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domingo, 24 de outubro de 2010

Cristiane Santos

Acho bonito e me emociona. Eu acredito nessa causa, para mim o que está em questão é exatamente isso, que chamam de esmola, assistencialismo e pode, afinal, significar simplesmente parar de doer. Ou diminuir a dor, cujo tamanho não posso imaginar.
De fato, não compreendo aqueles que discordam.
Eu não só compro, como acho bonito e me emociono.

sábado, 23 de outubro de 2010

5:32

Ok, ok, Maria Helena.
Ninguém vai concordar comigo, nem ver aí o que eu vejo.
Mas eu vejo, vejo e não consigo parar de ver.
A coisa é toda linda e a bata de cola é um lance assim quase assustador, na verdade, mas o que me gamou nesse vídeo são ali os dois segundos de jogo de corpo, que me impressionaram.
Toda a técnica é maravilhosa, mas para além do todo, esses dois segundos para mim se destacam como definição de arte.
Primeiro me apaixonei pela encurvadinha que ela dá, exatamente aos 5:32. A guitarra dá uma nota mais grave que parece cair exatamente nas costas da bailaora. É tão sutil, a mudança na postura, e tão perfeita. Acho que é isso que o comum das pessoas não consegue fazer: dar expressão ao movimento.
E a música é muito bonita.
Enfim, um desses detalhes em que fico como viciada; vejo inúmeras vezes e parece que falta em mim capacidade para absorver a beleza do corpo que se curva. Como se precisasse de mais eu para alcançar, como se aquele segundo, 5:32, não fosse suficiente, como se devesse ser maior, talvez eterno.
E tão pessoal, como essas coisas que só a nós faz sentido, que em outros olhos passarão em branco, que não despertarão paixões outras, mas ainda assim...
Em mim desperta.
E me desperta.
Concha Jareño, no silencio:

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Silencio

Uma das coisas de que não gosto em mim é o fato de eu não ser uma pessoa que sabe tudo sobre alguma coisa. Também é uma coisa de que gosto, isso lá é verdade mas agora não vem ao caso.
Sabem essas pessoas que sabem tudo sobre alguma coisa? Qualquer coisa? Ok, talvez não tudo, mas muito, muitão?
Eu tenho aqui a capacidade de gostar demais, mas dificilmente sou motivada por essa paixão desenfreada que te faz conhecer muitíssimo profundamente alguma coisa. Eu normalmente gosto de gostar assim, algo na superfície, gostar daquilo por aquilo que é, não pelo tanto de coisa que tem em volta.
Aí fico pensando que talvez seja uma mentira, isso de eu não ter paixão desenfreada, mas me refiro especificamente a esse tipo de paixão. O outro tipo, que eu sinto, me torna capaz, por exemplo, de ouvir a mesma música trocentas vezs, ou repetir o mesmo pedacinho da música, ou ler o mesmo livro, ou o mesmo trecho - muitas vezes sem saber muito sobre o cara que compôs, cantou ou escreveu. Gosto dessa.. impessoalidade artística, se se pode chamar assim. Gosto de gostar da arte e pronto.
Talvez seja uma paixão mais burra, mas não é menos paixão por isso.
E depois há coisas que eu prefiro não saber, que são menos importantes mas que, implicante que sou, me fazem gostar menos.
Então eu agora recebi da minha professora uma das duas músicas cujas coreografias estamos aprendando, nas aulas de flamenco. Uma, a que está mais avançada, já me fisgou há tempos. Tem uns sapateados completamente malucos, quase impossíveis de decorar porque fazem pouco sentido, mas que são deliciosos de fazer, depois de pegarmos o jeito. Ou de tentar fazer - acho que talvez seja um dos aspectos mais valiosos de se cultivar na vida, e não sei exatamente de onde ele vem, isso de você sentir um prazer enorme em tentar. Não ficar desmotivado por não conseguir, não se frustrar ao errar a mesma coisa pela décima vez, mas sentir só mais vontade de continuar tentando, e continuar tentando. Eu confesso que, apesar de muitas vezes me acabar, não sinto cansaço nas aulas. Sinto que minhas pernas já não respondem, não obedecem diligentemente os comandos que lhe são passados. Acontece então um fenômeno interessante, porque o corpo fica, obviamente, fatigado, mas não eu - e eu sou, para além do corpo e somado a ele. Eu sou tantas e elas se contradizem, e são todas eu e fazem sentido.
Mas recebi agora da minha professora a outra música, que eu comecei a aprender praí há dois ou três anos, mas fui viajar, mudei de turma, comecei de novo a aprender e nada de sair nada. Talvez porque eu estivesse tão enlevada pela outra que não me sobrou gosto para dar a essa.
Até que chegamos a uma parte chamada "silencio".
Se eu fosse dessas pessoas que sabem tudo de alguma coisa, eu saberia tudo de flamenco. Saberia então explicar que respiro é esse, pausa enlevada numa melodia agitada, em que a guitarra parece perder a força e se transformar em carícia. Com uma leveza e uma delicadeza que embalam, dão vontade de ficar ali para sempre, como num novo dia, um novo ar, como num lugar diferente e melhor.
Se eu fosse dessas pessoas que sabem tudo de alguma coisa, poderia pesquisar na internet e ficar horas vendo exemplos, lendo explicações, tentando assimilar informações. E depois saberia explicar, tintim por tintim, como é, de onde veio, por onde vai.
Se fosse poeta, saberia contar.
Como não sou, me contento, por essa noite, em ouvir,
E chama silencio, o que me parece ser próximo de perfeito.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Dilma

O lance é que a coisa tá estourada e a internet tá pegando fogo.
Eu que já afirmei tantas vezes ir contra a maré, não ter facebook nem twitter, quase me curvo às modernidades para conseguir acompanhar - e entender - a putaria que virou essa eleição.
Nem entendo muito de política, minha memória é falha demais para conseguir reter o mundo de informações necessários para tal compreensão. Ou eu que sou falha, mesmo, e disperso minha atenção num monte de bobeiras que não muda em nada a vida de ninguém.
É só que isso muda, né?
A de muita gente.
Tenho sentido falta, nos últimos tempos, de um tantão desse tipo de coisas, que mudam, que eu conheço e discuto superficialmente demais. Talvez seja a mudança de status pesando, talvez seja a idade chegando e exigindo de mim maior comprometimento, ou alinhamento, ou coerência, ou sei lá o que que adultos pretensamente têm e eu ainda tenho de alcançar.
De repente, comecei a me incomodar com esse meu descompromisso, a falta de tomada de posição - muitas vezes motivada pelo tédio. E a preguiça. Não tenho mesmo saco para um monte gigantesco de coisas que rodam por aí, mas há que se ter para algumas, né? Nem que seja entre amigos. E amigavelmente.
Tenho lido tanta coisa tão bacana, nos últimos dias. Tão melhor do que eu poderia dizer.
Mas aí resolvi fazer alguma coisa, do tamanho das minhas possibilidades, como responder às notícias estapafúrdias que ainda conseguem me chegar, apesar do isolamento.
Sem a menor pretensão de convencer ninguém, até porque moscas e aranhas não contam como voto válido. Podia reproduzier textos super articulados e esclarecedores, ou tentar eu explicar alguma coisa, mas esse não é o objetivo, aqui e agora.
É só dizer, mesmo, marcar, tal como fazemos na urna.
E vir dizer que eu voto.

O problema é o meio

Isso porque o Zeca nem é meu amor maior do momento.
Ele, o que é, é de Casa Amarela.
É só que eu meio que decidi, porque tenho de trabalhar e não quero muito (ou porque meu processo é esse mesmo, de um passo para frente e uma quadrilha toda ao redor), mas decidi resolver aqui uns assuntos pendentes, respostas deixadas para momentos mais... não sei, propícios, calmos, claros, ou só posteriores.
Tem graça o fato de meus últimos meses terem sido recheados por esses reencontros que causam alguma estranheza e sei lá mais o quê. Às vezes saudades, noutras expectativas, ou só lembranças, ou só carinho, ou nada. Não sei direito e me sinto meio bêbada.
Mas lembrei do Zeca cantando ao Odair, em que ele fala da felicidade e das cruzes e crises, e eu gosto do jeito como ele fala aquilo de a felicidade vir quando a gente menos espera, e "ela vem. Vai, vem, vai, vem, vai-vem-vai-vem-vai, vem, vai, vem, vai. Vem. Vai." Sei lá, gosto do ritmo, gosto da voz, gosto do que ele diz, gosto dele.
E é tão isso a vida, né? Vai e vem e vai. E vem. E vai. E quando será que termina? Mas só termina quando acaba, quem é que diz isso?, e a gente não sabe nunca quando é.
Ai, o futuro, que gosta de brincar de esconder e fica deixando rastros, sem nunca ser alcançado.
O futuro que não existe, mas a gente gosta de inventar que sim, de repente numas de deixar para fazer nele o que deveríamos estar fazendo agora.
É só que isso da resposta... tem horas que parece um vazio a ser preenchido, mas depois... não sei, acho que a verdade é que não me conformo, ou melhor, não consigo sempre aceitar isso da vida ser essa desconhecida; das pessoas serem assim inalcançáveis e de a gente também não conseguir se chegar. Faz sentido, será?
Sinto agora uma coisa sem nome. Será que não tem ou eu apenas ignoro?
É algo assim: não é tristeza, também não é alegria, tem um quê de tédio e dor nas costas, uma parcela de sono, mas também de dormir em excesso, não é vazio, mas não é cheio, não dói, não coça, não faz cócegas, não aperta e não explode, mas ainda não é vazio, não desespera, não é solitário, é assim, isso tudo e não sei mais o quê.
Como será que chama?
Ok, volto então ao trabalho esperando com ele me livrar de outra coisa que sinto e cujo nome conheço bem demais. Começa com cul-, e termina com -pa.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ao vento

Fui recentemente advertida (no melhor sentido da palavra) por ter sumido dessas errâncias. A verdade é que entre chorinhos, cachaças e gripe tenho mesmo andado sem muita vontade de escrever. E há o medo do Serra, mas isso não vem ao caso.
O que importa é que fico ouvindo esse amoreco do Zeca dizendo que, se pudesse, dava embora o sotaque dele, e o penacho de brincante, e acho tão querido.
Vejo é muita importância nisso de ser querido. Na possibilidade de um ser humano demonstrar, por qualquer meio que seja, essa qualidade inestimável – sublime, né? – do bem-querer. Sempre me dizem que chamar uma pessoa de fofa implica dizer que ela é meio feiosa ou, em resumo, pouco atraente. De repente isso até lá é verdade para o comum das pessoas; eu como sou esquisita me apaixono fácil por isso do cuidado. Gosto muito de demonstrações de força, mas não acho nem de perto, nem de longe, que ela é incompatível com delicadeza.
Acho, portanto, querido, e me toca.
Afe, estou fazendo uma coisa mega estranha – tenho até preguiça de explicar, mas é o seguinte: com o computador desligado, a cama recém-arrumada, lençóis deliciosamente limpos e cobertores macios, senti alguma vontade de escrever, mas não quis ligar a parafernália toda e decidi escrever à mão. Também porque é uma coisa que vivo dizendo a mim mesma que vou fazer, numas de me preparar para um dia afinal fazer um diário de viagem. Mas o lance é que não curto escrever balançando o lápis, assim, desenhando letrinha por letrinha. Ou gosto mais da idéia que da realidade. Não pouco pelo fato de, má desenhista que sou, as letras saírem todas garranchosas e praticamente ininteligíveis. E ainda tenho essa mania de separar as palavras, aí ninguém entende nada mesmo – inclusive eu. Mas achei que valia o exercício, então há alguma chance de eu depois, amanhã ou depois de amanhã, transmitir esses pensamentos soltos para a ordem dos caracteres estilizados.
De todo jeito, eu não cacei papel e lápis para dizer só isso. É que eu me dei conta – paro e explico: me agrada demais essa expressão, “dar-se conta”, porque parece refletir o processo mesmo de tomada de consciência, de perceber de fato alguma coisa que já se sabia, mas que ainda não tinha entrado, como se o volume da coisa conhecida passasse de um murmuro de vento, ou um sussurro à distância, para um som estrondoso, acompanhado às vezes de uma bela sacudidela nos ombros, quiçá até tapa na cara, que nos revela aquela verdade já conhecida, mas da qual ainda não nos déramos conta.
E o que eu descobri é aquele clichezão, clichê-rei, de que... resumindo, nós não temos tempo. Penso sempre demais nisso, permito-me pensar na minha própria mortalidade e, talvez mais importante, na daqueles que me são queridos, imaginando que o medo despertado por essa consciência possa servir de estímulo à valorização constante da vida e das relações que desenvolvemos ao longo dela.
Ainda assim, caio na armadilha de perceber relações desgastadas, cheias de ressentimento e condenação e desrespeito, e pensar que vou ter tempo no futuro para resolvê-las. Como se o tempo fosse, em si, solução mágica para alguma coisa, como se ele mudasse sozinho qualquer situação, sem exigir dos envolvidos um baita comprometimento e esforço.
Mas de repente, vendo um filme idiota, sou tomada pelo desconforto despertado pelo pensamento: e se fulano morrer amanhã? Será que eu sobreviveria à culpa dos gritos e caras viradas, da falta de carinho e cuidado – esse valor que me é tão caro, mas que em determinadas situações tenho tanta facilidade em negligenciar?
E tem toda a coisa, e o peso, dos títulos que as pessoas incorporam, pelo lugar mesmo que ocupam, e que acabam se misturando inescapavelmente às próprias pessoas.
Talvez fosse possível sobreviver à pessoa, mas não ao título. E tudo pode acabar tão rápido e mal...
Tive recentemente a oportunidade de reagir infantilmente a uma circunstância banal, e meio que me justifiquei dizendo que de repente eu tinha feito alguém pensar sobre essas besteiras cotidianas, que cometemos tão levianamente. Dar-se conta. Quando voltei ao (quase, sempre quase!) pleno uso da minha razão, me dei eu conta de que isso meio que não existe. Da gente despertar as pessoas. Elas acordam e dormem conforme sua vontade, ou capacidade, ou necessidade – ou qualquer outro motivador que agora me escapa.
Então nem tenho intenção de abrir os olhos de ninguém – até porque sei que não há tanta gente assim cujos olhos eu poderia alcançar e de qualquer modo já meio desisti da idéia de mudar o mundo e tudo aquilo. De novo, venho só contar para o vento algumas reflexões baratas, talvez porque ao colocá-las sobre esse fundo ocre eu vou me construindo e me conhecendo e me mostrando. Isso do que a gente é, né? Isso e o contrário, verdade e mentira e talz.
Posso acrescentar ainda que resolvi, por hoje, aquele desconforto, muito simplesmente na verdade, através da gentileza – e do cultivo dos mesmos dilemas, numas de não sair do estado de alerta.
O vento... me lembra minha mãe cantando a música dele, eu tão criança, música que meio amava, meio odiava, não sei bem por quê. Ela diz algo como “vento que balança a folha do coqueiro, vento que (levanta) as ondas do mar, vento que passeia pela praia, me traz notícias de lá...”
Minha mãe inventou, ou melhor, adaptou, músicas para mim e para a irmã, que cantava quando éramos pequenas. A minha era mais famosinha (pero no mucho) e eu não revelo nem sob tortura – o que minha irmã costumava fazer comigo, tortura, sabendo que eu não gostava. Ensinava geral e puxava o coro, apreciando minha cara de ódio e síncope.
Essa do vento não era de ninguém, nem minha nem da irmã, a mãe só cantava sei lá por que, vinda sei lá de onde.
Não é engraçado que hoje eu durma mesmo sob o som do vento nos coqueiros? – ok, palmeiras, mas a idéia é praticamente a mesma.
Mas hoje minha mãe não canta.