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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Aniversário

A gente vai desenvolvendo, ao longo da vida, uns prazeres meio estranhos. Eu tenho um de ver as páginas se enchendo de palavras e criando volume, nem qualidade, quantidade, mesmo, que acho muito gostoso. Comentei com a professora, semana passada, que é bom ver um trabalho chegando a 50, 70 páginas.
Aí tava aqui, meio indo, meio com preguiça de ir, e fui ver o arquivo do blog; notei que aqui, todos os meses, tem ao menos um postzinho, nem que seja pra espantar a poeira. E o Errar começou, pelo menos para o público em geral, no mês seguinte ao fim do Idiotia. Pra quem não sabe ele tentou nascer outras vezes, antes disso, com diversos projetos, que foram todos devidamente arquivados, para o nascimento deste.
E eles são bastante diferentes, acho, e faz muito sentido que sejam. O Idiotia, junto com rascunhos, teve 482 postagens. Teve meses que escrevi mais de 50 posts. Ele foi tão um amigo e um apoio em momentos de necessidade e de alegria, me ensinou muito, aquele espaço. Mas, como diria o Proust, a pessoa que eu fui ficou ali atrás e, como bem disse uma amiga, ele fechou o ciclo. Ficou pra trás e a tristeza disso, agora, é quase nenhuma. Trouxe alegrias e pesares mas, mais importante, me proporcionou o hábito de vir, vez em quando, falar um pouco, mais comigo mesma que com qualquer outro. E olhando lá ele, percebi que o criei há quase exatamente três anos e um mês. Em 12 de agosto de 2006 eu comecei um blog porque tava sofrendo e ele me acompanhou na superação desta dor e ao longo de outras que se seguiram. Comecei, sei lá por que, e continuo, há quase três anos, quase ininterruptamente. Ouvia, então, Los Hermanos e, coincidentemente, hoje, depois de meses de concentração pernambucana, comecei a cantarolar uma música deles, uma em específico, que tem uns metais arrasadores, que me fazem querer entrar no aparelho e explodir. Eu tinha o hábito de, regularmente, ir salvando os textos que escrevia, para não correr o risco de perder, jamais. Agora, eles se perdem nos descaminhos da memória, mas prontos para, a qualquer momento, num dia de sol ou de chuva, dia de verão ou noite de inverno, movida por alegria ou tristeza imensas, ou curiosidade, ou nada, a qualquer momento posso ir lá e, por alguns instantes, voltar.
Eu dizia, então, há pouco mais de três anos, que o mundo todo tava errado e que eu não era "absolutamente a pessoa que pensava que seria aos 23 anos de idade.
Nossa, vinte e três... vinte. e três. v-i-n-t-e-e-t-r-ê-s!". Agora já vêm chegando os vinte e sete, vinte. e sete., v-i-n-t-e-e-s-e-t-e e, se eu não aprendi nada desde então, pelo menos não me sinto tão surpresa. Vai saber o que me surpreendia tanto - apesar de que, como eu dizia então, o tombo fora tão grande que eu lembro, sim - mas é claro que, olhando pra trás, não resta nada a fazer, senão rir. Rir da surpresa, da esperança, do alento, mais que tudo, das crenças, que se estamparam ali, por um tempo bastante longo.
Talvez a mudança tenha se dado cedo demais; talvez muito do que aconteceu aqui, no despertar do Errar, cabesse melhor no Idiotia, mas, se a mudança entre a pessoa que me tornei e a que eu era é tão grande, não aconteceu da noite pro dia e transição é isso, mesmo.
Acho que Idiotia Coletiva revelava um quê de descrença no mundo e nas pessoas, descrença essa que procurava, a todo custo, ser contradita, desmentida, arrebatada, talvez, por um anjo salvador, que viesse me dizer que o mundo não estava tão fodido, assim. E acho que Errar é coisa que todos fazemos, independente de esperar ou não, de ser bom ou ruim, é sem fim e pode ser solitário e angustiante ou não. Pode ser, como a vida, solitário sem ser angustiante, pode ser angustiante sem ser solitário, pode ser tudo e não acaba nunca. Sei como é arriscado afirmar isso de maneira tão convicta, porque tudo continua sendo tão frágil e pode mudar a qualquer instante, mas nesse Errar eu encontrei uma paz que nunca me alcançou, antes. Talvez na vida, desde que eu deixei de ser uma criança saltitante.
Às vezes me pergunto se ela não me custou um tanto da identidade, se não me tornei meio um livro de auto-ajuda ambulante, e até respondo que sim, mas acredito piamente que foi uma pechincha. Perdi muito e ganhei muito, mas o melhor é saber que eu cheguei onde estou com as minhas pernas, nesse caminhar meio trôpego que é viver, porque acreditei e, tropeçando e levantando, segui em frente.
Faz, portanto, três anos, que eu comecei a achar que alguém se interessaria pela jornada. Agradeço aos que acompanharam, ela toda ou pedacinhos, mas ela continua pra todo mundo, independente da companhia.
Eu já fui melhor em finalizar textos, mas sinceramente não tenho mais nada a dizer, além de tudo.

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