Sinto vez em quando uma saudade de um tempo em que eu escrevia sobre coisas que aconteciam. Em qualquer lugar, comigo ou outros, coisas boas ou ruins ou nada disso, observações minhas do que estava ao meu redor.
Acho que, ultimamente, o meu redor foi fechando cada vez mais até não sobrar muito espaço para o que há por fora.
Se eu apertar a vista, pode ser que apareça no horizonte, como num passe de mágica, ou alguma lembrança de coisas que aconteceram e eu escrevi, ou daquelas que eu ainda posso contar. Quase aparece, mas talvez falte aquele dedo que vê e me mostra.
Não sei se algum dia eu vivi mais do que hoje, talvez tenha vivido menos. Não sei quais das coisas importantes que me aconteceram eu relatei, certamente muitas ficaram de fora ou vieram tão bem cifradas que, passado um tempo, um ano ou uma noite, eu já não sei desvendar. Gosto desse não entender, porque sempre há coisas que preferimos esquecer e me acontece de aqui e ali ficar contente com o saco de gato que são minhas memórias. Não lembrar cronologias ou o quê exatamente aconteceu em qual lugar ou quais palavras foram usadas para dizer alguma coisa que não ficou.
Pensava, ontem, na insônia, em alguns destes temas para dizer, mas agora, quando é possível, tenho preguiça.
Uma vez, eu falei pra uma grande amiga que meu problema era ser impulsiva. Ela levantou a maior sombrancelha pra mim, porque o fato é que eu não sou a pessoa mais impusiva do planeta. Nem a segunda; devo estar bem pro final da lista, na verdade. Mas o que eu quis dizer, acho, é que eu tenho, claro, fortes impulsos; fico remoendo na cama coisas que gostaria de dizer, cartas que queria mandar, conversas imaginárias para todos os gostos. Só adquiri o hábito, não sei como, quando, ou por que, de esperar o sol raiar e ver se o impulso permanece. Hábito esse que vai contra a natureza efêmera e avassaladora do impulso, pois não?
Isso e o fato de eu nunca ter perdido, na vida, uma partida de banco imobiliário me fazem desconfiar que há alguma coisa nesse corpo de muito, muito velha.
Não digo o que pensei em dizer e não aconteceu nada. Ou aconteceu, mas tudo se esconde sob um véu.
Amanhã, quem sabe, eu venha retirá-lo.
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