Eu tenho aqui alguns medos que me acompanham, alguns o tempo todo, outros em turnos.
Não tenho, por exemplo, de barata; mas tenho aquele nojo gigante que me faz sair gritando quando vejo uma. Sempre achei que isso devia ser esclarecido, a diferença, apesar de pensar que a maioria das pessoas concordaria comigo. Quer dizer, elas são nojentas, mas não vão te picar, arrancar pedaço, nem nada. Essas são coisas que me assustam.
Tenho, algum, de dirigir, mas esse me faz ficar mais atenta; compensa a distração crônica. Algum também de avião, apesar de ele ter diminuído pacas, ultimamente.
Falei, há pouco, do de livros e filmes de terror, que me fazem andar nas pontas dos pés e olhando para os lados, acendendo todas as luzes da casa durante a noite, e mantê-las acesas no quarto, enquanto tento dormir, imaginando uma pessoa na porta do quarto com uma faca na mão. E o robe da Agatha Christie.
De assalto. De dar aula. De ralar o dedo no ralador de queijo. De esquecer compromissos. De perder arquivos. De, um dia, esquecer de colocar calças ou saia antes de sair de casa e não ser um sonho.
Tem também aqueles mais íntimos, dos quais a gente não fala: de perder, de falhar, de ser mal entendida, não ser amada, nem sequer gostada, de desperdiçar, do medo, de ganhar, da morte, da vida. Medo do medo que dá, como diriam Lenine e a moça cujo nome esqueci.
Mas estava eu aqui, pensando no Norte, no sol e na praia e na loucura; ouvindo aqui o mesmo Lenine cantar do Leão e tem uma frase nessa música que me apaixona.
Tem a ver, pra mim, com uma outra frase, um verso do corão usado numa revolta de escravos de 35, que diz "essa noite é de paz até o raiar do dia". Cito livremente, mas lembro ainda de ficar ali, lendo e parando e vendo alguma coisa que eu não identifico nem nomeio, só leio, ouço e paro.
Aí, no meio do sonho que é pra mim, moça tão sem raízes, uma música que fala sobre pertencer, ele chega e canta: na noite dos tambores silenciosos... Sem saber o significado, que obviamente se esconde ali por trás, eu paro e fico. Ouço e paro. Existe aí, nessas palavras agrupadas dessa maneira, alguma coisa extremamente mística. Uma magia, um contrasenso, uma beleza que eu não sei explicar. Sei parar, apenas. E gostar. Mais do que tudo, gosto.
Quero ver, de olhos apertados, ouvir ou não, o barulho e o silêncio dessa noite.
Será?
Há apenas aí um porém: depois ele segue com "sou a calunga revelando o carnaval". Kalunga, penso eu em Bob e os desenhos do mar e do espelho e do atravessar e malungos, irmãos, companheiros, o dia, a noite, a morte, o branco. Penso nisso e mais, certo ou errado, mas não penso, de jeito nenhum, nas bonecas.
Bonecas me aterrorizam. Sou capaz de conviver com as da sobrinha, numas roupas normaizinhas, e me forço a não pensar nelas se somos obrigadas a dividir o mesmo aposento. Principalmente de noite. Pode ser herança da xuxa ou do fofão ou qualquer outra paranóia, mas elas realmente me assustam. De desviar os olhos. Bruno era quem me provocava com isso, querendo me obrigar a olhar para vitrines cheias daqueles plásticos parecidos demais com pessoas. Quanto mais parecidos, pior.
Aí eu também sou um poço de ignorância, desconheço tudo, mas vejo vez em quando na televisão um documentário ou imagem de maracatu e aqueles desfiles de bonecas presas em pauzinhos me dão nos nervos. Peço desculpas se ofendo alguém com a minha aversão, mas não é nada pessoal. Só não curto bonecas. Aí não é que também elas recebem a alcunha lá dos espelhos e águas?
Lenine super quis me sacanear, mas tudo bem.
Amor vence medo, né, não?
Se não, deveria.
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