Talvez eu esteja apenas me precipitando e devesse esperar mais alguns dias, algumas horas. Mas, enquanto tomava banho, fiquei pensando tanto nisso que achei que valia a pena dizer.
Comigo acontece sempre isso, de coisas aparentemente importantes me ocorrerem no banho - momento em que é mais fácil nos permitir divagar.
A pois eu pensava era no Guimarães. Lia, antes do banho.
Afinal, eu resolvi parar de brincar de café-com-leite e me juntar aos grandes. Juntar, assim desse jeito que o livro faz com a gente, que nos torna íntimos conhecidos, quando não nos tornamos propriamente eles. Ou eles se tornam a gente, ou nos tornamos ambos alguma outra coisa, flutuante e etérea, que paira por um tempo em algum lugar e depois desvanece.
Resolvi me juntar aos grandes e fui dar logo no maior. Toda a coisa da linguagem, pensei muito nisso, que é muito difícil um cara ir lá e decidir inventar uma língua. Mas, inventada por ele, ele meio que pode fazer o que bem entender, não é? Exige e tal uma criatividade e tanto, mas as regras são suas e você brinca de deus. Agora fodástico mesmo é o cara inventar a própria língua. Não uma só dele, uma que é nossa, que eu conheço e você conhece, e brincar de dar nó nela, trazer de lá pra cá e daqui pra lá e ir inventando e torcendo e distorcendo, eu e você ainda entendendo. Entendendo, quem sabe, mais do que nunca.
Eu me lembro, ainda, com tanta clareza, de quando li o Miguilim. Era época de vestibular, tava ele na lista e eu lendo na fazenda, sem conseguir dormir e me acabando de chorar e pensando como Guimarães era foda. Miguilim é ainda dos meus preferidos no mundo e me vem à mente com certa frequência, em ocasiões que não vale comentar, por causa do spoiler.
Ao Grande Sertão cheguei hesitante, sem empurrão de prova, só recomendação de tanta gente que fala do quão absurdo ele é. Comprei nem sei quando, em sebo, capa dura vermelha, gravado em dourado. Comecei nem sei quantas vezes, lia uma, duas, dez páginas e ia largando, nem sei por quê. Não que achasse chato nem muito menos ruim. Nas uma ou duas ou dez páginas reconhecia o gênio, mas não seguia adiante de repente porque é isso a vida. Mas eis que, dessa vez segui de pura determinação, de querer brincar com grandes e, mais que tudo, com nosso, querer ler escrito na minha língua, sem filtro nenhum de tradução, nem de temas que não são meus, de vidas que não são minhas, de lugares outros, queria era aqui. Do Sul da minha terra.
Mas, no banho, não era isso que eu pensava. Visto não ter acabado ainda o livro, apesar de estar adiantado, fiquei pensando "puta-que-o-pariu, que o Diadorim vai morrer e eu não vou aguentar". Sei não o que vai acontecer, nem muito não quero pensar, mas o diabo do Guimarães me fez uma coisa que eu matutei demais pra lembrar se já aconteceu antes e a lembrança não veio. Porque nunca aconteceu, não assim.
Eu já gostei muito de muitos livros e, no banho, pensava no que eu gostava neles. Tentei lembrar de como foi ler, pela primeira e única vez, Cem anos de solidão. Já se foram os detalhes, ficou só aquela sensação de me perder na fantasia do Márquez, da confusão de Macondo e os nomes e... não sei. Depois, o Proust e aquela loucura toda do ciúme, no começo, e o tempo, depois. De Ana Kariênina, lembro de me identificar, em potencial, com as coisas que ela fez. Pois vasculho nos não poucos romances que li e encontro que gostei em alguns da beleza da escrita e, noutros, mais, de me identificar aqui e ali com o que vinha escrito. De me reconhecer, em alguma medida, naquelas palavras impressas e de tão longe vindas. De ser sobre mim - ser egoísta que sou.
Mas o diabo do Guimarães... não me vejo ali, pelo menos não tão claramente, nem tão me identifico e, apesar da beleza, o que me surpreende é a forma como aquele gostar tão contado e recontado do Riobaldo desperta em mim, também, um gostar que é tanto e tamanho, um sei lá o quê de destino, não sei. Não é pelo espelho, é por ele, só. A vida vai, eu sei, a gente vai com ela gostando aqui e ali, algumas vezes sem mais, noutras sem menos, até que caímos um dia no livro de capa vermelha e ele desperta na gente, ou ao menos em mim, esse amor insano e desmedido, ele narra um sentimento nosso, ou meu, mas que não é aquele que estava ali antes e ele refletiu, é o que ele mesmo causou.
Isso nunca eu tinha visto, do homem vir e inventar em mim um amor que não existia. E tão apaixonado e desesperado e sentido, tão completo, por impossível que possa parecer. Eu não sei o que vai acontecer e não sei o que quero que não aconteça.
Sei apenas que é maior.
Também eu amo Diadorim.
Páginas
domingo, 26 de junho de 2011
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Vale de Lágrimas
Tanto tempo que não os ouço. Hoje, de repente, me lembrei, muito por causa do "vale de lágrimas". Na verdade, nem há tanto tempo assim já que fui ao último show deles, no carnaval de 2010, no Marco Zero, no belíssimo e saudoso Recife. Mas, sim, que não paro e ouço faz muito.
Totalmente deprimente a história toda do vale, mas hoje eu me pergunto se, com depressão ou sem, não é verdade.
Essa noite, parece ser. Por aquele incômodo tão despropositado que me surge, vez em quando, que vem subindo de dentro e eu sinto chegando e não sei expulsar, posso só esperar passar. Eu me pergunto se ele vem sozinho ou se eu é que chamo e não sei me responder.
E aquilo da gente tão não ser o que gostaria, aquele espaço infinito que existe entre a nossa imperfeição, a nossa humanidade e aquilo tudo que a gente gostaria de ser e acha que deveria ser. Cada passo desse caminho que a gente sabe que não há, cada buraco na nossa vida que a gente cavou ou que sabe muito bem onde está, que em dias como hoje não podem ser ignorados. O tanto que falta pra gente aprender, as coisas que a gente já viu, provou, sentiu e ainda não sabe e a pergunta, algo desesperada, se algum dia saberemos. Tanto que falta que o que parece é que não fica nada, só ausência. Tão grande, tanta, tanto vazio que sufoca.
Mas eu sei, com esse jeito nosso de saber das coisas, que o que dói hoje é a ponte. Que eu sabia que ia tocar fogo, larguei o fósforo acesso, mas eis que agora só o fogo pegou e começou a rugir. E é alto, como eu sabia que seria, e é quente, como eu sabia que seria, mas saber que é não muda muita coisa. Ainda queima e por tantos motivos. Nem pela ponte, em si, mas pelo que a fez queimar.
Hoje é a noite do acerto de contas, das decisões que foram tomadas e, em alguma medida, equivocadas. Nem levianamente - se é que há algo no vale de lágrimas que não é leviano - e nem por maldade - tirando a parte que há em tudo - mas só e simplesmente pela tentativa. A prova do pudim. Como a gente vai saber que uma coisa dá errado se não for lá e tentar? Tentamos, falhamos; nem é grande o crime, é só que tem que ser pago, porque a vida não brinca de ser inconsequente. Ela brinca de cobrar as contas.
E, não sei, pode ser que haja beleza nisso da resposta. Na forma como a gente vai desenhando nosso destino, como a Mafalda e o plano dela de ir ao Japão. Parando e pensando e olhando para trás, o caminho que me trouxe aqui é tão claro, mesmo sem ser óbvio, os motivos se sucedendo, em fileiras não tanto organizadas, mas que fazem sentido. Como o passo que se põe depois do outro, os feitos e desfeitos se seguindo e trazendo inescapavelmente até essa noite em que, em meio ao turbilhão, penso: "vale de lágrimas".
Oh, que caminho tão longe:
Totalmente deprimente a história toda do vale, mas hoje eu me pergunto se, com depressão ou sem, não é verdade.
Essa noite, parece ser. Por aquele incômodo tão despropositado que me surge, vez em quando, que vem subindo de dentro e eu sinto chegando e não sei expulsar, posso só esperar passar. Eu me pergunto se ele vem sozinho ou se eu é que chamo e não sei me responder.
E aquilo da gente tão não ser o que gostaria, aquele espaço infinito que existe entre a nossa imperfeição, a nossa humanidade e aquilo tudo que a gente gostaria de ser e acha que deveria ser. Cada passo desse caminho que a gente sabe que não há, cada buraco na nossa vida que a gente cavou ou que sabe muito bem onde está, que em dias como hoje não podem ser ignorados. O tanto que falta pra gente aprender, as coisas que a gente já viu, provou, sentiu e ainda não sabe e a pergunta, algo desesperada, se algum dia saberemos. Tanto que falta que o que parece é que não fica nada, só ausência. Tão grande, tanta, tanto vazio que sufoca.
Mas eu sei, com esse jeito nosso de saber das coisas, que o que dói hoje é a ponte. Que eu sabia que ia tocar fogo, larguei o fósforo acesso, mas eis que agora só o fogo pegou e começou a rugir. E é alto, como eu sabia que seria, e é quente, como eu sabia que seria, mas saber que é não muda muita coisa. Ainda queima e por tantos motivos. Nem pela ponte, em si, mas pelo que a fez queimar.
Hoje é a noite do acerto de contas, das decisões que foram tomadas e, em alguma medida, equivocadas. Nem levianamente - se é que há algo no vale de lágrimas que não é leviano - e nem por maldade - tirando a parte que há em tudo - mas só e simplesmente pela tentativa. A prova do pudim. Como a gente vai saber que uma coisa dá errado se não for lá e tentar? Tentamos, falhamos; nem é grande o crime, é só que tem que ser pago, porque a vida não brinca de ser inconsequente. Ela brinca de cobrar as contas.
E, não sei, pode ser que haja beleza nisso da resposta. Na forma como a gente vai desenhando nosso destino, como a Mafalda e o plano dela de ir ao Japão. Parando e pensando e olhando para trás, o caminho que me trouxe aqui é tão claro, mesmo sem ser óbvio, os motivos se sucedendo, em fileiras não tanto organizadas, mas que fazem sentido. Como o passo que se põe depois do outro, os feitos e desfeitos se seguindo e trazendo inescapavelmente até essa noite em que, em meio ao turbilhão, penso: "vale de lágrimas".
Oh, que caminho tão longe:
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Fortuna
Redescobri aqui um puta hino, que eu já amei profundamente mas que caiu nos braços do esquecimento. Porque é isso, né?, a gente meio que vai amando uma coisa por vez, e o amor de ontem fica ultrapassado e relegado pelo de hoje, e o de hoje pelo de amanhã e assim eternamente.
Eu ainda penso, como pensava há muitos anos, que isso meio que significa que a gente não ama nada verdadeiramente, se tudo passa. Ou talvez a verdade seja mesmo que o que vale são esses pequenos momentos de amores passageiros e tudo bem eles passarem, porque como vão, vêm.
Então eu ando num momento mais pro rock'n'roll, ainda que matizado pelos adorados brasileiros que tanto fazem a minha cabeça. Mas tenho ouvido a Kiss FM mais do que qualquer outra rádio e o sentido de estar ali é permitir a ela que me apresente coisas novas. Novas para mim, obviamente, que não conheço nada de nada. Então ouvi, numa programação dessas, uma do David Coverdale e caí de volta em "Soldier of Fortune". Que eu ouvia muito numa fase Deep Purple, também há muitos anos. E são tantas as ligações despertas.
Lembrei de um melhor amigo que tive - não sei até que ponto tenho - que adorava - não sei até que ponto ainda adora - Deep Purple. Uma vez, a gente foi viajar e ele entrou no carro e colocou um cd roxo no aparelho de som e falou: Adivinha ae quem é. É claro que eu não vou reconhecer voz nenhuma, nem música nenhuma - ok, talvez quando chegasse em tipo Smoke on the Water, mas ainda assim. E ele dizia, enquanto eu me afobava pensando que diabo de banda era aquela: "olha o cd que você vai adivinhar". De um tempo em que as coisas eram mais simples. Em que éramos mais iguais.
Depois encontrei gravada uma conversa que tivemos, na outra vida, sobre um desentendimento que não chegamos a ter. É tão fácil a gente sair julgando os outros, né? E também tão fácil a gente sair se culpando por tudo o que acontece, apesar da contradição. E demais são as perguntas que ficam sem resposta.
Então caí em "Soldier of Fortune" e me lembrei dele. Além da música ser do caralho - como ele me ensinou a dizer.
E no ano passado, quando eu fiz uma pequena incursão pelo twitter para acompanhar a campanha, vi uma espécie de enigma que a Márcia Tiburi colocou no dela, perguntando qual era a única coisa do mundo, ou da vida, que não tem preço. E galera falando um tantão de coisa, amor, educação, felicidade e ela dizendo que não, porque bem ou mal essas coisas a gente pode comprar - ou ao menos a ilusão delas. E que a única única coisa que não tem preço, que é inestimável, é o acaso. Que, pelos mais crentes, pode ser chamado de destino. Ela deve mesmo ter falado de um jeito muito mais bonito, mas me lembro de ler e pensar "aaahn..., não é que é, mesmo?".
E essa semana tava ouvindo uma colega contar que ganhou uma lembrancinha num restaurante japonês e que são dois gatinhos e um atrai, sei lá, felicidade, saúde e mais não sei o quê, e o outro era fortuna. Fiquei me perguntando até que ponto ela entendia fortuna como isso, sorte, acaso, destino, e até onde pra ela era dinheiro, dinheiro, dinheiro. Porque, sei lá, tem gente que é isso, né? Ou, mais uma vez, eu que sou tosca e acho que as pessoas não vêem as coisas na mesma profundidade que eu. Parte de mim se pergunta se essas minhas indagações não são só coisa de quem tem muito tempo livre.
Mas o ponto é esse: fortuna é uma idéia que me agrada. Como destino, mas ele tem aí alguma coisa como que programada, exige uma fé que eu não sei se tenho. Prefiro acaso. A força que comanda nossas vidas e tudo aquilo. E, sem fé, traz esperança - não sei bem de quê, talvez só disso. De uma música inesperada numa estação de rádio que se ouve num carro, dirigindo ao pôr-do-sol de uma tarde de inverno.
Eu ainda penso, como pensava há muitos anos, que isso meio que significa que a gente não ama nada verdadeiramente, se tudo passa. Ou talvez a verdade seja mesmo que o que vale são esses pequenos momentos de amores passageiros e tudo bem eles passarem, porque como vão, vêm.
Então eu ando num momento mais pro rock'n'roll, ainda que matizado pelos adorados brasileiros que tanto fazem a minha cabeça. Mas tenho ouvido a Kiss FM mais do que qualquer outra rádio e o sentido de estar ali é permitir a ela que me apresente coisas novas. Novas para mim, obviamente, que não conheço nada de nada. Então ouvi, numa programação dessas, uma do David Coverdale e caí de volta em "Soldier of Fortune". Que eu ouvia muito numa fase Deep Purple, também há muitos anos. E são tantas as ligações despertas.
Lembrei de um melhor amigo que tive - não sei até que ponto tenho - que adorava - não sei até que ponto ainda adora - Deep Purple. Uma vez, a gente foi viajar e ele entrou no carro e colocou um cd roxo no aparelho de som e falou: Adivinha ae quem é. É claro que eu não vou reconhecer voz nenhuma, nem música nenhuma - ok, talvez quando chegasse em tipo Smoke on the Water, mas ainda assim. E ele dizia, enquanto eu me afobava pensando que diabo de banda era aquela: "olha o cd que você vai adivinhar". De um tempo em que as coisas eram mais simples. Em que éramos mais iguais.
Depois encontrei gravada uma conversa que tivemos, na outra vida, sobre um desentendimento que não chegamos a ter. É tão fácil a gente sair julgando os outros, né? E também tão fácil a gente sair se culpando por tudo o que acontece, apesar da contradição. E demais são as perguntas que ficam sem resposta.
Então caí em "Soldier of Fortune" e me lembrei dele. Além da música ser do caralho - como ele me ensinou a dizer.
E no ano passado, quando eu fiz uma pequena incursão pelo twitter para acompanhar a campanha, vi uma espécie de enigma que a Márcia Tiburi colocou no dela, perguntando qual era a única coisa do mundo, ou da vida, que não tem preço. E galera falando um tantão de coisa, amor, educação, felicidade e ela dizendo que não, porque bem ou mal essas coisas a gente pode comprar - ou ao menos a ilusão delas. E que a única única coisa que não tem preço, que é inestimável, é o acaso. Que, pelos mais crentes, pode ser chamado de destino. Ela deve mesmo ter falado de um jeito muito mais bonito, mas me lembro de ler e pensar "aaahn..., não é que é, mesmo?".
E essa semana tava ouvindo uma colega contar que ganhou uma lembrancinha num restaurante japonês e que são dois gatinhos e um atrai, sei lá, felicidade, saúde e mais não sei o quê, e o outro era fortuna. Fiquei me perguntando até que ponto ela entendia fortuna como isso, sorte, acaso, destino, e até onde pra ela era dinheiro, dinheiro, dinheiro. Porque, sei lá, tem gente que é isso, né? Ou, mais uma vez, eu que sou tosca e acho que as pessoas não vêem as coisas na mesma profundidade que eu. Parte de mim se pergunta se essas minhas indagações não são só coisa de quem tem muito tempo livre.
Mas o ponto é esse: fortuna é uma idéia que me agrada. Como destino, mas ele tem aí alguma coisa como que programada, exige uma fé que eu não sei se tenho. Prefiro acaso. A força que comanda nossas vidas e tudo aquilo. E, sem fé, traz esperança - não sei bem de quê, talvez só disso. De uma música inesperada numa estação de rádio que se ouve num carro, dirigindo ao pôr-do-sol de uma tarde de inverno.
sábado, 11 de junho de 2011
5:32
Pois é, estava ela ali nos meus favoritos e meses depois voltei.
Não por acaso; o caminho é muito claro: Renacta, Transylvania, Tony Gatlif, Vengo, Antonio Canales, Concha Jareno.
Aí eu vi ontem e vi hoje. E não consigo não parar o diabo do youtube, não fazê-lo voltar aos mesmos exatos dois segundos de meses atrás.
Além de reiterar o que já disse, percebo que uma pessoa como eu só pode estar destinada a ser infeliz. Talvez não completamente, mas esse pedaço de mim que não encontra nunca satisfação e insiste em ver e rever a mesma coisa e tentar absorver ali o que é impossível absorver, que tenta manter a areia nas mãos mesmo sabendo que ela escapa entre os dedos, que tenta fazer um segundo, ou dois, durar eternamente. Esse pedaço, que eu não sei se é só meu ou se é de todos nós, me prende.
E é um pedaço tão minúsculo, tem aí dois segundos, e é só que nele cabe tanto.
E é só nele que cabe também a felicidade, porque mesmo sabendo impossível alcançá-los, não é preciso nada além daqueles dois segundos.
Tudo cabe em 5:32.
Não por acaso; o caminho é muito claro: Renacta, Transylvania, Tony Gatlif, Vengo, Antonio Canales, Concha Jareno.
Aí eu vi ontem e vi hoje. E não consigo não parar o diabo do youtube, não fazê-lo voltar aos mesmos exatos dois segundos de meses atrás.
Além de reiterar o que já disse, percebo que uma pessoa como eu só pode estar destinada a ser infeliz. Talvez não completamente, mas esse pedaço de mim que não encontra nunca satisfação e insiste em ver e rever a mesma coisa e tentar absorver ali o que é impossível absorver, que tenta manter a areia nas mãos mesmo sabendo que ela escapa entre os dedos, que tenta fazer um segundo, ou dois, durar eternamente. Esse pedaço, que eu não sei se é só meu ou se é de todos nós, me prende.
E é um pedaço tão minúsculo, tem aí dois segundos, e é só que nele cabe tanto.
E é só nele que cabe também a felicidade, porque mesmo sabendo impossível alcançá-los, não é preciso nada além daqueles dois segundos.
Tudo cabe em 5:32.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Garrafas
Tava aqui, meio assistindo-sem-prestar-muita-atenção Glee, meio viajando pela internet, lendo aqui uma coisa ou outra, ouvindo mais ou menos uma música.
Vi o lance que a Claro fez sobre "Eduardo e Mônica" e achei mesmo tão bonitinho. Tão não sabia que a música tinha 25 anos - naquelas de que quando saiu eu tinha três, portanto eu não me lembro, mas também sempre soube que não fui a geração de acompanhar Legião como novidade.
E tenho achado tão tão esquisito isso de ter 28. Pessoas têm me perguntado muito, ultimamente, a minha idade. Aí umas acham que não parece, que me dariam 22 (sim, eu duvido seriamente da sinceridade delas, mas enfim), enquanto outras olham para mim como se eu devesse cair morta na frente delas, só porque venceu meu prazo de validade. Mas o que me deixa meio bolada é mesmo o lance do 28. Ou, mais ainda, do 29. De 29 eu gosto, porque é primo. E tem toda aquela história, de que já ouvi muito falar mas não aprofundei, do retorno de Saturno. E de estar ali, na beira dos 30. Aí não sei de onde comecei a me associar mais com 29 que com 28, talvez numa de me preparar, ou sentir alguma ansiedade que eu não sei ainda se é boa ou má. O fato, de qualquer maneira, é que esse ano tá indo em turbo e eu meio que começo a me preparar para o próximo. Se bem que, pra mim, cada semestre é um ano, e eu me preparo também para a segunda metade que já está na esquina. Com as mudanças e talz, esperando um pouco mais de agitação e discussão e cafés e cervejas e chorinhos e sabendo que bem pode não sair nenhum coelho desse mato. E é só que até lá, muitas pedras ainda vão rolar. Ou só uma pedra, mas uma pedra meio grande.
Mas, sim, eu dizia estar aqui sentada, meio aqui, meio ali. E entre uma coisa e outra, me peguei pensando que eu cavei um buraco e super entrei dentro. Sei lá, acho que buraco todo mundo vive cavando, só que algumas pessoas pulam para lá e ali ficam, enquanto outras vão tentando achar uma saída. E nem sei se eu também não sigo buscando, o lance todo é que eu estou muito dentro do buraco. Nem chega a ser um mau buraco, tirando o fato óbvio de ser buraco.
Eu tenho pensado muito, nas últimas semanas, em escrever sobre algumas decisões que tomei. Uma, em particular, algo séria profissionalmente, que eu chamaria de "queimar pontes". Naquele lance todo de exército em guerra, recuando à toda, e queimando tudo que deixasse para trás, para não ser usado pelo inimigo? Nem que eu tenha inimigo a temer, só mesmo a impossibilidade de voltar, depois de atravessar. O que me causa uma considerável angústia - mas também ouvi uma coisa, semana passada, que me deixou meio bolada: que me falta a mim, em particular, e à minha geração em geral, ousadia. Fiquei matutando sobre a questão. Será?
Acho mesmo que estamos no tornando, de maneira generalizada, muito mais conservadores. Eu sou até que bastante conservadora, não por príncipio e mais pelo jeito caxias de ser. Mas não em princípio, o que parece fazer muita diferença.
Então, algo animada com o próximo meio-ano que se aproxima, começo a me animar um pouco. Com o ano-inteiro, me animo mais. Numas de realmente me preparar, como não fiz da outra vez. Algo como estudar, conhecer, planejar e me envolver e não apenas cair de pára-quedas.
É só que, para trás, ficam as pontes. E eu dentro do buraco.
Pode ser a sanidade que escapa pela janela, mas eu nesta noite invernal acho é graça.
E, é claro, conto com as mensagens que larguei por aí.
Em garrafas.
Vi o lance que a Claro fez sobre "Eduardo e Mônica" e achei mesmo tão bonitinho. Tão não sabia que a música tinha 25 anos - naquelas de que quando saiu eu tinha três, portanto eu não me lembro, mas também sempre soube que não fui a geração de acompanhar Legião como novidade.
E tenho achado tão tão esquisito isso de ter 28. Pessoas têm me perguntado muito, ultimamente, a minha idade. Aí umas acham que não parece, que me dariam 22 (sim, eu duvido seriamente da sinceridade delas, mas enfim), enquanto outras olham para mim como se eu devesse cair morta na frente delas, só porque venceu meu prazo de validade. Mas o que me deixa meio bolada é mesmo o lance do 28. Ou, mais ainda, do 29. De 29 eu gosto, porque é primo. E tem toda aquela história, de que já ouvi muito falar mas não aprofundei, do retorno de Saturno. E de estar ali, na beira dos 30. Aí não sei de onde comecei a me associar mais com 29 que com 28, talvez numa de me preparar, ou sentir alguma ansiedade que eu não sei ainda se é boa ou má. O fato, de qualquer maneira, é que esse ano tá indo em turbo e eu meio que começo a me preparar para o próximo. Se bem que, pra mim, cada semestre é um ano, e eu me preparo também para a segunda metade que já está na esquina. Com as mudanças e talz, esperando um pouco mais de agitação e discussão e cafés e cervejas e chorinhos e sabendo que bem pode não sair nenhum coelho desse mato. E é só que até lá, muitas pedras ainda vão rolar. Ou só uma pedra, mas uma pedra meio grande.
Mas, sim, eu dizia estar aqui sentada, meio aqui, meio ali. E entre uma coisa e outra, me peguei pensando que eu cavei um buraco e super entrei dentro. Sei lá, acho que buraco todo mundo vive cavando, só que algumas pessoas pulam para lá e ali ficam, enquanto outras vão tentando achar uma saída. E nem sei se eu também não sigo buscando, o lance todo é que eu estou muito dentro do buraco. Nem chega a ser um mau buraco, tirando o fato óbvio de ser buraco.
Eu tenho pensado muito, nas últimas semanas, em escrever sobre algumas decisões que tomei. Uma, em particular, algo séria profissionalmente, que eu chamaria de "queimar pontes". Naquele lance todo de exército em guerra, recuando à toda, e queimando tudo que deixasse para trás, para não ser usado pelo inimigo? Nem que eu tenha inimigo a temer, só mesmo a impossibilidade de voltar, depois de atravessar. O que me causa uma considerável angústia - mas também ouvi uma coisa, semana passada, que me deixou meio bolada: que me falta a mim, em particular, e à minha geração em geral, ousadia. Fiquei matutando sobre a questão. Será?
Acho mesmo que estamos no tornando, de maneira generalizada, muito mais conservadores. Eu sou até que bastante conservadora, não por príncipio e mais pelo jeito caxias de ser. Mas não em princípio, o que parece fazer muita diferença.
Então, algo animada com o próximo meio-ano que se aproxima, começo a me animar um pouco. Com o ano-inteiro, me animo mais. Numas de realmente me preparar, como não fiz da outra vez. Algo como estudar, conhecer, planejar e me envolver e não apenas cair de pára-quedas.
É só que, para trás, ficam as pontes. E eu dentro do buraco.
Pode ser a sanidade que escapa pela janela, mas eu nesta noite invernal acho é graça.
E, é claro, conto com as mensagens que larguei por aí.
Em garrafas.
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