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terça-feira, 15 de julho de 2008

Bittersweet

É sempre uma coisa dolorosa a gente perceber o quanto é brega. Mas, ao mesmo tempo, se a gente é, por que não assumir?
Eu sou brega, porque queria dizer o seguinte:
Eu gosto do sol de inverno.
Não sou nada garota de praia, nem verã-curtição, mas esse sol de inverno tem a capacidade de me deixar feliz. Acho que o sol sem o calor insuportável, ou a luz, eu não sei o que é, principalmente quando eu saio de carro e acontece de tocar uma música bacana no rádio.
Tem um tempo eu vi uma entrevista com um psiquiatra italiano radicado (eita, é a primeira vez ever que eu escrevo essa palavra!) no Brasil e ele contava um pouco da infância dele, ele fugiu de casa com tipo 14 anos pra ficar com uma mulher (garota? sei lá!), e contava também que, ainda na Itália, ele tinha essa coisa de às vezes ver uma família pela janela, à noite, e desejar aquilo, aquela cena de conforto e aconchego. Eu falo muito disso, tenho essa sensação principalmente na hora de dormir. Lembro sempre daquele filme com a Michelle Pfeiffer e o George Clooney, que a casa dela é mega fofa e no final a câmera sai pela janela e vai mostrando os outros apartamentos, vazios ou com pessoas ali fazendo sei lá o que elas fazem na vida.
Quando eu tava no Rio, na rua do hotel, dava pra ver num apartamento de primeiro andar uma biblioteca. Aí vem aquela sensação, tão familiar já, de que as pessoas que vivem ali têm uma vida diferente da minha, se sentem mais confortáveis ou qualquer outra coisa e, apesar de saber que isso é uma mentira ou uma ilusão, eu não consigo me impedir de sentir um estranhamento quando deito na minha cama e não é um filme ou uma janela alheia.
Mas quando é inverno e tem sol e eu estou no carro e toca uma música legal - nem precisa ser maravilhosa - eu esqueço um pouco disso tudo e pronto: tá ali um momento... de filme.
Ontem, quando eu estava no carro e com sol e inverno e música, eu me dei conta de que, definitivamente eu sou uma pessoa melancólica. Não que eu já não soubesse disso, ou que ninguém nunca tenha me dito, mas saber é diferente de saber. E, ontem, música, inverno, carro, sol, eu soube e senti, e uma tristeza alegre ou alegria triste, ou uma melancolia, chegou e eu percebi, assim, bittersweet, bom e ruim, e eu soube.
Eu não me lembro de nenhum momento da minha vida em que eu não tive uma tristeza. Angústia e aperto e ansiedade eu passo, não faço a menor questão, apesar de elas estarem constantemente ali ao lado, puxando meu cabelo. Mas ok, essa melancolia eu aceito e abraço, porque ela, de alguma maneira que eu não sei explicar, preenche.
Eu continuo pensando "ah, mas se tal coisa acontecer eu vou ser feliz!" enquanto sei que isso não é verdade, que não vai acontecer nada nem ninguém vai me salvar e que depois não existe e a gente tem que achar um jeito de ser feliz agora, mas saber é diferente de saber.
Exceto quando tem sol, carro, música e inverno.

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