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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Violino violão eu

Isso aconteceu antes apenas uma vez.
Na OPESP, ao som de Brahms, acho que foi quando meu pai cantarolou ao meu lado um trechinho da melodia, ao reconhecê-la, e soltou um "ah..." de surpresa e reconhecimento. Engraçado que eu não me dou tão bem assim com meu pai, não nos últimos anos em que ele insiste em me ver como criança e eu insisto em me irritar com ele pelos motivos mais imbecis, mas é fato que a 3a. se tornou para mim "A 3a." por causa do "ah..." do meu pai, que não quer que eu passe vexame.
Essa música ficou na minha mente pra sempre, escrevi sobre ela e tive a melhor resposta que já tive em toda a minha vida, e a associei com o livro que eu lia então, Em busca do tempo perdido, em que há uma melodia que perpassa toda a história, e que me fez achar que eu também tinha uma música que perpassasse a minha história e foi essa, por tanto tempo.
Uma vez, num hotel, calhou de eu ver na televisão a gravação desse concerto e se não me tocou tanto quanto o original é que reproduções não têm esse poder, mas eu saí do chão, saí de mim e eu, quando saio de mim, é com um sofrimento imenso.
Agora, quando eu achei força para deixar para trás uma coisa - ok, coisa não, né, pessoa - que eu queria muito, quis muito, achei que pudesse ter parcialmente, porque é assim que a gente tem as pessoas na vida e eu sei disso, mas eu não pude, agora.
Há uns meses apaixonei no Baden, depois ouvi o Rogério tocar e apaixonei mais, depois vi um filme com o Yamandu Costa tocando Baden e decidi ouvi-lo mais seriamente. Baixei os cds, para ouvir trabalhando, quando não posso com letras, e deixei tocando até ela chegar.
Ela chegou e me arrebatou.
E agora quando talvez eu jogue uma felicidade pelo ralo e a vida me sai dos olhos, ao mesmo tempo que me enche, e eu não sei se sinto alegria ou tristeza, e talvez sinta liberdade, que vai durar alguns minutos até minha cabeça se recuperar do choque, até voltar a pensar e me banhar com flashes imaginários de cenas imaginárias que eu não fui capaz de constatar se são reais, agora eu penso em que música ouvir - e minha decisão foi pela música, porque quando pensei "sim" não conseguia pensar em nada para ouvir, sentia tudo de que gosto maculado, e quanto pensei "não", senti que ainda poderia ouvi-las e elas seriam ainda minhas - ela vem e me toma e eu sou esse violino e esse violão.
Lida, Yamandu Costa.
Ele nunca vai saber disso e é uma mentira, mas é verdade.
Sem resposta.
Violino violão eu.

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