Pois é, também não queria esquecer de outras coisas.
Também sem muito a ver, só achei interessante que tava num supermercado esses tempos, eu e meu pai.
Ok, antes é preciso explicar que meu pai adquiriu a mania, também não sei quando, de andar por aí de chapéu. Comprou lá uns, ganhou outros, e agora só sai na rua de chapéu.
Menos quando ele perde os chapéus - coisa que quem conhece meu pai (e, por herança genética, me conhece) sabe, acontece com uma frequência que varia entre assustadora e cômica. Somos ambos péssimos em achar as coisas, quaisquer coisas, e meu pai tem o aditivo particularmente irritante de sempre achar que alguém escondeu o que ele procurava. E ele consegue ser pior do que eu e, resumindo, meio que nunca sabe onde está nada.
Pois sim, aí fomos viajar juntos e meio de brincadeira coloquei na cabeça (onde mais?!) um dos chapéus dele. O lance todo tem uma baita vantagem: impede os cabelos de esvoaçarem enlouquecidos com o vento da estrada. E eu curto vento na estrada. Aliás, só curto estrada com vento. Mas não gosto do cabelo esvoaçando enlouquecido, nem porque ele embaraça, ou dá nó, mesmo porque bate no rosto e incomoda e atrapalha um pouco a visão.
De brincadeira ou não, pus e mantive o chapéu, até que fomos comprar uns ítens básicos de sobrevivência num mercado e, depois de eu encher a cesta de um monte de coisa que não precisava absolutamente (tenho mesmo um certo problema com mercados, raramente consigo entrar e sair de um rapidamente, sem dar voltas e mais voltas pelos corredores, pensando no que quero/preciso comprar), fomos, naturalmente, para o caixa.
Era uma moça, a operadora de caixa, e enquanto demorava dois séculos para atender a senhora da frente, no maior papo, lançou a mim e ao pai alguns olhares curiosos. Eu meio que me irritando, naquelas ondas bem-educadas e tolerantes que vibram "fala menos e cobra mais, minha filha!", até que ela terminou de atender a mulher e chegou a nossa vez.
Olhou então de novo para a gente: "nossa, vocês são mesmo muito parecidos, sua filha é a sua cara!".
Acabou a antipatia. Engraçado isso como tem gente que consegue, num segundo, conquistar a gente, por um nada, muitas vezes por muito menos do que outras pessoas tentam fazer. Dá pra entender? Quer dizer, acontece com frequencia da gente encontrar por aí um bando de gente que tenta ser simpática, educada, gentil ou o diabo, e meio que gera só implicância. Sei lá, soa falso, ou over, ou nada a ver.
Mas a caixa pareceu mesmo legal e conversadeira. De repente, eu pensei mesmo na hora, ela me ouviu chamando meu pai de "pai" e etc, mas de repente também não.
E o fato é que eu acho que a minha família é toda meio esparsa, quer dizer, eu não pareço com meus pais, nem minha irmã, nem nós duas entre nós. Minha sobrinha é a cara da mãe, mas aí já é outra geração.
Então é engraçado a moça lá dizer isso. Meu pai deu uma risadinha e fez uma cara que faz de vez em quando, quando não fala nada e a gente não sabe o que ele tá pensando. Ele dá uma risadinha e fica olhando, com cara de bonzinho.
Eu respondi - claro que para incompreensão absoluta da moça, que não sabe nada de nada - que ela achava isso porque eu estava usando o chapéu. De vez em quando a gente diz umas coisas totalmente nada a ver, mas que são tão piada interna, que não importa que o resto do mundo não entenda.
Mas aí conversamos praí um ou dois minutos - o tempo de passar as compras e o tempo que a gente tem para contatar as pessoas nesse mundo -, ela perguntando se a gente era de São Paulo, eu dizendo que meu pai é do Ceará mas veio para cá adolescente, ela respondendo que é de Sergipe e já está por aqui há nove anos mas que quer voltar, que não acostuma não e coisa e tal.
Obrigada, tchau, boa tarde, boa sorte, vai com Deus e tudo o mais.
É só que achei graça e inesperado e diferente isso de uma estranha ver uma semelhança que para nós meio que não existe.
E a cara de bonzinho do meu pai, com os olhinhos pequenos, meio parecidos com os da mãe dele, e uma risadinha algo sem jeito, sem mostrar o que está pensando e tão bonzinho.
Ai, que a gente vai esquecendo tudo, nessa vida.
Menos quando escreve. Porque aí passa, que não tem jeito, mas também volta, ainda que diferente.
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