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quinta-feira, 17 de abril de 2008

Estranho mundo

A gente... ok, parei de me esconder nos coletivos.
Hm, coletivos podem ser entendidos como ônibus. Coletividade, então, porque eu de fato não me escondi em um coletivo.
No entanto, é fato que ali, na praça, enquanto a tarde caía e eu finalmente não sentia frio e não tinha que carregar peso, sentada que estava, esperando a carona, sentada num banco de concreto, na rua, de costas para a avenida larga, fui assolada pela impressão de que levaria um tiro na cabeça.
Eu sou mesmo muito louca, não?
Aí eu tive aquela dúvida usual: isso é piração da minha cabeça ou uma intuição gritante que pode salvar a minha vida?
Lembro de quantas vezes, tendo ido dormir muito, muito tarde, acordava às seis da matina e, por não querer ir pra escola, encasquetava que alguma terrível tragédia (isso é pleonasmo?) aconteceria no longo trajeto de uma quadra entre a minha casa e o colégio. Quando minha retórica acordava de bom humor - ou simplesmente a chatice adolescente imperava - eu conseguia convencer a minha mãe a me deixar faltar. Quando não, ia lá eu, pela quadra, e pelo que me lembro nada de terrível aconteceu, exceto uma vez que eu fui assaltada e levaram meu relógio, mas isso era na volta, e não na ida. E todo mundo sabe que a gente não tem tanta preguiça de voltar pra baixo das cobertas quanto de sair debaixo delas, então eu nunca tive intuição de passar a tarde na escola, em vez de voltar pra casa e assistir televisão.
Enfim, o fato é que eu fiquei ali, sentada no banco da praça, com uma vontade louca de escorregar pelo assento até que minha cabeça fosse protegida pelo encosto de concreto. E não foi dessas sensações que dão e passam, ela ficou comigo enquanto eu permaneci ali. Não tive mesmo peito pra ficar deitadona no banco, mas ficava passando a mão pela cabeça o tempo todo, numas de escudo, ver se ajudava alguma coisa.
Aí sabe lá Deus porque eu me lembrei de contar isso agora; acho que eu ia fazer uma ligação com alguma constatação genial sobre a existência, mas se era, me escapou.
Tal como eu, da dita bala.

Um comentário:

Loy disse...

nas noites que ando pelo corredor da minha casa que leva para o quarto do fundo, tenho a impressão de que se não correr algo estranho vai me pegar. E, tenho isso desde que moro aqui, há 18 anos. Certamente é resquício do medo do escuro do corredor, que eu tinha quando eu era criança. Na época, eu sempre corria, ao passar por ali de noite. Sempre me salvava. Mas hoje, é qualquer coisa de ridículo uma mulher feita e até um pouco alta correndo à toa pelo corredor. Então eu ando bem devagar, só porque afinal, no mundo dos adultos está tudo bem...

... mas por vezes me pergunto se o algo terrível não andaria devagar atras de mim, soprando no meu cangote (porque eu sempre tenho arrepios). E eu resisto sempre à vontade de correr. Acho que se em 18 anos ele não me pegou ainda, é porque tem prazer em apenas me fazer duvidar da minha sanidade mental, ponderando se ele existe ou não. Se ele me pegar, quem é que vai brincar com ele? quem é que ele vai torturar?
Assim sendo, convivemos: ele me assombrando sem me pegar e eu fingindo que não quero correr.