Mais uma noite chega ao fim, ou um dia começa, recheada de horas passadas em divagação.
Eita, que mente dispersa, que amor por errar habita esse corpo.
Já pra sair há horas, tendo a cada instante idéias geniais para ficar, fui procurar umas fotos que não estão aqui e me deparei com diversos registros, esquecidos sob nome enigmáticos e que são, de fato, uma viagem no tempo.
Alguns levam a momentos específicos, facilmente identificáveis, outros nem tanto, se escondem nas brumas, outros ainda dizem de tempos e sentimentos que se foram há muito e não voltam nem pra trazer um cheiro, como o de dama-da-noite que invade agora a sala fria.
Talvez minha vida se tornasse mais fácil se eu me desfizesse dos encostos, deixasse o passado para trás e jogasse isso tudo no lixo, ou enterrasse numa caixa, para não serem jamais visitados. Eu, realmente, não sei o que fazer com eles; ficam ali me dizendo de coisas que já não existem e eu olho, não sei o que fazer e deixo estar. Sherlock Holmes não aprovaria; falta espaço para novas informações e lembranças.
Encontrei passagens do Proust que, sendo otimista, não me dizem muito. Tem a do eu que morre, talvez eu cole aqui, durante o dia, mas outras... Como não adianta nada isso, né, de marcar passagens importantes; como se elas fossem eternas, como se não se referissem àquele momento e só ele. Depois a gente volta, lê e fica com aquela cara de interrogação, olhando pro eu que morreu e aguçando o ouvido, mas sem distinguir as palavras que o vulto murmura na distância. Talvez um leve sussurro, mais provavelmente silêncio.
Enquanto isso vou pensando "mando um sorriso, não corro". Mel ronca aqui ao lado, que fico com dó e a deixo dormir cá dentro.
Encontrei uma conversa com um amigo querido que me magoou profundamente. Ele criticava um comportamento meu, mas nunca disse claramente o que exatamente eu fizera que ele julgava errado. Da angústia, ao ler, eu me lembro, mas não sei também o que eu fiz. Ele dizia que não adiantava cavocar; eu pensava então, e penso hoje, que adianta muito. Talvez ali, no dia, ou nas semanas e meses que seguiram, eu não entendesse e alimentasse a mágoa. Mas pode ser que numa noite como essa eu caísse ali de repente e entendesse. Nem a ele, mas a mim, inadequada que fui. Talvez estivesse hoje distante o suficiente para perceber meus equívocos, ou perceber que não foram equívocos, ou concluir que não importa. Fica ali, então, um registro tão parcial de oportunidades perdidas e um marco da distância que seguiu.
Eu dizia há pouco que esse blog tentou nascer diversas vezes, até que veio meio cambaleando, como toda criança que aprende a andar, até se firmar nas pernas e dar os primeiros passos. Tenho ali algumas das tentativas e, olhando retrospectivamente, não eram tão más como eu me lembrava. Sempre é um consolo, saber que não fomos tão ruins como acreditamos. Mas eu sou mesmo muito mal acostumada, e mimada, e gosto de estar certa e receber somente elogios.
Ai, um amor no Recife. Amor do Recife.
Podia ainda cavar mais fundo, que sempre tem um esqueletinho no armário querendo me chamar pra dançar. Mas está, afinal, tarde demais.
Se um dia eu conseguir parar de ouvir essa música, é possivel que eu durma.
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