Sentei aqui, meio sem saber se queria escrever ou não, resolvi colocar uma música e não me senti com vontade de ouvir nada. Nadica, mesmo, nem que tenho nem que não tenho, meio vazio musical, mesmo. Acho que vou de Baden, então, que tem um quê de suavidade. Triha sonora de pesquisa e de noites bacanérrimas em bares obscuros. Valia a pena ouvir ao vivo. Virtuoses, virtuoses...
O GNT passou um documentário sobre filmes estrangeiros que se passavam ou se referiam ao Brasil. Assisti assim meio começado, com algum desinteresse de início e depois o sangue começou a ferver. Foi feito por brasileiros, que entrevistaram atores e diretores franceses e americanos, perguntando o que [diabos!] eles tavam pensando quando fizeram os filmes. Aí intercalavam com aquelas perguntinhas básicas pras pessoas na rua, tipo onde fica a Amazônia, e o povo, se fazendo de esperto, "no sul do Brasil". Até que não é tão ruim, quer dizer, sul e norte ainda são Brasil. Se alguém me perguntar onde fica, sei lá, Yellowstone, vou responder que é onde mora o Zé Colmeia e ponto final. Mas também eu não vou fazer um filme sobre isso.
Acho que o que me incomoda nem é a ignorância das pessoas, porque aqui ainda impera alguma razão e eu não sou nada além de um ser muito do ignorante. Sempre aperta um pouco a nossa auto-estima perceber que o mundo sabe tão pouco sobre a gente, mas a gente também sabe tão pouco sobre a gente que é covardia cobrar dos outros coisas que nem nós não fazemos.
Mas as viagens, meu deus! Nem é questão de não saber, mas de saber errado. A velha história do falarmos espanhol, da mulherada andar com penas nos cabelos, todas sempre gostosas semi-nuas. Retratar o exótico. Mas pera lá, eu sou brasileira e branquela. Não exatamente - ou nada - exótica, obviamente, e é só isso que os caras queriam. Ou até, quando havia uma boa vontade a mais, parece que nem ela lhes dava uma visão mais apurada.
Fiquei pensando no que exatamente me incomodou naqueles retratos e no que eu faria, se fosse eu a fazê-los. A verdade é que não sei. Ainda tenho, percebo, o velho vício de achar que a nossa cultura está nas danças e músicas e jeitos de falar e histórias que, bem ou mal, não fazem parte da minha vida, paulistana arraigada que sou. Acho que a gente aqui do Sudeste, mesmo se considerando o centro do mundo, se perdeu um tanto na cidade e se tornou meio que universal demais. Aí o pessoal do documentário perguntava se os caras conheciam São Paulo e a maioria dizia que não, ou que não interessava, que o lance mesmo era o Rio de Janeiro, porque São Paulo se parece com toda grande cidade do mundo.
Meio que concordo, meio que não, porque acredito, conscientemente, que a cultura de um povo está em tudo que ele faz no cotidiano. As pessoas não precisam estar fantasiadas com penas e frutas ou pintadas ou usando saia de chita para partilharem da cultura. Que, se alguém me perguntar o que é, eu não sei responder.
Mas e aí, quem somos nós? Somos "Cidade de Deus"? "Tropa de Elite"? "Central do Brasil"? "O homem que copiava"? Nem acho que os objetivos destes filmes eram responder a uma pergunta como a minha, mas será que eles respondem, sem querer? Que "nós" pode haver num país de quê, 180 milhões de pessoas? Eu acho um absurdo as imagens que o povo tem da Amazônia, mas também nunca estive lá pra saber como é. Ainda, não tive tempo ou oportunidade ou qualquer das coisas que nos faz nos mover, mas também há muita coisa pra conhecer.
Eu sinto, sim, falta, acho que já falei sobre isso aqui, de um sentimento de pertencer a um lugar, de ter histórias pessoais a contar sobre ele. De sentir que ele ajudou a formar a pessoa que eu sou, mas sei também que esse é um sentimento romantizado. Quer dizer, o Caymmi, quando cantava que a jangada saiu com Chico Ferreira e Bento, falava de um Chico Ferreira e um Bento de carne e osso, ou eles eram, ao menos em parte, uma criação poética de um músico e poeta, a meu ver, genial? Eu acho que sou muito brasileira, e gosto de ser; acho que me apeguei mais ao Brasil depois de passar um tempinho fora. Gosto, por achar que temos soluções interessantes e modos interessants de lidar com a vida e as pessoas; talvez porque este é o único jeito que conheço e aprendi e talvez todo mundo sinta isso em relação à maneira e ao lugar em que cresceu.
Claro que a contradição aqui impera e me faz sentir saudade de um pertencer que não existe, ao mesmo tempo em que reconheço ser e ter me tornado alguma coisa irremediavelmente ligada a essa terra.
Lembro de ter discussões similares na faculdade e meio chegar a lugar nenhum, enquanto aprendia sobre perguntas que não têm resposta e como o interessante pode ser fazê-las e tentar, de um jeito um tanto desesperançado, respondê-las, já sabendo que é impossível.
Andar e andar e chegar ao mesmo lugar, como naquele episódio da Comédia da Vida Privada que tanto me agradava. O que importa, será, é ir?
Eu não sei, mas fico aqui, indo e falando, sem esperança nem nada, mas ainda aqui. Meio de saco cheio, meio não, mas como diria o Chico, a gente vai levando.
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