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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Minha neblina

Sinto um aperto desconhecido no peito, que se parece desconfortavelmente com medo. Tenho essa coisa, entre tantas outras, de sentir medo das coisas que, acredito, a maioria das pessoas não teme. Ou a maioria das pessoas também partilha isso e, mais uma vez, eu não sou de longe tão diferente como gostaria?
A tentação de correr, no entanto, é grande. Tem que rolar um auto-controle firme e uma repetição, como mantra, dizendo: calma, paciência, não há nada a temer.
Só a vida, ela toda, responde o aperto.
Semana passada eu fui assaltada, depois de muito tempo. Percebo com clareza a estranheza da construção, indicando que vivemos num mundo em que isso deveria acontecer mais vezes, em que é normal, corriqueiro, cotidiano. É só que não é, ? A maioria das pessoas não é assaltada todos os dias, nem todas as semanas, nem todos os meses. Acontece de vez em quando e há fases negras, mas quando acontece a gente sente esse desamparo, ao mesmo tempo em que o percebe, o desamparo, como totalmente descartável. Bem ou mal, é normal e não tem grande importância; não houve violência além do ato em si. Acho que o cara nem armado tava, mas a gente fica tão condicionado naquela coisa de não resistir, sei lá se é seguir o conselho de quem entende ou o reflexo numa situação de perigo ou se é pura e simples covardia. No entanto, a Shirley se foi e nunca mais voltará, até a chegada de uma nova Shirley. Parece até algo como castigo, pelas enrascadas, leves, em que ela me meteu e pelas outras, mais pesadas, de que consegui escapar.
Vivemos, porém, num mundo violento. Num país violento. Mas dentro da bolha, as luzes são mais rosadas. Também não dá pra viver com medo o tempo todo ou, se dá, não sei o quanto isso é vida. Então a gente esquece que tá o tempo todo em perigo, mais leve, de levarem a Shirley, e os outros que é melhor não explorar. Esquecemos que essa é a imagem do Brasil, ou de São Paulo, ou do mundo contemporâneo e vamos em frente.
Depois eu fiquei pensando nisso da imagem do Brasil. Tanta curiosidade que gera na gente, tão difícil ver um estrangeiro aqui e não tentar absorver com sofreguidão suas impressões sobre essa terra enorme que dizemos ser nossa. Também me angustia a idéia de que parte da sofreguidão vem de um sentimento de inferioridade, principalmente ao mundo dito desenvolvido, com especial ênfase aos colonizadores. Como se eles pudessem nos explicar, nos justificar, como se a opinião deles tivesse mais importância, ou alguma importância; como uma necessidade de afirmação que a gente mesmo não consegue suprir e tem que vir de cima. Desde a minha fatídica experiência com o "colonizador" fiquei encucada com isso. Nem preciso dizer que tenho problemas sérios com o "colonizador", se não por mais nada, pela estreiteza da visão. É limitador demais ser o dominador. Nós aqui de baixo temos de pensar em soluções, de sobreviver, de lidar com a dominação do outro, com o ego do outro, e ainda tratar da nossa vida. Parece-me tão mais rico, com opressão e tudo; ainda fico bolada com a idéia de que esse é um complexo de inferioridade às avessas, mas a mim faz tanto sentido. É concreto, dá pra ver e pegar e sentir.
Resta, no entanto, a sofreguidão, que eu ainda não entendo totalmente.
Egocêntrica que sou, sinto também avidez por descobrir o que o outro vê em mim. O que desse tanto que há e é aqui consegue sair, sob que luzes, que cores, sabores, o que de mim se mostra e o que engana, o que esconde e quanto. Nem sei com que objetivo, além de saber.
E, talvez, sabendo, mude alguma coisa cá dentro, talvez tape um buraco, talvez dê um sentido ao que não tem sentido, ou signifique que nem tudo é solidão. Sei que quero saber e muito. Sofregamente. Ao mesmo tempo, não quero, não preciso e tenho medo.
Não somos, afinal, todos estrangeiros uns aos outros? As pessoas, como as terras, tão difíceis de alcançar? E, num improvável acaso, se alcançadas, que fazer com elas? Como sabê-las e não dominá-las, não dizer que são nossas? Como não destruí-las, a elas e a nós?
Tão difícil, a vida. E perigosa.
Tudo aqui se aperta, de pavor e saudades de Diadorim.

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