Páginas

sábado, 26 de setembro de 2009

Hermione Magali

Então esta tarde fui num mercado de atacados. Não sei exatamente qual a importância do adjetivo (é um adjetivo, né?), mas deixemo-lo aí.
Entre as gigantescas prateleiras que fazem o sonho de qualquer maníaco, estava eu procurando uns chicletes para matar o vício da sobrinha, que anda deveras grande, e fui pedir ajuda a um funcionário. Muito simpático, achou o chiclete, e eu acho que fui, do meu lado, simpática demais e o cara ficou me olhando meio como se eu fosse louca. Ou estivesse dando mole, sei lá, mas eu só estava mesmo sendo legal.
Aí, na fila, vi uma menininha, talvez uns 8 ou 10 anos, que me fez pensar.
Pra variar, de início ela me irritou: tinha uns cabelos como os da Hermione da minha imaginação, e eu pensei comigo "um dia desses, depois de algumas crises, ela vai perceber que o cabelo dela é inimigo da escova". Ela era bem branquinha, com aquele cabelo castanho meio liso, meio não, que requer um certo cuidado, apesar de não ser particularmente difícil. Só não deve nunca ser escovado a seco, meio como o meu. E ela o tinha preso no topo da cabeça com um grampo ou tique-taque e ele caia armado pelo ombro. Era bem magrinha, a menina; estava de calça jeans e com um moletom amarrado na cintura. Acho que isso foi que me irritou, porque estava um calor dos diabos, o qual me causou uma dor de cabeça dessas que não passam.
Aí ela andava pra lá e pra cá com a mãe, enquanto o pai esperava na fila, tal como eu. Claro que os papéis de cada um dos personagens é estimado, mas acho que faz sentido, né, na sociedade em que vivemos? Papai, mamãe, filhinha?
Enfim, num dado momento, provavelmente quando eu pensei na Hermione, comecei a gostar dela. Ela usava óculos e eu vi que por trás dele tinha uns olhos castanhos, mas não escuros, de um marrom claro, mas não dourado, só bastante bonitos.
Dali a pouco, ela falou alguma coisa para a mãe, que aparentemente concordou, e ela se agachou para procurar naquelas estantezinhas de supermercado um gibi da Turma da Mônica para levar. Pegou primeiro um do Cascão, levantou, olhou de volta e mudou de idéia, enquanto eu pensava "Cascão não, os melhores são a Magali e o Chico Bento!". Ela olhou de novo, ficou ali um tempo, tentando decidir, e saiu depois de mais hesitação com um da Magali seguro com as duas mãos, como se fosse pesado, ou frágil, ou pudesse sair voando a qualquer momento.
Fiquei só me lembrando de como eu gostava dos quadrinhos quando era criança; foi neles, acho, que aprendi a ler. A gente assinava e eu os devorava todos no dia em que chegavam, envoltos num saco de plástico cinza. Muitos anos depois, já pré-adolescente, num prédio em que morei, vi uma vez uma das meninas mais velhas que eu pegando um pacote idêntico na portaria e perguntei toda animada "ah, você gosta da Turma da Mônica??", mas aí a garota assinava uma dessas revistas tipo Carícia, ou sei lá o nome, que era também pequenininha. Lembro disso até hoje, 15 anos e tal anos depois.
Mas eu gostava, sim, da Turma, assinava e lia vorazmente. Fiquei pensando em, daqui a alguns anos, assinar para a Clara e depois me perguntei se, daqui a alguns anos, ainda vai haver revistinhas da Mônica. Se elas existem até hoje, é provável que sim, mas deu como um medo de elas acabarem e as crianças que ainda virão não puderem sentir o mesmo prazer que eu senti com elas. Quase pensei em assinar agora e ir guardando, mas voltei a mim em tempo.
Ainda na fila do mercado, lembrei, confesso, com algum ressentimento, do destino das minhas revistinhas. Uma tia querida também gostava delas; então, quando íamos visitá-la, eu carregava os pacotes acumulados e dava pra ela, que adorava. Sempre me dava uns Almanacões de Férias que eu não comprava porque, convenhamos, não faria sentido. Aliás, essa sempre foi uma frustração minha, porque eu via no Almanacão aqueles milhões de páginas de brincadeiras e desenhos pra pintar e eu gostava mais era das historinhas. E sempre que via um desenho em preto e branco meio que via na minha mente ele todo lindamente colorido, mas meus lápis-de-cor nunca alcançavam as cores da minha imaginação. E eu nunca tinha saco para pintar todos os trocentos desenhos em todos os detalhes, mas ao mesmo tempo queria vê-los coloridos; portanto: frustração.
Depois de ler, minha tia as passava para um primo meu que não era daquelas crianças mais... prestativas. Ele tinha, na casa dele, um armário estufado de revistinhas que não deixava ninguém ler. Provavelmente elas devem ter ido parar no lixo há milênios.
Lembrei disso hoje, no mercado, ao ver a Hermione sair com a Magali.
Lembro disso agora enquanto passa Garden State na televisão eu eu assisto assim meio não assistindo.
Não sei, realmente é um dia atípico porque eu já me peguei mais de uma vez me emocionando quase até as lágrimas com bobagens como Hermiones e Magalis e tempestades. E o que sinto nem é exatamente saudade, é quase a felicidade de receber o pacotinho cinza voltando, ou vê-lo chegar num futuro próximo ou distante, é uma satisfação de uma não-inveja de uma dessas coisas indizíveis que me dá orgulho.
Esta era a história que eu vinha contar. Bobagens, não?

2 comentários:

Deborah disse...

Nadica de bobagem. Que texto delicioso! Esse vai pro Almanaque da Maga. Também tinha uma coleção gigantesca, que foi passada sem a minha permissão para a nova geração da família e aí...Pode imaginar o que aconteceu, né? Aquela montanha de revistas "velhas" um dia foi para o lixo. Meu apego e meu saudosismo não deixam eu gostar da versão atual. Já viu a Mônica jovem? Muito estranho. Xero!

M. disse...

Mas sabe que eu até gosto da idéia de passá-las aos mais novos? Porque a gente nunca ia voltar pra ler tudo, então que legal que outros podem aproveitar um pouco, também. Só acho sacanagem os novos donos jogarem fora e não passarem eles também pra frente. Sei lá, por que não guardar pras crianças que virão, doar pruma brinquedoteca, pra uma escola? Lixo eu acho tão cruel...
Eu nunca mais peguei uma pra ler, a não ser no dentista, e até então gosto. Acho que a atração que sentimos hoje é diferente, né? Porque é de saudade, não de descoberta. Mas eu gostaria, sim, que os pimpolhos de agora pudessem também descobrir uma coisa tão simples e tão bacana, que a nós deu tanto prazer e fez muito bem. Eu credito à Mônica meu gosto pela leitura e, pra mim, isso não é pouca coisa. Eu aqui acho que espero ainda alguns anos - já não muitos - e como tia coruja acho que dou esse presente pra Clara.
Aí aproveito e leio também!
Bjos.