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quarta-feira, 22 de junho de 2011

Vale de Lágrimas

Tanto tempo que não os ouço. Hoje, de repente, me lembrei, muito por causa do "vale de lágrimas". Na verdade, nem há tanto tempo assim já que fui ao último show deles, no carnaval de 2010, no Marco Zero, no belíssimo e saudoso Recife. Mas, sim, que não paro e ouço faz muito.
Totalmente deprimente a história toda do vale, mas hoje eu me pergunto se, com depressão ou sem, não é verdade.
Essa noite, parece ser. Por aquele incômodo tão despropositado que me surge, vez em quando, que vem subindo de dentro e eu sinto chegando e não sei expulsar, posso só esperar passar. Eu me pergunto se ele vem sozinho ou se eu é que chamo e não sei me responder.
E aquilo da gente tão não ser o que gostaria, aquele espaço infinito que existe entre a nossa imperfeição, a nossa humanidade e aquilo tudo que a gente gostaria de ser e acha que deveria ser. Cada passo desse caminho que a gente sabe que não há, cada buraco na nossa vida que a gente cavou ou que sabe muito bem onde está, que em dias como hoje não podem ser ignorados. O tanto que falta pra gente aprender, as coisas que a gente já viu, provou, sentiu e ainda não sabe e a pergunta, algo desesperada, se algum dia saberemos. Tanto que falta que o que parece é que não fica nada, só ausência. Tão grande, tanta, tanto vazio que sufoca.
Mas eu sei, com esse jeito nosso de saber das coisas, que o que dói hoje é a ponte. Que eu sabia que ia tocar fogo, larguei o fósforo acesso, mas eis que agora só o fogo pegou e começou a rugir. E é alto, como eu sabia que seria, e é quente, como eu sabia que seria, mas saber que é não muda muita coisa. Ainda queima e por tantos motivos. Nem pela ponte, em si, mas pelo que a fez queimar.
Hoje é a noite do acerto de contas, das decisões que foram tomadas e, em alguma medida, equivocadas. Nem levianamente - se é que há algo no vale de lágrimas que não é leviano - e nem por maldade - tirando a parte que há em tudo - mas só e simplesmente pela tentativa. A prova do pudim. Como a gente vai saber que uma coisa dá errado se não for lá e tentar? Tentamos, falhamos; nem é grande o crime, é só que tem que ser pago, porque a vida não brinca de ser inconsequente. Ela brinca de cobrar as contas.
E, não sei, pode ser que haja beleza nisso da resposta. Na forma como a gente vai desenhando nosso destino, como a Mafalda e o plano dela de ir ao Japão. Parando e pensando e olhando para trás, o caminho que me trouxe aqui é tão claro, mesmo sem ser óbvio, os motivos se sucedendo, em fileiras não tanto organizadas, mas que fazem sentido. Como o passo que se põe depois do outro, os feitos e desfeitos se seguindo e trazendo inescapavelmente até essa noite em que, em meio ao turbilhão, penso: "vale de lágrimas".
Oh, que caminho tão longe:

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