Páginas

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Panegírico

A gente não tem um momento - ou vários - na vida em que se pergunta como nos tornamos o que somos? E mais do que isso, quando pensamos nas alternativas, nos caminhos deixados de lado, e como seria nossa vida se fossem essas as trilhas que tivéssemos escolhido seguir? E quanto disso será nossa escolha ou alguma outra coisa, talento, dom, que ninguém sabe o que é?
Eu partilho dessa fascinação tão vulgar de me apaixonar por uma coisa - qualquer coisa - bem feita. Não consigo pensar em nada mais sedutor do que isso: ver uma pessoa fazer algo que ela faz bem.
Mas não há também uma beleza emocionante no tentar?
Hoje tive a oportunidade de apreciar ambos. Erros e acertos e, confesso, o primeiro me emocionou mais. Às lágrimas, se eu as vertesse em público. Isso de dar a cara a bater realmente é forte. Porque fazer o que a gente sabe fazer bem é, ou parece, fácil; mas se dispôr a encarar a própria imperfeição e mediocridade tem um quê de soberbo. E é mais real, acho.
Só que, depois do contato com o concreto, fiquei pensando numa outra coisa.
Eu sou historiadora. Sempre acho um saco dizer isso, normalmente respondo aos questionários automáticos de secretárias de médicos ou afins que sou estudante. Nem por nada, mas não gosto da palavra, "historiadora", acho dura, falta aí um molejo, uma ginga. Prefiro "historienne", mas Brasil, português, etc.
Gosto do que faço, às vezes, acho um trabalho interessante e relevante, e eu o escolhi... não sei precisar o porquê. Por uma paixão, talvez, pela sabedoria que nunca vou ter. Avidez por conhecimento, ou coisa que o valha.
Não foi, afirmo com certeza, pela beleza.
Apesar de acreditar que há, nele, alguma, ela é diferente daquela que a gente vê por aí, no que se chama de arte. Porque, na arte, ela é isso e pronto. Na dança e na música, é isso.
Centro e fim.
Nem me pergunto, nem questiono, simplesmente paro extasiada diante de pessoas que escolheram a beleza. Fazer disso a vida e dar de presente para os outros. Porque é, certamente, dos outros. Dos que assistem quase às lágrimas, aplaudem, prendem o fôlego ou perdem a respiração. Dos que ficam ali sentindo os olhos e ouvidos presos, imaginando como seria.
Para mim, ao menos, vendo os corpos e mãos e sons e pés se movendo, encantando, não tenho tanta vontade de ser a pessoa que faz aquilo, mas aquilo que ela faz. Ser música e dança e sintonia. Que quem faz, também, não tem nem guarda em si, mas é como um canal ou ponte ou instrumento para mostrar aquilo que é tão efêmero e que pode ser simplificadamente nomeado de beleza.
E agradeço por aqueles que a escolheram.

Nenhum comentário: