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quarta-feira, 30 de junho de 2010

João e Maria

Eu gosto muito de viajar. Das minhas coisas favoritas.
Só que há por aí n modos de viajar, né? Tem aquelas meio por obrigação, tem aquelas meio por amor, mas sem prazer, tem aquelas de amor, de prazer e tem as outras, que podem ser tudo isso, que não tiram a gente do lugar.
As minhas preferidas são aquelas que me levam mais longe, de mim e do meu mundo, e me desafiam a ser e pensar e agir diferente. Essas, mesmo melhores, tiram também parte da graça do ir, que é o voltar.
Gosto de viajar e gosto, talvez mais, de voltar para casa. Menos quando vou longe, porque aí quero ficar.
E a minha casa?
Fiz uma dessas, meio longas, indo a lugares há muito não visitados e que trazem prazer e dor quase na mesma medida. Ou quase trazem, porque sigo, ainda, aqui.
O passado, tão longe e tão perto.
Dei comigo a pensar que deixo, no Errar, um rastro como os farelos de de João e Maria. Deixo pegadas para depois me achar e, quando perdida, é com grande alívio que me encontro. Regozijo-me dos esforços, dos textos meio ruins, de publicá-los ainda assim porque eles levam a mim. E se ninguém mais segue o caminho, se ninguém mais o decifra entre os códigos que insisto em produzir, eu sigo e decifro. E entendo. Quando não sei bem quem sou, posso vir e ver.
Tão sem preço e pleno.
É só que fui e voltei. Não fui, fiquei.
Estou, ainda, a errar.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Morena do mar

Gosto tanto de Caymmi. Lembra-me de minha mãe, nas manhãs de sábado, ouvindo um disco dele em último volume. Há tantos e tantos anos. E eu acordando, tarde como sempre, com as canções de pescador.
E não conhecia a morena do mar. Não sei bem como, ela só cruzou a minha vida agora. Bem, não exatamente agora, há já alguns meses, mas rondou pela porta e só agora decidiu entrar.
Conheci pela Bethânia e vejam que coisa linda essa mulher falando dele e cantando:



Ela não acha um jeito de preencher a gente?
E eu conheço gente, até gosto delas, que não gosta da Bethânia, o que pra mim é uma definição de loucura.
Sim, há já algum tempo que não ando por aqui. Nem tenho andado por lugar algum, na verdade, só essa coisa de fins e começos que tiram a gente um pouco do caminho.
Senti já um pouco de vontade de vir falar sobre isso, naquelas de depois lembrar, mas não sei, às vezes dizer é tão difícil, né?
E os começos e recomeços.
Estive, nos últimos dias, um pouco voltando no tempo. É bom saber que podemos voltar e apesar de poder haver aí também peso e tristeza, não os sinto, agora. Talvez amanhã, hoje não.
Pois, se eu fosse Caymmi e alguém me ouvisse.
"ói eu"

domingo, 20 de junho de 2010

Destino

Eu tive até hoje vinte e sete anos, quatro meses e um dia para estar sozinha.
27, 4, 1.
E ele quis, o destino, que agora, às 18:10 de um domingo, 20 de junho de 2010, no meu quarto verde em São Paulo, cuja luz brilha quente, nesse fim de tarde que foi lindo, ainda que pela janela, cujas luzes explodiram atrás do concreto num tempo seco, em que a temperatura é agradabilíssima, quis o destino que eu, agora, estivesse sozinha.
E a tarefa que tenho a desempenhar é deliciosa, mas dolorida.
Sei por que deliciosa, não entendo bem a dor. Acho que dói porque eu dôo em tudo que faço, em tudo que estou.
Queria eu também explodir em cores e beleza, mas como?
O destino, que está fora das minhas mãos...
Posso te pedir, como ao vento, que me traga... inspiração? Expiração talvez seja o termo mais correto, que eu não preciso de nada pra dentro, preciso de tudo pra fora.
Ainda te espero...

Um samba sobre o infinito

Olha que o som da cuíca me pegou aqui de um jeito que não deixou escapatória.
O ronco triste, triste, falou comigo e eu entendi.
Dizer que a vida é sem jeito não parece o João Grilo?
Mas tem jeito?
Ainda me ressaco de Mahler e Mozart e do dia quente e da noite agradável. Ah, inverno tropical...
Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos.
Vez em quando a gente adia tanto um prazer e espera pelo melhor momento de realizá-lo e não sei. Melhor momento é sempre agora e, apesar de sabê-lo, vivo me esquecendo.
Então espero um pouco mais, perseguindo fervorosamente essa grandeza que talvez tenha tirado folga de domingo.
Vocês aceitariam talvez minha mediocridade?
Eu não sei se aceito e tenho certeza de que vocês não merecem.
Sim, vocês.
Ao trabalho.

terça-feira, 15 de junho de 2010

O jogo

Eita que acordei hoje ao som de cornetas.
E é brega pra caramba isso de comentar da copa, mas ?
Curto assistir em casa, de preferência com mamãe, cujas opiniões e empolgação não me irritam.
Não saí hoje às ruas para ver o ânimo, mas há alguma horas que ouço as cornetas. E depois de quatro anos, dá pra sentir no ar que é dia de jogo.
2006 não me vem tão nitidamente à memória, quase penso que esqueci, até surgirem algumas referências.
Lembro mesmo de 2002, primeiro ano de faculdade e assistir aos jogos com a turma, achando que seríamos amigos para sempre. De voltar pra casa de manhãzinha, de busão, com um amigo que também era exilado pro lado do centro.
Tenho cá minha adoração por essa terra, mas considero meus sentimentos um tanto diferentes do que vejo no mais das pessoas. Minha empolgação, que vai por outros caminhos, pode também cruzar esse e segui-lo, mas depende. Torço e destorço.
Distorço.
Mas faz sol, meu amado sol de inverno, e o clima é muito diferente.

domingo, 13 de junho de 2010

Um fim

Há anos que não escrevo aqui.
Se você olhar no histórico ou na data da última postagem pode pensar que eu enlouqueci - coisa de que não duvido - mas faz, mesmo, anos.
Anos e anos.
Esses dias cheguei em casa cantando e minha irmã soltou um "eita, tá feliz, hein?". Sempre me irrita um pouco essas coisas que ela diz, tipos quando ela saca que eu tô de tpm e joga na minha cara que minha irritação vem daí. Aí a irritação triplica, porque eu nunca na vida admiti nem admito que tenho tpm; que reajo assim ou assado por causa de reles hormônios. Acho sempre que minhas reações, apesar de poderem ser mais explosivas em um período ou noutro, são sempre justificadas.
Nisso da felicidade ela também acertou. Acho que o lance todo de tirar um peso dos ombros e ter uma perspectiva assim numa tacada só ajudam no humor de qualquer um.
Até minha pele que anda medonha uma amiga viu e comentou "ih, esse final de mestrado..." e eu nem tinha me tocado que podia muito ser isso.
Mas então um ciclo vai se fechando, ciclo longo, que durou oficialmente três anos, mas na verdade vem praí de uns quatro ou cinco. E ele não terminou ainda, mas dá pra ver já o fim chegando, se arredondando ou sei lá que forma tem.
Talvez, desde então, eu tenha me esquecido um pouco como fazer isso de escrever. Contar não contando, não contar, contar.
Como eu disse ali embaixo, a gente se acostuma com o silêncio e, por mais que isso seja positivo, também não é legal. Porque o silêncio, pelo menos o meu, não tem memória. E sem memória não dá, né? Sem registro, sem volta? Já entrei em paz com uma das motivações que me levam a, ainda, vir aqui e soltar letras em sequência mais ou menos ordenada. Escrevo para lembrar. Acho esse dos motivos mais justos e belos. Acho de uma legitimidade ímpar me registrar para, depois, me conhecer.
Então esse momento, que não dura apenas essa noite, não podia passar em branco. Sem grande esplendor, nem grande inspiração, com o que eu tenho hoje para aqui deixar, fica o registro de uma felicidade algo tranquila, de saber que pelo menos essa parte do trabalho terminou, relativamente bem, e o caminho segue. Ele sempre segue, mas essa noite vai tranquilo, por hoje não há tempestade, apesar de algo em mim ansiar pelo barulho dos trovões e pelo frio da chuva escorrendo pelo rosto.
Enquanto ela não chega, há quietude e contentamento.
Confesso que é mais do que eu esperava.