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quarta-feira, 26 de março de 2014

Pintada

Num corredor do supermercado, vi um frasco de talco de alfazema e tive que comprar, porque o cheiro...
Saudades.

Trilhares

Tenho andado mesmo é sem vontade de me explicar. Em busca de silêncio e alguma solidão que não vêm ou são pequenos demais, vez em quando lembrando de uma melodia e ficando satisfeita em cantarolar.
Aí que não sei o que hoje me deu, de vir uma tristeza dessas que não doem demais.
Dessa melancolia que não é de todo ruim e que há tempos não vinha em visita.
Essa saudade do que não foi, ou do que foi e eu esqueci. Mais do que não foi, acho.
Esses tempos encontrei uma amiga das antigas e é mesmo algo assustador perceber o tanto da minha vida que me é estranho. De coisas que vivi e ficaram tão para trás que já quase não fazem sentido. 
Também tem isso, que cada um lembra o que interessa lembrar. De repente eu tenho cá trilhares de outras memórias que para qualquer outra pessoa não têm a menor importância.
E outras tantas que nem a mim importam - ou será que isso não existe?
Um exemplo: lembro de quanto eu tinha uns doze anos, talvez, de gostar de um short roxo que eu usava com uma camiseta cor de rosa e eu adorava. As duas peças usadas até ficarem gastas e eu ainda adorar.
Ou de uma vez que fui à aula com uma saia jeans e uma blusinha laranja e quando fui descer do ônibus quase caí, porque não estava acostumada a usar saia e a não conseguir dar aquele passão para descer do ônibus.
Que importância tem isso? 
Será triste que, de alguma forma, tem mais do que pessoas com quem convivi, vivi, cresci?
Tava assistindo a uma série cuja protagonista é absolutamente egocêntrica e egoísta e insegura e, sinceramente, algo idiota e sei lá. De fora a gente vê que é absurdo, mas alguma coisa aqui se identifica. Algo como quando eu li pela primeira vez Ana Karenina e fiquei pensando: "pô, dá pra entender esse negócio e como essa mulher se sente". Depois, muitos anos depois, fiquei pensando se era isso que o Tolstói queria dizer, dessa diferença entre homens e mulheres e do que eles podem e não podem fazer e sinceramente não faço idéia. Sei é que dá pra entender aquilo ali.
E esse filme que vi há pouco, em que um casal tira o filhinho doente do hospital para ver o mar. E meio que disfarça o menino com um casaco preto com gorro, meio como se fosse ninja ou esse povo que vai invadir sei lá o que todo de preto. Agridoce e eu achei tão bonito e dolorido que nem sei.
Sei que fazia tempo que não batia aqui esse negócio e eu nem estou de tpm. 
Nem estou nada, nem assim tão preocupada, nem assim tão desencanada, nem assim em crise, nem assim em êxtase, estou mesmo só estando e me pergunto se tem alguém por aí fazendo qualquer outra coisa e o que é que se tem para fazer.
E se um dia alguém vai lembrar de tudo ou qualquer coisa que a gente (não) fez.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Covardia

Na República, esperando o ônibus, sou dessas pessoas que puxa conversa com galera que tá no ponto.
Começo a conversar com um casal, mais o cara, mais velho mas não velho, ou sei lá. Porque o ônibus demora demais, porque quebram o ônibus e a gente fica esperando, porque isso aqui mudou muito, antigamente não era assim, e o ônibus é todo ruim porque quando a gente vai ficando velho, a maioria das pessoas tem problema na coluna e nesses ônibus não dá pra ficar confortável e são muito velhos e você sabe quanto ganha um garçom do Planalto?
- Sei não, mas deve ser mais que eu...
- Ah, mas você deve ganhar bem.... o que você faz?
- Estudo.
- O quê?
- História.
- Ah, mas você sabe que as pessoas também não sabem de nada e a gente aprende tudo errado, no livros didáticos. Veja por exemplo o Tratado de Tordesilhas, quando foi assinado?
- ... - por que, né?, não sou enciclopédia e tenho memória péssima pra data e sei lá quando assinaram a porra do tratado. Tipos, Colombo chegou na América ali 1492? Mas e a África? Foi antes ou depois de atravessarem o Cabo da Boa Esperança? Sinceramente, não sei. Acho que foi depois. Pode ter sido antes, ou tipo ao mesmo tempo exatamente.
- 1492. - o santo google diz que é 1494, mas enfin. - E quando descobriram o Brasil?
- Ah, é, os caras já sabiam que tinha alguma coisa aqui.
- E aí nesses livros, na escola, tem um monte de mentira.
Medo.
- Olha, eles inventam um monte sobre a Revolução de 64.
Penso: "você quer dizer golpe, né?". Mas sou covarde e fico quieta.
- Eu era militar na época, tava na escola sei lá de que... - mentira, ele sabe de quê, eu que não registrei - e não foi nada disso...
- Ah, mas pera lá? O senhor quer dizer que não houve tortura? Os caras dizendo que o Herzog se suicidou de joelhos e coisa e tal?
Só cheguei até aí. Nem sei da resposta, porque o ônibus deles meio que chegou, mas meio que passou reto e os deixou no ponto - justiça divina? - e até falamos mais de uma coisa ou outra.
O ponto é que tenho aqui me incomodado com esses silêncios, essa rédea da qual é tão difícil escapar que em dados momentos nos impede de falar a primeira coisa que vem à mente, tipos "você quer dizer golpe, não revolução". E em outros, escapa da nossa boca qualquer coisa que não devia, que não era, quando a rédea solta e "ah, nadar nua?".
Fico pensando que eu talvez siga um curso algo natural, de me tornar relativamente - sempre relativamente - mais tolerante com o passar do tempo, de pensar que o cara que fala de "revolução de 64" é até escroto, mas talvez não absolutamente escroto e sei lá, preciso ser meio grossa? Ou será que não tem conversa, é sair na voadora mesmo e foda-se?
Não que eu seja uma pessoa exatamente delicada e bem educada, porque não sou, mas ainda assim ando pensando demais e nessas escapa a oportunidade e cinco minutos depois é uma eternidade depois e não faz mais sentido.
Solução também não tem, ou não tenho, mas é é ruim demais isso da gente se sentir covarde. Porque não é revolução, independente da escrotice do cara ou da minha bunda-molice.
Mas passou, o momento e o ônibus, e o que resta é isso, o destempo do falar para o vento.

domingo, 2 de março de 2014

Se perder, se achar e tudo aquilo que é viver

Isso de número é só e simplesmente uma balela.
Hoje podia ser 31. Hoje podia ser 2. Hoje podia ser 17. Hoje podia ser 19.
Não interessa o número de hoje.
Interessa é que depois de muito muito tempo, de crises mais ou menos agudas, de desesperos e desapercebidos, despertou aqui essa vontade adormecida de voltar.
De onde, não cabe aqui dizer. De lá e mais além.
Para onde, também é impossível dizer.
Eis que começa 2014 e aqui também é grande a vontade de que termine.
Ai, que não há tempo para nada.
O tempo aqui também já se foi.
Agora é viver.