Esse ano, ganhei de presente de meu pai uma assinatura para a sinfônica.
Gosto da assinatura porque ela traz consigo esse compromisso, nos obriga a estar ali naqueles dias determinados, e isso deveria ser (ou mesmo é) uma coisa ruim, porque a gente devia ir à sinfônica quando quer ir à sinfônica, mas ao menos no meu caso não é assim que funciona a vida. Quero talvez ir, mas tenho preguiça, esqueço, vou fazer outra coisa, então o compromisso funciona para eu fazer uma coisa que gosto de fazer, mas que não faria, ou não tanto, se fosse deixada ao acaso.
E, esse ano, a abertura foi a nona do Beethoven, que é uma coisa de outro mundo. Desde então tenho sentido vontade de tê-la comigo, para ouvir em fones a qualquer momento.
Por um motivo ou outro, por falta de obrigação, até hoje não fui atrás de baixá-la. E, agora que me lembrei e quis, não encontro uma versão legal e fiquei com vontade de comprar o cd da sinfônica, quando for da próxima vez. E também o do Brahms, gravado comigo na platéia, nos idos de muitos anos atrás.
Mas o Brahms eu tenho em mp3 e fiquei também com vontade de ouvir num ônibus da vida e eu ia pensando que se um dia eu tivesse de ter uma trilha sonora, essa música teria de estar nela. E me lembra tanto o Proust e, ouvindo, tentei pescar na memória o compositor da música de que o Swann tanto gostava e nem precisei ir longe, veio flutuando até mim um sussurro que dizia, leve como o vento, "vinteuil..."
O Proust, da busca do tempo perdido. Ainda essa semana, lendo sobre Machado de Assis, fazia o crítico algum paralelo entre a busca do Proust e alguma coisa do Machado que não entendi bem, mas apontava para a genialidade.
Nisso do gênio, pulei de Machado a Guimarães e ontem me lembrei tanto do Grande Sertão, numa dessas associações meio aleatórias, ouvindo um amigo querido dizer de atravessar o São Francisco e eu tendo um déjà vu, tentando decifrar naonde nessa vida eu cruzei o São Francisco até perceber que não fui eu, foi Diadorim. E Riobaldo. Nem falei nada ali, no momento, apesar de querer falar, mas passou. E eu não disse, como não digo tantas coisas sobre mim, ultimamente, e isso acaba levando as pessoas, de um jeito ou de outro, a me conhecerem menos. E o engraçado é que ainda assim elas me conhecem; mesmo ontem ouvi três pessoas tentando me descrever, coisa de que gosto muito. Mas elas me falavam de alguém que sou hoje e não conhecem o caminho que me trouxe aqui e isso tem algo de extremamente sedutor. Da gente meio que poder ser qualquer coisa e eu não estou interessada em ser muito diferente do que sou, mas me agrada demais a idéia de ser eu diferente.
Acho que tem isso, a vida, e a sinfonia que a gente vai compondo como colocava o Kundera. Kundera que também me visitou, depois de muito tempo, enquanto eu perguntava "muss es sein?" e a resposta infelizmente era "não".
Fato é que minha música já vai avançada e tem traços de Brahms e Vinteuil que são difíceis de explicar. Como conciliar isso do que passou e do que é, eis uma grande questão. E será que tem que conciliar? Será que não é tudo assim mesmo e tudo bem? A vida vai em frente e nem sempre podemos - queremos? - estar na companhia daqueles que cresceram conosco. É só que tem conforto nesse conhecimento profundo, fácil, que o tempo trás às amizades. Como há prazer em estar em branco e mostrar o que se quer; mas a gente nunca tá em branco e mostra tanta coisa, que quer e não quer, e esconde tanto que queria mostrar.
Como escondi Diadorim e Riobaldo cruzando o rio. Eles, que para mim cruzam em silêncio, sem orquestra ao fundo, só a água correndo ao redor e vida acontecendo ao redor.
Terminei já faz um tempo o Grande Sertão. Até escrevi sobre isso, mas deixei por aí, não por aqui. Tive ali uma síncope, ou uma catarse, sei só que sofri de um tanto que não dá pra descrever. Hoje é o melhor livro que já li. Tem tanto nele e em mim, sentimentos e pensamentos que passam e passeiam e eu não organizo mas sei. Do meu jeito torto, sei.
Essa noite, o vento canta. O viajante não chegou ao seu destino.
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