Uma das coisas de que não gosto em mim é o fato de eu não ser uma pessoa que sabe tudo sobre alguma coisa. Também é uma coisa de que gosto, isso lá é verdade mas agora não vem ao caso.
Sabem essas pessoas que sabem tudo sobre alguma coisa? Qualquer coisa? Ok, talvez não tudo, mas muito, muitão?
Eu tenho aqui a capacidade de gostar demais, mas dificilmente sou motivada por essa paixão desenfreada que te faz conhecer muitíssimo profundamente alguma coisa. Eu normalmente gosto de gostar assim, algo na superfície, gostar daquilo por aquilo que é, não pelo tanto de coisa que tem em volta.
Aí fico pensando que talvez seja uma mentira, isso de eu não ter paixão desenfreada, mas me refiro especificamente a esse tipo de paixão. O outro tipo, que eu sinto, me torna capaz, por exemplo, de ouvir a mesma música trocentas vezs, ou repetir o mesmo pedacinho da música, ou ler o mesmo livro, ou o mesmo trecho - muitas vezes sem saber muito sobre o cara que compôs, cantou ou escreveu. Gosto dessa.. impessoalidade artística, se se pode chamar assim. Gosto de gostar da arte e pronto.
Talvez seja uma paixão mais burra, mas não é menos paixão por isso.
E depois há coisas que eu prefiro não saber, que são menos importantes mas que, implicante que sou, me fazem gostar menos.
Então eu agora recebi da minha professora uma das duas músicas cujas coreografias estamos aprendando, nas aulas de flamenco. Uma, a que está mais avançada, já me fisgou há tempos. Tem uns sapateados completamente malucos, quase impossíveis de decorar porque fazem pouco sentido, mas que são deliciosos de fazer, depois de pegarmos o jeito. Ou de tentar fazer - acho que talvez seja um dos aspectos mais valiosos de se cultivar na vida, e não sei exatamente de onde ele vem, isso de você sentir um prazer enorme em tentar. Não ficar desmotivado por não conseguir, não se frustrar ao errar a mesma coisa pela décima vez, mas sentir só mais vontade de continuar tentando, e continuar tentando. Eu confesso que, apesar de muitas vezes me acabar, não sinto cansaço nas aulas. Sinto que minhas pernas já não respondem, não obedecem diligentemente os comandos que lhe são passados. Acontece então um fenômeno interessante, porque o corpo fica, obviamente, fatigado, mas não eu - e eu sou, para além do corpo e somado a ele. Eu sou tantas e elas se contradizem, e são todas eu e fazem sentido.
Mas recebi agora da minha professora a outra música, que eu comecei a aprender praí há dois ou três anos, mas fui viajar, mudei de turma, comecei de novo a aprender e nada de sair nada. Talvez porque eu estivesse tão enlevada pela outra que não me sobrou gosto para dar a essa.
Até que chegamos a uma parte chamada "silencio".
Se eu fosse dessas pessoas que sabem tudo de alguma coisa, eu saberia tudo de flamenco. Saberia então explicar que respiro é esse, pausa enlevada numa melodia agitada, em que a guitarra parece perder a força e se transformar em carícia. Com uma leveza e uma delicadeza que embalam, dão vontade de ficar ali para sempre, como num novo dia, um novo ar, como num lugar diferente e melhor.
Se eu fosse dessas pessoas que sabem tudo de alguma coisa, poderia pesquisar na internet e ficar horas vendo exemplos, lendo explicações, tentando assimilar informações. E depois saberia explicar, tintim por tintim, como é, de onde veio, por onde vai.
Se fosse poeta, saberia contar.
Como não sou, me contento, por essa noite, em ouvir,
E chama silencio, o que me parece ser próximo de perfeito.
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