabendo que é impossível. "Se?" não existe e ainda é nossa brincadeira favorita.
Mas é brincar com fogo e já diz o ditado que leva a fazer xixi na cama.
Eu aqui dormi e acordei e o sono se foi. Dói a cabeça e sinto fome e meio que só. Algo de frio, o verão insiste em não chegar, e as folhas balançam na palmeira debaixo da janela, e meio que só.
Eu pensando no Kundera, e na leveza que eu deveria ter, e na sinfonia, e no ensaio, e "não tem de ser", e no meio de tudo só o que dói é a cabeça.
Sem metáforas, ela mesma lateja de fome, má postura e hipocondria.
Kundera meio que me assombra, mas eu me acostumei aos fantasmas e me importo pouco com eles.
Desde que não sejam outros.
Na verdade, bem agora, eu dormia e sonhava com vampiros russos que faziam inseminação artificial em doze mulheres, mas não acordei assombrada e, sim, numas de "wtf?!". Eu digo sempre que meu inconsciente é burro e não se liga que pode fazer coisas totalmente absurdas enquanto eu durmo, e eis a prova. Quando ele resolve viajar vai até a Rússia encontrar vampiros. E antes disso, ontem, sonhei com "os outros" e foi bem apavorante - apesar de nada original. Aí, sim, acordei com medo e, confesso, como tinha ainda muito sono e voltava sempre ao mesmo sonho, para acordar assustada e voltar ao sonho e etc., tive de dormir com a luz acesa. Penso que até racionalizei a coisa, com a lâmpada incandescente e "os outros" não curtindo calor.
Mas o que verdadeiramente tem me assombrado é o Kundera.
Ele está tão ou mais presente do que na época em que li. Será que devo voltar? Mas tenho medo.
Há algumas semanas até peguei outro livro dele, que não a Insustentável, numa livraria, mas olhei bem para ele e decidi não. E mesmo assim tenho citado - o que eu lembro de - a Insustentável com grande frequência, brincando com o fato de "eu ter de ser mais leve" como ela, ou das sinfonias, ou do ensaio, ou do "tem de ser?" ou do final. Será que devo voltar?
Diria, se bem me lembro, o Kundera que a gente não volta. E o incrível é que perdemos um tempo gigantesco imaginando como seria a vida se, mesmo sabendo que é impossível. "Se?" não existe e ainda é nossa brincadeira favorita.
Mas é brincar com fogo e já diz o ditado que leva a fazer xixi na cama.
Eu aqui dormi e acordei e o sono se foi. Dói a cabeça e sinto fome e meio que só. Algo de frio, o verão insiste em não chegar, e as folhas balançam na palmeira debaixo da janela, e meio que só.
Eu pensando no Kundera, e na leveza que eu deveria ter, e na sinfonia, e no ensaio, e "não tem de ser", e no meio de tudo só o que dói é a cabeça.
Sem metáforas, ela mesma lateja de fome, má postura e hipocondria.
Kundera meio que me assombra, mas eu me acostumei aos fantasmas e me importo pouco com eles.
Desde que não sejam outros.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
XXXIX
O mistério das coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos:
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.
Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos. Talvez eu vá até ele, a seguir.
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos:
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.
Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos. Talvez eu vá até ele, a seguir.
A parte do latifúndio
Real e de viés. Hoje a vida foi. Tanto no "ser" quanto no "ir".
Eis que o dia chega ao sem fim e tanta coisa aconteceu sem acontecer.
Tantas verdades que vêm à tona, tal como nem-tão-verdades-assim.
Ia escrever sobre como fiquei mesmo triste e envergonhada, como acho que nunca tinha ficado, vendo aquele vídeo das velhas dondocas botocadas falando sobre o Brasil. E enojada, e pensando que não pertenço ao mesmo lugar que elas. Ou, melhor colocando, elas não pertencem ao mesmo lugar que eu. Tenho, reiteradamente, esse algo de paixão por esse lugar de onde venho (sim, propositalmente no presente, porque continuo vindo e virei para sempre, sem fim, como o errar), o qual não entendo e tantas vezes estranho, esse desconhecido que é minha terra, que não é minha mas eu gostaria que fosse. Digo sempre da minha adoração pela idéia desse lugar - talvez mais do que pelo lugar em si, e é essa uma das idéias que me é mais cara. E eu sou intolerante, ainda, apesar de meus empenhados esforços em deixar de sê-lo. E arrogante, e possessiva, e ver as botocadas falando do meu lugar, da minha idéia, assim, provoca tristeza, e raiva, e nojo, e vergonha. Mas não pertencemos ao mesmo lugar e nisso encontro consolo.
E por caminhos e descaminhos, encontros e desencontros, fui chegando à "morte e vida severina". Que poema, que música.
E antes disso li, no metrô, um poema do Caeiro e eu pensando "tenho de ler Caeiro, mas não gosto de poesia, mas essa é sublime" e senti vontade... de ter trazido meu livro do desassossego, de ter trazido meu poesia completa de Alberto Caeiro em edição de bolso, e resolvo agora colocar na mala. Vou tentar achar o poema e colar aqui, se encontrar.
A conta menor que tiraste em vida. De bom tamanho, nem largo nem fundo, a parte que cabe neste latifúndio.
Tenho essa tendência - não temos todos? - de personalizar o mundo, mas essa idéia é tanto, a parte que te cabe, que sempre é tão pequena. Sinto então essa simpatia ambígua pelas pessoas, todas, sem saber até onde ela chega. E o sofrimento das pessoas que, momentâneo e pálido, sofre também em mim. E os meus sofrimentos, sempre exagerados, que me corroem em solidão.
A vida que vem a cavalo, e vai a jato, e a parte que nos cabe sempre tão pequena. E o resto eu não sei pra onde vai.
Não sei ao menos se existe.
Eis que o dia chega ao sem fim e tanta coisa aconteceu sem acontecer.
Tantas verdades que vêm à tona, tal como nem-tão-verdades-assim.
Ia escrever sobre como fiquei mesmo triste e envergonhada, como acho que nunca tinha ficado, vendo aquele vídeo das velhas dondocas botocadas falando sobre o Brasil. E enojada, e pensando que não pertenço ao mesmo lugar que elas. Ou, melhor colocando, elas não pertencem ao mesmo lugar que eu. Tenho, reiteradamente, esse algo de paixão por esse lugar de onde venho (sim, propositalmente no presente, porque continuo vindo e virei para sempre, sem fim, como o errar), o qual não entendo e tantas vezes estranho, esse desconhecido que é minha terra, que não é minha mas eu gostaria que fosse. Digo sempre da minha adoração pela idéia desse lugar - talvez mais do que pelo lugar em si, e é essa uma das idéias que me é mais cara. E eu sou intolerante, ainda, apesar de meus empenhados esforços em deixar de sê-lo. E arrogante, e possessiva, e ver as botocadas falando do meu lugar, da minha idéia, assim, provoca tristeza, e raiva, e nojo, e vergonha. Mas não pertencemos ao mesmo lugar e nisso encontro consolo.
E por caminhos e descaminhos, encontros e desencontros, fui chegando à "morte e vida severina". Que poema, que música.
E antes disso li, no metrô, um poema do Caeiro e eu pensando "tenho de ler Caeiro, mas não gosto de poesia, mas essa é sublime" e senti vontade... de ter trazido meu livro do desassossego, de ter trazido meu poesia completa de Alberto Caeiro em edição de bolso, e resolvo agora colocar na mala. Vou tentar achar o poema e colar aqui, se encontrar.
A conta menor que tiraste em vida. De bom tamanho, nem largo nem fundo, a parte que cabe neste latifúndio.
Tenho essa tendência - não temos todos? - de personalizar o mundo, mas essa idéia é tanto, a parte que te cabe, que sempre é tão pequena. Sinto então essa simpatia ambígua pelas pessoas, todas, sem saber até onde ela chega. E o sofrimento das pessoas que, momentâneo e pálido, sofre também em mim. E os meus sofrimentos, sempre exagerados, que me corroem em solidão.
A vida que vem a cavalo, e vai a jato, e a parte que nos cabe sempre tão pequena. E o resto eu não sei pra onde vai.
Não sei ao menos se existe.
sábado, 5 de novembro de 2011
Graça
Tem tanta graça viver. Tudo que coça e dói e passa.
Tudo que a gente poderia ter sido e não foi.
Estou num momento tão engraçado da vida, de algo como questionamento total e absoluto, acompanhado passo a passo dessa certeza de que o que tem de ser, é.
Abre-se à minha frente, inescapável, irresistivelmente, uma janela para uma vida que eu não quis, mas que poderia ter sido a minha. Um caminho aberto, metade de encruzilhada, para o quel nunca antes olhei.
Segui em frente com certeza e precisei chegar tão longe, até aqui, para perguntar "e se?"
E "se" não existe, lembro-me de ouvir pela primeira vez com meu professor de história do ginásio. O mesmo que me inspirou a marcar a profissão que sou eu naquela outra vida, preenchendo fichas de inscrição em universidades. Universidades, s, plural.
E se?
E se o caminho fosse o outro, eu não seria essa agora. Seria outra, talvez melhor, talvez mais feliz, talvez ainda mais perdida. Seria eu? Seria possível me tornar eu como sou, se tivesse escolhido outra estrada?
Abre-se uma janela e não resisto à tentação de olhar. E, olhando, imaginar.
Tantas viagens que poderiam ter sido.
Não tinha de ser.
Eu, a janela, olhamos por caminhos percorridos e esquecidos, apagados à força, recriados, inventados.
Tem que ter graça, a vida.
Tem de ser ou não.
Tudo que a gente poderia ter sido e não foi.
Estou num momento tão engraçado da vida, de algo como questionamento total e absoluto, acompanhado passo a passo dessa certeza de que o que tem de ser, é.
Abre-se à minha frente, inescapável, irresistivelmente, uma janela para uma vida que eu não quis, mas que poderia ter sido a minha. Um caminho aberto, metade de encruzilhada, para o quel nunca antes olhei.
Segui em frente com certeza e precisei chegar tão longe, até aqui, para perguntar "e se?"
E "se" não existe, lembro-me de ouvir pela primeira vez com meu professor de história do ginásio. O mesmo que me inspirou a marcar a profissão que sou eu naquela outra vida, preenchendo fichas de inscrição em universidades. Universidades, s, plural.
E se?
E se o caminho fosse o outro, eu não seria essa agora. Seria outra, talvez melhor, talvez mais feliz, talvez ainda mais perdida. Seria eu? Seria possível me tornar eu como sou, se tivesse escolhido outra estrada?
Abre-se uma janela e não resisto à tentação de olhar. E, olhando, imaginar.
Tantas viagens que poderiam ter sido.
Não tinha de ser.
Eu, a janela, olhamos por caminhos percorridos e esquecidos, apagados à força, recriados, inventados.
Tem que ter graça, a vida.
Tem de ser ou não.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Medéia
Só porque eu fui assistir a Gota d'água e é tão fodido demais que nem vou tentar dizer.
De dar rumo e criar raiz e tanta coisa.
Não fiquei feliz, porque seria sacrilégio, mas alguma coisa aqui que estava vazia se encheu e eu não sei dizer de quê.
Sou eu que estou aqui.
De dar rumo e criar raiz e tanta coisa.
Não fiquei feliz, porque seria sacrilégio, mas alguma coisa aqui que estava vazia se encheu e eu não sei dizer de quê.
Sou eu que estou aqui.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Quereres
Eu juro mesmo não entender como há gente no mundo que não gosta dessa mulher.
Ela é e tem e mostra tanto e passa um calor que nem sei.
Nem é minha favorita dela e eu poderia em cinco minutos achar outras várias que amo mais, mas é fato que, apesar de mim mesma, gosto da música e quando ela começa...
Me pego aqui pensando no mistério, dessa coisa a que a gente tenta dar sentido e vai inventando e sei lá se tem. Eu fui criada para acreditar que há, sentido, e quando penso nisso não sei se acredito de verdade ou se só quero acreditar, porque viver no caos é muito aterrorizador. De dar pânico, desses que paralisam mesmo, então pronto, a saída é a calma algo artificial da fé. Mas fé em quê? Eis a questão.
O fato é que a gente passa uma vida sem nos acontecer nada digno de nota e de repente... continua sem acontecer nada, mas parece que a gente aprende alguma coisa. Nasce assim cá dentro do peito uma semente que sabe e xinga com voz empolada. E ao lado dela, bate um coração sem dor, ainda que só por essa noite - sabemos lá que terrores trará o sol.
Ai, o quereres.
Tão desigual.
Mas a vida é real e de viés. Tem que ser muito filho-da-puta pra dizer uma coisa dessas.
sábado, 22 de outubro de 2011
Viajo porque preciso
Desses dias em que a gente acorda assim com um aperto no peito, sem saber exatamente por quê - será que em algum momento nos é dado saber exatamente alguma coisa?
E hoje tudo bem, dói mas não muito, vamos lá cuidar da vida, para o ensaio, para casa, para o banho, para o almoço, para o descanso e tudo bem. No meio do caminho o incômodo se perde, depois volta para visitar, vai embora de novo, e sei lá.
De vez em quando a gente entra a fazer umas viagens... não sei bem para onde e por quê, mas seguimos e é difícil saber o que encontramos.
O que procurávamos? O que perdemos? O que nunca tivemos nem teremos?
Ou será que a brincadeira é essa, a gente segue em frente e a única coisa ao nosso alcance, tudo que podemos ser e ter somos nós mesmos?
Eu me encontro agora meio que numa encruzilhada, ou nem tanto. É só que não sei o que quero e isso é estranho. Talvez isso signifique simplesmente que eu não quero nada. Não que eu esteja vivendo de luz, perdida no éter, quero sim muitas coisas, mas nada que esteja fora da minha realidade e isso pode ser o mais estranho. Das possibilidades não só existirem, como estarem perto. A gente se acostuma tanto a querer o impossível, vira mesmo um hábito e é difícil voltar atrás e achar satisfação no que está ao nosso redor.
Eu encontrei, há coisa de um ano, uma felicidade indizível de não querer estar em nenhum lugar, além daquele onde eu estava. Devo ter discorrido imensamente sobre isso, repeti por todo lado, anunciei aos quatro ventos.
O triste da vida é que também os bons momentos passam. O bom, é que os maus também se vão, mas no equilíbrio das coisas é isso, ganha-se aqui, perde-se ali. E os bons momentos passam e esse meu momento passou. Depois disso, dias tempestuosos, de dúvidas e angústias e culpa - ah, a culpa... - e a esperança de que a montanha russa voltasse a subir.
Um ano depois... e aí? Não sei. A tempestade passou, por enquanto. Aquela mesma sensação não voltou, como não poderia voltar. Não existe volta, embora às vezes eu me esqueça e deseje ardentemente. Mas chegou alguma outra coisa, eu só não sei dizer o quê. Há aqui alguma tranquilidade, há risos e sorrisos, cansaço, trabalho.
O que me causa ainda algum incômodo é que eu não sei bem onde estou e aonde vou. Onde quero estar. Pergunto-me se há algum outro lugar em que eu gostaria de estar que não aqui e não sei responder.
Realmente não sei - e embora essas duas palavrinhas sejam favoritas e a dúvida minha bandeira, há algo em mim que anseia por saber.
E hoje tudo bem, dói mas não muito, vamos lá cuidar da vida, para o ensaio, para casa, para o banho, para o almoço, para o descanso e tudo bem. No meio do caminho o incômodo se perde, depois volta para visitar, vai embora de novo, e sei lá.
De vez em quando a gente entra a fazer umas viagens... não sei bem para onde e por quê, mas seguimos e é difícil saber o que encontramos.
O que procurávamos? O que perdemos? O que nunca tivemos nem teremos?
Ou será que a brincadeira é essa, a gente segue em frente e a única coisa ao nosso alcance, tudo que podemos ser e ter somos nós mesmos?
Eu me encontro agora meio que numa encruzilhada, ou nem tanto. É só que não sei o que quero e isso é estranho. Talvez isso signifique simplesmente que eu não quero nada. Não que eu esteja vivendo de luz, perdida no éter, quero sim muitas coisas, mas nada que esteja fora da minha realidade e isso pode ser o mais estranho. Das possibilidades não só existirem, como estarem perto. A gente se acostuma tanto a querer o impossível, vira mesmo um hábito e é difícil voltar atrás e achar satisfação no que está ao nosso redor.
Eu encontrei, há coisa de um ano, uma felicidade indizível de não querer estar em nenhum lugar, além daquele onde eu estava. Devo ter discorrido imensamente sobre isso, repeti por todo lado, anunciei aos quatro ventos.
O triste da vida é que também os bons momentos passam. O bom, é que os maus também se vão, mas no equilíbrio das coisas é isso, ganha-se aqui, perde-se ali. E os bons momentos passam e esse meu momento passou. Depois disso, dias tempestuosos, de dúvidas e angústias e culpa - ah, a culpa... - e a esperança de que a montanha russa voltasse a subir.
Um ano depois... e aí? Não sei. A tempestade passou, por enquanto. Aquela mesma sensação não voltou, como não poderia voltar. Não existe volta, embora às vezes eu me esqueça e deseje ardentemente. Mas chegou alguma outra coisa, eu só não sei dizer o quê. Há aqui alguma tranquilidade, há risos e sorrisos, cansaço, trabalho.
O que me causa ainda algum incômodo é que eu não sei bem onde estou e aonde vou. Onde quero estar. Pergunto-me se há algum outro lugar em que eu gostaria de estar que não aqui e não sei responder.
Realmente não sei - e embora essas duas palavrinhas sejam favoritas e a dúvida minha bandeira, há algo em mim que anseia por saber.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Será?
Ai, a Osesp liberou a programação da próxima temporada e eles vão tocar Brahms... Várias, todas, sei lá, mas a 3a. vai ser em junho, 21, 22, e 23 de junho. E agora? Muss es sein?
Quero tanto ir; será que vai importar daqui a oito meses? Difícil é decidir agora sobre o que vamos sentir dentro de quase um ano.
E decidir, decidir, decidir.
Quero tanto ir; será que vai importar daqui a oito meses? Difícil é decidir agora sobre o que vamos sentir dentro de quase um ano.
E decidir, decidir, decidir.
domingo, 9 de outubro de 2011
Breathe
Em outra vida, outro corpo, outra pessoa que não essa que agora existe em mim, foi outra que ouviu essa música e esqueceu. Há o quê, quatro anos? Mais?
Cheguei hoje por caminhos tortuosos a campos que, meus, não visitava havia muito tempo. Trazida por impulso e acaso, navegando em rios vermelho-sangue, de cabeça leve e coração livre aqui estou e puta-que-o-pariu. Como pode uma pessoa viver sem ouvir isso? Ser isso. Depois daqueles sons iniciais, quando a melodia começa... não sei o que em mim que estava perdido e se encontrou, não sei o que dormia e despertou, algo que morria voltou à vida. São as batidas do meu coração que me alcançam e eu vivo. Toda.
Breathe, breathe in the air,
don't be afraid to care.
Leave, don't leave me.
Look around, choose your own ground.
Long you live and high you fly,
smiles you'll give and tears you'll cry
all you touch and all you see
is all your life will ever be.
Run, rabit run,
dig that hole, forget the sun.
When at last the work is done
dont't sit down is time to dig another one.
For long you live and high you fly,
but only if you ride the tide
and balanced on the bigest wave
you race towards an early grave.
Cheguei hoje por caminhos tortuosos a campos que, meus, não visitava havia muito tempo. Trazida por impulso e acaso, navegando em rios vermelho-sangue, de cabeça leve e coração livre aqui estou e puta-que-o-pariu. Como pode uma pessoa viver sem ouvir isso? Ser isso. Depois daqueles sons iniciais, quando a melodia começa... não sei o que em mim que estava perdido e se encontrou, não sei o que dormia e despertou, algo que morria voltou à vida. São as batidas do meu coração que me alcançam e eu vivo. Toda.
Breathe, breathe in the air,
don't be afraid to care.
Leave, don't leave me.
Look around, choose your own ground.
Long you live and high you fly,
smiles you'll give and tears you'll cry
all you touch and all you see
is all your life will ever be.
Run, rabit run,
dig that hole, forget the sun.
When at last the work is done
dont't sit down is time to dig another one.
For long you live and high you fly,
but only if you ride the tide
and balanced on the bigest wave
you race towards an early grave.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Nova Granada
Quando eu assisti ao acústico do Legião Urbana pela primeira vez, fiquei apaixonada por uma música que então me era desconhecida, tocava bem no final do programa, quando subiam os letreiros, e falava de uma praia e um encontro e eu adorei de um tanto enorme, mas antes da internet (pelo menos eu não estava ainda nela) era bastante impossível para mim persegui-la.
Lembro claramente quando, algum tempo depois, a ouvi pela primeira vez no rádio. Era um dia de manhã, em 1999, eu me arrumava para ir para a escola, estava no segundo colegial, sentada na cama para colocar uma meia e de repente ouvi. Já não sei porque me lembrei disso há pouco tempo e levei outro susto hoje quando, parcialmente mergulhada no XIX, ela de novo chegou até mim, sem querer, numa dessas ondas aleatórias e inexplicáveis que por vezes nos trazem aquilo que queremos.
Fiquei ali, sorrindo bobamente. E depois tocou corsário, do João Bosco. Numa versão de que não gostei, com uma mulher, enquanto eu gosto mesmo é dele. Gosto tanto dessa música, das lembranças e ela associadas, do Calabouço numa noite fria de Minas e creme de abóbora, mas gosto mesmo é dela, toda. Gosto tanto, tanto de "meu coração tropical está coberto de neve, mas ferve em seu cofre gelado e a voz vibra e a mão escreve: mar". Meu coração tropical. Meu coração é tropical, como toda eu. Sempre que eu penso nisso alcanço uma felicidade que vem só daí. Sim, eu sei que já estive aqui, mas qual o problema de voltar? Se eu tivesse de ser alguma coisa, queria era ser isso: tropical.
Fiquei pensando nisso dia desses, quando vi na rua um carro com um adesivo de maçã. Tentando imaginar quem coloca um adesivo de maçã num carro e por quê. O pressuposto (pelo menos o meu) é de que existe uma ligação, uma identificação, sei lá, entre a pessoa e a maçã. E, porra, sério, se você tiver de ser uma coisa, vai ser uma maçã? Se tem de dizer ao mundo algo sobre você, é isso? Tenho consciência de estar completamente na contra-mão do sentido atual do universo, mas se tem uma coisa que não me atrai em absoluto são as etiquetas. Aliás, literalmente; a primeira coisa que faço quando compro uma peça de roupa, qualquer que seja, é arrancar tudo fora. Tipo quando a pessoa compra um carro e a loja cola um adesivo na traseira do dito cujo; fico profundamente irritada. Eu conheço, apesar de não poder afirmar entender, o desejo de demonstrar alguma coisa através dos objetos que se tem, poder, dinheiro, gosto, contatos, exclusividade, sei lá. Só não acredito que funcione, ou melhor, são coisas que não tenho desejo algum de demostrar, não com esses sentidos, e quando as vejo estampadas em algum lugar, não me dizem muita coisa. É uma lógica permeada por valores que não compartilho. Claro que tenho cá meus consumismos, mas não são esses. Não me interessa mostrar ao mundo que tenho esse tênis ou aquele vestido, que custaram uma fortuna. Acho triste, como aquele programa, um globo repórter da vida, que mostrava um rapaz em Cuba que, não podendo comprar o tênis, tatuou no peito o símbolo da nike. Só penso em triste.
Se eu tivesse de ter um adesivo, ou uma tatuagem, ou me definir em poucas palavras, não usaria jamais uma maçã. Ia quebrar demais a cabeça para descobrir o que pode me representar, não só o que eu sou, mas o que gostaria de ser, o que é importante pra mim, e a única coisa em que consigo pensar é em abstratos, o lugar de onde eu vim, o lugar que sou, os lugares que amo. Penso em lugares e não muito mais. Sem preço, sem comércio, sem propriedade, nas coisas que são fora de mim, independentes de mim, que eu não fiz nem ninguém fez, que não me conhecem nem me sabem, mas a que faço questão de pertencer.
Penso em corsário, no coração tropical e na mão que escreve mar.
Lembro claramente quando, algum tempo depois, a ouvi pela primeira vez no rádio. Era um dia de manhã, em 1999, eu me arrumava para ir para a escola, estava no segundo colegial, sentada na cama para colocar uma meia e de repente ouvi. Já não sei porque me lembrei disso há pouco tempo e levei outro susto hoje quando, parcialmente mergulhada no XIX, ela de novo chegou até mim, sem querer, numa dessas ondas aleatórias e inexplicáveis que por vezes nos trazem aquilo que queremos.
Fiquei ali, sorrindo bobamente. E depois tocou corsário, do João Bosco. Numa versão de que não gostei, com uma mulher, enquanto eu gosto mesmo é dele. Gosto tanto dessa música, das lembranças e ela associadas, do Calabouço numa noite fria de Minas e creme de abóbora, mas gosto mesmo é dela, toda. Gosto tanto, tanto de "meu coração tropical está coberto de neve, mas ferve em seu cofre gelado e a voz vibra e a mão escreve: mar". Meu coração tropical. Meu coração é tropical, como toda eu. Sempre que eu penso nisso alcanço uma felicidade que vem só daí. Sim, eu sei que já estive aqui, mas qual o problema de voltar? Se eu tivesse de ser alguma coisa, queria era ser isso: tropical.
Fiquei pensando nisso dia desses, quando vi na rua um carro com um adesivo de maçã. Tentando imaginar quem coloca um adesivo de maçã num carro e por quê. O pressuposto (pelo menos o meu) é de que existe uma ligação, uma identificação, sei lá, entre a pessoa e a maçã. E, porra, sério, se você tiver de ser uma coisa, vai ser uma maçã? Se tem de dizer ao mundo algo sobre você, é isso? Tenho consciência de estar completamente na contra-mão do sentido atual do universo, mas se tem uma coisa que não me atrai em absoluto são as etiquetas. Aliás, literalmente; a primeira coisa que faço quando compro uma peça de roupa, qualquer que seja, é arrancar tudo fora. Tipo quando a pessoa compra um carro e a loja cola um adesivo na traseira do dito cujo; fico profundamente irritada. Eu conheço, apesar de não poder afirmar entender, o desejo de demonstrar alguma coisa através dos objetos que se tem, poder, dinheiro, gosto, contatos, exclusividade, sei lá. Só não acredito que funcione, ou melhor, são coisas que não tenho desejo algum de demostrar, não com esses sentidos, e quando as vejo estampadas em algum lugar, não me dizem muita coisa. É uma lógica permeada por valores que não compartilho. Claro que tenho cá meus consumismos, mas não são esses. Não me interessa mostrar ao mundo que tenho esse tênis ou aquele vestido, que custaram uma fortuna. Acho triste, como aquele programa, um globo repórter da vida, que mostrava um rapaz em Cuba que, não podendo comprar o tênis, tatuou no peito o símbolo da nike. Só penso em triste.
Se eu tivesse de ter um adesivo, ou uma tatuagem, ou me definir em poucas palavras, não usaria jamais uma maçã. Ia quebrar demais a cabeça para descobrir o que pode me representar, não só o que eu sou, mas o que gostaria de ser, o que é importante pra mim, e a única coisa em que consigo pensar é em abstratos, o lugar de onde eu vim, o lugar que sou, os lugares que amo. Penso em lugares e não muito mais. Sem preço, sem comércio, sem propriedade, nas coisas que são fora de mim, independentes de mim, que eu não fiz nem ninguém fez, que não me conhecem nem me sabem, mas a que faço questão de pertencer.
Penso em corsário, no coração tropical e na mão que escreve mar.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Antenas
Tem uns dias em que parece que o mundo conspira a nosso favor.
Tantas e tantas vezes a gente brincava que o universo ria nas nossas caras, pelas ironias e merdas que jogava na nossa cara, mas é isso, a roda da fortuna, não é? Um dia alto, outro baixo e assim eternamente.
Pois hoje, ou melhor, essa última hora, foi toda de alto.
Demorei mais de uma hora para chegar em casa, por um caminho que deveria tomar metade disso, porque fui fazendo paradas e mais paradas. E o fantástico - ou trivial, a depender do humor da pessoa - é que ouvi uma baita trilha sonora. Estou há dias em busca de uma estação de rádio que faça minha felicidade, ainda ontem peguei a estrada querendo tanto ouvir boas surpresas, mas nada. E agora, sei lá, engataram, um monte de sons agradáveis, uns mais que outros, mas ainda todos queridos.
E a cereja do bolo: há, digamos, seis meses, eu ouvi uma música na rádio. Fiquei com a bendita na cabeça, mas não peguei muito da letra para propriamente cantar e o locutor, ao dar lá as informações sobre ela, embolou a língua que eu entendi uma coisa totalmente nada a ver. Fiquei, naquela noite, no hotel ao lado da Catedral, horas pesquisando de todas as maneiras que consegui imaginar, tentando cantarolar para não esquecer a melodia, mas tudo inútil. Com dor no coração, deixei pra lá. Que tem, né?, tanta coisa séria acontecendo por aí e nem era assim a melhor música do mundo, eu só tinha ficado bolada. E pronto, eis que hoje ela vem lindinha, pelas ondas de uma estação que não pegou o dia todo, e eu o dia todo insistindo em ver se daquele mato saía coelho, e nada, e nada, e cereja.
Surpresas, surpresas e eu estou exatamente no lugar de ficar feliz só com isso.
Tantas e tantas vezes a gente brincava que o universo ria nas nossas caras, pelas ironias e merdas que jogava na nossa cara, mas é isso, a roda da fortuna, não é? Um dia alto, outro baixo e assim eternamente.
Pois hoje, ou melhor, essa última hora, foi toda de alto.
Demorei mais de uma hora para chegar em casa, por um caminho que deveria tomar metade disso, porque fui fazendo paradas e mais paradas. E o fantástico - ou trivial, a depender do humor da pessoa - é que ouvi uma baita trilha sonora. Estou há dias em busca de uma estação de rádio que faça minha felicidade, ainda ontem peguei a estrada querendo tanto ouvir boas surpresas, mas nada. E agora, sei lá, engataram, um monte de sons agradáveis, uns mais que outros, mas ainda todos queridos.
E a cereja do bolo: há, digamos, seis meses, eu ouvi uma música na rádio. Fiquei com a bendita na cabeça, mas não peguei muito da letra para propriamente cantar e o locutor, ao dar lá as informações sobre ela, embolou a língua que eu entendi uma coisa totalmente nada a ver. Fiquei, naquela noite, no hotel ao lado da Catedral, horas pesquisando de todas as maneiras que consegui imaginar, tentando cantarolar para não esquecer a melodia, mas tudo inútil. Com dor no coração, deixei pra lá. Que tem, né?, tanta coisa séria acontecendo por aí e nem era assim a melhor música do mundo, eu só tinha ficado bolada. E pronto, eis que hoje ela vem lindinha, pelas ondas de uma estação que não pegou o dia todo, e eu o dia todo insistindo em ver se daquele mato saía coelho, e nada, e nada, e cereja.
Surpresas, surpresas e eu estou exatamente no lugar de ficar feliz só com isso.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Minha neblina
Sinto um aperto desconhecido no peito, que se parece desconfortavelmente com medo. Tenho essa coisa, entre tantas outras, de sentir medo das coisas que, acredito, a maioria das pessoas não teme. Ou a maioria das pessoas também partilha isso e, mais uma vez, eu não sou de longe tão diferente como gostaria?
A tentação de correr, no entanto, é grande. Tem que rolar um auto-controle firme e uma repetição, como mantra, dizendo: calma, paciência, não há nada a temer.
Só a vida, ela toda, responde o aperto.
Semana passada eu fui assaltada, depois de muito tempo. Percebo com clareza a estranheza da construção, indicando que vivemos num mundo em que isso deveria acontecer mais vezes, em que é normal, corriqueiro, cotidiano. É só que não é, né? A maioria das pessoas não é assaltada todos os dias, nem todas as semanas, nem todos os meses. Acontece de vez em quando e há fases negras, mas quando acontece a gente sente esse desamparo, ao mesmo tempo em que o percebe, o desamparo, como totalmente descartável. Bem ou mal, é normal e não tem grande importância; não houve violência além do ato em si. Acho que o cara nem armado tava, mas a gente fica tão condicionado naquela coisa de não resistir, sei lá se é seguir o conselho de quem entende ou o reflexo numa situação de perigo ou se é pura e simples covardia. No entanto, a Shirley se foi e nunca mais voltará, até a chegada de uma nova Shirley. Parece até algo como castigo, pelas enrascadas, leves, em que ela me meteu e pelas outras, mais pesadas, de que consegui escapar.
Vivemos, porém, num mundo violento. Num país violento. Mas dentro da bolha, as luzes são mais rosadas. Também não dá pra viver com medo o tempo todo ou, se dá, não sei o quanto isso é vida. Então a gente esquece que tá o tempo todo em perigo, mais leve, de levarem a Shirley, e os outros que é melhor não explorar. Esquecemos que essa é a imagem do Brasil, ou de São Paulo, ou do mundo contemporâneo e vamos em frente.
Depois eu fiquei pensando nisso da imagem do Brasil. Tanta curiosidade que gera na gente, tão difícil ver um estrangeiro aqui e não tentar absorver com sofreguidão suas impressões sobre essa terra enorme que dizemos ser nossa. Também me angustia a idéia de que parte da sofreguidão vem de um sentimento de inferioridade, principalmente ao mundo dito desenvolvido, com especial ênfase aos colonizadores. Como se eles pudessem nos explicar, nos justificar, como se a opinião deles tivesse mais importância, ou alguma importância; como uma necessidade de afirmação que a gente mesmo não consegue suprir e tem que vir de cima. Desde a minha fatídica experiência com o "colonizador" fiquei encucada com isso. Nem preciso dizer que tenho problemas sérios com o "colonizador", se não por mais nada, pela estreiteza da visão. É limitador demais ser o dominador. Nós aqui de baixo temos de pensar em soluções, de sobreviver, de lidar com a dominação do outro, com o ego do outro, e ainda tratar da nossa vida. Parece-me tão mais rico, com opressão e tudo; ainda fico bolada com a idéia de que esse é um complexo de inferioridade às avessas, mas a mim faz tanto sentido. É concreto, dá pra ver e pegar e sentir.
Resta, no entanto, a sofreguidão, que eu ainda não entendo totalmente.
Egocêntrica que sou, sinto também avidez por descobrir o que o outro vê em mim. O que desse tanto que há e é aqui consegue sair, sob que luzes, que cores, sabores, o que de mim se mostra e o que engana, o que esconde e quanto. Nem sei com que objetivo, além de saber.
E, talvez, sabendo, mude alguma coisa cá dentro, talvez tape um buraco, talvez dê um sentido ao que não tem sentido, ou signifique que nem tudo é solidão. Sei que quero saber e muito. Sofregamente. Ao mesmo tempo, não quero, não preciso e tenho medo.
Não somos, afinal, todos estrangeiros uns aos outros? As pessoas, como as terras, tão difíceis de alcançar? E, num improvável acaso, se alcançadas, que fazer com elas? Como sabê-las e não dominá-las, não dizer que são nossas? Como não destruí-las, a elas e a nós?
Tão difícil, a vida. E perigosa.
Tudo aqui se aperta, de pavor e saudades de Diadorim.
A tentação de correr, no entanto, é grande. Tem que rolar um auto-controle firme e uma repetição, como mantra, dizendo: calma, paciência, não há nada a temer.
Só a vida, ela toda, responde o aperto.
Semana passada eu fui assaltada, depois de muito tempo. Percebo com clareza a estranheza da construção, indicando que vivemos num mundo em que isso deveria acontecer mais vezes, em que é normal, corriqueiro, cotidiano. É só que não é, né? A maioria das pessoas não é assaltada todos os dias, nem todas as semanas, nem todos os meses. Acontece de vez em quando e há fases negras, mas quando acontece a gente sente esse desamparo, ao mesmo tempo em que o percebe, o desamparo, como totalmente descartável. Bem ou mal, é normal e não tem grande importância; não houve violência além do ato em si. Acho que o cara nem armado tava, mas a gente fica tão condicionado naquela coisa de não resistir, sei lá se é seguir o conselho de quem entende ou o reflexo numa situação de perigo ou se é pura e simples covardia. No entanto, a Shirley se foi e nunca mais voltará, até a chegada de uma nova Shirley. Parece até algo como castigo, pelas enrascadas, leves, em que ela me meteu e pelas outras, mais pesadas, de que consegui escapar.
Vivemos, porém, num mundo violento. Num país violento. Mas dentro da bolha, as luzes são mais rosadas. Também não dá pra viver com medo o tempo todo ou, se dá, não sei o quanto isso é vida. Então a gente esquece que tá o tempo todo em perigo, mais leve, de levarem a Shirley, e os outros que é melhor não explorar. Esquecemos que essa é a imagem do Brasil, ou de São Paulo, ou do mundo contemporâneo e vamos em frente.
Depois eu fiquei pensando nisso da imagem do Brasil. Tanta curiosidade que gera na gente, tão difícil ver um estrangeiro aqui e não tentar absorver com sofreguidão suas impressões sobre essa terra enorme que dizemos ser nossa. Também me angustia a idéia de que parte da sofreguidão vem de um sentimento de inferioridade, principalmente ao mundo dito desenvolvido, com especial ênfase aos colonizadores. Como se eles pudessem nos explicar, nos justificar, como se a opinião deles tivesse mais importância, ou alguma importância; como uma necessidade de afirmação que a gente mesmo não consegue suprir e tem que vir de cima. Desde a minha fatídica experiência com o "colonizador" fiquei encucada com isso. Nem preciso dizer que tenho problemas sérios com o "colonizador", se não por mais nada, pela estreiteza da visão. É limitador demais ser o dominador. Nós aqui de baixo temos de pensar em soluções, de sobreviver, de lidar com a dominação do outro, com o ego do outro, e ainda tratar da nossa vida. Parece-me tão mais rico, com opressão e tudo; ainda fico bolada com a idéia de que esse é um complexo de inferioridade às avessas, mas a mim faz tanto sentido. É concreto, dá pra ver e pegar e sentir.
Resta, no entanto, a sofreguidão, que eu ainda não entendo totalmente.
Egocêntrica que sou, sinto também avidez por descobrir o que o outro vê em mim. O que desse tanto que há e é aqui consegue sair, sob que luzes, que cores, sabores, o que de mim se mostra e o que engana, o que esconde e quanto. Nem sei com que objetivo, além de saber.
E, talvez, sabendo, mude alguma coisa cá dentro, talvez tape um buraco, talvez dê um sentido ao que não tem sentido, ou signifique que nem tudo é solidão. Sei que quero saber e muito. Sofregamente. Ao mesmo tempo, não quero, não preciso e tenho medo.
Não somos, afinal, todos estrangeiros uns aos outros? As pessoas, como as terras, tão difíceis de alcançar? E, num improvável acaso, se alcançadas, que fazer com elas? Como sabê-las e não dominá-las, não dizer que são nossas? Como não destruí-las, a elas e a nós?
Tão difícil, a vida. E perigosa.
Tudo aqui se aperta, de pavor e saudades de Diadorim.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Sussurro.
Esse ano, ganhei de presente de meu pai uma assinatura para a sinfônica.
Gosto da assinatura porque ela traz consigo esse compromisso, nos obriga a estar ali naqueles dias determinados, e isso deveria ser (ou mesmo é) uma coisa ruim, porque a gente devia ir à sinfônica quando quer ir à sinfônica, mas ao menos no meu caso não é assim que funciona a vida. Quero talvez ir, mas tenho preguiça, esqueço, vou fazer outra coisa, então o compromisso funciona para eu fazer uma coisa que gosto de fazer, mas que não faria, ou não tanto, se fosse deixada ao acaso.
E, esse ano, a abertura foi a nona do Beethoven, que é uma coisa de outro mundo. Desde então tenho sentido vontade de tê-la comigo, para ouvir em fones a qualquer momento.
Por um motivo ou outro, por falta de obrigação, até hoje não fui atrás de baixá-la. E, agora que me lembrei e quis, não encontro uma versão legal e fiquei com vontade de comprar o cd da sinfônica, quando for da próxima vez. E também o do Brahms, gravado comigo na platéia, nos idos de muitos anos atrás.
Mas o Brahms eu tenho em mp3 e fiquei também com vontade de ouvir num ônibus da vida e eu ia pensando que se um dia eu tivesse de ter uma trilha sonora, essa música teria de estar nela. E me lembra tanto o Proust e, ouvindo, tentei pescar na memória o compositor da música de que o Swann tanto gostava e nem precisei ir longe, veio flutuando até mim um sussurro que dizia, leve como o vento, "vinteuil..."
O Proust, da busca do tempo perdido. Ainda essa semana, lendo sobre Machado de Assis, fazia o crítico algum paralelo entre a busca do Proust e alguma coisa do Machado que não entendi bem, mas apontava para a genialidade.
Nisso do gênio, pulei de Machado a Guimarães e ontem me lembrei tanto do Grande Sertão, numa dessas associações meio aleatórias, ouvindo um amigo querido dizer de atravessar o São Francisco e eu tendo um déjà vu, tentando decifrar naonde nessa vida eu cruzei o São Francisco até perceber que não fui eu, foi Diadorim. E Riobaldo. Nem falei nada ali, no momento, apesar de querer falar, mas passou. E eu não disse, como não digo tantas coisas sobre mim, ultimamente, e isso acaba levando as pessoas, de um jeito ou de outro, a me conhecerem menos. E o engraçado é que ainda assim elas me conhecem; mesmo ontem ouvi três pessoas tentando me descrever, coisa de que gosto muito. Mas elas me falavam de alguém que sou hoje e não conhecem o caminho que me trouxe aqui e isso tem algo de extremamente sedutor. Da gente meio que poder ser qualquer coisa e eu não estou interessada em ser muito diferente do que sou, mas me agrada demais a idéia de ser eu diferente.
Acho que tem isso, a vida, e a sinfonia que a gente vai compondo como colocava o Kundera. Kundera que também me visitou, depois de muito tempo, enquanto eu perguntava "muss es sein?" e a resposta infelizmente era "não".
Fato é que minha música já vai avançada e tem traços de Brahms e Vinteuil que são difíceis de explicar. Como conciliar isso do que passou e do que é, eis uma grande questão. E será que tem que conciliar? Será que não é tudo assim mesmo e tudo bem? A vida vai em frente e nem sempre podemos - queremos? - estar na companhia daqueles que cresceram conosco. É só que tem conforto nesse conhecimento profundo, fácil, que o tempo trás às amizades. Como há prazer em estar em branco e mostrar o que se quer; mas a gente nunca tá em branco e mostra tanta coisa, que quer e não quer, e esconde tanto que queria mostrar.
Como escondi Diadorim e Riobaldo cruzando o rio. Eles, que para mim cruzam em silêncio, sem orquestra ao fundo, só a água correndo ao redor e vida acontecendo ao redor.
Terminei já faz um tempo o Grande Sertão. Até escrevi sobre isso, mas deixei por aí, não por aqui. Tive ali uma síncope, ou uma catarse, sei só que sofri de um tanto que não dá pra descrever. Hoje é o melhor livro que já li. Tem tanto nele e em mim, sentimentos e pensamentos que passam e passeiam e eu não organizo mas sei. Do meu jeito torto, sei.
Essa noite, o vento canta. O viajante não chegou ao seu destino.
Gosto da assinatura porque ela traz consigo esse compromisso, nos obriga a estar ali naqueles dias determinados, e isso deveria ser (ou mesmo é) uma coisa ruim, porque a gente devia ir à sinfônica quando quer ir à sinfônica, mas ao menos no meu caso não é assim que funciona a vida. Quero talvez ir, mas tenho preguiça, esqueço, vou fazer outra coisa, então o compromisso funciona para eu fazer uma coisa que gosto de fazer, mas que não faria, ou não tanto, se fosse deixada ao acaso.
E, esse ano, a abertura foi a nona do Beethoven, que é uma coisa de outro mundo. Desde então tenho sentido vontade de tê-la comigo, para ouvir em fones a qualquer momento.
Por um motivo ou outro, por falta de obrigação, até hoje não fui atrás de baixá-la. E, agora que me lembrei e quis, não encontro uma versão legal e fiquei com vontade de comprar o cd da sinfônica, quando for da próxima vez. E também o do Brahms, gravado comigo na platéia, nos idos de muitos anos atrás.
Mas o Brahms eu tenho em mp3 e fiquei também com vontade de ouvir num ônibus da vida e eu ia pensando que se um dia eu tivesse de ter uma trilha sonora, essa música teria de estar nela. E me lembra tanto o Proust e, ouvindo, tentei pescar na memória o compositor da música de que o Swann tanto gostava e nem precisei ir longe, veio flutuando até mim um sussurro que dizia, leve como o vento, "vinteuil..."
O Proust, da busca do tempo perdido. Ainda essa semana, lendo sobre Machado de Assis, fazia o crítico algum paralelo entre a busca do Proust e alguma coisa do Machado que não entendi bem, mas apontava para a genialidade.
Nisso do gênio, pulei de Machado a Guimarães e ontem me lembrei tanto do Grande Sertão, numa dessas associações meio aleatórias, ouvindo um amigo querido dizer de atravessar o São Francisco e eu tendo um déjà vu, tentando decifrar naonde nessa vida eu cruzei o São Francisco até perceber que não fui eu, foi Diadorim. E Riobaldo. Nem falei nada ali, no momento, apesar de querer falar, mas passou. E eu não disse, como não digo tantas coisas sobre mim, ultimamente, e isso acaba levando as pessoas, de um jeito ou de outro, a me conhecerem menos. E o engraçado é que ainda assim elas me conhecem; mesmo ontem ouvi três pessoas tentando me descrever, coisa de que gosto muito. Mas elas me falavam de alguém que sou hoje e não conhecem o caminho que me trouxe aqui e isso tem algo de extremamente sedutor. Da gente meio que poder ser qualquer coisa e eu não estou interessada em ser muito diferente do que sou, mas me agrada demais a idéia de ser eu diferente.
Acho que tem isso, a vida, e a sinfonia que a gente vai compondo como colocava o Kundera. Kundera que também me visitou, depois de muito tempo, enquanto eu perguntava "muss es sein?" e a resposta infelizmente era "não".
Fato é que minha música já vai avançada e tem traços de Brahms e Vinteuil que são difíceis de explicar. Como conciliar isso do que passou e do que é, eis uma grande questão. E será que tem que conciliar? Será que não é tudo assim mesmo e tudo bem? A vida vai em frente e nem sempre podemos - queremos? - estar na companhia daqueles que cresceram conosco. É só que tem conforto nesse conhecimento profundo, fácil, que o tempo trás às amizades. Como há prazer em estar em branco e mostrar o que se quer; mas a gente nunca tá em branco e mostra tanta coisa, que quer e não quer, e esconde tanto que queria mostrar.
Como escondi Diadorim e Riobaldo cruzando o rio. Eles, que para mim cruzam em silêncio, sem orquestra ao fundo, só a água correndo ao redor e vida acontecendo ao redor.
Terminei já faz um tempo o Grande Sertão. Até escrevi sobre isso, mas deixei por aí, não por aqui. Tive ali uma síncope, ou uma catarse, sei só que sofri de um tanto que não dá pra descrever. Hoje é o melhor livro que já li. Tem tanto nele e em mim, sentimentos e pensamentos que passam e passeiam e eu não organizo mas sei. Do meu jeito torto, sei.
Essa noite, o vento canta. O viajante não chegou ao seu destino.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Confetes
Hoje aconteceu um negócio tão maluco que faz a gente pensar que essa vida... não sei, tem nela tanta coisa que não se explica.
Estava eu almoçando numa padaria - dessas que servem comida a quilo e que bombam em São Paulo - e enquanto me servia ouvi uma pessoa sentada numa mesa ao lado dizer "nossa, faz muito tempo!". Expressão das mais triviais, segui em frente até que, não sei precisar por que, me virei na direção da tal mesa e dei de cara com uma moça que me olhova e disse "oi!".
Eu sem a menor memória e com a falta de tato que me é característica respondi "oi..." com aquela cara de não-sei-quem-é-você, ou alguma correpondente do tipo você-deve-estar-me-confundindo-com-alguém-porque-nunca-te-vi-na-vida.
Obviamente que a louca era eu, já que ela me disse seu o nome, que me é mais familiar do que o rosto.
Afinal eu a conhecia, até muito, porque nós moramos no mesmo prédio quando éramos crianças e vivíamos brincando juntas. Só que eu não lembro muito mais do que isso. Acho que tenho fotos nossas num célebre aniversário que eu comemorei no apartamento. Devia ter uns oito anos e, como sempre, meu aniversário caía nas férias - naquele tempo bendito em que as aulas começavam lá para março ou ao menos depois do carnaval - então eu chamei uma ou duas amiguinhas da escola, além dessa que era vizinha e uma outra, filha de amigos dos meus pais, para passar o dia comigo. Deve ter sido a festa mais xoxa da história, com tipo quatro pessoas, mas a gente se divertiu taaaanto, disso ainda lembro. Também não sei exatamente o que fizemos, além de correr endoidecidas e descabeladas (sim, há registros imagéticos) pelo prédio e pelos corredores e depois descolar, não sei de onde, uns pacotes de confetes (sim, aqueles de carnaval, daquele rosa esquisito e verde em papel áspero) e jogá-los pela casa toda, não sei bem com que propósito. Lembro de anos depois ainda encontrar um confete ou outro, no meio de um vaso ou assim, e recordar da diversão daquele dia.
Ele gerou uma outra lembrança marcante na minha família: minha mãe fez uma sopa de legumes pra gente comer (isso não tem nada a ver com festa de criança, né? Pode ter acontecido outro dia, mas eu registrei que foi naquele e, sei lá, como a gente passou o dia juntas, podem ter rolado algumas refeições de respeito em meio aos brigadeiros e beijinhos), aí dias depois ela recebe um telefonema, da mãe de uma das meninas do colégio, dizendo que a filha a estava enchendo até a lua porque queria comer aquela sopa, a da minha mãe, e queria que a mãe dela fizesse igual e a mulher estava perdendo os cabelos pra descobrir que diabo de sopa era aquela.
Além disso, parece-me lembrar de estar um dia no apartamento dessa vizinha, no quarto da mãe dela mexendo em sabonetes, mas não consigo dar muito sentido à imagem.
Engraçado como essas coisas se perdem e a gente não consegue reter bem os registros da nossa própria vida, ou eu ao menos não consigo. De repente o fato de ter me mudado tão nova para outra cidade e perdido tão radicalmente o contato com as pessoas com quem partilhei a infância explique muita coisa, ou isso é simplesmente mais uma prova de que minha memória não presta. Porque ela de fato não presta e eu que sei disso há já muito tempo. Esses dias mesmo eu contava uma história de uma viagem que fiz a alguém que conhece bem os lugares onde estive e eu não conseguia deixar de pensar que a história devia parecer mentira, tal a ausência de detalhes e a insegurança com que eu a relatava. Simplesmente apaguei e já não vejo jeito de recuperar o que esqueci.
Eu nunca teria reconhecido minha amiga de infância, numa fila de padaria nem em nenhum outro lugar. Nem o rosto dela me pareceu familiar, mesmo quando ela se apresentou. E ela se lembrava melhor de mim, tanto que conseguiu me localizar e me chamou. Contou ainda que sempre falava de mim para a mãe dela e se lembrava de uma coisa que ela comia lá em casa, com manteiga. A coisa que se comia com manteiga e frequentemente (pelo menos era meu jantar todas as noites quando eu ainda tinha um paladar extremamente indócil) era pão-de-milho. Que de pão não tem nada, mas é como minha avó chama cuscuz com leite - e manteiga.
Difícil não pensar nas minhas obsessões últimas, acaso e sorte. Mas também nisso da volatilidades das pessoas e relações e sentimentos e da ignorância original que nos cerca, do impacto que não temos idéia de causar e das coisas que nos marcam sem que a gente perceba e das que nos deixam sem deixar vestígios.
Tudo tão mistério e a vida tão indecifrável e eu me pego pensando que algum dia, daqui muitos e muitos anos, quando o caminho se aproximar do fim, vou entender dele alguma coisa, achar-lhe um sentido que hoje é oculto, talvez mesmo inexistente, porque do meio não é lugar para se ver.
E, ainda assim, vez por outra ele se revela, incompreensível mas claramente.
Ou talvez não, não haja destino nem sorte nem sentido, mas somente acaso.
Mas não há duvidas de que há mistério.
Estava eu almoçando numa padaria - dessas que servem comida a quilo e que bombam em São Paulo - e enquanto me servia ouvi uma pessoa sentada numa mesa ao lado dizer "nossa, faz muito tempo!". Expressão das mais triviais, segui em frente até que, não sei precisar por que, me virei na direção da tal mesa e dei de cara com uma moça que me olhova e disse "oi!".
Eu sem a menor memória e com a falta de tato que me é característica respondi "oi..." com aquela cara de não-sei-quem-é-você, ou alguma correpondente do tipo você-deve-estar-me-confundindo-com-alguém-porque-nunca-te-vi-na-vida.
Obviamente que a louca era eu, já que ela me disse seu o nome, que me é mais familiar do que o rosto.
Afinal eu a conhecia, até muito, porque nós moramos no mesmo prédio quando éramos crianças e vivíamos brincando juntas. Só que eu não lembro muito mais do que isso. Acho que tenho fotos nossas num célebre aniversário que eu comemorei no apartamento. Devia ter uns oito anos e, como sempre, meu aniversário caía nas férias - naquele tempo bendito em que as aulas começavam lá para março ou ao menos depois do carnaval - então eu chamei uma ou duas amiguinhas da escola, além dessa que era vizinha e uma outra, filha de amigos dos meus pais, para passar o dia comigo. Deve ter sido a festa mais xoxa da história, com tipo quatro pessoas, mas a gente se divertiu taaaanto, disso ainda lembro. Também não sei exatamente o que fizemos, além de correr endoidecidas e descabeladas (sim, há registros imagéticos) pelo prédio e pelos corredores e depois descolar, não sei de onde, uns pacotes de confetes (sim, aqueles de carnaval, daquele rosa esquisito e verde em papel áspero) e jogá-los pela casa toda, não sei bem com que propósito. Lembro de anos depois ainda encontrar um confete ou outro, no meio de um vaso ou assim, e recordar da diversão daquele dia.
Ele gerou uma outra lembrança marcante na minha família: minha mãe fez uma sopa de legumes pra gente comer (isso não tem nada a ver com festa de criança, né? Pode ter acontecido outro dia, mas eu registrei que foi naquele e, sei lá, como a gente passou o dia juntas, podem ter rolado algumas refeições de respeito em meio aos brigadeiros e beijinhos), aí dias depois ela recebe um telefonema, da mãe de uma das meninas do colégio, dizendo que a filha a estava enchendo até a lua porque queria comer aquela sopa, a da minha mãe, e queria que a mãe dela fizesse igual e a mulher estava perdendo os cabelos pra descobrir que diabo de sopa era aquela.
Além disso, parece-me lembrar de estar um dia no apartamento dessa vizinha, no quarto da mãe dela mexendo em sabonetes, mas não consigo dar muito sentido à imagem.
Engraçado como essas coisas se perdem e a gente não consegue reter bem os registros da nossa própria vida, ou eu ao menos não consigo. De repente o fato de ter me mudado tão nova para outra cidade e perdido tão radicalmente o contato com as pessoas com quem partilhei a infância explique muita coisa, ou isso é simplesmente mais uma prova de que minha memória não presta. Porque ela de fato não presta e eu que sei disso há já muito tempo. Esses dias mesmo eu contava uma história de uma viagem que fiz a alguém que conhece bem os lugares onde estive e eu não conseguia deixar de pensar que a história devia parecer mentira, tal a ausência de detalhes e a insegurança com que eu a relatava. Simplesmente apaguei e já não vejo jeito de recuperar o que esqueci.
Eu nunca teria reconhecido minha amiga de infância, numa fila de padaria nem em nenhum outro lugar. Nem o rosto dela me pareceu familiar, mesmo quando ela se apresentou. E ela se lembrava melhor de mim, tanto que conseguiu me localizar e me chamou. Contou ainda que sempre falava de mim para a mãe dela e se lembrava de uma coisa que ela comia lá em casa, com manteiga. A coisa que se comia com manteiga e frequentemente (pelo menos era meu jantar todas as noites quando eu ainda tinha um paladar extremamente indócil) era pão-de-milho. Que de pão não tem nada, mas é como minha avó chama cuscuz com leite - e manteiga.
Difícil não pensar nas minhas obsessões últimas, acaso e sorte. Mas também nisso da volatilidades das pessoas e relações e sentimentos e da ignorância original que nos cerca, do impacto que não temos idéia de causar e das coisas que nos marcam sem que a gente perceba e das que nos deixam sem deixar vestígios.
Tudo tão mistério e a vida tão indecifrável e eu me pego pensando que algum dia, daqui muitos e muitos anos, quando o caminho se aproximar do fim, vou entender dele alguma coisa, achar-lhe um sentido que hoje é oculto, talvez mesmo inexistente, porque do meio não é lugar para se ver.
E, ainda assim, vez por outra ele se revela, incompreensível mas claramente.
Ou talvez não, não haja destino nem sorte nem sentido, mas somente acaso.
Mas não há duvidas de que há mistério.
domingo, 21 de agosto de 2011
Surreal
É só que eu tive o diálogo mais surreal com meu pai, agorinha.
Organizando aqui a vida para a semana que começa, mandando documentos e formulários e questionários pra lá e pra cá, eu pergunto:
- Pai, você viu meu passaporte? - pensando no novo passaporte; visto que o velho já vai vencer e eu tive de tirar outro, agora do novo tipo, azulzinho e desenhadinho por dentro. O velho ainda é do verde, fiz antes da mudança, daí o interesse em mostrar o novo tipo ao pai, que meio que curte essas coisas. Só que o pai está na sala ao lado, que fica a dois centímetros daqui, mas com mouco não se discute e eis que ele responde:
- Se eu tive catapora?? Não sei, acho que tive...
História verdadeira, juro.
Organizando aqui a vida para a semana que começa, mandando documentos e formulários e questionários pra lá e pra cá, eu pergunto:
- Pai, você viu meu passaporte? - pensando no novo passaporte; visto que o velho já vai vencer e eu tive de tirar outro, agora do novo tipo, azulzinho e desenhadinho por dentro. O velho ainda é do verde, fiz antes da mudança, daí o interesse em mostrar o novo tipo ao pai, que meio que curte essas coisas. Só que o pai está na sala ao lado, que fica a dois centímetros daqui, mas com mouco não se discute e eis que ele responde:
- Se eu tive catapora?? Não sei, acho que tive...
História verdadeira, juro.
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Welcome
Sim, tenho outras zilhões de coisas para fazer, inclusive textos a ler ainda hoje, mas o fato é que às vezes nós erramos nessa vida. No sentido mesmo do equívoco. E às vezes eles são grandes, enormes, noutras, insignificantes. Acontece que às vezes a insignificância é absurdamente irritante. Eis o que se passa comigo nesse instante.
Há um tempo, mesmo longo tempo, digamos mais de um ano, uma amiga me falou de um tal site de compra coletiva que era muito legal e tudo aquilo e eu, babaca, sem saber que a bagaça pertencia àquele almofadinha insuportável, me cadastrei. Uau, né?, superdesconto e a merda toda.
Nunca usei.
Uma vez cogitei comprar umas aulas de equitação, pela arte, mas não rolou.
Recebo ainda alguns e-mails que configurei para irem direto para a caixa de spam e não pensei mais muito sobre o assunto. Até que hoje, nessa gloriosa manhã que chega ao fim, recebi um e-mail dos putos na minha caixa de entrada e tive um daqueles momentos de clareza do sentido da vida e de suas inutilidades e do peso das coisas não-essenciais e, finalmente, me ocorreu o pensamento lógico: vou excluir meu cadastro dessa bosta. Eu nunca usei, nunca vou usar, é mais provável que eu passe o resto da vida lendo na minha cama do que me dê ao trabalho de abrir o e-mail, procurar uma oferta, me animar, convidar uma galera, vestir uma roupa transada e sair para curtir a night. Ou fazer uma aula de equitação.
Decidida, vou lá eu recuperar a senha do maldito nos confins da memória, faço o login e... surpresa das surpresas: os filhos-da-puta não têm uma opção de excluir a conta. Simples assim. Um lance meio "hotel california"; tudo muito bom (bom), tudo muito bem (bem), mas você está para o resto da vida preso com o coxinha nesse site dos infernos. E ainda tem videozinhos dele, com aquela voz insuportável, explicando por que ele é o máximo.
Tem lá opção de não receber mais e-mails chatos, simples e fácil, mas a questão é o conceito. Não é que eu não queira mais receber seus e-mails chatos, quero exterminar meu registro e qualquer ligação que existe ou possa vir a existir entre nós. Nem quero apagar as lembranças dessa relação, porque ela nunca existiu; eu de fato uma vez assinei meu nomezinho, mas a gente comete mesmo erro e olha que maravilha é essa nossa sociedade contemporânea que nos permite voltar atrás? Só que a porra do peixe não permite e parece que a gente tá num daqueles filmes que se passam no XIX em que o mocinho fica noivo da mocinha mas não curte mais ela e se apaixona pela prima mas tem que casar, porque né, o noivado e a honra e o que as pessoas vão dizer.
Enfim, tudo bem, mandei um e-mail para pedir minha liberdade, sei não sei vão me julgar digna disso, mas eu vou ler aqui meus textos, ouvindo Skank. Indignação.
Há um tempo, mesmo longo tempo, digamos mais de um ano, uma amiga me falou de um tal site de compra coletiva que era muito legal e tudo aquilo e eu, babaca, sem saber que a bagaça pertencia àquele almofadinha insuportável, me cadastrei. Uau, né?, superdesconto e a merda toda.
Nunca usei.
Uma vez cogitei comprar umas aulas de equitação, pela arte, mas não rolou.
Recebo ainda alguns e-mails que configurei para irem direto para a caixa de spam e não pensei mais muito sobre o assunto. Até que hoje, nessa gloriosa manhã que chega ao fim, recebi um e-mail dos putos na minha caixa de entrada e tive um daqueles momentos de clareza do sentido da vida e de suas inutilidades e do peso das coisas não-essenciais e, finalmente, me ocorreu o pensamento lógico: vou excluir meu cadastro dessa bosta. Eu nunca usei, nunca vou usar, é mais provável que eu passe o resto da vida lendo na minha cama do que me dê ao trabalho de abrir o e-mail, procurar uma oferta, me animar, convidar uma galera, vestir uma roupa transada e sair para curtir a night. Ou fazer uma aula de equitação.
Decidida, vou lá eu recuperar a senha do maldito nos confins da memória, faço o login e... surpresa das surpresas: os filhos-da-puta não têm uma opção de excluir a conta. Simples assim. Um lance meio "hotel california"; tudo muito bom (bom), tudo muito bem (bem), mas você está para o resto da vida preso com o coxinha nesse site dos infernos. E ainda tem videozinhos dele, com aquela voz insuportável, explicando por que ele é o máximo.
Tem lá opção de não receber mais e-mails chatos, simples e fácil, mas a questão é o conceito. Não é que eu não queira mais receber seus e-mails chatos, quero exterminar meu registro e qualquer ligação que existe ou possa vir a existir entre nós. Nem quero apagar as lembranças dessa relação, porque ela nunca existiu; eu de fato uma vez assinei meu nomezinho, mas a gente comete mesmo erro e olha que maravilha é essa nossa sociedade contemporânea que nos permite voltar atrás? Só que a porra do peixe não permite e parece que a gente tá num daqueles filmes que se passam no XIX em que o mocinho fica noivo da mocinha mas não curte mais ela e se apaixona pela prima mas tem que casar, porque né, o noivado e a honra e o que as pessoas vão dizer.
Enfim, tudo bem, mandei um e-mail para pedir minha liberdade, sei não sei vão me julgar digna disso, mas eu vou ler aqui meus textos, ouvindo Skank. Indignação.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Drama
A vida tem desses acasos estranhos e acho que a maioria não significa mesmo nada.
Pois aí há umas duas ou três semanas, não sei de onde, recomecei a ouvir o "Back to Black" e acho bom ter chegado ali assim, sem maiores motivos que uma música que chega à cabeça e não sai.
E é só que essa música, em específico, é das melhores do mundo pra curtir uma dor de corno.
Lembro que um amigo foi quem me mostrou, praí há uns 3 ou 4 anos, mandou uma seleção de várias músicas que ele queria me apresentar e a única que ficou foi essa.
Assim vamos nós.
Tenho sentido cá uma irritação algo onipresente, com tudo e todos - o que significa que a coisa é mesmo só comigo.
A pressão de tudo que há para fazer e, principalmente, tudo que não fiz começa a dar frutos.
E o medo do que está por vir.
Encontrei, dia desses, uma melancolia que há muito não me chegava. Engraçado que perguntei a uma figura, na ocasião, se ela se considerava melancólica e ela disse que não e que era feliz. Achei uma ousadia e tudo aquilo, mas até entendi. E, mais, acreditei. Na plenitude que vem acompanhando tantas outras qualidades, de compromisso e seriedade e inteligência e perspicácia e ousadia e, em meio a tudo isso, leveza.
Achei foi graça quando, uns dias depois, fui acusada de ter-lhe acusado por drama, e não melancolia. Vez em quando me surpreendo ao perceber como o comum das pessoas tem um léxico tão diferente do meu e, em consequência disso, vive vidas tão distintas. Distantes.
De repente, a diferença nem é tanta; mas, para mim, é imensa.
Eu posso mesmo ser muitas coisas, mas é certeza - e acredito ser também unanimidade - que cuca-fresca não é uma delas. Mas sei apreciar uma, quando encontro.
Só não sei é ser e acho em mim uma ausência de tudo isso e uma inocência que beira a estupidez, se é que não a atravessa a cem por hora.
Eu assumi, porém, já há bastante tempo, uma política e uma filosofia de não me preocupar com as coisas antes do estritamente necessário e assim vou sobrevivendo. Esperando estar pronta quando elas chegarem ou quando eu for.
Nesse meio tempo, sigo aguardando o encontro.
Pois aí há umas duas ou três semanas, não sei de onde, recomecei a ouvir o "Back to Black" e acho bom ter chegado ali assim, sem maiores motivos que uma música que chega à cabeça e não sai.
E é só que essa música, em específico, é das melhores do mundo pra curtir uma dor de corno.
Lembro que um amigo foi quem me mostrou, praí há uns 3 ou 4 anos, mandou uma seleção de várias músicas que ele queria me apresentar e a única que ficou foi essa.
Assim vamos nós.
Tenho sentido cá uma irritação algo onipresente, com tudo e todos - o que significa que a coisa é mesmo só comigo.
A pressão de tudo que há para fazer e, principalmente, tudo que não fiz começa a dar frutos.
E o medo do que está por vir.
Encontrei, dia desses, uma melancolia que há muito não me chegava. Engraçado que perguntei a uma figura, na ocasião, se ela se considerava melancólica e ela disse que não e que era feliz. Achei uma ousadia e tudo aquilo, mas até entendi. E, mais, acreditei. Na plenitude que vem acompanhando tantas outras qualidades, de compromisso e seriedade e inteligência e perspicácia e ousadia e, em meio a tudo isso, leveza.
Achei foi graça quando, uns dias depois, fui acusada de ter-lhe acusado por drama, e não melancolia. Vez em quando me surpreendo ao perceber como o comum das pessoas tem um léxico tão diferente do meu e, em consequência disso, vive vidas tão distintas. Distantes.
De repente, a diferença nem é tanta; mas, para mim, é imensa.
Eu posso mesmo ser muitas coisas, mas é certeza - e acredito ser também unanimidade - que cuca-fresca não é uma delas. Mas sei apreciar uma, quando encontro.
Só não sei é ser e acho em mim uma ausência de tudo isso e uma inocência que beira a estupidez, se é que não a atravessa a cem por hora.
Eu assumi, porém, já há bastante tempo, uma política e uma filosofia de não me preocupar com as coisas antes do estritamente necessário e assim vou sobrevivendo. Esperando estar pronta quando elas chegarem ou quando eu for.
Nesse meio tempo, sigo aguardando o encontro.
domingo, 26 de junho de 2011
Veredas
Talvez eu esteja apenas me precipitando e devesse esperar mais alguns dias, algumas horas. Mas, enquanto tomava banho, fiquei pensando tanto nisso que achei que valia a pena dizer.
Comigo acontece sempre isso, de coisas aparentemente importantes me ocorrerem no banho - momento em que é mais fácil nos permitir divagar.
A pois eu pensava era no Guimarães. Lia, antes do banho.
Afinal, eu resolvi parar de brincar de café-com-leite e me juntar aos grandes. Juntar, assim desse jeito que o livro faz com a gente, que nos torna íntimos conhecidos, quando não nos tornamos propriamente eles. Ou eles se tornam a gente, ou nos tornamos ambos alguma outra coisa, flutuante e etérea, que paira por um tempo em algum lugar e depois desvanece.
Resolvi me juntar aos grandes e fui dar logo no maior. Toda a coisa da linguagem, pensei muito nisso, que é muito difícil um cara ir lá e decidir inventar uma língua. Mas, inventada por ele, ele meio que pode fazer o que bem entender, não é? Exige e tal uma criatividade e tanto, mas as regras são suas e você brinca de deus. Agora fodástico mesmo é o cara inventar a própria língua. Não uma só dele, uma que é nossa, que eu conheço e você conhece, e brincar de dar nó nela, trazer de lá pra cá e daqui pra lá e ir inventando e torcendo e distorcendo, eu e você ainda entendendo. Entendendo, quem sabe, mais do que nunca.
Eu me lembro, ainda, com tanta clareza, de quando li o Miguilim. Era época de vestibular, tava ele na lista e eu lendo na fazenda, sem conseguir dormir e me acabando de chorar e pensando como Guimarães era foda. Miguilim é ainda dos meus preferidos no mundo e me vem à mente com certa frequência, em ocasiões que não vale comentar, por causa do spoiler.
Ao Grande Sertão cheguei hesitante, sem empurrão de prova, só recomendação de tanta gente que fala do quão absurdo ele é. Comprei nem sei quando, em sebo, capa dura vermelha, gravado em dourado. Comecei nem sei quantas vezes, lia uma, duas, dez páginas e ia largando, nem sei por quê. Não que achasse chato nem muito menos ruim. Nas uma ou duas ou dez páginas reconhecia o gênio, mas não seguia adiante de repente porque é isso a vida. Mas eis que, dessa vez segui de pura determinação, de querer brincar com grandes e, mais que tudo, com nosso, querer ler escrito na minha língua, sem filtro nenhum de tradução, nem de temas que não são meus, de vidas que não são minhas, de lugares outros, queria era aqui. Do Sul da minha terra.
Mas, no banho, não era isso que eu pensava. Visto não ter acabado ainda o livro, apesar de estar adiantado, fiquei pensando "puta-que-o-pariu, que o Diadorim vai morrer e eu não vou aguentar". Sei não o que vai acontecer, nem muito não quero pensar, mas o diabo do Guimarães me fez uma coisa que eu matutei demais pra lembrar se já aconteceu antes e a lembrança não veio. Porque nunca aconteceu, não assim.
Eu já gostei muito de muitos livros e, no banho, pensava no que eu gostava neles. Tentei lembrar de como foi ler, pela primeira e única vez, Cem anos de solidão. Já se foram os detalhes, ficou só aquela sensação de me perder na fantasia do Márquez, da confusão de Macondo e os nomes e... não sei. Depois, o Proust e aquela loucura toda do ciúme, no começo, e o tempo, depois. De Ana Kariênina, lembro de me identificar, em potencial, com as coisas que ela fez. Pois vasculho nos não poucos romances que li e encontro que gostei em alguns da beleza da escrita e, noutros, mais, de me identificar aqui e ali com o que vinha escrito. De me reconhecer, em alguma medida, naquelas palavras impressas e de tão longe vindas. De ser sobre mim - ser egoísta que sou.
Mas o diabo do Guimarães... não me vejo ali, pelo menos não tão claramente, nem tão me identifico e, apesar da beleza, o que me surpreende é a forma como aquele gostar tão contado e recontado do Riobaldo desperta em mim, também, um gostar que é tanto e tamanho, um sei lá o quê de destino, não sei. Não é pelo espelho, é por ele, só. A vida vai, eu sei, a gente vai com ela gostando aqui e ali, algumas vezes sem mais, noutras sem menos, até que caímos um dia no livro de capa vermelha e ele desperta na gente, ou ao menos em mim, esse amor insano e desmedido, ele narra um sentimento nosso, ou meu, mas que não é aquele que estava ali antes e ele refletiu, é o que ele mesmo causou.
Isso nunca eu tinha visto, do homem vir e inventar em mim um amor que não existia. E tão apaixonado e desesperado e sentido, tão completo, por impossível que possa parecer. Eu não sei o que vai acontecer e não sei o que quero que não aconteça.
Sei apenas que é maior.
Também eu amo Diadorim.
Comigo acontece sempre isso, de coisas aparentemente importantes me ocorrerem no banho - momento em que é mais fácil nos permitir divagar.
A pois eu pensava era no Guimarães. Lia, antes do banho.
Afinal, eu resolvi parar de brincar de café-com-leite e me juntar aos grandes. Juntar, assim desse jeito que o livro faz com a gente, que nos torna íntimos conhecidos, quando não nos tornamos propriamente eles. Ou eles se tornam a gente, ou nos tornamos ambos alguma outra coisa, flutuante e etérea, que paira por um tempo em algum lugar e depois desvanece.
Resolvi me juntar aos grandes e fui dar logo no maior. Toda a coisa da linguagem, pensei muito nisso, que é muito difícil um cara ir lá e decidir inventar uma língua. Mas, inventada por ele, ele meio que pode fazer o que bem entender, não é? Exige e tal uma criatividade e tanto, mas as regras são suas e você brinca de deus. Agora fodástico mesmo é o cara inventar a própria língua. Não uma só dele, uma que é nossa, que eu conheço e você conhece, e brincar de dar nó nela, trazer de lá pra cá e daqui pra lá e ir inventando e torcendo e distorcendo, eu e você ainda entendendo. Entendendo, quem sabe, mais do que nunca.
Eu me lembro, ainda, com tanta clareza, de quando li o Miguilim. Era época de vestibular, tava ele na lista e eu lendo na fazenda, sem conseguir dormir e me acabando de chorar e pensando como Guimarães era foda. Miguilim é ainda dos meus preferidos no mundo e me vem à mente com certa frequência, em ocasiões que não vale comentar, por causa do spoiler.
Ao Grande Sertão cheguei hesitante, sem empurrão de prova, só recomendação de tanta gente que fala do quão absurdo ele é. Comprei nem sei quando, em sebo, capa dura vermelha, gravado em dourado. Comecei nem sei quantas vezes, lia uma, duas, dez páginas e ia largando, nem sei por quê. Não que achasse chato nem muito menos ruim. Nas uma ou duas ou dez páginas reconhecia o gênio, mas não seguia adiante de repente porque é isso a vida. Mas eis que, dessa vez segui de pura determinação, de querer brincar com grandes e, mais que tudo, com nosso, querer ler escrito na minha língua, sem filtro nenhum de tradução, nem de temas que não são meus, de vidas que não são minhas, de lugares outros, queria era aqui. Do Sul da minha terra.
Mas, no banho, não era isso que eu pensava. Visto não ter acabado ainda o livro, apesar de estar adiantado, fiquei pensando "puta-que-o-pariu, que o Diadorim vai morrer e eu não vou aguentar". Sei não o que vai acontecer, nem muito não quero pensar, mas o diabo do Guimarães me fez uma coisa que eu matutei demais pra lembrar se já aconteceu antes e a lembrança não veio. Porque nunca aconteceu, não assim.
Eu já gostei muito de muitos livros e, no banho, pensava no que eu gostava neles. Tentei lembrar de como foi ler, pela primeira e única vez, Cem anos de solidão. Já se foram os detalhes, ficou só aquela sensação de me perder na fantasia do Márquez, da confusão de Macondo e os nomes e... não sei. Depois, o Proust e aquela loucura toda do ciúme, no começo, e o tempo, depois. De Ana Kariênina, lembro de me identificar, em potencial, com as coisas que ela fez. Pois vasculho nos não poucos romances que li e encontro que gostei em alguns da beleza da escrita e, noutros, mais, de me identificar aqui e ali com o que vinha escrito. De me reconhecer, em alguma medida, naquelas palavras impressas e de tão longe vindas. De ser sobre mim - ser egoísta que sou.
Mas o diabo do Guimarães... não me vejo ali, pelo menos não tão claramente, nem tão me identifico e, apesar da beleza, o que me surpreende é a forma como aquele gostar tão contado e recontado do Riobaldo desperta em mim, também, um gostar que é tanto e tamanho, um sei lá o quê de destino, não sei. Não é pelo espelho, é por ele, só. A vida vai, eu sei, a gente vai com ela gostando aqui e ali, algumas vezes sem mais, noutras sem menos, até que caímos um dia no livro de capa vermelha e ele desperta na gente, ou ao menos em mim, esse amor insano e desmedido, ele narra um sentimento nosso, ou meu, mas que não é aquele que estava ali antes e ele refletiu, é o que ele mesmo causou.
Isso nunca eu tinha visto, do homem vir e inventar em mim um amor que não existia. E tão apaixonado e desesperado e sentido, tão completo, por impossível que possa parecer. Eu não sei o que vai acontecer e não sei o que quero que não aconteça.
Sei apenas que é maior.
Também eu amo Diadorim.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Vale de Lágrimas
Tanto tempo que não os ouço. Hoje, de repente, me lembrei, muito por causa do "vale de lágrimas". Na verdade, nem há tanto tempo assim já que fui ao último show deles, no carnaval de 2010, no Marco Zero, no belíssimo e saudoso Recife. Mas, sim, que não paro e ouço faz muito.
Totalmente deprimente a história toda do vale, mas hoje eu me pergunto se, com depressão ou sem, não é verdade.
Essa noite, parece ser. Por aquele incômodo tão despropositado que me surge, vez em quando, que vem subindo de dentro e eu sinto chegando e não sei expulsar, posso só esperar passar. Eu me pergunto se ele vem sozinho ou se eu é que chamo e não sei me responder.
E aquilo da gente tão não ser o que gostaria, aquele espaço infinito que existe entre a nossa imperfeição, a nossa humanidade e aquilo tudo que a gente gostaria de ser e acha que deveria ser. Cada passo desse caminho que a gente sabe que não há, cada buraco na nossa vida que a gente cavou ou que sabe muito bem onde está, que em dias como hoje não podem ser ignorados. O tanto que falta pra gente aprender, as coisas que a gente já viu, provou, sentiu e ainda não sabe e a pergunta, algo desesperada, se algum dia saberemos. Tanto que falta que o que parece é que não fica nada, só ausência. Tão grande, tanta, tanto vazio que sufoca.
Mas eu sei, com esse jeito nosso de saber das coisas, que o que dói hoje é a ponte. Que eu sabia que ia tocar fogo, larguei o fósforo acesso, mas eis que agora só o fogo pegou e começou a rugir. E é alto, como eu sabia que seria, e é quente, como eu sabia que seria, mas saber que é não muda muita coisa. Ainda queima e por tantos motivos. Nem pela ponte, em si, mas pelo que a fez queimar.
Hoje é a noite do acerto de contas, das decisões que foram tomadas e, em alguma medida, equivocadas. Nem levianamente - se é que há algo no vale de lágrimas que não é leviano - e nem por maldade - tirando a parte que há em tudo - mas só e simplesmente pela tentativa. A prova do pudim. Como a gente vai saber que uma coisa dá errado se não for lá e tentar? Tentamos, falhamos; nem é grande o crime, é só que tem que ser pago, porque a vida não brinca de ser inconsequente. Ela brinca de cobrar as contas.
E, não sei, pode ser que haja beleza nisso da resposta. Na forma como a gente vai desenhando nosso destino, como a Mafalda e o plano dela de ir ao Japão. Parando e pensando e olhando para trás, o caminho que me trouxe aqui é tão claro, mesmo sem ser óbvio, os motivos se sucedendo, em fileiras não tanto organizadas, mas que fazem sentido. Como o passo que se põe depois do outro, os feitos e desfeitos se seguindo e trazendo inescapavelmente até essa noite em que, em meio ao turbilhão, penso: "vale de lágrimas".
Oh, que caminho tão longe:
Totalmente deprimente a história toda do vale, mas hoje eu me pergunto se, com depressão ou sem, não é verdade.
Essa noite, parece ser. Por aquele incômodo tão despropositado que me surge, vez em quando, que vem subindo de dentro e eu sinto chegando e não sei expulsar, posso só esperar passar. Eu me pergunto se ele vem sozinho ou se eu é que chamo e não sei me responder.
E aquilo da gente tão não ser o que gostaria, aquele espaço infinito que existe entre a nossa imperfeição, a nossa humanidade e aquilo tudo que a gente gostaria de ser e acha que deveria ser. Cada passo desse caminho que a gente sabe que não há, cada buraco na nossa vida que a gente cavou ou que sabe muito bem onde está, que em dias como hoje não podem ser ignorados. O tanto que falta pra gente aprender, as coisas que a gente já viu, provou, sentiu e ainda não sabe e a pergunta, algo desesperada, se algum dia saberemos. Tanto que falta que o que parece é que não fica nada, só ausência. Tão grande, tanta, tanto vazio que sufoca.
Mas eu sei, com esse jeito nosso de saber das coisas, que o que dói hoje é a ponte. Que eu sabia que ia tocar fogo, larguei o fósforo acesso, mas eis que agora só o fogo pegou e começou a rugir. E é alto, como eu sabia que seria, e é quente, como eu sabia que seria, mas saber que é não muda muita coisa. Ainda queima e por tantos motivos. Nem pela ponte, em si, mas pelo que a fez queimar.
Hoje é a noite do acerto de contas, das decisões que foram tomadas e, em alguma medida, equivocadas. Nem levianamente - se é que há algo no vale de lágrimas que não é leviano - e nem por maldade - tirando a parte que há em tudo - mas só e simplesmente pela tentativa. A prova do pudim. Como a gente vai saber que uma coisa dá errado se não for lá e tentar? Tentamos, falhamos; nem é grande o crime, é só que tem que ser pago, porque a vida não brinca de ser inconsequente. Ela brinca de cobrar as contas.
E, não sei, pode ser que haja beleza nisso da resposta. Na forma como a gente vai desenhando nosso destino, como a Mafalda e o plano dela de ir ao Japão. Parando e pensando e olhando para trás, o caminho que me trouxe aqui é tão claro, mesmo sem ser óbvio, os motivos se sucedendo, em fileiras não tanto organizadas, mas que fazem sentido. Como o passo que se põe depois do outro, os feitos e desfeitos se seguindo e trazendo inescapavelmente até essa noite em que, em meio ao turbilhão, penso: "vale de lágrimas".
Oh, que caminho tão longe:
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Fortuna
Redescobri aqui um puta hino, que eu já amei profundamente mas que caiu nos braços do esquecimento. Porque é isso, né?, a gente meio que vai amando uma coisa por vez, e o amor de ontem fica ultrapassado e relegado pelo de hoje, e o de hoje pelo de amanhã e assim eternamente.
Eu ainda penso, como pensava há muitos anos, que isso meio que significa que a gente não ama nada verdadeiramente, se tudo passa. Ou talvez a verdade seja mesmo que o que vale são esses pequenos momentos de amores passageiros e tudo bem eles passarem, porque como vão, vêm.
Então eu ando num momento mais pro rock'n'roll, ainda que matizado pelos adorados brasileiros que tanto fazem a minha cabeça. Mas tenho ouvido a Kiss FM mais do que qualquer outra rádio e o sentido de estar ali é permitir a ela que me apresente coisas novas. Novas para mim, obviamente, que não conheço nada de nada. Então ouvi, numa programação dessas, uma do David Coverdale e caí de volta em "Soldier of Fortune". Que eu ouvia muito numa fase Deep Purple, também há muitos anos. E são tantas as ligações despertas.
Lembrei de um melhor amigo que tive - não sei até que ponto tenho - que adorava - não sei até que ponto ainda adora - Deep Purple. Uma vez, a gente foi viajar e ele entrou no carro e colocou um cd roxo no aparelho de som e falou: Adivinha ae quem é. É claro que eu não vou reconhecer voz nenhuma, nem música nenhuma - ok, talvez quando chegasse em tipo Smoke on the Water, mas ainda assim. E ele dizia, enquanto eu me afobava pensando que diabo de banda era aquela: "olha o cd que você vai adivinhar". De um tempo em que as coisas eram mais simples. Em que éramos mais iguais.
Depois encontrei gravada uma conversa que tivemos, na outra vida, sobre um desentendimento que não chegamos a ter. É tão fácil a gente sair julgando os outros, né? E também tão fácil a gente sair se culpando por tudo o que acontece, apesar da contradição. E demais são as perguntas que ficam sem resposta.
Então caí em "Soldier of Fortune" e me lembrei dele. Além da música ser do caralho - como ele me ensinou a dizer.
E no ano passado, quando eu fiz uma pequena incursão pelo twitter para acompanhar a campanha, vi uma espécie de enigma que a Márcia Tiburi colocou no dela, perguntando qual era a única coisa do mundo, ou da vida, que não tem preço. E galera falando um tantão de coisa, amor, educação, felicidade e ela dizendo que não, porque bem ou mal essas coisas a gente pode comprar - ou ao menos a ilusão delas. E que a única única coisa que não tem preço, que é inestimável, é o acaso. Que, pelos mais crentes, pode ser chamado de destino. Ela deve mesmo ter falado de um jeito muito mais bonito, mas me lembro de ler e pensar "aaahn..., não é que é, mesmo?".
E essa semana tava ouvindo uma colega contar que ganhou uma lembrancinha num restaurante japonês e que são dois gatinhos e um atrai, sei lá, felicidade, saúde e mais não sei o quê, e o outro era fortuna. Fiquei me perguntando até que ponto ela entendia fortuna como isso, sorte, acaso, destino, e até onde pra ela era dinheiro, dinheiro, dinheiro. Porque, sei lá, tem gente que é isso, né? Ou, mais uma vez, eu que sou tosca e acho que as pessoas não vêem as coisas na mesma profundidade que eu. Parte de mim se pergunta se essas minhas indagações não são só coisa de quem tem muito tempo livre.
Mas o ponto é esse: fortuna é uma idéia que me agrada. Como destino, mas ele tem aí alguma coisa como que programada, exige uma fé que eu não sei se tenho. Prefiro acaso. A força que comanda nossas vidas e tudo aquilo. E, sem fé, traz esperança - não sei bem de quê, talvez só disso. De uma música inesperada numa estação de rádio que se ouve num carro, dirigindo ao pôr-do-sol de uma tarde de inverno.
Eu ainda penso, como pensava há muitos anos, que isso meio que significa que a gente não ama nada verdadeiramente, se tudo passa. Ou talvez a verdade seja mesmo que o que vale são esses pequenos momentos de amores passageiros e tudo bem eles passarem, porque como vão, vêm.
Então eu ando num momento mais pro rock'n'roll, ainda que matizado pelos adorados brasileiros que tanto fazem a minha cabeça. Mas tenho ouvido a Kiss FM mais do que qualquer outra rádio e o sentido de estar ali é permitir a ela que me apresente coisas novas. Novas para mim, obviamente, que não conheço nada de nada. Então ouvi, numa programação dessas, uma do David Coverdale e caí de volta em "Soldier of Fortune". Que eu ouvia muito numa fase Deep Purple, também há muitos anos. E são tantas as ligações despertas.
Lembrei de um melhor amigo que tive - não sei até que ponto tenho - que adorava - não sei até que ponto ainda adora - Deep Purple. Uma vez, a gente foi viajar e ele entrou no carro e colocou um cd roxo no aparelho de som e falou: Adivinha ae quem é. É claro que eu não vou reconhecer voz nenhuma, nem música nenhuma - ok, talvez quando chegasse em tipo Smoke on the Water, mas ainda assim. E ele dizia, enquanto eu me afobava pensando que diabo de banda era aquela: "olha o cd que você vai adivinhar". De um tempo em que as coisas eram mais simples. Em que éramos mais iguais.
Depois encontrei gravada uma conversa que tivemos, na outra vida, sobre um desentendimento que não chegamos a ter. É tão fácil a gente sair julgando os outros, né? E também tão fácil a gente sair se culpando por tudo o que acontece, apesar da contradição. E demais são as perguntas que ficam sem resposta.
Então caí em "Soldier of Fortune" e me lembrei dele. Além da música ser do caralho - como ele me ensinou a dizer.
E no ano passado, quando eu fiz uma pequena incursão pelo twitter para acompanhar a campanha, vi uma espécie de enigma que a Márcia Tiburi colocou no dela, perguntando qual era a única coisa do mundo, ou da vida, que não tem preço. E galera falando um tantão de coisa, amor, educação, felicidade e ela dizendo que não, porque bem ou mal essas coisas a gente pode comprar - ou ao menos a ilusão delas. E que a única única coisa que não tem preço, que é inestimável, é o acaso. Que, pelos mais crentes, pode ser chamado de destino. Ela deve mesmo ter falado de um jeito muito mais bonito, mas me lembro de ler e pensar "aaahn..., não é que é, mesmo?".
E essa semana tava ouvindo uma colega contar que ganhou uma lembrancinha num restaurante japonês e que são dois gatinhos e um atrai, sei lá, felicidade, saúde e mais não sei o quê, e o outro era fortuna. Fiquei me perguntando até que ponto ela entendia fortuna como isso, sorte, acaso, destino, e até onde pra ela era dinheiro, dinheiro, dinheiro. Porque, sei lá, tem gente que é isso, né? Ou, mais uma vez, eu que sou tosca e acho que as pessoas não vêem as coisas na mesma profundidade que eu. Parte de mim se pergunta se essas minhas indagações não são só coisa de quem tem muito tempo livre.
Mas o ponto é esse: fortuna é uma idéia que me agrada. Como destino, mas ele tem aí alguma coisa como que programada, exige uma fé que eu não sei se tenho. Prefiro acaso. A força que comanda nossas vidas e tudo aquilo. E, sem fé, traz esperança - não sei bem de quê, talvez só disso. De uma música inesperada numa estação de rádio que se ouve num carro, dirigindo ao pôr-do-sol de uma tarde de inverno.
sábado, 11 de junho de 2011
5:32
Pois é, estava ela ali nos meus favoritos e meses depois voltei.
Não por acaso; o caminho é muito claro: Renacta, Transylvania, Tony Gatlif, Vengo, Antonio Canales, Concha Jareno.
Aí eu vi ontem e vi hoje. E não consigo não parar o diabo do youtube, não fazê-lo voltar aos mesmos exatos dois segundos de meses atrás.
Além de reiterar o que já disse, percebo que uma pessoa como eu só pode estar destinada a ser infeliz. Talvez não completamente, mas esse pedaço de mim que não encontra nunca satisfação e insiste em ver e rever a mesma coisa e tentar absorver ali o que é impossível absorver, que tenta manter a areia nas mãos mesmo sabendo que ela escapa entre os dedos, que tenta fazer um segundo, ou dois, durar eternamente. Esse pedaço, que eu não sei se é só meu ou se é de todos nós, me prende.
E é um pedaço tão minúsculo, tem aí dois segundos, e é só que nele cabe tanto.
E é só nele que cabe também a felicidade, porque mesmo sabendo impossível alcançá-los, não é preciso nada além daqueles dois segundos.
Tudo cabe em 5:32.
Não por acaso; o caminho é muito claro: Renacta, Transylvania, Tony Gatlif, Vengo, Antonio Canales, Concha Jareno.
Aí eu vi ontem e vi hoje. E não consigo não parar o diabo do youtube, não fazê-lo voltar aos mesmos exatos dois segundos de meses atrás.
Além de reiterar o que já disse, percebo que uma pessoa como eu só pode estar destinada a ser infeliz. Talvez não completamente, mas esse pedaço de mim que não encontra nunca satisfação e insiste em ver e rever a mesma coisa e tentar absorver ali o que é impossível absorver, que tenta manter a areia nas mãos mesmo sabendo que ela escapa entre os dedos, que tenta fazer um segundo, ou dois, durar eternamente. Esse pedaço, que eu não sei se é só meu ou se é de todos nós, me prende.
E é um pedaço tão minúsculo, tem aí dois segundos, e é só que nele cabe tanto.
E é só nele que cabe também a felicidade, porque mesmo sabendo impossível alcançá-los, não é preciso nada além daqueles dois segundos.
Tudo cabe em 5:32.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Garrafas
Tava aqui, meio assistindo-sem-prestar-muita-atenção Glee, meio viajando pela internet, lendo aqui uma coisa ou outra, ouvindo mais ou menos uma música.
Vi o lance que a Claro fez sobre "Eduardo e Mônica" e achei mesmo tão bonitinho. Tão não sabia que a música tinha 25 anos - naquelas de que quando saiu eu tinha três, portanto eu não me lembro, mas também sempre soube que não fui a geração de acompanhar Legião como novidade.
E tenho achado tão tão esquisito isso de ter 28. Pessoas têm me perguntado muito, ultimamente, a minha idade. Aí umas acham que não parece, que me dariam 22 (sim, eu duvido seriamente da sinceridade delas, mas enfim), enquanto outras olham para mim como se eu devesse cair morta na frente delas, só porque venceu meu prazo de validade. Mas o que me deixa meio bolada é mesmo o lance do 28. Ou, mais ainda, do 29. De 29 eu gosto, porque é primo. E tem toda aquela história, de que já ouvi muito falar mas não aprofundei, do retorno de Saturno. E de estar ali, na beira dos 30. Aí não sei de onde comecei a me associar mais com 29 que com 28, talvez numa de me preparar, ou sentir alguma ansiedade que eu não sei ainda se é boa ou má. O fato, de qualquer maneira, é que esse ano tá indo em turbo e eu meio que começo a me preparar para o próximo. Se bem que, pra mim, cada semestre é um ano, e eu me preparo também para a segunda metade que já está na esquina. Com as mudanças e talz, esperando um pouco mais de agitação e discussão e cafés e cervejas e chorinhos e sabendo que bem pode não sair nenhum coelho desse mato. E é só que até lá, muitas pedras ainda vão rolar. Ou só uma pedra, mas uma pedra meio grande.
Mas, sim, eu dizia estar aqui sentada, meio aqui, meio ali. E entre uma coisa e outra, me peguei pensando que eu cavei um buraco e super entrei dentro. Sei lá, acho que buraco todo mundo vive cavando, só que algumas pessoas pulam para lá e ali ficam, enquanto outras vão tentando achar uma saída. E nem sei se eu também não sigo buscando, o lance todo é que eu estou muito dentro do buraco. Nem chega a ser um mau buraco, tirando o fato óbvio de ser buraco.
Eu tenho pensado muito, nas últimas semanas, em escrever sobre algumas decisões que tomei. Uma, em particular, algo séria profissionalmente, que eu chamaria de "queimar pontes". Naquele lance todo de exército em guerra, recuando à toda, e queimando tudo que deixasse para trás, para não ser usado pelo inimigo? Nem que eu tenha inimigo a temer, só mesmo a impossibilidade de voltar, depois de atravessar. O que me causa uma considerável angústia - mas também ouvi uma coisa, semana passada, que me deixou meio bolada: que me falta a mim, em particular, e à minha geração em geral, ousadia. Fiquei matutando sobre a questão. Será?
Acho mesmo que estamos no tornando, de maneira generalizada, muito mais conservadores. Eu sou até que bastante conservadora, não por príncipio e mais pelo jeito caxias de ser. Mas não em princípio, o que parece fazer muita diferença.
Então, algo animada com o próximo meio-ano que se aproxima, começo a me animar um pouco. Com o ano-inteiro, me animo mais. Numas de realmente me preparar, como não fiz da outra vez. Algo como estudar, conhecer, planejar e me envolver e não apenas cair de pára-quedas.
É só que, para trás, ficam as pontes. E eu dentro do buraco.
Pode ser a sanidade que escapa pela janela, mas eu nesta noite invernal acho é graça.
E, é claro, conto com as mensagens que larguei por aí.
Em garrafas.
Vi o lance que a Claro fez sobre "Eduardo e Mônica" e achei mesmo tão bonitinho. Tão não sabia que a música tinha 25 anos - naquelas de que quando saiu eu tinha três, portanto eu não me lembro, mas também sempre soube que não fui a geração de acompanhar Legião como novidade.
E tenho achado tão tão esquisito isso de ter 28. Pessoas têm me perguntado muito, ultimamente, a minha idade. Aí umas acham que não parece, que me dariam 22 (sim, eu duvido seriamente da sinceridade delas, mas enfim), enquanto outras olham para mim como se eu devesse cair morta na frente delas, só porque venceu meu prazo de validade. Mas o que me deixa meio bolada é mesmo o lance do 28. Ou, mais ainda, do 29. De 29 eu gosto, porque é primo. E tem toda aquela história, de que já ouvi muito falar mas não aprofundei, do retorno de Saturno. E de estar ali, na beira dos 30. Aí não sei de onde comecei a me associar mais com 29 que com 28, talvez numa de me preparar, ou sentir alguma ansiedade que eu não sei ainda se é boa ou má. O fato, de qualquer maneira, é que esse ano tá indo em turbo e eu meio que começo a me preparar para o próximo. Se bem que, pra mim, cada semestre é um ano, e eu me preparo também para a segunda metade que já está na esquina. Com as mudanças e talz, esperando um pouco mais de agitação e discussão e cafés e cervejas e chorinhos e sabendo que bem pode não sair nenhum coelho desse mato. E é só que até lá, muitas pedras ainda vão rolar. Ou só uma pedra, mas uma pedra meio grande.
Mas, sim, eu dizia estar aqui sentada, meio aqui, meio ali. E entre uma coisa e outra, me peguei pensando que eu cavei um buraco e super entrei dentro. Sei lá, acho que buraco todo mundo vive cavando, só que algumas pessoas pulam para lá e ali ficam, enquanto outras vão tentando achar uma saída. E nem sei se eu também não sigo buscando, o lance todo é que eu estou muito dentro do buraco. Nem chega a ser um mau buraco, tirando o fato óbvio de ser buraco.
Eu tenho pensado muito, nas últimas semanas, em escrever sobre algumas decisões que tomei. Uma, em particular, algo séria profissionalmente, que eu chamaria de "queimar pontes". Naquele lance todo de exército em guerra, recuando à toda, e queimando tudo que deixasse para trás, para não ser usado pelo inimigo? Nem que eu tenha inimigo a temer, só mesmo a impossibilidade de voltar, depois de atravessar. O que me causa uma considerável angústia - mas também ouvi uma coisa, semana passada, que me deixou meio bolada: que me falta a mim, em particular, e à minha geração em geral, ousadia. Fiquei matutando sobre a questão. Será?
Acho mesmo que estamos no tornando, de maneira generalizada, muito mais conservadores. Eu sou até que bastante conservadora, não por príncipio e mais pelo jeito caxias de ser. Mas não em princípio, o que parece fazer muita diferença.
Então, algo animada com o próximo meio-ano que se aproxima, começo a me animar um pouco. Com o ano-inteiro, me animo mais. Numas de realmente me preparar, como não fiz da outra vez. Algo como estudar, conhecer, planejar e me envolver e não apenas cair de pára-quedas.
É só que, para trás, ficam as pontes. E eu dentro do buraco.
Pode ser a sanidade que escapa pela janela, mas eu nesta noite invernal acho é graça.
E, é claro, conto com as mensagens que larguei por aí.
Em garrafas.
domingo, 29 de maio de 2011
Ainda do sifão
Então que o domingo se passou entre arrumações. Eu e a irmã , num cinco minutos bastante atípico, resolvemos limpar e organizar o cômodo por nós conhecido como "lá-atrás", mas que pode ser chamado "escritório", "salinha" ou "biblioteca". Tudo entre aspas, porque o dito-cujo não é exatamente nada disso, mas enfim. Aí que eu assumi a função de arrumar os livros - tirá-los todos das prateleiras, tirar o pó (que era muito) e organizar.
Até que os resultados foram bastante positivos - desde que montamos "a salinha" a gente nunca tinha rearrumado tudo nessa proporção; os livros que se amontoaram por anos sem ordem alguma agora estão alinhados e (relativamente) limpos. Claro que minhas costas doem, minha bunda dói e meu ombro nem sei - porque é claro que eu me pendurei num banco alto e dei um jeito de fazê-lo cair, enquanto me pendurava na prateleira. Mas entre mortos e feridos salvaram-se todos - ou quase, porque identificamos três livros ali que são absurdamente ruins e ou vão dormir no lixo, se a impaciência imperar, ou serão retransmitidos para espalhar seu mau-gosto em outras casas.
A melhor notícia de todas, porém, é que eu finalmente encontrei o meu Toda Mafalda. Que eu comprei em Florianópolis com uns 30% de desconto, na SBPC, nos idos de 2006. Né, não, Lettícia? Quando fomos a pretexto de apresentar nossos painéis de Iniciação Científica e
aproveitamos para conhecer aquelas praias bonitas da porra? E ainda mais no inverno. Eu não gosto particularmente de praia no inverno, porque tendo a ser friorenta, mas uma que nosso inverno ainda permite mergulhos, outra que acho que é a única época do ano em que aquelas praias são habitáveis. Pelo menos por mim, que detesto multidões. Aí que foi ótimo - dava pra entrar no mar até umas três da tarde, enquanto o sol ainda ia alto, e depois era o tempo de sair, tirar o sal, secar e começar o processo de encebolamento, vestindo as várias camadas de roupas para encarar a volta pra casa.
Sim, foi muito boa aquela viagem. Engraçado perceber que foi num período de intensa crise pessoal, ou talvez a véspera imediata dele, e mesmo sabendo disso dá a impressão, ao olhar pra trás, de que as coisas eram mais simples.
Mas sim, o fato era a Mafalda.
Encontrando-a, encontrei as tirinhas que quis colocar aqui há um tempo. Fiquei na dúvida sobre qual colocar, então decidir mandar ver e postar todas.
Tão boa, a Mafalda. Qualquer hora volto a ela.
Essas daí etão nas páginas 8 e 9, da edição das Martins Fontes, de 1993.
Até que os resultados foram bastante positivos - desde que montamos "a salinha" a gente nunca tinha rearrumado tudo nessa proporção; os livros que se amontoaram por anos sem ordem alguma agora estão alinhados e (relativamente) limpos. Claro que minhas costas doem, minha bunda dói e meu ombro nem sei - porque é claro que eu me pendurei num banco alto e dei um jeito de fazê-lo cair, enquanto me pendurava na prateleira. Mas entre mortos e feridos salvaram-se todos - ou quase, porque identificamos três livros ali que são absurdamente ruins e ou vão dormir no lixo, se a impaciência imperar, ou serão retransmitidos para espalhar seu mau-gosto em outras casas.
A melhor notícia de todas, porém, é que eu finalmente encontrei o meu Toda Mafalda. Que eu comprei em Florianópolis com uns 30% de desconto, na SBPC, nos idos de 2006. Né, não, Lettícia? Quando fomos a pretexto de apresentar nossos painéis de Iniciação Científica e
aproveitamos para conhecer aquelas praias bonitas da porra? E ainda mais no inverno. Eu não gosto particularmente de praia no inverno, porque tendo a ser friorenta, mas uma que nosso inverno ainda permite mergulhos, outra que acho que é a única época do ano em que aquelas praias são habitáveis. Pelo menos por mim, que detesto multidões. Aí que foi ótimo - dava pra entrar no mar até umas três da tarde, enquanto o sol ainda ia alto, e depois era o tempo de sair, tirar o sal, secar e começar o processo de encebolamento, vestindo as várias camadas de roupas para encarar a volta pra casa.
Sim, foi muito boa aquela viagem. Engraçado perceber que foi num período de intensa crise pessoal, ou talvez a véspera imediata dele, e mesmo sabendo disso dá a impressão, ao olhar pra trás, de que as coisas eram mais simples.
Mas sim, o fato era a Mafalda.
Encontrando-a, encontrei as tirinhas que quis colocar aqui há um tempo. Fiquei na dúvida sobre qual colocar, então decidir mandar ver e postar todas.
Tão boa, a Mafalda. Qualquer hora volto a ela.Essas daí etão nas páginas 8 e 9, da edição das Martins Fontes, de 1993.
terça-feira, 24 de maio de 2011
Abril, 2010
Ai que estou desde ontem com a garganta querendo doer e a piração querendo começar. Parte da hipocondria e da neurose, nada de novo mas ainda assim.
E desde ontem fui pega por um desses apertos que chegam e não querem mais sair; por decisões erradas que tomei e por decisões erradas que meio que não tomei, mas também não deixei de tomar. Afe, que o erro, principalmente o meu, ainda é desafio gigantesco que se coloca na minha frente.
Nessas de tentar consertá-lo, ou só aceitá-lo, achei essa coisinha que escrevi há mais de um ano; nem sei se mandei pra alguém ou se era pra alguém ou se era praqui. Nem sei do que falava, porque conservo ainda esses dois pilares da ignorância: o texto trincado e a falta seletiva de memória. Mas achei bonito e quis colar, portanto:
"E esse mundo véi sem portera?
Tem coisas que a gente sabe tanto sem saber, né?
Ou sabe mesmo sabendo, só que não faz a menor diferença.
Como isso da solidão. Eu há muito tempo sou do partido da solidão perfeita e incorruptível, inalienável, inabalável e mais um monte de vel e véu que eu não sei mais dizer.
Há tanto e tanto tempo, o tal partido. E tanta, a solidão. Insolúvel.
E é malandra, essa, porque não tem saída; não há outro que possa espantá-la, nem nós, superá-la.
E o que podemos tentar fazer com ela depende tanto do momento. Acho que ciclos, mesmo, ou fases da vida.
Eu já tentei despejá-la e ouvi-la desmoronar num eco que eu sabia ilusório. Para me conceder acreditar, por um instante, que era mentira.
Depois nem sei, talvez tenha entrado nela, ou sido por ela atraída, como um buraco negro, e ali, nada.
Aí, semana passada, acho, eu tive um desses momentos de querer explodir. Literalmente, mesmo, como se o que eu sentisse fosse demais pra suportar e quisesse sair, sem ter por onde, portanto explodir. Desfazer-se e depois, qual esponja, refazer-se. Sem objetivo além do desafogo.
E bem agora, indo bem por esse caminho, sem ter palavras pra contar, fiquei foi pensando nisso, da solidão. E quase acho que ela nem é tão dramática assim, acho que é como é, original. E quase não dói, depois de um tempo.
Ou dói, mas é da vida."
E desde ontem fui pega por um desses apertos que chegam e não querem mais sair; por decisões erradas que tomei e por decisões erradas que meio que não tomei, mas também não deixei de tomar. Afe, que o erro, principalmente o meu, ainda é desafio gigantesco que se coloca na minha frente.
Nessas de tentar consertá-lo, ou só aceitá-lo, achei essa coisinha que escrevi há mais de um ano; nem sei se mandei pra alguém ou se era pra alguém ou se era praqui. Nem sei do que falava, porque conservo ainda esses dois pilares da ignorância: o texto trincado e a falta seletiva de memória. Mas achei bonito e quis colar, portanto:
"E esse mundo véi sem portera?
Tem coisas que a gente sabe tanto sem saber, né?
Ou sabe mesmo sabendo, só que não faz a menor diferença.
Como isso da solidão. Eu há muito tempo sou do partido da solidão perfeita e incorruptível, inalienável, inabalável e mais um monte de vel e véu que eu não sei mais dizer.
Há tanto e tanto tempo, o tal partido. E tanta, a solidão. Insolúvel.
E é malandra, essa, porque não tem saída; não há outro que possa espantá-la, nem nós, superá-la.
E o que podemos tentar fazer com ela depende tanto do momento. Acho que ciclos, mesmo, ou fases da vida.
Eu já tentei despejá-la e ouvi-la desmoronar num eco que eu sabia ilusório. Para me conceder acreditar, por um instante, que era mentira.
Depois nem sei, talvez tenha entrado nela, ou sido por ela atraída, como um buraco negro, e ali, nada.
Aí, semana passada, acho, eu tive um desses momentos de querer explodir. Literalmente, mesmo, como se o que eu sentisse fosse demais pra suportar e quisesse sair, sem ter por onde, portanto explodir. Desfazer-se e depois, qual esponja, refazer-se. Sem objetivo além do desafogo.
E bem agora, indo bem por esse caminho, sem ter palavras pra contar, fiquei foi pensando nisso, da solidão. E quase acho que ela nem é tão dramática assim, acho que é como é, original. E quase não dói, depois de um tempo.
Ou dói, mas é da vida."
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Baden, talvez
Eu preciso.
De uma bebida, uma música, um abraço. Talvez.
Baden?
Uma noite daquelas, em que fica no ar essa coisa do necessário, aquilo que é ou que nem tanto, talvez principalmente do que não é.
E um aperto no peito, um aperto no peito, um aperto.
Sim, Baden.
Chora comigo.
Pensei tanto, nessa semana que vai ao meio. Eu sempre penso muito, acho que como todo mundo, mas às vezes parece que têm um sentido. Os pensamentos. Que não vão a esmo, que seguem uma ordem vital, chegam a um lugar a que é preciso chegar, porque tem ali um segredo ou, melhor, uma lição. E não há novidade sob o sol, há?
Pois a idéia que me era e é recorrente é que essa porra aqui só te dá uma chance. A gente até se ilude, pensando que vai ter outras ou que ainda tem tempo. A gente sempre acha que tem tempo, ainda, e isso é de uma contradição tão gritante. A gente acha que tem tempo e que o amanhã não importa. E é um ou outro. Ou nenhum. Ou é um, e a gente tem todo o tempo do mundo e vai ter todas as oportunidades necessárias para desperdiçar. Ou é outro e o amanhã não importa, portanto temos é que fazer o que há de ser feito agora.
Ou nenhum, porque o que importa, só o que importa, é fazer certo. Sabendo que é uma chance só e acabou a brincadeira; que se a gente andar torto a qualquer momento, vai cair no buraco e o buraco não tem saída. É atenção constante e ininterrupta, a lição que eu pensei aprender. É que não adianta de um centímetro enfiar a sujeira pra debaixo do tapete, nem guardar o esqueleto no armário, porque ele vai sair um dia e te pegar. O problema maior é que, hoje, a gente talvez pudesse dar uma bicuda na porra do esqueleto e ver ele desmontar. Mas se a gente esconder no armário, quando ele sair pode nos encontrar já fracos demais e então os pontapés serão impossíveis e restarão apenas lamentos.
E eu sou tão tão jovem e tão ignorante, mas só no que eu consigo pensar é que não preciso de bebida, nem de música, nem de abraço. Consigo só eu abraçar a dor, embalada por Baden, não porque seja necessário, mas porque... não sei, como se fôssemos amigos, os três. Queridos, sim, mas não necessários.
E eu consigo, ironia das ironias, me sentir viva e talvez feliz. Porque é essa a brincadeira, né? Pra isso que nós viemos.
Ai, vida que eu sinto, tão suave e delicada, tão inteira, sobra ainda algo de desafio que espera que você me arrebate.
Falta alguma coisa e não falta coisa alguma.
De uma bebida, uma música, um abraço. Talvez.
Baden?
Uma noite daquelas, em que fica no ar essa coisa do necessário, aquilo que é ou que nem tanto, talvez principalmente do que não é.
E um aperto no peito, um aperto no peito, um aperto.
Sim, Baden.
Chora comigo.
Pensei tanto, nessa semana que vai ao meio. Eu sempre penso muito, acho que como todo mundo, mas às vezes parece que têm um sentido. Os pensamentos. Que não vão a esmo, que seguem uma ordem vital, chegam a um lugar a que é preciso chegar, porque tem ali um segredo ou, melhor, uma lição. E não há novidade sob o sol, há?
Pois a idéia que me era e é recorrente é que essa porra aqui só te dá uma chance. A gente até se ilude, pensando que vai ter outras ou que ainda tem tempo. A gente sempre acha que tem tempo, ainda, e isso é de uma contradição tão gritante. A gente acha que tem tempo e que o amanhã não importa. E é um ou outro. Ou nenhum. Ou é um, e a gente tem todo o tempo do mundo e vai ter todas as oportunidades necessárias para desperdiçar. Ou é outro e o amanhã não importa, portanto temos é que fazer o que há de ser feito agora.
Ou nenhum, porque o que importa, só o que importa, é fazer certo. Sabendo que é uma chance só e acabou a brincadeira; que se a gente andar torto a qualquer momento, vai cair no buraco e o buraco não tem saída. É atenção constante e ininterrupta, a lição que eu pensei aprender. É que não adianta de um centímetro enfiar a sujeira pra debaixo do tapete, nem guardar o esqueleto no armário, porque ele vai sair um dia e te pegar. O problema maior é que, hoje, a gente talvez pudesse dar uma bicuda na porra do esqueleto e ver ele desmontar. Mas se a gente esconder no armário, quando ele sair pode nos encontrar já fracos demais e então os pontapés serão impossíveis e restarão apenas lamentos.
E eu sou tão tão jovem e tão ignorante, mas só no que eu consigo pensar é que não preciso de bebida, nem de música, nem de abraço. Consigo só eu abraçar a dor, embalada por Baden, não porque seja necessário, mas porque... não sei, como se fôssemos amigos, os três. Queridos, sim, mas não necessários.
E eu consigo, ironia das ironias, me sentir viva e talvez feliz. Porque é essa a brincadeira, né? Pra isso que nós viemos.
Ai, vida que eu sinto, tão suave e delicada, tão inteira, sobra ainda algo de desafio que espera que você me arrebate.
Falta alguma coisa e não falta coisa alguma.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Nature Boy
A merda do velhinho me traz lágrimas aos olhos.
Pergunto-me por quê.
E a conversinha no começo é qualquer coisa.
Pergunto-me por quê.
E a conversinha no começo é qualquer coisa.
Se
Que seria de nós se não fosse essa palavrinha?
Tão pequena, tão simples, passa quase batido e define tanto do que somos e fazemos.
Acho que a mais básica mágica que ela nos faz é aquela besteira sem tamanho do "se (preencha como aprouver) eu vou ser feliz!". Mesmo com exclamação.
Claro que normalmente a gente tem vergonha de falar isso em voz alta, ou mesmo de pensar em baixa, mas né? Tanta coisa que a gente faz, achando que essa porra de felicidade está logo ali, ao fim de uma curva, debaixo de uma árvore e ela vai que nem o arco-íris, andando sempre pra mais longe.
É só que é tão difícil não cair na armadilha.
Eu, por exemplo, sempre me imagino estudando numa biblioteca daquelas de cenário, com as estantes de madeira mostrando os milhares de livros e a escrivaninha com abajur, e a cadeira confortável e a luz agradável, querendo só estar ali, sem me levantar a cada dois minutos para beber água ou ir ao banheiro ou tomar café ou falar com um amigo ou ficar olhando as pessoas passando sem pensar em nada. Toda a imagem romântica do lugar e, principalmente, eu nele. O engraçado é que, apesar de reconhecer o absurdo, ainda ele me inspira. E enquanto isso eu sigo no meu meio-sim-meio-não-estudo, nas bibliotecas sem mágica ou na minha casa sem mágica, parando a cada dois minutos.
E depois tem as ilusões que se perdem. Eu percebi muito claramento assistindo a um filme, do mesmo diretor do Brilho eterno de uma mente sem lembranças, que se passa em Paris. O protagonista é o Gael García Bernal e ele faz um cara que vai do México para Paris, onde mora a mãe, acho que depois que o pai morre ou assim. Sei lá, perdi o comecinho do filme e nunca mais descobri. Mas aí tem umas cenas em que ele tá dormindo, lá em Paris, e aquela história toda e ele dorme numa cama sob a janela e... eu de alguma forma já estive ali, talvez não exatamente como o rapaz do filme, mas já dormi numa cama sob a janela e já estive em Paris e me lembro do cheiro. Nem um cheiro particularmente ruim, nem particularmente bom, só um cheiro que é diferente da imagem. Então a mágica desprende e se aloja em outros lugares.
Hoje, por exemplo, ela assenta no jazz. Nem conheço nada, absolutamente nada, mas a idéia de um bar com jazz tocando, talvez uma bebida quase intocada na mesa, o resto em silêncio. E bem pode ser, ou provavelmente seja, que em podendo ir ao bar, ouvir jazz, eu fique em casa de pijama assistindo televisão. Pode ser muito que o bar de verdade não chegue aos pés desse que eu mais intuo do que visualizo. Não sei se eu seria feliz ali, mas parece que eu chego um pouco mais perto do arco-íris ao imaginar.
Mas eu sinto vontade e sabe-se lá aonde essa monstra pode nos levar.
Tão pequena, tão simples, passa quase batido e define tanto do que somos e fazemos.
Acho que a mais básica mágica que ela nos faz é aquela besteira sem tamanho do "se (preencha como aprouver) eu vou ser feliz!". Mesmo com exclamação.
Claro que normalmente a gente tem vergonha de falar isso em voz alta, ou mesmo de pensar em baixa, mas né? Tanta coisa que a gente faz, achando que essa porra de felicidade está logo ali, ao fim de uma curva, debaixo de uma árvore e ela vai que nem o arco-íris, andando sempre pra mais longe.
É só que é tão difícil não cair na armadilha.
Eu, por exemplo, sempre me imagino estudando numa biblioteca daquelas de cenário, com as estantes de madeira mostrando os milhares de livros e a escrivaninha com abajur, e a cadeira confortável e a luz agradável, querendo só estar ali, sem me levantar a cada dois minutos para beber água ou ir ao banheiro ou tomar café ou falar com um amigo ou ficar olhando as pessoas passando sem pensar em nada. Toda a imagem romântica do lugar e, principalmente, eu nele. O engraçado é que, apesar de reconhecer o absurdo, ainda ele me inspira. E enquanto isso eu sigo no meu meio-sim-meio-não-estudo, nas bibliotecas sem mágica ou na minha casa sem mágica, parando a cada dois minutos.
E depois tem as ilusões que se perdem. Eu percebi muito claramento assistindo a um filme, do mesmo diretor do Brilho eterno de uma mente sem lembranças, que se passa em Paris. O protagonista é o Gael García Bernal e ele faz um cara que vai do México para Paris, onde mora a mãe, acho que depois que o pai morre ou assim. Sei lá, perdi o comecinho do filme e nunca mais descobri. Mas aí tem umas cenas em que ele tá dormindo, lá em Paris, e aquela história toda e ele dorme numa cama sob a janela e... eu de alguma forma já estive ali, talvez não exatamente como o rapaz do filme, mas já dormi numa cama sob a janela e já estive em Paris e me lembro do cheiro. Nem um cheiro particularmente ruim, nem particularmente bom, só um cheiro que é diferente da imagem. Então a mágica desprende e se aloja em outros lugares.
Hoje, por exemplo, ela assenta no jazz. Nem conheço nada, absolutamente nada, mas a idéia de um bar com jazz tocando, talvez uma bebida quase intocada na mesa, o resto em silêncio. E bem pode ser, ou provavelmente seja, que em podendo ir ao bar, ouvir jazz, eu fique em casa de pijama assistindo televisão. Pode ser muito que o bar de verdade não chegue aos pés desse que eu mais intuo do que visualizo. Não sei se eu seria feliz ali, mas parece que eu chego um pouco mais perto do arco-íris ao imaginar.
Mas eu sinto vontade e sabe-se lá aonde essa monstra pode nos levar.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Abril
Ano passado, na feira de livros da Usp, finalmente a Companhia das Letras finalmente resolveu dar as caras e, para nosso desespero, apareceu com sua coleção enlouquecedora oferecendo 50% de desconto.
Eu, pra variar, surtei e torrei os tubos, comprando coisa que até hoje não abri e, sinto informar, vez ou outra até esqueço que comprei. Só que, dessa vez, imaginando o tamanho do estrago, fiz uma lista do que ia querer, para não me perder no mar de livros e acabar soterrada.
Pois então tinha marcado lá um monte de coisas, algumas que achei, outras não - como o livro daquele cara cujo nome me foge, lavoura arcaica, mas eu não lembro se vi o filme (aliás, do caralho, com todas as maiúsculas e necessários palavrões em profusão) antes ou depois. Até pode rolar, um dia desses, um post sobre o filme, porque ando mesmo querendo rever e entrei numas de ler comentários sobre, ultimamente. Mas o lance é que não tinha lá na feira, mas tinha o abril despedaçado, de um cara cujo nome acho que nunca vou saber. Dessas palavras que você não tanto aprende a ler letra por letra, quanto reconhece como um desenho.
Pois o livro ficou perdido numa prateleira, junto de outros renegados, até que tive de remexer neles para fazer um trabalho e deparei com o abril, selecionando-o para companheiro de páscoa.
Comecei a ler e a primeira coisa que pensei foi: "erro".
Sei lá, meio esquisito e a história opressora. Me fez lembrar os demônios, o que não sei se é uma coisa boa. Mas insisti, porque tava viajando e não tinha muita opção, ou isso de dar uma chance e ver no que vai dar.
Não, ainda não sei onde vai dar, mas agora gosto mais. E sei exatamente o porquê, apesar de talvez não conseguir explicar. Tem a ver com ver uma pessoa pelo olhos de outra, olhos encantados e, por conseguinte, encantadores. Que revelam uma atração dela, mas que se transmite e se torna nossa. E aí de repente a opressão, embora ainda algo aterradora, mostra seu lado sedutor.
Pensei em falar do erro antes, depois resolvi terminar o livro primeiro, mas tenho a impressão de que ele vai me dar uma rasteira logo logo e eu vou ter de escondê-lo no freezer, então achei melhor dizer aqui que estou gostando.
Mesmo despedaçado.
PS: Terminei de ler, meio em pânico apesar de conhecer o fim, esperando o impossível apesar de sabê-lo impossível, depois meio que não consegui dormir e lutei pra enfiar o livro no esquecimento, sem saber se um dia voltarei ali, nem se é bom ou ruim. Pensei por um momento que parecia com os demônios, mas acho que não. Dostoiévski e talz, nada pessoal. A idéia que me seduzia ali em cima permanece, porém. Só não sei a que ela leva.
Eu, pra variar, surtei e torrei os tubos, comprando coisa que até hoje não abri e, sinto informar, vez ou outra até esqueço que comprei. Só que, dessa vez, imaginando o tamanho do estrago, fiz uma lista do que ia querer, para não me perder no mar de livros e acabar soterrada.
Pois então tinha marcado lá um monte de coisas, algumas que achei, outras não - como o livro daquele cara cujo nome me foge, lavoura arcaica, mas eu não lembro se vi o filme (aliás, do caralho, com todas as maiúsculas e necessários palavrões em profusão) antes ou depois. Até pode rolar, um dia desses, um post sobre o filme, porque ando mesmo querendo rever e entrei numas de ler comentários sobre, ultimamente. Mas o lance é que não tinha lá na feira, mas tinha o abril despedaçado, de um cara cujo nome acho que nunca vou saber. Dessas palavras que você não tanto aprende a ler letra por letra, quanto reconhece como um desenho.
Pois o livro ficou perdido numa prateleira, junto de outros renegados, até que tive de remexer neles para fazer um trabalho e deparei com o abril, selecionando-o para companheiro de páscoa.
Comecei a ler e a primeira coisa que pensei foi: "erro".
Sei lá, meio esquisito e a história opressora. Me fez lembrar os demônios, o que não sei se é uma coisa boa. Mas insisti, porque tava viajando e não tinha muita opção, ou isso de dar uma chance e ver no que vai dar.
Não, ainda não sei onde vai dar, mas agora gosto mais. E sei exatamente o porquê, apesar de talvez não conseguir explicar. Tem a ver com ver uma pessoa pelo olhos de outra, olhos encantados e, por conseguinte, encantadores. Que revelam uma atração dela, mas que se transmite e se torna nossa. E aí de repente a opressão, embora ainda algo aterradora, mostra seu lado sedutor.
Pensei em falar do erro antes, depois resolvi terminar o livro primeiro, mas tenho a impressão de que ele vai me dar uma rasteira logo logo e eu vou ter de escondê-lo no freezer, então achei melhor dizer aqui que estou gostando.
Mesmo despedaçado.
PS: Terminei de ler, meio em pânico apesar de conhecer o fim, esperando o impossível apesar de sabê-lo impossível, depois meio que não consegui dormir e lutei pra enfiar o livro no esquecimento, sem saber se um dia voltarei ali, nem se é bom ou ruim. Pensei por um momento que parecia com os demônios, mas acho que não. Dostoiévski e talz, nada pessoal. A idéia que me seduzia ali em cima permanece, porém. Só não sei a que ela leva.
Faxina
Eu trabalhando na mesa da sala de jantar enquanto a sobrinha ao meu lado brinca de escolinha. Com uma lousa branca, canetas coloridas, mesa e, claro, uma aluninha.
Eu.
Morro de rir com ela me explicando alguma coisa que eu absolutamente não entendo. Um tal de imimi, ou inimi, não sei o que lá racional, ou alguma coisa assim.
Antes disso ela estava na vizinha, se matando de brincar, sem querer vir para casa, muito embora o adiantado da hora. Em um dado momento, ela tocou a campainha aqui de casa, mas de zuera. Fui atender, mas ela disse que nao queria vir ainda, que tava limpando o chão.
Até aí ok, né. Eu imaginando a zona que ela fazia na casa da mulher, pretensamente limpando.
Aí eu pergunto:
- Você e a Aninha tavam limpando, é?
- É.
- Mas tavam limpando o quê?
- O chão. A gente tava brincando de limpar com a vassoura.
Pausa. Eu ainda imaginando as duas botando a casa de pernar pro ar.
- Eu era a vassoura. - depois de fazer tal afirmação com o tom mais indiferente, vai lá ela e faz uma demonstração da brincadeira, se jogando no chão e contando como a amiga puxava ela pra lá e pra cá, limpando o chão.
Quem aguenta?
PS: Agora ela quer me vender um adesivo então começou a recitar os preços de todos da cartelinha, com números absurdos, indo de 1, 2, 4, 5 até 30 mil ou assim.
Aí ela fala:
- Esse é 20 paus - fazendo cara de quem disse alguma coisa muito esperta. Depois, com cara de malandra: - você sabe quanto é 20 paus?
O bom é que se eu comprar dois, ela me dá um desconto.
Mas só depois que a gente achar a calculadora.
PPS: Putz, sobrinha acaba de me contar que esqueceu o estojo em casa: "aí tive que contar pra minha pro e os outros tiveram que ficar me emprestando as cores".
Tão melhor emprestar as cores que os lápis, né?
Eu.
Morro de rir com ela me explicando alguma coisa que eu absolutamente não entendo. Um tal de imimi, ou inimi, não sei o que lá racional, ou alguma coisa assim.
Antes disso ela estava na vizinha, se matando de brincar, sem querer vir para casa, muito embora o adiantado da hora. Em um dado momento, ela tocou a campainha aqui de casa, mas de zuera. Fui atender, mas ela disse que nao queria vir ainda, que tava limpando o chão.
Até aí ok, né. Eu imaginando a zona que ela fazia na casa da mulher, pretensamente limpando.
Aí eu pergunto:
- Você e a Aninha tavam limpando, é?
- É.
- Mas tavam limpando o quê?
- O chão. A gente tava brincando de limpar com a vassoura.
Pausa. Eu ainda imaginando as duas botando a casa de pernar pro ar.
- Eu era a vassoura. - depois de fazer tal afirmação com o tom mais indiferente, vai lá ela e faz uma demonstração da brincadeira, se jogando no chão e contando como a amiga puxava ela pra lá e pra cá, limpando o chão.
Quem aguenta?
PS: Agora ela quer me vender um adesivo então começou a recitar os preços de todos da cartelinha, com números absurdos, indo de 1, 2, 4, 5 até 30 mil ou assim.
Aí ela fala:
- Esse é 20 paus - fazendo cara de quem disse alguma coisa muito esperta. Depois, com cara de malandra: - você sabe quanto é 20 paus?
O bom é que se eu comprar dois, ela me dá um desconto.
Mas só depois que a gente achar a calculadora.
PPS: Putz, sobrinha acaba de me contar que esqueceu o estojo em casa: "aí tive que contar pra minha pro e os outros tiveram que ficar me emprestando as cores".
Tão melhor emprestar as cores que os lápis, né?
terça-feira, 26 de abril de 2011
A simple kind of man
Não sei.
Estou absolutamente esgotada, nesse fim de noite de terça-feira, cansada mental e fisicamente e ainda com aquela preguiça ou resistência, velha conhecida, que me impede de me enfiar imediatamente debaixo dos cobertores - porque sim, finalmente chegam por essas paragens vestígios de frio que pedem meias, agasalhos e cobertores.
Hoje vim ouvindo Lynyrd Skynyrd e, me lembrando das poucas músicas que conheceço deles, me deparei (de novo e eternamente) com o tanto tanto de coisa que desconheço. Aí que essa é uma realidade também velha conhecida, talvez mais do que qualquer coisa é o princípio de tudo, a essência, a idéia original que molda o meu mundo. É só que acontece da gente esquecer. Ou de eu esquecer. Quando não estou pensando no assunto, quando me distraio, ou me concentro nas atividades imediatas, resolvendo o que há a ser resolvido, quando vou mesmo vivendo, em vez de ir pensando, eu esqueço.
Talvez seja isso a mais pura hipocrisia, mas eu tenho a cara-de-pau de declarar que isso meio que não é um problema pra mim. Eu não sei porra nenhuma, mesmo, e beleza. Não acho que tenho que saber. E acho que até sei bastante, considerando... será que há o que considerar? Como pode, né?, uma pessoa arrogante como eu sou conciliar isso com a percepção cristalina da própria ignorância? Porque eu tendo a achar mesmo que sei mais que os outros.
No fim do dia, a verdade mesmo é que somos todos um monte de bosta.
Mas o que eu vinha pensando, não essa tarde, mas agorinha, quando vinha dizer que não conheço Lynyrd Skynyrd (e logo seguem, sei lá, dez outras bandas de que eu só ouvi falar), é que... sabe aquela impressão que a gente tem de vez em quando de que as outras pessoas, ou algumas das outras pessoas com que cruzamos por aí, a impressão de que elas acham que sabem pra onde estão indo?A reflexão que essa impressão me provoca não é de inveja, nem de raiva de mim por ser tão perdida. Fico meio naquelas de que elas, como eu, não fazem a menor idéia. Só não saem por aí dizendo. E de boa, cada um que viva a própria vida como quiser ou puder.
O que me intriga é perceber que, supondo que essa diferença seja mesmo real... quer dizer, essas pessoas não me conhecem e, se eu não lhes disser que não faço idéia, elas podem até ficar com a impressão de que eu sei aonde estou indo. E o fato é que eu, que em tese aceito a idéia da minha falta de noção, não digo. Por n motivos, todos plenamente legítimos e compreensiveis. Um deles, e o menor, é que elas não me perguntaram. E eu tenho combatido o meu egocentrismo crônico com o hábito de contar de mim apenas o que me perguntarem. Quando não vêm questões, procuro me contentar com o silêncio. Enquanto imagino as possíveis questões e suas respostas, na privacidade da minha mente. Sei lá, de repente eu escolhi viver minha vida em insanidade.
E, sendo louca, acho graça demais na idéia de que tem gente por aí que acha que eu sei. E mais do que isso - acho que o ponto central é esse -: que é normal saber. Esperado e tudo. Meio que nada mais que a obrigação e essas merdas todas.
Pobres de nós.
Misericórdia e tudo aquilo.
Ainda se alguém me dissesse para não me preocupar, que ainda vou me encontrar.
Estou absolutamente esgotada, nesse fim de noite de terça-feira, cansada mental e fisicamente e ainda com aquela preguiça ou resistência, velha conhecida, que me impede de me enfiar imediatamente debaixo dos cobertores - porque sim, finalmente chegam por essas paragens vestígios de frio que pedem meias, agasalhos e cobertores.
Hoje vim ouvindo Lynyrd Skynyrd e, me lembrando das poucas músicas que conheceço deles, me deparei (de novo e eternamente) com o tanto tanto de coisa que desconheço. Aí que essa é uma realidade também velha conhecida, talvez mais do que qualquer coisa é o princípio de tudo, a essência, a idéia original que molda o meu mundo. É só que acontece da gente esquecer. Ou de eu esquecer. Quando não estou pensando no assunto, quando me distraio, ou me concentro nas atividades imediatas, resolvendo o que há a ser resolvido, quando vou mesmo vivendo, em vez de ir pensando, eu esqueço.
Talvez seja isso a mais pura hipocrisia, mas eu tenho a cara-de-pau de declarar que isso meio que não é um problema pra mim. Eu não sei porra nenhuma, mesmo, e beleza. Não acho que tenho que saber. E acho que até sei bastante, considerando... será que há o que considerar? Como pode, né?, uma pessoa arrogante como eu sou conciliar isso com a percepção cristalina da própria ignorância? Porque eu tendo a achar mesmo que sei mais que os outros.
No fim do dia, a verdade mesmo é que somos todos um monte de bosta.
Mas o que eu vinha pensando, não essa tarde, mas agorinha, quando vinha dizer que não conheço Lynyrd Skynyrd (e logo seguem, sei lá, dez outras bandas de que eu só ouvi falar), é que... sabe aquela impressão que a gente tem de vez em quando de que as outras pessoas, ou algumas das outras pessoas com que cruzamos por aí, a impressão de que elas acham que sabem pra onde estão indo?A reflexão que essa impressão me provoca não é de inveja, nem de raiva de mim por ser tão perdida. Fico meio naquelas de que elas, como eu, não fazem a menor idéia. Só não saem por aí dizendo. E de boa, cada um que viva a própria vida como quiser ou puder.
O que me intriga é perceber que, supondo que essa diferença seja mesmo real... quer dizer, essas pessoas não me conhecem e, se eu não lhes disser que não faço idéia, elas podem até ficar com a impressão de que eu sei aonde estou indo. E o fato é que eu, que em tese aceito a idéia da minha falta de noção, não digo. Por n motivos, todos plenamente legítimos e compreensiveis. Um deles, e o menor, é que elas não me perguntaram. E eu tenho combatido o meu egocentrismo crônico com o hábito de contar de mim apenas o que me perguntarem. Quando não vêm questões, procuro me contentar com o silêncio. Enquanto imagino as possíveis questões e suas respostas, na privacidade da minha mente. Sei lá, de repente eu escolhi viver minha vida em insanidade.
E, sendo louca, acho graça demais na idéia de que tem gente por aí que acha que eu sei. E mais do que isso - acho que o ponto central é esse -: que é normal saber. Esperado e tudo. Meio que nada mais que a obrigação e essas merdas todas.
Pobres de nós.
Misericórdia e tudo aquilo.
Ainda se alguém me dissesse para não me preocupar, que ainda vou me encontrar.
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