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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

João e Maria



Ato pró-Haddad nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo



Já há muitos dias pensei em vir aqui falar, mas de fato as palavras têm faltado.

Penso nas perdas que eu, pessoalmente sofri, nas dores que pareceram tão grandes, penso na saudade imensa e a sensação que eu tenho é que o insuportável é agora.

Não vivi, não vivemos, uma coisa assim antes. Todos os meus amigos de braços dados no mesmo barco de tristeza e de incredulidade e de consciência e de dor.

Que dor imensa.

Este vídeo me chegou e jogou numa nova espiral, como tantas que têm acontecido, e de todos os lugares em que estive esse é aquele da flor da pele.

Chico de novo tão atual, tudo de Chico e a gente sem acreditar. Mas, sim, João e Maria, que figuras incríveis, que sorte, que felicidade, que honra poder pedir-lhes socorro e eles virem, como sempre, eles que já viveram uma coisa assim. Há tanta beleza aí, mas o redemoinho as prende e a garganta dói.

Mas olha, veja como somos belos, como somos lindos.

Sempre tive essa sensação de São Paulo, que era esse lugar meio não-lugar, que falta uma ligação com raízes como tem o Nordeste; como se fosse uma mistura de um monte de coisas, que podem ser maravilhosas, mas faltasse ali um sentido qualquer que meus olhos não viam.

Hoje eu ouvi, hoje veio da minha terra esse canto, porque o grito já não basta e só temos tido vontade de gritar.

É hora de começar.


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Da luz e do túnel

Tenho sido há meses torturada por essa galera que canta e escolhe mal.
Tá bom, talvez "torturada" seja uma palavra pesada demais, ainda mais nesse contexto que estamos vivendo em que galera tá achando que tortura ok.
Então tenho me incomodado com a galera do pseudo karaokê. Que, surpresa!, pode ser mesmo meio karaokê!
Enfim, estou eu trabalhando a arte da abstração quando, depois das férias, começo a ouvir uma coisa estranha, muito estranha. Paro, franzo a testa até onde ela vai, provavelmente faço uma careta com a boca (tenho treinado, estranhamente, caretas com a boca, esses dias tava dirigindo e percebi que tava treinando semi-rosnados no retrovisor), duvido de mim mesma, mas estava certa.
Arranjaram uma mulher boa para cantar. E escolher!
Não sei ainda mais nada, não tive o gás de ir lá descobrir a cara e o nome e tudo o mais dela, sei só que em meio à gritaria apareceu uma voz algo grave, dessas tranquilas, tipo talvez Teresa Cristina, que fica ali no seu ótimo lugar e não precisa tentar se esgoelar, e um violão.
Uma voz e violão em meio ao buracão, minha gente!
E ela escolhe bem também, foi de "se quiser fumar eu fumo, se quiser beber eu bebo..." e desde então já fez aquela miscelânea gostosa de tudo que é música brasileira, de Zé Ramalho a Marisa Monte a Cazuza a Alceu Valença e mais um monte de sucesso.
Aí o que achei engraçado é que no meio - ou no fim - tem uns feminejo que não tão podendo faltar nesse Brasilzão, e fico imaginando a conversa dela com o chefe:
Ele: olha, você até pode escolher as músicas que quiser, e pode até escolher bem, mas meu estabelecimento tem sua identidade, não dá pra ficar só tocando música boa, o povo não aceita, não...
Ela: Ah, entendi; você quer dizer que eu posso tocar qualquer coisa, desde que no meio eu coloque uma "dona Maria".
Ele: Isso, pode por uns feminejo ok, mas tem que ter também umas bagaceira braba, você pode alternar a "dona Maria" e a "inquilina".
Ela: Aceito o sacrifício.
E aí pronto, tá feito o acordo com o diabo.
Mas não reclamamos, melhor uma dona Maria do que três.
E assim a vida melhora.
Hoje fiquei na função de preparar coisas e, inspirada pela Maneiras, fui procurar um samba bão pra ouvir e pousei no Paulinho.
Que coisa maravilhosa, o Paulinho. Tava lembrando um documentário que vi dele, com a família e ele na oficina que acho que era do pai e quanta serenidade pra ter uma só pessoa nesse mundo!
E que maravilha é o samba, e como a música brasileira é tão rica e foda que me inventa um negócio desse; e tantas outras coisas. Tava no avião esses dias, procurando alguma santa distração e caí na música do Dorival e "eita, porra!", que música é essa e de onde veio e gostei.
Fui depois descobrir que uma amiga que tinha mandado e eu, é claro, devo ter ouvido, achado ok, pra depois descobrir o descoberto e ficar anos com a música na cabeça e mostrar pra galera toda.
Então vamos lá, arrumar coisas com o Paulinho e esperar o fim-de-semana que vem chegando.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

From behind the wall

Entrei no banheiro em silêncio e nesse meio tempo entre o fora e o dentro veio um "you don't know me, better never get to know me" e a malemolência toda.
Quantas vezes já falei desse disco?
Vieram tantas coisas, na casa da Lô um dia, ou uma noite?, num sofá e ela me desafiando do meu desafeto.
Não sei quando foi, será se foi num tempo turbulento? Estava há pouco sentindo uma dessas angústias que vêm chegando, mas já aprendi que elas passam. Será se esse álbum veio num tempo desses, será que ele trouxe a angústia ou a angústia trouxe ele?
You don't know me.
Tenho a impressão de que já passei por isso algumas vezes, mas, como sempre, acho que todo mundo passa por isso o tempo todo. Isso de chegar num lugar meio sem referências, sem uma âncora ou um porto seguro, chegar assim algo na cara e se construir naquele lugar. Lembro da sensação algo de alívio dessa ignorância, de poder ser qualquer uma das eus que é, de não estar engessada numa eu que também é e foi. Ao mesmo tempo em que não dá pra deixar de ser, como tanto diz o Bernardo. Tão sempre as mesmas coisas.
Esses dias tava lendo um texto de um menino e, meu deus, entrei num vórtex ali, não sei se meu ou dele, e parecia que nunca mais ia sair. Mesmo sugando e parece que passei muito tempo ali, nesse outro lugar, mas não de uma maneira boa. Lembrei de uma vez, nos idos de muitos anos atrás, quando um amigo me disse que meus escritos lhe davam uma sensação estranha, como se ele estivesse dentro da minha cabeça. Na época achei que isso era bom, talvez? Queria dizer que tinha eu ali, ou sei lá.
Mas aí agora não foi uma boa viagem não, porque pareceu que eu estava algo na cabeça dele e não sei se a cabeça é que era doida ou se eu é que não falava a língua. Me perguntei se era disso que o amigo falava. Porque eu passo a vida falando as mesmas coisas, talvez, e sempre falando, e será se isso aqui também é um vórtex?
Que vai girando ao som do desafeto.
Voltei a ele também, eu me lembro, há coisa de um ano, depois de conversar com outro amigo que não se conforma e sempre me provoca dos meus desgostos e eu entrei no avião e tinha meu computador e nele o disco e antes de decolar ainda liguei o bicho e baixei no meu celular e cruzei o país nesse som. Também um período que não sei bem definir, algo de conquista e alívio e apreensão e tensão e um medo, acho.
Estou bem cansada nessa semana que vai acabando, o que tem um lado bom pelo cansaço e descanso e pela sensação de que fiz o que tinha de fazer e me livrar dessa culpa eterna que me atormenta; ainda assim estava ainda ontem sem conseguir dormir, não sei bem por quê. No geral acho que estou bem, com esses barulhos cotidianos que não ensurdecem. Tão misterioso isso que temos cá dentro, será também preciso toda vez saber?
Não pode nós vez em quando deixar lá?
E se eu não conheço, quem dirá you.
Don't know me.
Então tava eu pensando nisso, ponderando no por que deveria.
E que se do lado de cá há confusão, do lado de lá há, acredito, quem ache que porque sim.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Raízes

Minha mãe gostava de Chico Buarque.
Essa é a lembrança que tenho, de ouvir um LP e ter um bloquinho de letras xerocadas cuja origem desconheço, e tinha "todas" as letras do Chico e eu adorava esse bloquinho e não sei por que gostava daquela... não sei o nome, tenho que cantar "você era a mais bonita das cabrochas dessa ala, você era favorita onde eu era mestre-sala, hoje a gente nem se fala, mas o samba continua, suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua: hoje o samba saiu (la la laiá) procurando você, quem te viu, quem te vê"! Ah, chama "quem te viu, quem te vê", não "o samba saiu procurando você".
Eu tava pensando, na verdade pensei várias vezes nos últimos dias, na ferradura. Sinal dos tempos avançados, tava pensando "ferroagem" e pareceu não fazer sentido. Deixa eu perguntar pro Aurélio se exite ferroagem.
Ele disse que não. Mas era mesmo ferradura, pensava eu, sobre mim mesma: eu sou uma pessoa das ferroagens/ferraduras. Acredito que uma coisa quando é muito acaba virando a outra coisa seu oposto. Que quando uma coisa chega no seu máximo, ela salta pro outro lado da ferradura, que é o oposto da coisa.
A moda agora é falar coisa e seu verbo correspondente, "coisar", e também seu sinônimo, o coiso. Será que sempre fomos assim e agora estamos mais; será que nos tornamos assim; será que nos tornamos quem já éramos? Ah, Bernardo Soares, que já me visitou nesta tarde.
Pois bem, como eu sou da ferroagem, gostava tanto dessa música do Chico que hoje mal posso ouvir. Senti aqui um carinho quanto cantarolei há pouco, mas não posso investir mais tempo, ou vem uma coisa ruim, não sei bem o que, do outro lado da ferradura.

Não sei do que meu pai gostava, não tenho essa lembrança de cantar com ele.
Minto, cantávamos "eu fui às touradas de Madri - paralatimbum-bum-bum - e quase não volto mais aqui-i-i, pra ver Peri-i-i, beijar Ceci - paralatimbum-bum-bum". Ele cantava e fazia um gesto com as mãos no paralatimbum, era meio que rodando do lado da cabeça, com o punho cerrado, não sei dizer. Não sei qual a relação do gesto com a música, lembro da cena no carro. Num carro, sei não qual, e já o confundo com outros tempos e lugares. E eu nunca sabia se era primeiro Ceci ou Peri, nem quem seria um ou outro, e vez ou outra (ou sempre) invertia e dizia que tinha vindo beijar Peri e meu pai ria e falava que beijar era Ceci.
Mas olha o tecido tecendo: essa semana tava vendo um programa na tv sobre a copa de... 1950? E alguém, talvez o Celso Unzelte, dizia que essa era a música do Maracanã quando o Brasil jogou com a Espanha. Não sei se vem daí, ou se já havia antes, mas eu já a tinha reencontrado outras vezes, inclusive com uma amiga na faculdade que a tinha como username em alguma dessas plataformas.
Lembro também de uma festa de aniversário com Gonzaga, no apartamento, e acho que misturo com as fotos de nós meninas vestidas de "nordestino", com sandália e chapéu de couro e acho que pijama do meu pai. Acho que a fantasia era de "pai", mesmo, mas essas coisas todas se misturam na memória.
Meu pai gostava e gosta de música clássica e eu gosto com ele.
Pago aqui uma dívida que assumi há alguns meses, quando estava sozinha na sinfônica e eles tocaram, num bis, talvez, as "danças húngaras". Há alguns anos, estava com meu pai na sinfônica, aí eu me lembro, acho, foi num dia do Réquiem do Mozart e todo mundo (todo mundo quem, cara pálida?!) falava que seria muito legal porque a Alsop era soprano e não-sei-que-lá, então ela reger o Réquiem era especial. Acho que foi nesse dia, que ficamos até o fim, como sempre ficamos, e o povo começou a sair correndo, porque tem que correr sempre, e enquanto saíam apressados, em meio ao oceano de aplausos, a orquestra começou a tocar essa música maravilhosa, fantástica, e nos olhamos pensando "nossa, isso é o máximo!" e saímos - depois da orquestra - cantarolando e tentando pensar que diabo de música era. Aí meu pai mandou uma mensagem de voz pra tia dele, que conhecia tudo de música clássica e que ensinou ele a gostar, essa tia-irmã, ele assobiou um pedaço da música e mandou pra ela perguntando se ela sabia qual era. Pouco depois ela responde: são as danças húngaras, do Brahms; tem uma coisa cigana ali no meio de uma melancolia tão profunda e repentina e efêmera.
Sempre o Brahms.
E eu sozinha na sinfônica, gravei um pedaço, quase ela toda, e mandei pra família e me lembrei da minha tia-avó que já foi embora e pensei em escrever mas perdi o que queria dizer no caminho.

Então eu não sei por que, num aniversário de 8 ou 9 anos, um amigo do meu pai tava lá em casa, não sei fazendo o que, não lembro se foi uma festa ou o que, mas ele chegou com um LP embrulhado e eu fiquei tão feliz porque queria muito o disco novo do Chitãozinho e Xororó; aí quando desembrulhei era "o papa é pop" do Engenheiros. Nossa, lembro muito disso, imagino a minha cara; preciso perguntar se alguém lembra desse episódio da minha infância ou se só foi importante pra mim. Imagino que importante só pra mim, mesmo, mas talvez eles achassem engraçada a minha cara.
Então não sei se era uma origem que se achava ali de uma terra na qual nunca vivi, criada no asfalto que fui. Mas também algo na terra, pois sempre visitei os sítios e fazendas dos meus tios e gostava de andar a cavalo e andar pelas florestas e fazer trilhas e tudo o mais.
Ou talvez só de ter crescido nos anos 80 e era assim, na época? Nenhum dos dois, pai ou mãe, gostava de rock nem nada, minha mãe sempre disse que acha barulhento, meu pai não diz nada e de vez em quando ouve umas coisas esquisitas, não sei quais.
Mas acho que minha mãe gostava de sertanejo; devia gostar, não tem como. Acho que ainda gosta de música mais caipira e dos programas que tocam na rádio de Amparo que só sintoniza naquele mesmo rádio velho sem antena, em que eu prendi um clipe, e em nenhum dos outros vários rádios que compramos ao longo dos anos.Eu também gosto dessa rádio e ouço por aquele programinha que esqueci o nome que toca todas as rádios todas; tem um programa de samba imbatível aos finais-de-semana. Preciso ouvir mais.
Mas toca também as italianas e aquelas antigas tipo Francisco Alves, que eu em algum momento achei que era meu parente, porque, ué, pra que ter noção?
Pois sim, deve ter em algum lugar aí esse vínculo com o sertanejo que, pra mim, permanece. Não o universitário, apesar de gostar de uma ou outra e achar muito engraçado ir morar no motel; mas aquele que eu conheci criança ou adolescente. Porque é óbvio que eu continuo a só gostar do que conheço, e gostar mais do que mais conheço.
Não lembro como cheguei aí ao conversar com uma amiga esses dias, e ela dizendo que acha "talismã" bonita e eu "pfff" e ela cantou e eu pensei "eita que pode ser, quando a gente deixa de lado a breguice (o Aurélio também não conhece essa, então inventei de escrever assim) que ficou encrustada nela. Talvez assim, numa versão acústica com a amiga cantando e um arranjo bem clean...".
Porque né, eita povo pra fazer arranjo brega, com violinos e violoncelo e tecladinho e, não sei, saxofone? Gente, um violão, apenas.
O xis da questão, no entanto, é o seguinte: venho sendo atormentada há muito tempo por essa galera que canta aqui do lado. De princípio achei que era legal um lance meio quinta a sábado, mas tenho tido a impressão de que é nonstop. Esses dias tava tão alto que parecia que o cara tava cantando na sala.
E, sejamos francos, eles são meio ruins.
Ou bem ruins, e cantam a porra da dona maria e da inquilina que minha nossinhóra, dá vontade de comer os ouvidos pra não escutar.
Agora tem esse cara, que não sei quem é, que acho que já tocou ali porque... bom, é que uma vez fui fazendo uma lista das músicas que tava tocando e do pout-pourri bem louco que ele tava fazendo e mandei pra umas amigas que talvez tivessem o mesmo gosto duvidoso que eu, uma delas bem do interior do Brasil.
Aí hoje ele tava tocando de novo, acho que é o mesmo, sei lá; e tocou uma música que eu já ouvi (portanto, posso gostar) ele cantando, mas dessa vez não consegui pescar letra o suficiente pra gugár. Por um acaso do destino, tava conversando com uma amiga ninja de reconhecimentos musicais, mas as habilidades dela infelizmente não se estendem a tosquices (se liga, Aurélio, porra!) - ou a essas tosquices (a "piranha" ela conhece bem).
Na maravilha que é o mundo com internet, com o pouquinho que pesquei consegui achar a música, até porque no meio do processo lembrei que daquela outra vez, que fiz a lista e mandei pra amiga, tinha buscado essa mesma música e é do Bruno e Marrone.
Bom, parece que é do Christian e Ralf (sempre assim, né, com o artigo no singular!) e, poxa, nossa, mas a gente gostava muito do Christian e Ralf. Tem uns cds ali (já era cd) que a gente ouvia muito em casa e pronto, tenho ligação afetiva, não posso julgar se é bom o mau.
Mas também o Bruno e Marrone. Lembro da vez em que estávamos na fazenda e a Cláudia levou esse cd e comia rúcula e tinha alergia; e eu gostei tanto que ela me deu e eu pensei "nossa, mas ela só vai me dar, assim?!" e pronto, também ouvimos muito.
Esses tempos, estava com a irmã e a sobrinha acho que pintando coisas e caiu essas músicas de algum jeito ali e eu e a irmã berrando enlouquecidas enquanto a sobrinha adolescia e queria evaporar dali com medo de contágio.
Então eu também gosto de Bruno e Marrone e nunca ouvi o suficiente pra pular pro outro lado da ferradura e passar a odiar.
A conclusão é essa, que nessa belíssima e fresca véspera de feriado ouvi uma música que chama "Bijuteria" e juntas fizemos essa longa e desimportante viagem e eu vim aqui recontá-la.
E paro por aqui, porque o youtube, numa jogada de mestre, já colocou ali na lista o Ednardo e eu sei que já escrevi sobre aqui e acho que está bom de me repetir por ora.