Páginas

domingo, 26 de junho de 2011

Veredas

Talvez eu esteja apenas me precipitando e devesse esperar mais alguns dias, algumas horas. Mas, enquanto tomava banho, fiquei pensando tanto nisso que achei que valia a pena dizer.
Comigo acontece sempre isso, de coisas aparentemente importantes me ocorrerem no banho - momento em que é mais fácil nos permitir divagar.
A pois eu pensava era no Guimarães. Lia, antes do banho.
Afinal, eu resolvi parar de brincar de café-com-leite e me juntar aos grandes. Juntar, assim desse jeito que o livro faz com a gente, que nos torna íntimos conhecidos, quando não nos tornamos propriamente eles. Ou eles se tornam a gente, ou nos tornamos ambos alguma outra coisa, flutuante e etérea, que paira por um tempo em algum lugar e depois desvanece.
Resolvi me juntar aos grandes e fui dar logo no maior. Toda a coisa da linguagem, pensei muito nisso, que é muito difícil um cara ir lá e decidir inventar uma língua. Mas, inventada por ele, ele meio que pode fazer o que bem entender, não é? Exige e tal uma criatividade e tanto, mas as regras são suas e você brinca de deus. Agora fodástico mesmo é o cara inventar a própria língua. Não uma só dele, uma que é nossa, que eu conheço e você conhece, e brincar de dar nó nela, trazer de lá pra cá e daqui pra lá e ir inventando e torcendo e distorcendo, eu e você ainda entendendo. Entendendo, quem sabe, mais do que nunca.
Eu me lembro, ainda, com tanta clareza, de quando li o Miguilim. Era época de vestibular, tava ele na lista e eu lendo na fazenda, sem conseguir dormir e me acabando de chorar e pensando como Guimarães era foda. Miguilim é ainda dos meus preferidos no mundo e me vem à mente com certa frequência, em ocasiões que não vale comentar, por causa do spoiler.
Ao Grande Sertão cheguei hesitante, sem empurrão de prova, só recomendação de tanta gente que fala do quão absurdo ele é. Comprei nem sei quando, em sebo, capa dura vermelha, gravado em dourado. Comecei nem sei quantas vezes, lia uma, duas, dez páginas e ia largando, nem sei por quê. Não que achasse chato nem muito menos ruim. Nas uma ou duas ou dez páginas reconhecia o gênio, mas não seguia adiante de repente porque é isso a vida. Mas eis que, dessa vez segui de pura determinação, de querer brincar com grandes e, mais que tudo, com nosso, querer ler escrito na minha língua, sem filtro nenhum de tradução, nem de temas que não são meus, de vidas que não são minhas, de lugares outros, queria era aqui. Do Sul da minha terra.
Mas, no banho, não era isso que eu pensava. Visto não ter acabado ainda o livro, apesar de estar adiantado, fiquei pensando "puta-que-o-pariu, que o Diadorim vai morrer e eu não vou aguentar". Sei não o que vai acontecer, nem muito não quero pensar, mas o diabo do Guimarães me fez uma coisa que eu matutei demais pra lembrar se já aconteceu antes e a lembrança não veio. Porque nunca aconteceu, não assim.
Eu já gostei muito de muitos livros e, no banho, pensava no que eu gostava neles. Tentei lembrar de como foi ler, pela primeira e única vez, Cem anos de solidão. Já se foram os detalhes, ficou só aquela sensação de me perder na fantasia do Márquez, da confusão de Macondo e os nomes e... não sei. Depois, o Proust e aquela loucura toda do ciúme, no começo, e o tempo, depois. De Ana Kariênina, lembro de me identificar, em potencial, com as coisas que ela fez. Pois vasculho nos não poucos romances que li e encontro que gostei em alguns da beleza da escrita e, noutros, mais, de me identificar aqui e ali com o que vinha escrito. De me reconhecer, em alguma medida, naquelas palavras impressas e de tão longe vindas. De ser sobre mim - ser egoísta que sou.
Mas o diabo do Guimarães... não me vejo ali, pelo menos não tão claramente, nem tão me identifico e, apesar da beleza, o que me surpreende é a forma como aquele gostar tão contado e recontado do Riobaldo desperta em mim, também, um gostar que é tanto e tamanho, um sei lá o quê de destino, não sei. Não é pelo espelho, é por ele, só. A vida vai, eu sei, a gente vai com ela gostando aqui e ali, algumas vezes sem mais, noutras sem menos, até que caímos um dia no livro de capa vermelha e ele desperta na gente, ou ao menos em mim, esse amor insano e desmedido, ele narra um sentimento nosso, ou meu, mas que não é aquele que estava ali antes e ele refletiu, é o que ele mesmo causou.
Isso nunca eu tinha visto, do homem vir e inventar em mim um amor que não existia. E tão apaixonado e desesperado e sentido, tão completo, por impossível que possa parecer. Eu não sei o que vai acontecer e não sei o que quero que não aconteça.
Sei apenas que é maior.
Também eu amo Diadorim.

Um comentário:

Anônimo disse...

Viu? Já está possuída. É um caminho sem volta. É o melhor caminho que já tomei.