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domingo, 7 de dezembro de 2008

Dos cegos.

Ouvindo Ana Carolina.
Sem associações, sinceramente, somente aquelas da força do hábito, mas essas independem de mim e dos meus sentimentos.
Eu aqui sigo livre, esperando que dure eternamente.
Aí começa "vestido estampado". Não traz um aperto e uma tristeza e um sufoco. Vêm pensamentos, porque eu sou o cúmulo do egocentrismo e tudo que acontece no mundo, ao meu redor ou não, eu pergunto se se refere - ou poderia - a mim.
E eu tô num momento tão over que seria triste, se não fosse livre.
Tudo acabado, assim, tão final e indolorosamente que chega a assustar.
E aí eu me pergunto das coisas que eu nunca saberei, aquilo das impressões alheias sobre tudo que se relaciona a mim. Mágoas ficam pelo caminho, aos montes, como é da vida. Tristezas e penas e chateações, qualquer nome que se dê, como é da vida. Eu da minha parte não sinto vontade nem necessidade nem força para recolher cacos. Eles ficam no chão, aonde pertencem, e eu sigo meu caminho.
Mas hoje, especificamente hoje, eu penso em como as pessoas são escrotas umas com as outras. Vê-las fazendo tantas merdas quase que é desesperador, se não estivesse acabado. E a pior delas é isso da gente nunca nunca conseguir saber exatamente quando somos nós a fazê-las. É tão fácil e simples ver de fora, perceber e diagnosticar, de longe a gente sabe, mas aí quando somos nós dirigindo perdemos a noção.
Talvez o mundo pareça um lugar mais compreensível e menos cruel se a gente for lembrando disso, que tá todo mundo aqui muito perdido tentando ser feliz, o que quer que isso signifique para cada pessoa. E, na tentativa, somos cegos, como escreveu o Saramago, e vamos pisando uns nos outros, às vezes propositadamente e outras simplesmente porque não podemos ver.
Só que isso não muda nada para quem está embaixo, tendo a cabeça ou o coração esmagado. A dor dói à mesma e não há pensamento ou compaixão que alivie. E, desnorteados, é bem possível que ao nos debatermos atinjamos ainda outra cabeça ou coração e assim a coisa vai.
Nós fazemos e não sabemos parar.
Veio a chuva e ficou tudo tão desigual.
Por algum motivo inexplicável, entre o frio e os chuviscos e os dias de oito horas, através da distância e dos silêncios cheios de palavras, eu aqui, no meu quarto azul, rodeada de coisas, sigo tendo uma esperança quase infantil, em mim e - talvez até - nas pessoas. Menos uma ou duas, mas ainda em uma ou duas, porque são também elas crianças. Só que sejam e fiquem do lado de lá.
O daqui está cheio. Por enquanto.

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