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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Sou eu

Minha falta de memória sempre foi proverbial, mas ela tá conseguindo piorar. Lembro mais de nada, não; posso esquecer uma história que alguém me contou há duas ou três horas com a maior tranquilidade, ainda fazendo cara de indignada ao dizer que não sei de que diabo que o outro está falando. Sei lá, não lembro e acho que, com o passar dos anos, fui criando mesmo um desapego ao lembrar. Isso das pessoas ficarem lá, lembrando de tudo, pra quê? Já não foi? Importante é viver as coisas quando elas acontecem, depois já não faz muito sentido; é que nem as pessoas que ficam fotografando um pôr-do-sol maravilhoso. Ainda se a pessoa tem lá o dom da fotografia, vá, mas assim, nós, simples mortais? Em vez de ver a coisa, fica todo mundo lá, vendo mais um pedaço de plástico que o espetáculo em si. Tenho, de fato, uma foto das pessoas tirando foto do pôr-do-sol em Jericoacoara, que é mesmo de outro mundo. Mas todo mundo com a máquina na cara, chega a ser meio patético. Até eu também tirei fotos, naquele dia, mas talvez tenha sido o último. Ou um dos, porque também sou muito contraditória e da maioria das coisas que me irritam profundamente nas pessoas nem eu, do alto da minha arrogância, não consigo escapar.
Mas não lembro quem disse - se é que eu não sonhei, porque também faço muito isso - da teoria da ferradura. Como se as coisas, pessoas ou sentimentos ou sei lá o quê, tivessem a forma de uma ferradura, e o extremo de uma coisa é sempre muito próximo do seu oposto. Deu pra entender?
Por exemplo, viciei agora de uma tal forma num seriado, aliás muito bom, que eu fico pulando sozinha de animação, xingo, dou risada, etc., mas sinto que posso, daqui a cinco minutos, nunca mais querer assistir. Ou tem músicas que eu já ouvi repetidamente da maneira doentia como eu costumo ouvir música, até chegar o momento em que não posso ouvir nem pintada, que chega dá asia. Tudo bem também que a gente enjoa e muda, ainda bem, na verdade, que não estamos fadados a permanecer a vida toda no mesmo lugar, fazendo as mesmas coisas com as mesmas pessoas. Das quais, também, podemos enjoar, ou cansar, ou nos distanciar, às vezes mais, às vezes menos justificadamente. Eu, daqui, que tenho essa coisa de tê-las e perdê-las, desse jeito incompleto e ilusório que podemos ter e perder as pessoas, penso com frequência nisso.
Mas o que tem chamado demais a minha atenção é esse amor maluco que a gente pode sentir por alguém, que olhar, beijar, abraçar, apertar, segurar, nada disso é suficiente. Perguntei, ontem, pra irmã, que que a gente podia fazer com a filha dela, que está o cúmulo da graça, e ela respondeu: "comer". Claro, leitores desavisados e conselho tutelar, que não fazemos parte de uma família canibal. Claro, engajados de plantão, que, sei lá, nem falo mal de grupos em que a antropofagia faz parte do pacote; acho que preferia, pessoalmente, nunca encontrá-los, mas espero não estar cometendo uma gafe antropológica, ou sei lá que tipo de gafe seria essa.
Mas que sentimento é esse tão grande que traz consigo uma certa ânsia pela destruição do sujeito amado? Como um querer que é tanto traz mais sofrimento do que paz, ou satisfação, ou alegria?
E esse é tão o ponto, atualmente, não é? Tanto de gente que se vê por aí se destruindo, pretensamente por amor, enquanto há aqueles que dizem que amor não tem em si destruição. Tanta gente que se perde e vai arrastando consigo todo mundo que encontra pelo caminho.
Acho que são coisas muito diferentes, isso que a Clara desperta na gente, e a loucura que surge na esteira de um monte de outros (des)amores, mas eles não tem em comum pelo menos a alegação do mesmo sentimento?
Que merda é essa da gente, né, que tudo tem que ser tão complicado?!
Sei não, nem quero muito saber. Fato é que a sobrinha anda impossível, nos últimos dias, e a mim pelo menos ela enlouquece com as brincadeirinhas e risadas e caretas que agora faz o tempo todo. A onda do momento dela é brincar de banco, mas claro que ela não faz idéia do que é um banco, ou melhor, faz lá uma idéia só dela, em que as pessoas vão comprar/trocar sapatos ou celulares. Fica lá, alojada na mesinha dela, com um "cliente" do lado, olhando enquanto ela cumpre as burocracias bancárias e daqui a pouco pergunta o que era mesmo que a pessoa queria. Aí, dia desses, eu tava num desses estados provocativos que vez ou outra tomam conta de mim, e comecei a dizer, enquanto ela se entretinha com a brincadeira, que ela não era minha sobrinha. Falei, sei lá, por maldade, por falar, pra encher o saco dela. Aí ela virou pra mim com a cara mais pidonha do mundo e disse "não, tia, sou eu, a Clara, eu tava só brincando que era a moça do banco mas sou eu!". Aí eu saí com um "nossa, é mesmo, você tinha me enganado!", mas fala sério, quem aguenta um troço desses?
Então tem, mesmo, o outro lado da história, né? Mesmo a gente querendo apertar ela pra sempre, vez em quando chega por cá um serzinho desses que mostra que tudo bem. Viver precisa nem doer tanto assim, não. Ou, quando não tem remédio, que o aperto é grande, sempre a gente pode rir também um pouco, que ajuda a passar. De preferência de nós mesmos, que ando pensando ser mesmo a maior das qualidades.
Eu, de mim, ando rindo das minhas inabilidades em dançar e cozinhar e me localizar e me fazer entender e da falta de memória e de mais um monte de coisa que não lembro, agora.
Bão, se for depender de motivo pra rir de mim, acho que me garanto ainda um tempo. E se alguém quiser se juntar ao coro, seja bem-vindo, que faz bem vez em quando a gente se conformar com o que nos cabe.

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