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sexta-feira, 7 de março de 2014

Covardia

Na República, esperando o ônibus, sou dessas pessoas que puxa conversa com galera que tá no ponto.
Começo a conversar com um casal, mais o cara, mais velho mas não velho, ou sei lá. Porque o ônibus demora demais, porque quebram o ônibus e a gente fica esperando, porque isso aqui mudou muito, antigamente não era assim, e o ônibus é todo ruim porque quando a gente vai ficando velho, a maioria das pessoas tem problema na coluna e nesses ônibus não dá pra ficar confortável e são muito velhos e você sabe quanto ganha um garçom do Planalto?
- Sei não, mas deve ser mais que eu...
- Ah, mas você deve ganhar bem.... o que você faz?
- Estudo.
- O quê?
- História.
- Ah, mas você sabe que as pessoas também não sabem de nada e a gente aprende tudo errado, no livros didáticos. Veja por exemplo o Tratado de Tordesilhas, quando foi assinado?
- ... - por que, né?, não sou enciclopédia e tenho memória péssima pra data e sei lá quando assinaram a porra do tratado. Tipos, Colombo chegou na América ali 1492? Mas e a África? Foi antes ou depois de atravessarem o Cabo da Boa Esperança? Sinceramente, não sei. Acho que foi depois. Pode ter sido antes, ou tipo ao mesmo tempo exatamente.
- 1492. - o santo google diz que é 1494, mas enfin. - E quando descobriram o Brasil?
- Ah, é, os caras já sabiam que tinha alguma coisa aqui.
- E aí nesses livros, na escola, tem um monte de mentira.
Medo.
- Olha, eles inventam um monte sobre a Revolução de 64.
Penso: "você quer dizer golpe, né?". Mas sou covarde e fico quieta.
- Eu era militar na época, tava na escola sei lá de que... - mentira, ele sabe de quê, eu que não registrei - e não foi nada disso...
- Ah, mas pera lá? O senhor quer dizer que não houve tortura? Os caras dizendo que o Herzog se suicidou de joelhos e coisa e tal?
Só cheguei até aí. Nem sei da resposta, porque o ônibus deles meio que chegou, mas meio que passou reto e os deixou no ponto - justiça divina? - e até falamos mais de uma coisa ou outra.
O ponto é que tenho aqui me incomodado com esses silêncios, essa rédea da qual é tão difícil escapar que em dados momentos nos impede de falar a primeira coisa que vem à mente, tipos "você quer dizer golpe, não revolução". E em outros, escapa da nossa boca qualquer coisa que não devia, que não era, quando a rédea solta e "ah, nadar nua?".
Fico pensando que eu talvez siga um curso algo natural, de me tornar relativamente - sempre relativamente - mais tolerante com o passar do tempo, de pensar que o cara que fala de "revolução de 64" é até escroto, mas talvez não absolutamente escroto e sei lá, preciso ser meio grossa? Ou será que não tem conversa, é sair na voadora mesmo e foda-se?
Não que eu seja uma pessoa exatamente delicada e bem educada, porque não sou, mas ainda assim ando pensando demais e nessas escapa a oportunidade e cinco minutos depois é uma eternidade depois e não faz mais sentido.
Solução também não tem, ou não tenho, mas é é ruim demais isso da gente se sentir covarde. Porque não é revolução, independente da escrotice do cara ou da minha bunda-molice.
Mas passou, o momento e o ônibus, e o que resta é isso, o destempo do falar para o vento.

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