Do meio do caos.
Eu agora.
Tanta coisa para arrumar, embalar agora para desembalar já já e depois arrumar tudo e em seguida desarrumar e embalar e partir. E tudo que quebra e se parte e se renova, tantas despedidas e esperanças.
Assim acordei, hoje. E enquanto tudo paira e nada se assenta, encontro num fundo de gaveta um manuscrito, reconheço minha letra garranchosa, vejo a data. Época em que fui feliz e apreciei e, para o bem ou para o mal, passou e eu sigo ainda hoje tentando recuperar, mas tempo passado é tempo ido.
Pois sigo guardando, procuro uma música de empacotar, toca Nando Reis, que me lembra mar e sol, e eu transcrevo:
"Não sei o que em mim insiste em resistir ao sono.
Aquele cansaço doído e gostoso, a possibilidade de recuperar nem sei o que que volta com as manhãs. Como uma vontade muito grande que tem a realização adiada não para lhe aumentar o valor, mas para aproveitar isso. Do cansaço do justo, das tarefas realizadas, da sensação de dever cumprido. Amanhã não terá isso, talvez. Terá cheiro de dia novo, de livros novos, de chuva e um calor gostoso, mas será amanhã, não sono.
Então depois de muito postergar eu me deito, mas rapidamente me levanto, para adiar, ouvir, dizer.
Conversei esses dias, depois de muito tempo, depois de anos, sobre o Kundera [opa, foi daí que ele ressurgiu!]. Perguntada assim, de chofre, se já li a Insustentável e me surpreendo com á forma como posso ser totalmente desconhecida para alguém.Quer dizer, sem ser o cúmulo do egocentrismo, mas é estranho - apesar de óbvio - pensar no tanto de gente aí fora que não faz a menor idéia de quem eu sou, muito menos do que eu já li.
E isso é tanto o Kundera, né? A referência feita foi sobre essa coisa do apaixonar-se, que torna o mundo lindo/melhor e depois acaba. Eu já acho que guardei do livro - quem sabe da vida - a história da sinfonia. Que a gente vai compondo e se encontra no começo do trabalho alguém para compor junto, fazemos lá a música, mas se não, se seguimos compondo solitariamente e só no meio do caminho encontramos um parceiro de estrada, afinar e harmonizar as músicas já compostas em separado é difícil demais.
Mas, mais que isso, a conversa avançou para as janelas. Metáfora mais que batida, mas ainda muito acurada, do mundo que se abre. Abrir, eis o verbo. O que antes estava fechado, o que antes não existia e se abre, assim nasce, e transforma, e então é tarde, já o antes é que não mais existe, o mundo é outro e pode ser novo.
Eu não saberia responder, nessa madrugada, sobre as minhas janelas. O instinto primeiro é dizer que elas não existem, o que é uma simplificação tremenda, mais do que uma mentira. A verdade é que ao fim e ao cabo, somos nós a janela, não parece? Somos o antigo e o novo, que coexistem e se revezam e podem permanecer em eterno descompasso.
Vez em quando tenho a impressão de que a vida é que nos vive, bem naquelas do "não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar". E a gente se deixa ir e vir, porque não tem como impedir, e quando pode curte o balanço, porque tudo é a viagem, com altos, baixos e ocasionais náuseas. É a brincadeira e o jogo e as janelas somos nós, com todas as possibilidades enterradas e esquecidas, e o tempo que passa, e o medo e a hesitação e a exultação.
Vale só lembrar de não ser Carolina."
São Paulo, 24 de novembro de 2010, 1:53.
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