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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Nova Granada

Quando eu assisti ao acústico do Legião Urbana pela primeira vez, fiquei apaixonada por uma música que então me era desconhecida, tocava bem no final do programa, quando subiam os letreiros, e falava de uma praia e um encontro e eu adorei de um tanto enorme, mas antes da internet (pelo menos eu não estava ainda nela) era bastante impossível para mim persegui-la.
Lembro claramente quando, algum tempo depois, a ouvi pela primeira vez no rádio. Era um dia de manhã, em 1999, eu me arrumava para ir para a escola, estava no segundo colegial, sentada na cama para colocar uma meia e de repente ouvi. Já não sei porque me lembrei disso há pouco tempo e levei outro susto hoje quando, parcialmente mergulhada no XIX, ela de novo chegou até mim, sem querer, numa dessas ondas aleatórias e inexplicáveis que por vezes nos trazem aquilo que queremos.
Fiquei ali, sorrindo bobamente. E depois tocou corsário, do João Bosco. Numa versão de que não gostei, com uma mulher, enquanto eu gosto mesmo é dele. Gosto tanto dessa música, das lembranças e ela associadas, do Calabouço numa noite fria de Minas e creme de abóbora, mas gosto mesmo é dela, toda. Gosto tanto, tanto de "meu coração tropical está coberto de neve, mas ferve em seu cofre gelado e a voz vibra e a mão escreve: mar". Meu coração tropical. Meu coração é tropical, como toda eu. Sempre que eu penso nisso alcanço uma felicidade que vem só daí. Sim, eu sei que já estive aqui, mas qual o problema de voltar? Se eu tivesse de ser alguma coisa, queria era ser isso: tropical.
Fiquei pensando nisso dia desses, quando vi na rua um carro com um adesivo de maçã. Tentando imaginar quem coloca um adesivo de maçã num carro e por quê. O pressuposto (pelo menos o meu) é de que existe uma ligação, uma identificação, sei lá, entre a pessoa e a maçã. E, porra, sério, se você tiver de ser uma coisa, vai ser uma maçã? Se tem de dizer ao mundo algo sobre você, é isso? Tenho consciência de estar completamente na contra-mão do sentido atual do universo, mas se tem uma coisa que não me atrai em absoluto são as etiquetas. Aliás, literalmente; a primeira coisa que faço quando compro uma peça de roupa, qualquer que seja, é arrancar tudo fora. Tipo quando a pessoa compra um carro e a loja cola um adesivo na traseira do dito cujo; fico profundamente irritada. Eu conheço, apesar de não poder afirmar entender, o desejo de demonstrar alguma coisa através dos objetos que se tem, poder, dinheiro, gosto, contatos, exclusividade, sei lá. Só não acredito que funcione, ou melhor, são coisas que não tenho desejo algum de demostrar, não com esses sentidos, e quando as vejo estampadas em algum lugar, não me dizem muita coisa. É uma lógica permeada por valores que não compartilho. Claro que tenho cá meus consumismos, mas não são esses. Não me interessa mostrar ao mundo que tenho esse tênis ou aquele vestido, que custaram uma fortuna. Acho triste, como aquele programa, um globo repórter da vida, que mostrava um rapaz em Cuba que, não podendo comprar o tênis, tatuou no peito o símbolo da nike. Só penso em triste.
Se eu tivesse de ter um adesivo, ou uma tatuagem, ou me definir em poucas palavras, não usaria jamais uma maçã. Ia quebrar demais a cabeça para descobrir o que pode me representar, não só o que eu sou, mas o que gostaria de ser, o que é importante pra mim, e a única coisa em que consigo pensar é em abstratos, o lugar de onde eu vim, o lugar que sou, os lugares que amo. Penso em lugares e não muito mais. Sem preço, sem comércio, sem propriedade, nas coisas que são fora de mim, independentes de mim, que eu não fiz nem ninguém fez, que não me conhecem nem me sabem, mas a que faço questão de pertencer.
Penso em corsário, no coração tropical e na mão que escreve mar.

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