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sábado, 26 de setembro de 2009

Hermione Magali

Então esta tarde fui num mercado de atacados. Não sei exatamente qual a importância do adjetivo (é um adjetivo, né?), mas deixemo-lo aí.
Entre as gigantescas prateleiras que fazem o sonho de qualquer maníaco, estava eu procurando uns chicletes para matar o vício da sobrinha, que anda deveras grande, e fui pedir ajuda a um funcionário. Muito simpático, achou o chiclete, e eu acho que fui, do meu lado, simpática demais e o cara ficou me olhando meio como se eu fosse louca. Ou estivesse dando mole, sei lá, mas eu só estava mesmo sendo legal.
Aí, na fila, vi uma menininha, talvez uns 8 ou 10 anos, que me fez pensar.
Pra variar, de início ela me irritou: tinha uns cabelos como os da Hermione da minha imaginação, e eu pensei comigo "um dia desses, depois de algumas crises, ela vai perceber que o cabelo dela é inimigo da escova". Ela era bem branquinha, com aquele cabelo castanho meio liso, meio não, que requer um certo cuidado, apesar de não ser particularmente difícil. Só não deve nunca ser escovado a seco, meio como o meu. E ela o tinha preso no topo da cabeça com um grampo ou tique-taque e ele caia armado pelo ombro. Era bem magrinha, a menina; estava de calça jeans e com um moletom amarrado na cintura. Acho que isso foi que me irritou, porque estava um calor dos diabos, o qual me causou uma dor de cabeça dessas que não passam.
Aí ela andava pra lá e pra cá com a mãe, enquanto o pai esperava na fila, tal como eu. Claro que os papéis de cada um dos personagens é estimado, mas acho que faz sentido, né, na sociedade em que vivemos? Papai, mamãe, filhinha?
Enfim, num dado momento, provavelmente quando eu pensei na Hermione, comecei a gostar dela. Ela usava óculos e eu vi que por trás dele tinha uns olhos castanhos, mas não escuros, de um marrom claro, mas não dourado, só bastante bonitos.
Dali a pouco, ela falou alguma coisa para a mãe, que aparentemente concordou, e ela se agachou para procurar naquelas estantezinhas de supermercado um gibi da Turma da Mônica para levar. Pegou primeiro um do Cascão, levantou, olhou de volta e mudou de idéia, enquanto eu pensava "Cascão não, os melhores são a Magali e o Chico Bento!". Ela olhou de novo, ficou ali um tempo, tentando decidir, e saiu depois de mais hesitação com um da Magali seguro com as duas mãos, como se fosse pesado, ou frágil, ou pudesse sair voando a qualquer momento.
Fiquei só me lembrando de como eu gostava dos quadrinhos quando era criança; foi neles, acho, que aprendi a ler. A gente assinava e eu os devorava todos no dia em que chegavam, envoltos num saco de plástico cinza. Muitos anos depois, já pré-adolescente, num prédio em que morei, vi uma vez uma das meninas mais velhas que eu pegando um pacote idêntico na portaria e perguntei toda animada "ah, você gosta da Turma da Mônica??", mas aí a garota assinava uma dessas revistas tipo Carícia, ou sei lá o nome, que era também pequenininha. Lembro disso até hoje, 15 anos e tal anos depois.
Mas eu gostava, sim, da Turma, assinava e lia vorazmente. Fiquei pensando em, daqui a alguns anos, assinar para a Clara e depois me perguntei se, daqui a alguns anos, ainda vai haver revistinhas da Mônica. Se elas existem até hoje, é provável que sim, mas deu como um medo de elas acabarem e as crianças que ainda virão não puderem sentir o mesmo prazer que eu senti com elas. Quase pensei em assinar agora e ir guardando, mas voltei a mim em tempo.
Ainda na fila do mercado, lembrei, confesso, com algum ressentimento, do destino das minhas revistinhas. Uma tia querida também gostava delas; então, quando íamos visitá-la, eu carregava os pacotes acumulados e dava pra ela, que adorava. Sempre me dava uns Almanacões de Férias que eu não comprava porque, convenhamos, não faria sentido. Aliás, essa sempre foi uma frustração minha, porque eu via no Almanacão aqueles milhões de páginas de brincadeiras e desenhos pra pintar e eu gostava mais era das historinhas. E sempre que via um desenho em preto e branco meio que via na minha mente ele todo lindamente colorido, mas meus lápis-de-cor nunca alcançavam as cores da minha imaginação. E eu nunca tinha saco para pintar todos os trocentos desenhos em todos os detalhes, mas ao mesmo tempo queria vê-los coloridos; portanto: frustração.
Depois de ler, minha tia as passava para um primo meu que não era daquelas crianças mais... prestativas. Ele tinha, na casa dele, um armário estufado de revistinhas que não deixava ninguém ler. Provavelmente elas devem ter ido parar no lixo há milênios.
Lembrei disso hoje, no mercado, ao ver a Hermione sair com a Magali.
Lembro disso agora enquanto passa Garden State na televisão eu eu assisto assim meio não assistindo.
Não sei, realmente é um dia atípico porque eu já me peguei mais de uma vez me emocionando quase até as lágrimas com bobagens como Hermiones e Magalis e tempestades. E o que sinto nem é exatamente saudade, é quase a felicidade de receber o pacotinho cinza voltando, ou vê-lo chegar num futuro próximo ou distante, é uma satisfação de uma não-inveja de uma dessas coisas indizíveis que me dá orgulho.
Esta era a história que eu vinha contar. Bobagens, não?

Tangos e sevillanas.

Comecei a fazer aulas de dança flamenca há quase exatos sete anos. Aconteceu com ela mais ou menos o mesmo que com todos os meus começos: passava por uma fase meio... ruim - sim, tem uma coisa em mim pessimista que pode, quando alimentada, rotular qualquer fase como meio ruim, mas eu vivo tentando matá-la de inanição ou silêncio - e achei que fazer uma coisa por mim, uma coisa bacana, de que eu gostasse, ajudaria.
Tenho, afinal, sorte, porque esta, como diversas outras coisas que tentei ao longo da vida, de fato ajudaram. O flamenco foi minha única e vital terapia por alguns anos. Ia nas aulas quando estava bem e quando não estava, sapateava minhas raivas e frustrações. Comecei a aprender a conciliá-las com a faculdade e, mais desesperadores, os finais de semestre repletos de trabalhos finais a serem entregues todos na mesma semana. Nunca fui muito fã, no entanto, das apresentações. Muito nervosismo e tensão e nunca achei que valia a pena. Fiz algumas, noutras faltei, ou simplesmente disse que não podia participar, mas também é fato que nunca fugi delas enlouquecidamente.
A última foi em... dezembro, talvez, de 2006. Três coreografias, começando com a mais difícil e facilitando até a última. A primeira, uma romeira, durava algo como 8 minutos exaustivos e apavorantes, uma coreografia complicada com muitos sapateados parecidos e eu dei uma erradinha básica; mas as outras duas, depois da pedreira, foram mamão com açúcar. Depois disso, começamos a aprender uma outra, que eu achava maravilhosa, quase sem sapateado nenhum, só jogos de corpo. Mas dessa eu não cheguei ao fim, porque estava num momento meio turbulento, viajando muito e acabei dando um tempo da dança. Voltei algumas vezes, pegando coreografias no meio e parando depois, até que, nos últimos seis meses de estabilidade, voltei a frequentar as aulas com mais disciplina.
De novo para me apaixonar por uma música, que sabe-se lá quando poderemos dançar.
Mas isso tudo pra dizer que essa semana, depois de 3 anos, vai rolar uma apresentação e estou achando que vou participar. Assim, como quem não quer nada, mas vamos lá. Não mata ninguém, né?
Nem sei porque comecei a contar isso, na verdade vim dizer outras coisas, mas, se essas vieram, que fiquem.
Olé.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Em branco e preto?

Pra mim, fotografia é, ou se tornou, uma atividade meio solitária. Sem a menor pretensão de ser boa em retratar, percebo que, sozinha, me ligo - ou tento - ao mundo através da máquina.
Com outrem(ns), me preocupo mais em ver, viver, falar, partilhar. Menos em registrar.
Cada um tem um lado bom, né?
E um ruim.
Ou vários, mas agora me deu uma saudade de paisagens que vi e não ficaram, por sei lá que motivos. As cidades que passaram, cujo nome já nem lembro, e que não podem sequer voltar à memória através de uma imagem guardada.
Será que adianta eu prometer que da próxima vez vou fazer diferente? Vou bolar um plano, um esquema. Os pés em algum lugar, eu com alguma roupa, ou uma careta, ou numa pose, sempre a mesma, um esquema, um plano, uma brincadeira que traga consigo a constância. E a vontade, que é o que normalmente nos impede de alcançar as coisas que dizemos querer.
Eu tenho, agora, de voltar no tempo e fotografar.
Mas, feliz ou infelizmente, ele não volta, né?
Bem agorinha acho ruim, porque eu toparia; mas podia mudar de idéia em cinco minutos.
Chegou de mansinho uma saudade...

sábado, 19 de setembro de 2009

Jack Soul Brasileiro?

Sentei aqui, meio sem saber se queria escrever ou não, resolvi colocar uma música e não me senti com vontade de ouvir nada. Nadica, mesmo, nem que tenho nem que não tenho, meio vazio musical, mesmo. Acho que vou de Baden, então, que tem um quê de suavidade. Triha sonora de pesquisa e de noites bacanérrimas em bares obscuros. Valia a pena ouvir ao vivo. Virtuoses, virtuoses...
O GNT passou um documentário sobre filmes estrangeiros que se passavam ou se referiam ao Brasil. Assisti assim meio começado, com algum desinteresse de início e depois o sangue começou a ferver. Foi feito por brasileiros, que entrevistaram atores e diretores franceses e americanos, perguntando o que [diabos!] eles tavam pensando quando fizeram os filmes. Aí intercalavam com aquelas perguntinhas básicas pras pessoas na rua, tipo onde fica a Amazônia, e o povo, se fazendo de esperto, "no sul do Brasil". Até que não é tão ruim, quer dizer, sul e norte ainda são Brasil. Se alguém me perguntar onde fica, sei lá, Yellowstone, vou responder que é onde mora o Zé Colmeia e ponto final. Mas também eu não vou fazer um filme sobre isso.
Acho que o que me incomoda nem é a ignorância das pessoas, porque aqui ainda impera alguma razão e eu não sou nada além de um ser muito do ignorante. Sempre aperta um pouco a nossa auto-estima perceber que o mundo sabe tão pouco sobre a gente, mas a gente também sabe tão pouco sobre a gente que é covardia cobrar dos outros coisas que nem nós não fazemos.
Mas as viagens, meu deus! Nem é questão de não saber, mas de saber errado. A velha história do falarmos espanhol, da mulherada andar com penas nos cabelos, todas sempre gostosas semi-nuas. Retratar o exótico. Mas pera lá, eu sou brasileira e branquela. Não exatamente - ou nada - exótica, obviamente, e é só isso que os caras queriam. Ou até, quando havia uma boa vontade a mais, parece que nem ela lhes dava uma visão mais apurada.
Fiquei pensando no que exatamente me incomodou naqueles retratos e no que eu faria, se fosse eu a fazê-los. A verdade é que não sei. Ainda tenho, percebo, o velho vício de achar que a nossa cultura está nas danças e músicas e jeitos de falar e histórias que, bem ou mal, não fazem parte da minha vida, paulistana arraigada que sou. Acho que a gente aqui do Sudeste, mesmo se considerando o centro do mundo, se perdeu um tanto na cidade e se tornou meio que universal demais. Aí o pessoal do documentário perguntava se os caras conheciam São Paulo e a maioria dizia que não, ou que não interessava, que o lance mesmo era o Rio de Janeiro, porque São Paulo se parece com toda grande cidade do mundo.
Meio que concordo, meio que não, porque acredito, conscientemente, que a cultura de um povo está em tudo que ele faz no cotidiano. As pessoas não precisam estar fantasiadas com penas e frutas ou pintadas ou usando saia de chita para partilharem da cultura. Que, se alguém me perguntar o que é, eu não sei responder.
Mas e aí, quem somos nós? Somos "Cidade de Deus"? "Tropa de Elite"? "Central do Brasil"? "O homem que copiava"? Nem acho que os objetivos destes filmes eram responder a uma pergunta como a minha, mas será que eles respondem, sem querer? Que "nós" pode haver num país de quê, 180 milhões de pessoas? Eu acho um absurdo as imagens que o povo tem da Amazônia, mas também nunca estive lá pra saber como é. Ainda, não tive tempo ou oportunidade ou qualquer das coisas que nos faz nos mover, mas também há muita coisa pra conhecer.
Eu sinto, sim, falta, acho que já falei sobre isso aqui, de um sentimento de pertencer a um lugar, de ter histórias pessoais a contar sobre ele. De sentir que ele ajudou a formar a pessoa que eu sou, mas sei também que esse é um sentimento romantizado. Quer dizer, o Caymmi, quando cantava que a jangada saiu com Chico Ferreira e Bento, falava de um Chico Ferreira e um Bento de carne e osso, ou eles eram, ao menos em parte, uma criação poética de um músico e poeta, a meu ver, genial? Eu acho que sou muito brasileira, e gosto de ser; acho que me apeguei mais ao Brasil depois de passar um tempinho fora. Gosto, por achar que temos soluções interessantes e modos interessants de lidar com a vida e as pessoas; talvez porque este é o único jeito que conheço e aprendi e talvez todo mundo sinta isso em relação à maneira e ao lugar em que cresceu.
Claro que a contradição aqui impera e me faz sentir saudade de um pertencer que não existe, ao mesmo tempo em que reconheço ser e ter me tornado alguma coisa irremediavelmente ligada a essa terra.
Lembro de ter discussões similares na faculdade e meio chegar a lugar nenhum, enquanto aprendia sobre perguntas que não têm resposta e como o interessante pode ser fazê-las e tentar, de um jeito um tanto desesperançado, respondê-las, já sabendo que é impossível.
Andar e andar e chegar ao mesmo lugar, como naquele episódio da Comédia da Vida Privada que tanto me agradava. O que importa, será, é ir?
Eu não sei, mas fico aqui, indo e falando, sem esperança nem nada, mas ainda aqui. Meio de saco cheio, meio não, mas como diria o Chico, a gente vai levando.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Aniversário

A gente vai desenvolvendo, ao longo da vida, uns prazeres meio estranhos. Eu tenho um de ver as páginas se enchendo de palavras e criando volume, nem qualidade, quantidade, mesmo, que acho muito gostoso. Comentei com a professora, semana passada, que é bom ver um trabalho chegando a 50, 70 páginas.
Aí tava aqui, meio indo, meio com preguiça de ir, e fui ver o arquivo do blog; notei que aqui, todos os meses, tem ao menos um postzinho, nem que seja pra espantar a poeira. E o Errar começou, pelo menos para o público em geral, no mês seguinte ao fim do Idiotia. Pra quem não sabe ele tentou nascer outras vezes, antes disso, com diversos projetos, que foram todos devidamente arquivados, para o nascimento deste.
E eles são bastante diferentes, acho, e faz muito sentido que sejam. O Idiotia, junto com rascunhos, teve 482 postagens. Teve meses que escrevi mais de 50 posts. Ele foi tão um amigo e um apoio em momentos de necessidade e de alegria, me ensinou muito, aquele espaço. Mas, como diria o Proust, a pessoa que eu fui ficou ali atrás e, como bem disse uma amiga, ele fechou o ciclo. Ficou pra trás e a tristeza disso, agora, é quase nenhuma. Trouxe alegrias e pesares mas, mais importante, me proporcionou o hábito de vir, vez em quando, falar um pouco, mais comigo mesma que com qualquer outro. E olhando lá ele, percebi que o criei há quase exatamente três anos e um mês. Em 12 de agosto de 2006 eu comecei um blog porque tava sofrendo e ele me acompanhou na superação desta dor e ao longo de outras que se seguiram. Comecei, sei lá por que, e continuo, há quase três anos, quase ininterruptamente. Ouvia, então, Los Hermanos e, coincidentemente, hoje, depois de meses de concentração pernambucana, comecei a cantarolar uma música deles, uma em específico, que tem uns metais arrasadores, que me fazem querer entrar no aparelho e explodir. Eu tinha o hábito de, regularmente, ir salvando os textos que escrevia, para não correr o risco de perder, jamais. Agora, eles se perdem nos descaminhos da memória, mas prontos para, a qualquer momento, num dia de sol ou de chuva, dia de verão ou noite de inverno, movida por alegria ou tristeza imensas, ou curiosidade, ou nada, a qualquer momento posso ir lá e, por alguns instantes, voltar.
Eu dizia, então, há pouco mais de três anos, que o mundo todo tava errado e que eu não era "absolutamente a pessoa que pensava que seria aos 23 anos de idade.
Nossa, vinte e três... vinte. e três. v-i-n-t-e-e-t-r-ê-s!". Agora já vêm chegando os vinte e sete, vinte. e sete., v-i-n-t-e-e-s-e-t-e e, se eu não aprendi nada desde então, pelo menos não me sinto tão surpresa. Vai saber o que me surpreendia tanto - apesar de que, como eu dizia então, o tombo fora tão grande que eu lembro, sim - mas é claro que, olhando pra trás, não resta nada a fazer, senão rir. Rir da surpresa, da esperança, do alento, mais que tudo, das crenças, que se estamparam ali, por um tempo bastante longo.
Talvez a mudança tenha se dado cedo demais; talvez muito do que aconteceu aqui, no despertar do Errar, cabesse melhor no Idiotia, mas, se a mudança entre a pessoa que me tornei e a que eu era é tão grande, não aconteceu da noite pro dia e transição é isso, mesmo.
Acho que Idiotia Coletiva revelava um quê de descrença no mundo e nas pessoas, descrença essa que procurava, a todo custo, ser contradita, desmentida, arrebatada, talvez, por um anjo salvador, que viesse me dizer que o mundo não estava tão fodido, assim. E acho que Errar é coisa que todos fazemos, independente de esperar ou não, de ser bom ou ruim, é sem fim e pode ser solitário e angustiante ou não. Pode ser, como a vida, solitário sem ser angustiante, pode ser angustiante sem ser solitário, pode ser tudo e não acaba nunca. Sei como é arriscado afirmar isso de maneira tão convicta, porque tudo continua sendo tão frágil e pode mudar a qualquer instante, mas nesse Errar eu encontrei uma paz que nunca me alcançou, antes. Talvez na vida, desde que eu deixei de ser uma criança saltitante.
Às vezes me pergunto se ela não me custou um tanto da identidade, se não me tornei meio um livro de auto-ajuda ambulante, e até respondo que sim, mas acredito piamente que foi uma pechincha. Perdi muito e ganhei muito, mas o melhor é saber que eu cheguei onde estou com as minhas pernas, nesse caminhar meio trôpego que é viver, porque acreditei e, tropeçando e levantando, segui em frente.
Faz, portanto, três anos, que eu comecei a achar que alguém se interessaria pela jornada. Agradeço aos que acompanharam, ela toda ou pedacinhos, mas ela continua pra todo mundo, independente da companhia.
Eu já fui melhor em finalizar textos, mas sinceramente não tenho mais nada a dizer, além de tudo.

Sou eu

Minha falta de memória sempre foi proverbial, mas ela tá conseguindo piorar. Lembro mais de nada, não; posso esquecer uma história que alguém me contou há duas ou três horas com a maior tranquilidade, ainda fazendo cara de indignada ao dizer que não sei de que diabo que o outro está falando. Sei lá, não lembro e acho que, com o passar dos anos, fui criando mesmo um desapego ao lembrar. Isso das pessoas ficarem lá, lembrando de tudo, pra quê? Já não foi? Importante é viver as coisas quando elas acontecem, depois já não faz muito sentido; é que nem as pessoas que ficam fotografando um pôr-do-sol maravilhoso. Ainda se a pessoa tem lá o dom da fotografia, vá, mas assim, nós, simples mortais? Em vez de ver a coisa, fica todo mundo lá, vendo mais um pedaço de plástico que o espetáculo em si. Tenho, de fato, uma foto das pessoas tirando foto do pôr-do-sol em Jericoacoara, que é mesmo de outro mundo. Mas todo mundo com a máquina na cara, chega a ser meio patético. Até eu também tirei fotos, naquele dia, mas talvez tenha sido o último. Ou um dos, porque também sou muito contraditória e da maioria das coisas que me irritam profundamente nas pessoas nem eu, do alto da minha arrogância, não consigo escapar.
Mas não lembro quem disse - se é que eu não sonhei, porque também faço muito isso - da teoria da ferradura. Como se as coisas, pessoas ou sentimentos ou sei lá o quê, tivessem a forma de uma ferradura, e o extremo de uma coisa é sempre muito próximo do seu oposto. Deu pra entender?
Por exemplo, viciei agora de uma tal forma num seriado, aliás muito bom, que eu fico pulando sozinha de animação, xingo, dou risada, etc., mas sinto que posso, daqui a cinco minutos, nunca mais querer assistir. Ou tem músicas que eu já ouvi repetidamente da maneira doentia como eu costumo ouvir música, até chegar o momento em que não posso ouvir nem pintada, que chega dá asia. Tudo bem também que a gente enjoa e muda, ainda bem, na verdade, que não estamos fadados a permanecer a vida toda no mesmo lugar, fazendo as mesmas coisas com as mesmas pessoas. Das quais, também, podemos enjoar, ou cansar, ou nos distanciar, às vezes mais, às vezes menos justificadamente. Eu, daqui, que tenho essa coisa de tê-las e perdê-las, desse jeito incompleto e ilusório que podemos ter e perder as pessoas, penso com frequência nisso.
Mas o que tem chamado demais a minha atenção é esse amor maluco que a gente pode sentir por alguém, que olhar, beijar, abraçar, apertar, segurar, nada disso é suficiente. Perguntei, ontem, pra irmã, que que a gente podia fazer com a filha dela, que está o cúmulo da graça, e ela respondeu: "comer". Claro, leitores desavisados e conselho tutelar, que não fazemos parte de uma família canibal. Claro, engajados de plantão, que, sei lá, nem falo mal de grupos em que a antropofagia faz parte do pacote; acho que preferia, pessoalmente, nunca encontrá-los, mas espero não estar cometendo uma gafe antropológica, ou sei lá que tipo de gafe seria essa.
Mas que sentimento é esse tão grande que traz consigo uma certa ânsia pela destruição do sujeito amado? Como um querer que é tanto traz mais sofrimento do que paz, ou satisfação, ou alegria?
E esse é tão o ponto, atualmente, não é? Tanto de gente que se vê por aí se destruindo, pretensamente por amor, enquanto há aqueles que dizem que amor não tem em si destruição. Tanta gente que se perde e vai arrastando consigo todo mundo que encontra pelo caminho.
Acho que são coisas muito diferentes, isso que a Clara desperta na gente, e a loucura que surge na esteira de um monte de outros (des)amores, mas eles não tem em comum pelo menos a alegação do mesmo sentimento?
Que merda é essa da gente, né, que tudo tem que ser tão complicado?!
Sei não, nem quero muito saber. Fato é que a sobrinha anda impossível, nos últimos dias, e a mim pelo menos ela enlouquece com as brincadeirinhas e risadas e caretas que agora faz o tempo todo. A onda do momento dela é brincar de banco, mas claro que ela não faz idéia do que é um banco, ou melhor, faz lá uma idéia só dela, em que as pessoas vão comprar/trocar sapatos ou celulares. Fica lá, alojada na mesinha dela, com um "cliente" do lado, olhando enquanto ela cumpre as burocracias bancárias e daqui a pouco pergunta o que era mesmo que a pessoa queria. Aí, dia desses, eu tava num desses estados provocativos que vez ou outra tomam conta de mim, e comecei a dizer, enquanto ela se entretinha com a brincadeira, que ela não era minha sobrinha. Falei, sei lá, por maldade, por falar, pra encher o saco dela. Aí ela virou pra mim com a cara mais pidonha do mundo e disse "não, tia, sou eu, a Clara, eu tava só brincando que era a moça do banco mas sou eu!". Aí eu saí com um "nossa, é mesmo, você tinha me enganado!", mas fala sério, quem aguenta um troço desses?
Então tem, mesmo, o outro lado da história, né? Mesmo a gente querendo apertar ela pra sempre, vez em quando chega por cá um serzinho desses que mostra que tudo bem. Viver precisa nem doer tanto assim, não. Ou, quando não tem remédio, que o aperto é grande, sempre a gente pode rir também um pouco, que ajuda a passar. De preferência de nós mesmos, que ando pensando ser mesmo a maior das qualidades.
Eu, de mim, ando rindo das minhas inabilidades em dançar e cozinhar e me localizar e me fazer entender e da falta de memória e de mais um monte de coisa que não lembro, agora.
Bão, se for depender de motivo pra rir de mim, acho que me garanto ainda um tempo. E se alguém quiser se juntar ao coro, seja bem-vindo, que faz bem vez em quando a gente se conformar com o que nos cabe.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Véu de coisas.

Sinto vez em quando uma saudade de um tempo em que eu escrevia sobre coisas que aconteciam. Em qualquer lugar, comigo ou outros, coisas boas ou ruins ou nada disso, observações minhas do que estava ao meu redor.
Acho que, ultimamente, o meu redor foi fechando cada vez mais até não sobrar muito espaço para o que há por fora.
Se eu apertar a vista, pode ser que apareça no horizonte, como num passe de mágica, ou alguma lembrança de coisas que aconteceram e eu escrevi, ou daquelas que eu ainda posso contar. Quase aparece, mas talvez falte aquele dedo que vê e me mostra.
Não sei se algum dia eu vivi mais do que hoje, talvez tenha vivido menos. Não sei quais das coisas importantes que me aconteceram eu relatei, certamente muitas ficaram de fora ou vieram tão bem cifradas que, passado um tempo, um ano ou uma noite, eu já não sei desvendar. Gosto desse não entender, porque sempre há coisas que preferimos esquecer e me acontece de aqui e ali ficar contente com o saco de gato que são minhas memórias. Não lembrar cronologias ou o quê exatamente aconteceu em qual lugar ou quais palavras foram usadas para dizer alguma coisa que não ficou.
Pensava, ontem, na insônia, em alguns destes temas para dizer, mas agora, quando é possível, tenho preguiça.
Uma vez, eu falei pra uma grande amiga que meu problema era ser impulsiva. Ela levantou a maior sombrancelha pra mim, porque o fato é que eu não sou a pessoa mais impusiva do planeta. Nem a segunda; devo estar bem pro final da lista, na verdade. Mas o que eu quis dizer, acho, é que eu tenho, claro, fortes impulsos; fico remoendo na cama coisas que gostaria de dizer, cartas que queria mandar, conversas imaginárias para todos os gostos. Só adquiri o hábito, não sei como, quando, ou por que, de esperar o sol raiar e ver se o impulso permanece. Hábito esse que vai contra a natureza efêmera e avassaladora do impulso, pois não?
Isso e o fato de eu nunca ter perdido, na vida, uma partida de banco imobiliário me fazem desconfiar que há alguma coisa nesse corpo de muito, muito velha.
Não digo o que pensei em dizer e não aconteceu nada. Ou aconteceu, mas tudo se esconde sob um véu.
Amanhã, quem sabe, eu venha retirá-lo.

Pra ouvir. Ou ler. Ou ver. Ou fazer o que te der na telha.


Pelos auto-falantes do universo
vou louvar-vos aqui na minha loa
um trabalho que fiz noutro planeta
onde nave flutua e disco voa:
fiz meu marco no solo marciano
num deserto vermelho e sem garoa.

Este marco que fiz é fortaleza
elevando ao quadrado Gibraltar.
Torreão, levadiça, raio laser
e um sistema internet de radar:
não tem sonda nem nave tripulada
que consiga descer nem decolar.

Construí o meu marco na certeza
que ninguém cibernético ou humano
poderia romper as minhas guardas
nem achar qualquer falha no meu plano
ficam todos em Fobos ou em Deimos
contemplando meu marco marciano.

O meu marco tem rosto de pessoa
tem ruínas de ruas e cidades
tem muralhas, pirâmides e restos
de culturas, demônios, divindades:
a história de Marte soterrada
pelo efêmero pó das tempestades.

Construí o meu marco gigantesco
num planalto cercado por montanhas
precipícios gelados e falésias
desenhando no ar formas estranhas
como os muros ciclópicos de Tebas
e as fatais cordilheiras da Espanha.

Bem na praça central, um monumento
embeleza o meu marco marciano:
um granito em enigma recortado
pelos rudes martelos de vulcano:
uma esfinge em perfil contra o poente
guardiã imortal do meu arcano.

O Marco Marciano

Confesso que da primeira vez que ouvi a música, meio que não gostei. Talvez não tenha desgostado totalmente, mas a coisa do cara fazendo uououououououououo enlouquecidamente como se não houvesse amanhã fez cócegas no ser implicante que existe em mim. Aí fui ouvindo, no ônibus, semi-adormecida e acho que a coisa toda, eu e música, começou a transcender.
Já fiquei um tempo sem ouvir, até a noite passada quando, atacada pela insônia aliada ao mal-estar causado por uma gripe estranha - cujo único sintoma é uma febrícula que vai e vem a seu bel-prazer, com todos os efeitos colaterais adjuntos -, recorri a ela para tentar relaxar e dormir. Claro que não funcionou e eu continuei rolando por horas, mas me dei conta, de novo, do quanto gosto dela. Mais do que prazer, sinto satisfação ao ouvi-la, coisa que nem faz tanto sentido, já que é só uma música. Mas ela me apaixona, então pensei em mostrar aqui, para alguém que, talvez, esteja disposto a ouvir.
Se não, também tudo bem; não é esta a tônica deste mundo maluco? Uns amam, outros odeiam, outros tanto faz, outros não entendem. Às vezes isso tudo dentro da gente.
Eu acho um barato, ou "maneiro", como diria a sobrinha.
Ah, sim, eu pensava que se não tivesse esse blog, cujo nome me agrada tanto, ia criar um chamado "marco marciano". Talvez ainda crie, quando o contrato daqui vencer e chegar a hora de mudar.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Loucura na madrugada

"Acho que as discussões casam, mas não sei se consegui demonstrar meu argumento a contento ou se a coisa toda ficou meio esquizofrênica."
Tive coragem não de mandar pra orientadora. Disse, sim, que posso ter cometido uma temeridade, mas isso de assumir doença mental pro professor achei que era pouco recomendável.
A vontade foi grande, dedinho foi no enviar e tudo - o que ratifica doença mental.
Como desviar é viver, vim aqui contar pra alguém; quem sabe um de vocês ri como eu estou rindo agora, sentindo esse prazer maligno que só a subversão da ordem traz.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Pensei que era agosto, mas já é setembro...

Essa semana apareceram por aqui aqueles bichinhos da luz. Sei não o nome deles, diz minha sobrinha que o amigo dela, Vitor, disse que é aleluia; diz minha mãe que é cupim.
Mas eles sempre vêm em agosto, quando começa a esquentar e acho que a chegada deles significa que acabou o frio.
Quando eu fazia aulas de flamenco no final da tarde eles eram infernais, ficavam todos voando perto do teto, que é baixo, e em cima da gente, dentro das nossas roupas e, quando teimavam em fazer o diabo, dentro também de bocas, narizes e ouvidos. Já até entraram no violão do Ricardo.
Eu do meu lado reclamo muito do calor, mas porque é quase minha natureza reclamar mesmo de tudo. Só acho que ninguém pode negar que acordar assim, num dia seco de sol, apesar do incômodo que o ar esturricado causa e eu estou mesmo resfriada, é muito melhor do que ficar calculando se a coragem é suficiente para nos tirar de debaixo dos cobertores.
Que será que eu pensei que tinha que escrever aqui? Minha memória continua de mal a pior. E eu pirei agora em fazer um sotaque meio southern.
Eu reclamo, mas o calor, o sol, o ar seco fazem mesmo a gente se sentir vivo.