Isso aconteceu antes apenas uma vez.
Na OPESP, ao som de Brahms, acho que foi quando meu pai cantarolou ao meu lado um trechinho da melodia, ao reconhecê-la, e soltou um "ah..." de surpresa e reconhecimento. Engraçado que eu não me dou tão bem assim com meu pai, não nos últimos anos em que ele insiste em me ver como criança e eu insisto em me irritar com ele pelos motivos mais imbecis, mas é fato que a 3a. se tornou para mim "A 3a." por causa do "ah..." do meu pai, que não quer que eu passe vexame.
Essa música ficou na minha mente pra sempre, escrevi sobre ela e tive a melhor resposta que já tive em toda a minha vida, e a associei com o livro que eu lia então, Em busca do tempo perdido, em que há uma melodia que perpassa toda a história, e que me fez achar que eu também tinha uma música que perpassasse a minha história e foi essa, por tanto tempo.
Uma vez, num hotel, calhou de eu ver na televisão a gravação desse concerto e se não me tocou tanto quanto o original é que reproduções não têm esse poder, mas eu saí do chão, saí de mim e eu, quando saio de mim, é com um sofrimento imenso.
Agora, quando eu achei força para deixar para trás uma coisa - ok, coisa não, né, pessoa - que eu queria muito, quis muito, achei que pudesse ter parcialmente, porque é assim que a gente tem as pessoas na vida e eu sei disso, mas eu não pude, agora.
Há uns meses apaixonei no Baden, depois ouvi o Rogério tocar e apaixonei mais, depois vi um filme com o Yamandu Costa tocando Baden e decidi ouvi-lo mais seriamente. Baixei os cds, para ouvir trabalhando, quando não posso com letras, e deixei tocando até ela chegar.
Ela chegou e me arrebatou.
E agora quando talvez eu jogue uma felicidade pelo ralo e a vida me sai dos olhos, ao mesmo tempo que me enche, e eu não sei se sinto alegria ou tristeza, e talvez sinta liberdade, que vai durar alguns minutos até minha cabeça se recuperar do choque, até voltar a pensar e me banhar com flashes imaginários de cenas imaginárias que eu não fui capaz de constatar se são reais, agora eu penso em que música ouvir - e minha decisão foi pela música, porque quando pensei "sim" não conseguia pensar em nada para ouvir, sentia tudo de que gosto maculado, e quanto pensei "não", senti que ainda poderia ouvi-las e elas seriam ainda minhas - ela vem e me toma e eu sou esse violino e esse violão.
Lida, Yamandu Costa.
Ele nunca vai saber disso e é uma mentira, mas é verdade.
Sem resposta.
Violino violão eu.
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